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terça-feira, abril 14, 2026

Correio de S.Paulo 24 de Junho de 1936



Anno V — S. Paulo — Quarta-feira, 24 de Junho de 1936 — Num. 1.234

GRITOS E GEMIDOS LÚGUBRES no mystério da noite

De há dias para cá, os moradores das Pérdizes vivem aterrados pelos gritos vindos do Villa Sophia.
Vários homens da ronda noturna foram feridos pelos phantasmas.
A imaginação popular é unânime: apparecem almas penadas vestidas de branco, soltando alaridos e cometendo agressões inexplicáveis.

As autoridades, alertadas pelos moradores, enviaram guardas para o local. A ronda nocturna, entretanto, tem sido infrutífera, visto que os vultos brancos surgem e desaparecem rapidamente, deixando apenas um cheiro estranho e um rastro de pânico.


DOIS TIROS CONTRA O PHANTASMA

Ontem, o chofer Cipriano de tal (nome ilegível), ao passar pela rua (ilegível) em direção ao Villa Sophia, viu diante de si uma figura branca. Pensando tratar-se de um ladrão mascarado, sacou do revólver e desfechou dois tiros.
O vulto, porém, não caiu — limitou-se a erguer os braços e soltou um gemido horrível, esvaindo-se logo em seguida na escuridão.

O caso, confirmado por vários moradores, augmentou a consternação no bairro.


A matéria segue o estilo clássico do sensacionalismo jornalístico dos anos 1930, quando muitos periódicos brasileiros exploravam o sobrenatural como forma de entretenimento, misturando notícias policiais com fantasia popular.

1. Linguagem típica do período

O texto emprega grafia da ortografia anterior a 1943 (“ph”, “apparecem”, “augmentou”, “mystério”, “nocturna”), o que reforça o caráter histórico e o clima gótico-folhetinesco.

2. Estrutura narrativa de folhetim

A notícia é construída como uma história de terror seriada, com:

  • ambientação noturna

  • vultos brancos

  • gritos lúgubres

  • moradores aterrados

  • guardas atacados

É quase um conto fantástico, mas apresentado como fato jornalístico. Típico de jornais que queriam vender mais ao alimentar boatos locais.

3. O “phantasma” invulnerável

O episódio do motorista que atira duas vezes no suposto fantasma — e o ser permanece de pé, apenas soltando gemidos — reforça a sensação de impossibilidade física e, ao mesmo tempo, a teatralidade da narrativa.
Esse tipo de relato circulava muito antes da consolidação do jornalismo profissionalizado.

4. Localização emblemática: Vila (ou Villa) Sophia, Perdizes

Perdizes nos anos 1930 ainda era uma área com muitas chácaras, terrenos vazios e construções isoladas — terreno fértil para lendas urbanas.
A presença do Casino de Villa Sophia, citada no rodapé, sugere que o local tinha reputação conhecida, talvez associada a festas e histórias misteriosas.

5. Função social da matéria

Notícias desse tipo tinham três funções:

  1. Entreter — funcionavam quase como literatura popular.

  2. Propagar boatos — reforçando imaginários coletivos sobre assombrações.

  3. Vender jornal — manchetes sobre “gritos”, “gemidos”, “phantasmas” eram campeãs de venda.

6. Notável diálogo com o cinema de horror da época

Em 1936, o Brasil vivia o impacto cultural dos grandes filmes da Universal (Drácula, Frankenstein, Múmia, Lobisomem).
Este tipo de matéria espelhava o sucesso do horror importado, traduzindo o imaginário sobrenatural para o espaço urbano paulistano.



segunda-feira, abril 13, 2026

Marilayde Costa

A jornalista Marilaide Costa foi a entrevistada do programa Encontros com a Imprensa, da UEM FM, em conversa conduzida pelo jornalista Marcelo Bulgarelli. Na entrevista, ela relembrou sua trajetória profissional, iniciada no interior de São Paulo, e refletiu sobre as transformações do jornalismo ao longo das últimas décadas.
Natural de Assis (SP), Marilaide viveu na cidade até o fim da adolescência. Depois passou um período na capital paulista, quando sua mãe, professora, foi transferida para trabalhar em São Paulo. Pouco tempo depois, a jornalista prestou vestibular e foi aprovada no curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Londrina (UEL), mudando-se sozinha para iniciar a graduação.
A escolha pela profissão veio ainda na juventude, após realizar um teste vocacional que indicava três possibilidades: Direito, Psicologia e Jornalismo. Ela optou pela comunicação e afirma que nunca se arrependeu da decisão, apesar de reconhecer que outras carreiras poderiam ter sido mais rentáveis. “Gosto muito do que faço”, resume.
Durante a formação e no início da carreira, Marilaide teve contato com profissionais experientes, como o jornalista Walter Telli, com quem trabalhou no Jornal de Londrina. A convivência com colegas mais experientes ajudou a consolidar sua prática no jornalismo de redação, embora suas primeiras experiências profissionais tenham sido na área de assessoria de imprensa.
Logo após se formar, ela trabalhou em São Paulo na assessoria de comunicação do instituto de seguridade social da Companhia do Metrô. Ali participou da criação de um jornal voltado aos metroviários, experiência que marcou seu início profissional e também seu primeiro contato com a produção editorial de um veículo impresso.
Em busca de qualidade de vida, a jornalista decidiu passar um período fora do Brasil e morou durante nove meses em Londres, onde estudou inglês. Ao retornar, voltou para Londrina, cidade onde consolidou toda a sua carreira profissional, trabalhando em veículos como Folha de LondrinaJornal de LondrinaO Estado do Paraná e o portal Bonde.
Ao longo de mais de três décadas de atuação, Marilaide exerceu diversas funções nas redações, passando da pauta à edição. Para ela, essa experiência múltipla permitiu compreender melhor as diferentes etapas da produção jornalística. Um dos momentos mais marcantes da carreira foi a cobertura do atentado às Torres Gêmeas, em 2001, quando a redação mobilizou uma edição especial para relatar o impacto do episódio também em Londrina.
A jornalista destaca que a profissão mudou profundamente com a evolução tecnológica. Quando começou, ainda se utilizavam máquinas de escrever e processos gráficos manuais. Hoje, com o jornalismo digital e as redes sociais, a informação circula em velocidade muito maior, o que, segundo ela, muitas vezes torna a apuração mais superficial.
Atualmente, Marilaide também atua no jornalismo voltado ao agronegócio, área em que apresenta o programa Conexão Agro no rádio. Para ela, mesmo em um setor tradicional, é possível desenvolver uma comunicação sensível e comprometida com temas como sustentabilidade e responsabilidade social.
Com 35 anos de carreira, a jornalista afirma que o que ainda a motiva é o dinamismo da profissão. “No jornalismo, nenhum dia é igual ao outro”, afirma. Entre seus projetos futuros está o desejo de escrever um livro, possivelmente contando histórias do início da carreira e da experiência de criar seu primeiro jornal dentro da companhia do metrô de São Paulo. 


Aperte o play e acompanhe essa conversa no Encontros com a Imprensa.

Encontros com a Imprensa” é um programa semanal apresentado por Marcelo Bulgarelli que reúne jornalistas, repórteres, fotógrafos, radialistas, cinegrafistas e colunistas para celebrar suas histórias mais marcantes. O programa vai ao ar todas as sextas-feiras, às 13h, e aos sábados, às 16h, na rádio UEM FM 106,9, no YouTube da UEM TV e no Spotify.


Outros episódios no   Spotify.


Alexandre Gaioto Amarildo LegalAndreia Silva

 Andye Iore -Antonio Carlos Moretti Antonio Roberto de Paula - Brenda Caramaschi

Bruno PerukaClaudio Galetti Claudio Viola -  Creval Sabino

Dayane Barbosa Diniz Neto - Dirceu Herrero • Edilson PereiraEduardo Xavier

Elaine Guarnieri

Edvaldo Magro  Everton Barbosa Gilson Aguiar Ivan Amorim

Juliane GuzzoniKris Schornobay Leonardo FilhoLuiz de Carvalho - Marcos Zanatta - Marilayde Costa --

Messias MendesMilton Ravagnani - Natália Garay

PauloPupimRachel Coelho - Regina Daefiol Ricardo de Jesus Souza, o Salsicha Roberta Pitarelli-

Robson Jardim - Ronaldo Nezo - - Rogério Recco - Rose Leonel -

Sandro Ivanovski Sérgio Mendes e Rose Machado

Solange Riuzim Thaís Santana • Valdete da Graça •

Vanessa Bellei Victor Ramalho -Victor Simião - 

Maria Madalena

 a suposta “cabeça (crânio) de Maria Madalena” venerada na Basilique Saint-Maximin-la-Sainte-Baume — o que se sabe, o que é lenda, e as controvérsias.




🕍 O contexto da basílica e da relíquia

  • A Basilique Saint-Maximin-la-Sainte-Baume fica na região da Provença, França — a cidade de Saint-Maximin-la-Sainte-Baume. É um dos locais de peregrinação cristã ligados à tradição de Maria Madalena.

  • A tradição afirma que os restos mortais de Maria Madalena — incluindo seu crânio — teriam sido trazidos para esse local séculos atrás, e ali viriam a ser preservados como relíquia. Isso explica por que muitas pessoas associam à basílica a “cabeça de Maria Madalena”.

📜 Origens da lenda e razões históricas

  • A história remonta à Idade Média, quando começava a ganhar corpo a veneração de santos e relíquias na cristandade. Havia uma tradição oral e escrita de que Maria Madalena teria passado seus últimos anos em uma gruta na Sainte-Baume (uma montanha próxima), antes de morrer — daí a conexão.

  • Com o tempo, os restos atribuídos a ela teriam sido transferidos para a basílica em Saint-Maximin para melhor proteção e veneração. Essa “translação” de relicários de lugares isolados para igrejas era prática comum na Europa medieval, especialmente com santos padroeiros e figuras veneradas, para facilitar o culto.

  • Por isso, a basílica afirma ter relíquias atribuídas a Maria Madalena, o que atrai fiéis, peregrinos e curiosos — e configura a narrativa de que o “crânio da santa” estaria ali.

✅ Problemas históricos e dúvidas — o que a Academia discute

  • Não há consenso histórico ou científico robusto que comprove que os restos conservados — e especialmente o crânio — realmente pertencem a Maria Madalena. A tradição depende de relatos medievais e lendas, muitas vezes difíceis de verificar.

  • Critérios modernos de arqueologia, antropologia ou genética não foram aplicados — ou pelo menos, não há divulgação de estudos confiáveis que autentiquem os ossos como dela. Ou seja: pertence ao campo da fé, da tradição e da crença, não da certeza histórica.

  • Historicamente, a identificação de restos de figuras bíblicas é extremamente problemática: os séculos intermediários entre a vida da pessoa e a era da preservação, a carência de documentação confiável, e a dificuldade de traçar linhagens e proveniência minimamente verificáveis tornam a atribuição altamente especulativa.

  • Acadêmicos e historiadores geralmente tratam essas relíquias como parte do patrimônio simbólico e religioso — com valor de fé — não como evidência histórica garantida.

💡 Por que o “crânio de Maria Madalena” se mantém como crença

  • Para fiéis e peregrinos, a basílica e a relíquia representam um elo espiritual com a história antiga — um ponto de veneração e devoção. Historicamente, a veneração de relíquias era (e em muitos casos ainda é) um elemento central do culto a santos.

  • A tradição também é parte da cultura local e religiosa da região: gera turismo, identidade comunitária, memória histórica e religiosa.

  • Mesmo sem comprovação científica, a relíquia funciona como símbolo de fé — o que para muitos é mais importante do que a verificação histórica.

domingo, abril 12, 2026

Village Of The Damned (1960) A Aldeia dos Amaldiçoados


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 Village of the Damned (1960) — um dos clássicos mais elegantes e inquietantes do horror britânico.

Dirigido por Wolf Rilla e baseado no romance The Midwich Cuckoos, de John Wyndham, o filme é um dos pilares da ficção científica britânica do pós-guerra. É uma obra de horror silencioso, feita com economia visual, mas enorme força temática.

A sequência inicial, em que toda a vila desmaia simultaneamente, é uma das mais fortes do sci-fi dos anos 60.
Ela cria um mistério cósmico, quase lovecraftiano, sem depender de criaturas explícitas.

O trope da gestação coletiva funciona como alegoria perfeita para ansiedades sociopolíticas do pós-guerra:

  • medo do avanço científico (genética, radiação, experimentação)

  • angústia sobre o futuro das novas gerações

  • sensação de que algo inumano estava “crescendo” dentro da sociedade

É uma metáfora poderosa, ainda que discreta.

Os filhos de Midwich — loiros, uniformizados, com postura rígida — se tornaram ícones do cinema de horror.

Eles representam:

  • a ideia do “invasor perfeito” (porque nasce entre nós)

  • o medo da infância como algo potencialmente monstruoso

  • a uniformização como sinal de desumanização

O olhar brilhante (efeito óptico simples, mas eficiente) cria tensão sem necessidade de violência gráfica.

O filme é geralmente lido como:

  • alegoria sobre guerra fria e o medo do “inimigo interno”;

  • crítica à educação autoritária;

  • reflexão sobre a evolução da espécie (e o que acontece quando o próximo passo nos torna descartáveis).


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Village Of The Damned (1960)


 

sábado, abril 11, 2026

tempo...


Não olhe por muito tempo —
ela observa de volta.
As árvores se inclinam para ouvir,
o vidro começa a respirar.
O que quer que você veja ali,
lembre-se:
foi ele que viu você primeiro.

VIA https://linktr.ee/raelarkpoetry

sexta-feira, abril 10, 2026

Ray Charles Live in Brazil 1963,


 



Comprei num sebo o DVD O Gênio – Ray Charles Live in Brazil 1963, uma das gravações mais preciosas do período clássico do artista — e um documento histórico para a música americana e para a cultura brasileira.  Vamos ver o que a IA diz sobre o documento: 


🎹 O Gênio – Ray Charles Live in Brazil (1963)

Análise Crítica do DVD

📀 1. Contexto histórico

A apresentação registrada no DVD faz parte da passagem de Ray Charles pelo Brasil em 1963, período em que ele estava no auge criativo:

A importância do DVD é dupla:

  1. Registro raro de Ray Charles num palco estrangeiro antes de se tornar um ícone global definitivo.

  2. Documento da recepção da música negra estadunidense no Brasil pré-tropicalista, num momento em que shows internacionais eram raríssimos.


🎤 2. A performance

A apresentação é exuberante — Ray Charles está:

  • confiante,

  • tecnicamente em seu auge,

  • com voz firme e profunda,

  • energia elétrica no piano.

Seu domínio rítmico é absoluto — Ray “empurra” a banda para frente, conduzindo pelo olhar, pelas pausadas e pelos ataques de teclado.

É o Ray Charles mais clássico:
mistura gospel, jazz e R&B com intensidade transcendental.


🎺 3. A banda

Ele se apresenta com uma formação impecável:

  • seção de sopros afiada,

  • base rítmica sólida,

  • The Raelettes no backing vocal (quando presentes no corte exibido).

A sincronia é impressionante: a banda responde a cada gesto do maestro, criando uma performance que é tanto música quanto “teatro musical improvisado”.


🎼 4. Repertório

Os registros variam conforme a edição, mas normalmente incluem:

  • “What’d I Say” – longa, improvisada, explosiva

  • “Hallelujah I Love Her So” – quente e solta

  • “You Don’t Know Me” – uma das melhores performances vocais do show

  • “Hit the Road, Jack” – interação perfeita com as backing vocals

  • “I Got a Woman” – groove impecável

  • Standards de jazz e R&B rearranjados

É uma síntese perfeita da fase dourada de Ray.


🎥 5. Qualidade de imagem e som (avaliação do DVD)

Imagem

  • Filmagem em preto e branco, com marcas da época.

  • Iluminação teatral simples.

  • Enquadramentos muitas vezes fixos.

  • Alguns trechos apresentam desgaste do rolo original.

Mas, considerando que é um registro de 1963, a recuperação é surpreendentemente boa.

Som

  • O audio é o maior valor do DVD.

  • Limpo, equilibrado, com destaque para piano e voz.

  • Poucos chiados ou saturações.

  • Preserva a textura analógica, quente, orgânica.

É um exemplo raro de registro ao vivo de Ray Charles nesse período com qualidade profissional.


🎞️ 6. Importância cultural

É uma joia porque:

  • mostra um artista negro norte-americano brilhando em um país que estava prestes a entrar na revolução cultural da década seguinte;

  • registra a reação de plateia brasileira à música soul quando ela ainda era uma novidade;

  • captura Ray Charles num momento em que ainda era visto mais como músico de jazz + R&B do que como mito pop.

O DVD funciona tanto como espetáculo musical quanto como relíquia histórica.


7. Avaliação final

O DVD O Gênio – Ray Charles Live in Brazil 1963 é essencial.

✔ registro raríssimo
✔ Ray Charles no auge absoluto
✔ som muito bom para a época
✔ banda encaixadíssima
✔ repertório incrível
✔ documento histórico e musical


quinta-feira, abril 09, 2026

Face stone, Urra Moor, North Yorkshire


 


Essa foto mostra o



Face Stone
, um dos marcos mais curiosos e atmosféricos de Urra Moor, em North Yorkshire — a área mais alta dos North York Moors.



🪨 Um monólito simples, mas carregado de personalidade

O Face Stone é um bloco de pedra arenítica com uma rocha erodida que parece formar um rosto rudimentar, quase sempre descrito como uma “face fantasmagórica” esculpida pelo tempo. Essa característica é o que dá charme à peça: não é uma escultura humana, mas uma ilusão produzida por séculos de vento, chuva e gelo.

Na foto:

  • A textura da pedra está bem marcada, com musgo e desgaste claro.

  • As “sobrancelhas” e a “boca” são sombras e erosões naturais, que criam a ilusão facial.

  • O céu cinzento e a vegetação rasteira ampliam o clima melancólico.


🌾 O cenário isolado de Urra Moor

Urra Moor é um dos trechos mais desolados e bonitos de North Yorkshire:

  • Terreno de landscape aberto, com urzes e charnecas.

  • Estradas de terra e caminhos usados por caminhantes.

  • Uma sensação de isolamento que combina perfeitamente com pedras solitárias como esta.

O clima costumeiramente úmido e ventoso faz parte da estética — a foto captura bem essa atmosfera brumosa.


🕰️ Função provável

O Face Stone é frequentemente interpretado como:

  • antigo marker stone (marco de caminho)

  • parte de rotas tradicionais que atravessam os moors há séculos

  • possivelmente ligado a trilhas de rebanho, limites de propriedades ou caminhos de peregrinação

Não há registro de que tenha sido uma escultura deliberada — seu rosto é fruto de pura erosão.


🎭 Por que fascina tanto?

  • Mistura de natureza e acaso, gerando algo que parece intencional.

  • Evoca a ideia de “rostos na paisagem”, comuns no folclore britânico.

  • Solitário no meio da charneca, transmite uma sensação quase mítica, como um guardião antigo do caminho.



quarta-feira, abril 08, 2026

Luis Buñuel

 Luis Buñuel Portolés (Calanda, 22 de fevereiro de 1900 — Cidade do México, 29 de julho de 1983) 

Texto punlicado na revista Machewte depoisd da morte do cineasta. 

]

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O ÚLTIMO SUSPIRO DE LUIS BUÑUEL, UM DOS GRANDES DIRETORES

Era um anarquista, um marxista, um surrealista e um agnóstico genial

FOI-SE o último do cinema mudo. Ou o penúltimo, se quiserem, considerando que Billy Wilder ainda está em grande atividade. Na sexta-feira passada, Luis Buñuel teve a morte “lenta e esperada”, numa cama de hospital da Cidade do México. Não houve velório e o corpo foi imediatamente cremado no cemitério, conforme a vontade do cineasta. “Eu amo a zoom clandestina e a grau invisível!” costumava dizer El Magnífico, como seu ar de jardinheiro obstinado. O acabamento de seus filmes era desleixado — ou pelo menos circulava esse lugar-comum.

Em 83 anos de vida, Luis Buñuel deixou 30 ou 40 cinema, realizando 33 filmes como diretor e outros quatro como produtor. Seu livro autobiográfico Meu Último Suspiro é um sucesso. Hoje seu primeiro filme, Un Chien Andalou, em 1928, chocava por uma das imagens escabrosas como também pelo primitivismo surrealista. Em 1967, Belle de Jour — seu filme mais comercial — atraiu outras gerações de burgueses; já então como busca do escândalo, só é pouco pelo avesso. Pela falta de desleixo. O desleixo, evidentemente, era um preconceito do público ou dos críticos, que o tempo se incumbiu de dissolver.

Mas havia também uma atitude estética pessoal do diretor espanhol, que, na velhice, trocou o preto e branco pela cor e a “pobreza técnica” pela zoom clandestina e a grau invisível. Há alguns anos, quando a série Cadernos de Cinema da TVE carioca reapresentou O Bruto e eu me referi a esse filme como uma “obra menor de cineasta maior”, o espectador Caetano Veloso houve por bem queixar-se ao jornal O Globo: considerando que o cineasta era maior, não que o filme o fosse.
A Bouteille não valeu — e Caê caiu em si — porque ninguém jamais chamou Buñuel de pobre. Não que eu o preferia à terça parte dos seus filmes como “maiores”.

O próprio cineasta comentou, em 1967, com Le Nouvel Observateur: “O British Film Institute de Londres, para me homenagear, exibe filmes incríveis como O Bruto, que poderia ter sido interessante, mas na verdade é de uma enorme vulgaridade; ou La Ilusión Viaja en Tranvía, que é uma idiotice; ou El Río y la Muerte, uma mediocridade.” Não pensava que esses filmes ainda existissem. Muito menos que ainda estivessem sendo exibidos em toda cinemateca. Certamente, assumo a responsabilidade por eles, porque os fiz. Mas não têm interesse.”

Enfim, mesmo sob as condições mais rígidas de um cinema comercial e vulgar, eu trabalharei sempre de acordo com a minha consciência. Nenhum dos meus filmes contém um detalhe qualquer que contrarie as minhas convicções morais ou políticas. Dentro desses limites, fiz o que me foi proposto fazer.” E muito mais. Seus filmes certamente hoje são um patrimônio do cinema. Buñuel amava o cinema. Na juventude, via às vezes três ou quatro filmes por dia. Adorava Buster Keaton, Ben Turpin, Jean Vigo. O Retrato de Jennie (de Selznick e Dieterle), Fellini (só vi um pedaço de 8 1/2 e quis sair no meio de A Doce Vida, mas, como a sala estava cheia e trancada, acabei vendo — e amando — o filme todo). Polanski, Deus e o Diabo na Terra do Sol.

Em compensação, detestava os neorrealistas (com algumas exceções), Marco Bellocchio, Alfred Hitchcock (que, entretanto, no momento da foto ao lado, se referia a Buñuel como “o melhor de todos nós”). Só uma Colúmbia, a produtora de seu único filme americano, A Adolescente, ele dizia: “Comprei a inteligência para melhorar ou duzi-la a zero.” Jamais perdoou Hollywood pelo meio lançamento desse filme. Por outro lado, jamais teria trabalhado na URSS. Era um velho anarquista e os russos sabiam. Não o convidariam e nem deixariam que ele filmasse lá.

Ainda assim, um dos projetos não realizados de Buñuel era filmar a revolução soviética e a traição do poder subsequente, dos dirigentes pós-Lenin. Outro projeto: filmar a vida do bruxo francês medieval Gilles de Rais. O barba Azul. E o último: um filme sobre o terrorismo nada mais atual, com anotações de Dostoiévski, discutir o papel histórico do niilismo e do totalitarismo (Os Possuídos) e 70 anos depois do Conrad publicar Under Western Eyes. Buñuel lia Marx e Engels, “antes de mais nada”.

ERAM “os fundamentos”.
Também lia Sade — talvez por causa do sadomasoquismo. Depois, os Evangelhos. Freud (que se interessou pessoalmente por Un Chien Andalou). Bréton. Apollinaire. George Meredith e o entomólogo Jean-Henri Fabre. Seu filme mais surrealista, aliás, L’Age d’Or (1930), principiava com um documentário sobre escorpiões. De touradas, apesar de surrealista, Buñuel não gostava. Viu umas 15. Em toda a vida, e sentia medo. Interessavam-no mais os ratos. Teve um camaleão que não lhe saía do ombro. Buñuel achava esse animal extraordinário, com seus olhos divergentes e a língua em forma de flecha.

Ele nasceu em Calandra (província de Teruel), numa rica família abastada da burguesia rural da época. A mãe era devota; o pai, católico por mera tradição, mas liberal e muito exigente. Ele lutou contra os americanos em Cuba, e foi um desastre, um senhorio industrial, acrescentando o tratamento Don a seu nome, o que, na Espanha, é símbolo de importância. A educação de Luis (o primogênito de sete irmãos) foi portanto rígida e austera. Aluno de colégio de padres, ele depois passou para os jesuítas de Saragoça. Basta ver seus filmes para perceber que ficou profundamente marcado por aqueles anos. Só os surrealistas lhe deixaram uma impressão mais funda — e isto bem depois de ele começar a estudar engenharia na Universidade de Madri e acabar formando-se em filosofia, em 1924.

Em seus filmes, Buñuel demolía a moralidade convencional. Sacudia os pilares da burguesia — ou de várias burguesias: a que, nos anos 20, se chocava por ver mulher nua no cinema e a que hoje não passa sem os palavrões nem as audácias envolvendo estátuas e partes íntimas do corpo humano. Mendigos descarregando-se da caridade recebida com uma bacanal sacramental sob asco de Haendel. A família burguesa fazendo reflexões na intimidade do banheiro e as necessidades no público, na sala de jantar. O diabo barbado com o corpo de Silvia Pinal. A freira pecadora ajudando a compor o ménage à trois.

Tristana com a perna amputada e mostrando o corpo ao moleque no cio. Archibaldo de la Cruz interrompendo constantemente as suas tentativas de assassinato. A burguesia de O Charme Discreto interrompida constantemente à mesa do jantar. Os nobres de O Anjo Exterminador querendo sair da mansão e jamais conseguindo, sem nenhuma razão aparente. O corpo atirado no lixo, em Os Esquecidos. Fernando Rey gritando “Viva os vivos!” num cemitério, em Tristana. Os teólogos esgrimindo, em La Voie Lactée. O quixotesco Padre Nazário à sua peregrinação em companhia de uma prostituta. Tudo isto é puro Buñuel.

Em O Alucinado (El), o velho cineasta mostrava melhor o que mais tem nas suas faculdades de psicanálise e terror psicológico. Buñuel, aliás, sempre fascinou pelo choque, a loucura, o psiquismo, o recalque, a inveja e a hipocrisia.

Ao contrário dos cineastas brasileiros — que, segundo Gustavo Dahl, ainda não têm muita coragem de filmar — Buñuel tinha um mestre e com ele dialogava em tandem. Colocava os símbolos místicos católicos em situações de escândalo. E usava métodos dos surrealistas franceses.

Eis o mundo que Buñuel abriu. Uma gimnasta numa posição extravagante e ameaçadora.
Um burguês em companhia do bichinho de estimação.
Tristana de perna amputada, no meio de uma rua como se fosse cheia de normalidade…

José Guilherme Correa — Manchete