sábado, maio 20, 2017

Um raro ato de lucidez

Em 1998, a França baixou uma lei que reduziu a trinta e cinco horas semanais a jornada de
trabalho.
Trabalhar menos, viver mais: Tomás Morus tinha sonhado isso, em sua Utopia, mas foi
preciso esperar cinco séculos para que enfim uma nação se atrevesse a cometer tamanho ato de
bom-senso.
Afinal das contas, para que servem as máquinas, se não for para reduzir o tempo de
trabalho e ampliar nossos espaços de liberdade? Por que o progresso tecnológico precisa nos
dar desemprego e angústia?
Por uma vez, ao menos, houve um país que se atreveu a desafiar tanto absurdo.

Durou pouco, a lucidez. A lei das trinta e cinco horas morreu dez anos depois.





(Eduardo Galeano em "O Filho dos Dias")

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