quinta-feira, maio 04, 2017

Enquanto a noite durar

Em 1937 morreu, aos vinte e seis anos, Noel Rosa. Esse músico da noite do Rio de Janeiro, que em vida só conheceu a praia por fotografias, escreveu e cantou sambas nos bares da cidade que os canta até hoje. Num desses bares um amigo o encontrou, na noturna hora das dez da manhã. Noel cantarolava uma canção recém-parida. Na mesa havia duas garrafas. Uma de cerveja e outra de cachaça. O amigo sabia que a tuberculose estava matando Noel Rosa. Noel adivinhou a preocupação em seu rosto, e sentiu-se obrigado a dar uma lição sobre as propriedades nutritivas da cerveja. Apontando a garrafa, sentenciou: – Isso aqui alimenta mais que um prato de boa comida. O amigo, não muito convencido, apontou a garrafa de aguardente: – E isso aqui? E Noel explicou: – É que não tem a menor graça comer sem ter uma coisinha para acompanhar.

(Eduardo Galeano em "O Filho dos Dias")


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