“Eu sonho com massacres. / Sou um jardim de agonias negras e vermelhas.”
— Sylvia Plath, de “Três Mulheres”, Árvores de Inverno
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| Sylvia Plath, 1956. |
Aqui está a transcrição do recorte de jornal:
CINEMA / ‘Não matarás’ - Jornal do Brasil sábado, 15/2/92 – pág. 7
SUSANA SCHILD
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| krzysztof kieslowski |
NÃO vá pensar, leitor/espectador, que falta um rolo no meio de Não matarás. Depois de uma longa e tenebrosa seqüência em que acompanhamos, com detalhes, um jovem assassinando um motorista de táxi, nós o vemos conversando neste mesmo táxi com uma moça. Um corte brusco e radical joga o rapaz, na cena seguinte, para uma sala de tribunal, na qual escuta sua condenação à morte. Este corte talvez seja uma boa síntese de como o diretor polonês Krzysztof Kieslowsky trata o quinto mandamento da sua série O decálogo: vai ao que interessa. No caso, a demonstração da equivalência das duas mortes – a primeira, provocada por um rapaz; a segunda, pelo Estado. Para os estômagos fortes e retinas resistentes, Não matarás está em cartaz no Estação Cinema 1.
Vários pontos de contato ligam Não amarás, festejado cult do ano passado, a este Não matarás, ambos realizados em 1988. Além do roteiro escrito por Krzysztof Piesiewicz e da econômica trilha musical de Zbigniew Preisner, os personagens (como todos os outros do decálogo) vivem em um lúgubre conjunto habitacional de Varsóvia em evidente situação opressiva. Barreiras de vidro entre as pessoas são outro ponto de contato entre os dois filmes: lentes, janelas, vitrine quebrada e o balcão do correio em Não amarás, e janelas do carro, bilheteria de cinema e vitrine da confeitaria em Não matarás. Mas, enquanto o voyeurismo do primeiro possibilitava um envolvimento do espectador com a trama, desta vez a relação é de distanciamento e incômodo. Não que Não matarás seja um filme chato, como andam pregando em outras praças. Sua dificuldade está na crueza com que Kieslowsky propõe mais que uma revisão cristã dos mandamentos, uma representação moral, que ele acredita não seja apenas polonesa, mas universal, de um sistema de valores.
A primeira parte de Não matarás se detém sobre três personagens. Depois de um prólogo sinistro, onde vemos um porco morto na lama e um gato enforcado, um rapaz vago pela cidade em um cenário esverdeado e úmido como lodo. Sem rumo, pede para ampliar uma foto de uma primeira comunhão, tenta ir ao cinema (pergunta à bilheteira se o filme é bom, e ela responde "não, é chato"). Mas o rapaz não pode nem pagar para ver, porque o cinema está ocupado por uma reunião. Acompanhamos também um corpulento motorista se preparando para o trabalho, lustrando com carinho o táxi enfeitado com uma sinistra cabeça de boneca, e parando no meio do caminho para dar um sanduíche a um cachorro faminto. E temos também um jovem advogado recém-formado, cheio de ideais sobre a profissão e a Justiça.
O acaso faz com que o rapaz pegue aquele táxi, mate o motorista, seja defendido pelo advogado e acabe condenado pelo Estado – outra seqüência aterradora. Kieslowsky não brinca com a morte, como O exterminador do futuro, Máquinas mortíferas e similares, usinas de mortes oferecidas ao espectador de forma lúdica, sem dar-lhe tempo para piscar. Em Não matarás, a morte é oferecida com detalhes. A agonia é lenta. Em sua passagem de documentarista dos anos 70 para a ficção nos anos 80, Kieslowsky, hoje com 51 anos, não se detém em preleções legais ou psicológicas (no qual escorrega apenas no final, quando o condenado fala de uma irmãzinha que morreu). E nivela este Raskolnikov sem causa e sem destino aos oficiais do Estado que o condenam.
Rivara é um vilarejo de 1.200 habitantes. E o sobrenome Bulgarelli é super concentrado ali entre Modena, Ferrara e Bologna — um dos berços da família. Não é coincidência ter uma rua: em cidades pequenas da Itália, "Via Bulgarelli" geralmente homenageia a família que era dona das terras ali ou algum Bulgarelli ilustre. O mais famoso é o Giacomo Bulgarelli, capitão do Bologna nos anos 60.
É uma rua tranquila, de interior, com 200 metros, casas térreas de telha vermelha, jardim, horta, silos ao fundo. Exatamente o tipo de lugar de onde os Bulgarelli que vieram para o Brasil saíram no final do século 19.
recantos históricos charmosos situados na Inglaterra, conhecidos por sua arquitetura tradicional medieval e georgiana preservada:
Localização: As duas primeiras fotos retratam The Shambles, uma das ruas medievais mais famosas e bem preservadas do mundo, localizada no coração de York, Inglaterra.
A rua datada do século XIV é famosa por suas construções com estruturas de madeira aparente (timber-framed buildings) cujos andares superiores avançam sobre a rua, estreitando o espaço aéreo entre os telhados. Historicamente repleta de açougues (cuja palavra antiga deu origem ao nome shambles), hoje abriga lojinhas artesanais, confeitarias e pubs que remetem diretamente ao imaginário clássico britânico e serviram de grande inspiração estética para cenários como o Beco Diagonal na cultura pop.
A terceira imagem mostra a charmosa Mermaid Street na histórica cidade medieval de Rye, East Sussex, destacando a fachada com a placa da tradicional Jeake's House.
Rye é amplamente considerada uma das vilas litorâneas mais pitorescas da Inglaterra. A ladeira de paralelepípedos (cobblestones) é cercada por casas de madeira centenárias (muitas com nomes próprios históricos), refletindo uma atmosfera intocada do sul inglês que atrai entusiastas de arquitetura e fotografia histórica.
A quarta imagem exibe um típico cenário de vilarejo inglês com uma tradicional casa de chá (The Cobbles Tea Room).
Uma das esculturas mais emblemáticas e peculiares do Parque Sala Keoku (também conhecido como Wat Khaek), localizado na cidade de Nong Khai, na Tailândia.
O parque de esculturas foi fundado em 1978 pelo místico e visionário tailandês Luang Pu Bunleua Sulilat. Ele misturou elementos das filosofias e iconografias do budismo e do hinduísmo para criar estruturas monumentais e surreais espalhadas por uma área verde.
O Simbolismo da Entrada: A escultura em questão é uma imensa cabeça demoníaca ou divindade colossal cuja boca aberta serve como o portal de entrada para o interior de uma estrutura em formato de torre ou templo.
A Experiência Visual e Urbana: A estética lembra estruturas de arte marginal ou arquitetura fantástica, combinando o aspecto intimidador e lúdico ao mesmo tempo. O crescimento de vegetação na parte superior da cabeça dá à escultura uma aparência orgânica e ancestral, como se estivesse sendo engolida pela própria natureza da região fronteiriça com o Laos.
Marcelo Bulgarelli no jornal *O Diário do Norte do Paraná
30 de setembro de 2001.
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# Racismo em Maringá provoca reações
Comunidade negra reage contra a discriminação, promove curso pré-vestibular para negros e mostra que não está desmobilizada
*Marcelo Bulgarelli*
Da equipe de O DIÁRIO*
São "500 anos de encobrimento". Assim a comunidade negra de Maringá resume a questão do racismo no Brasil. O assunto volta à tona devido à 3ª Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância que está sendo realizada em Durban, África do Sul.
A Associação União e Consciência Negra de Maringá e a Assessoria Especial da Comunidade Negra, recém-criada pela atual administração municipal, registram casos declarados de racismo no município nos últimos quatro anos.
Embora hoje a prática de racismo seja crime inafiançável, nos deparamos diariamente com ele de maneira mais ou menos explícita. Se observa que quanto mais dissimulado é o preconceito, maior é a dificuldade de reação e defesa contra esse tipo de crime.
O último deles, registrado pela Associação, aconteceu no dia 19 de maio e resultou num inquérito policial que hoje está tramitando na delegacia do 4º Distrito na Vila Operária. Naquele dia, o operário Luis Cláudio Oliveira cuidava da esposa recém-chegada do hospital após o nascimento do filho do casal de 11 meses.
No final da tarde ela foi comprar um botijão de gás em uma mercearia perto de sua residência. Estava sem dinheiro, mas como receberia o salário na semana seguinte, pediu fiado. O crédito foi negado sob a justificativa de que o sócio do estabelecimento não aceitava esse tipo de condição.
Oliveira foi, então, procurar uma outra mercearia que acabou aceitando a forma de pagamento após ele ter mostrado um comprovante de residência. Dentro de uma hora, o botijão de gás estaria na residência do operário.
O horário chegou às 19 horas. No mesmo momento, já estava em sua residência o proprietário da primeira mercearia, a mesma que lhe tinha negado o crédito. O estabelecimento havia sido assaltado minutos depois de Oliveira ter saído do local e, por isso, o comerciante o acusava de participação no roubo. A justificativa para a desconfiança era de que um dos ladrões também era negro como Oliveira.
O comerciante, além da grave acusação, queria entrar na casa de Oliveira para "conferir" e ameaçou chamar a polícia caso fosse impedido. A esposa do trabalhador passou mal diante da humilhação. Ao perceber que não encontraria objetos furtados na casa, o comerciante se retirou.
LEGISLAÇÃO
O fato chegou ao conhecimento da Assessoria Especial da Comunidade Negra e encaminhado para o advogado Alaor Gregório de Oliveira, presidente do Movimento Consciência Negra. O comerciante foi enquadrado no Código Penal pelos crimes de calúnia e injúria com dolo racial.
De acordo com a Constituição de 1988 o crime de racismo é inafiançável e imprescritível. Mas segundo Alaor, ao invés de ajudar, esses detalhes acabam fazendo com que ninguém seja condenado. "É muito difícil o delegado ou promotor enquadrar a pessoa nesse tipo de crime pois acaba inviabilizando a soltura do acusado". Assim, o que mais se utiliza é o artigo 140 do Código Penal que prevê reclusão de um a três anos para os casos de injúria dolosa.
LIVRO "RACISTA"
O preconceito racial é um assunto espinhoso e até mesmo quem combate a discriminação pode cair em erro na tentativa de ajudar. Um exemplo foi um livro didático, distribuído gratuitamente pelo governo do Paraná com um desastroso capítulo dedicado ao racismo no Brasil. O assunto veio à tona durante um seminário na Câmara Municipal de Maringá, em 97, sobre os povos africanos.
Uma professora chamou a atenção para o livro "Brasil uma história em construção", adotado pela rede pública, escrito por José Rivair Macedo e Mariley Oliveira. Apesar das boas intenções, Macedo não percebeu os transtornos e embaraços que estava causando nas salas de aula na tentativa de mostrar que o racismo existe. Nesse capítulo do livro, ele cita versinhos, provérbios e ditados que recolhidos pelo sociólogo Florestan Fernandes demonstram o preconceito racial. Para o autor os exercícios, Macedo sugere aos alunos para que se lembrem e comentem algum ditado ou expressão preconceituosa. O caso foi parar no Ministério Público e levado ao conhecimento do governador Jaime Lerner.
A repercussão fez com que os responsáveis pela editora e o próprio autor do capítulo procurassem a Associação União e Consciência Negra de Maringá. Macedo pediu desculpas, pensava que apenas estava colaborando para o debate sobre o racismo na sala de aula. Porém ficou sabendo que assim que os alunos liam as piadas e provérbios racistas, as crianças choravam e não queriam ir para a aula devido aos comentários dos colegas baseados nas versas e provérbios transcritos no livro. A publicação foi recolhida e hoje o capítulo foi refeito.
REPERCUSSÃO
Dois outros casos ganharam repercussão nacional em 99. O primeiro envolveu uma funcionária pública de Maringá presa em flagrante na madrugada do dia 16 de fevereiro de 1999 por crime de racismo. Ela foi acusada de ofender e agredir um policial militar negro e um investigador da Polícia Civil, na saída de um baile de Carnaval.
Em abril, o jornal Folha da Cidade, de Sarandi, foi alvo de uma ação impetrada pela Associação União e Consciência Negra. A publicação, além das matérias de praxe, tinha uma coluna de piadas, uma delas de teor racista, comparando uma criança negra a um animal de zoológico.
A Associação entendeu que esse tipo de piada destrói a autoestima da pessoa negra, criando espaço para o que eles chamam de complexo de inferioridade no negro, pondo por terra os esforços que eles lutam contra as manifestações racistas no país. O caso está na promotoria de Sarandi.
Comparações, depreciações e tudo que colabora para o crescimento do preconceito racial é alvo do movimento negro de Maringá e região. Outro caso que acabou terminando em um pedido formal de desculpas envolveu um ex-comodoro de agremiação durante uma palestra proferida por ele no Colégio Estadual Cunha de Vasconcelos na Avenida Luis Teixeira Mendes.
Ao chamar a atenção de alguns alunos que estavam conversando, ele teria citado friamente, "para a infelicidade de uma professora loira do meu lado, uma professora lagartixa ou o meu moreno negro...". Depois da repercussão do fato, um acordo entre as partes fez com que o vice-comodoro fosse pessoalmente ao colégio reconhecer o erro e pedir desculpas na frente dos alunos e professores.
NA MÍDIA
Esses são apenas alguns casos registrados em Maringá. No dia-a-dia, porém, a discriminação está presente nas escolas, clubes e no ambiente de trabalho. São grandes as dificuldades para um negro conseguir emprego. Quando a agência ou empresa percebe a cor do pretendente à vaga, a desculpa é sempre a mesma: "o cargo já foi ocupado".
Mas o combate ao racismo propõe uma política de resistência. É nesse contexto que surge a Assessoria Especial da Comunidade Negra, uma ferramenta poderosa que vai agir nas áreas de políticas públicas, principalmente na áreas de educação, mercado de trabalho e ações voltadas para o combate à discriminação racial.
Há um trabalho também voltado para a valorização dos negros na mídia. "Basta dar uma volta pela cidade e perceber que não há modelos negros nos outdoors", observa Valdeci Gomes de Souza, coordenador da Assessoria.
No ano passado, na época do Dia das Mães, um encarte de um supermercado circulou mostrando apenas crianças junto com mães brancas. O fato revoltou a comunidade negra, pois ela também é consumidora. O supermercado, hoje escolheu uma forma mais segura de lidar com o assunto e em comum acordo o casal negro em destaque.
Essa mobilização em defesa da valorização dos consumidores negros não descarta no futuro, até mesmo uma campanha de boicote às marcas, produtos e empresas que ignorassem o segmento que representa quase metade da população brasileira.
NO PODER
Junto a essa reação, a comunidade negra vem conquistando seus espaços. Maringá, por sinal, tem hoje o primeiro secretário negro em sua história. O agrônomo Élson Borges dos Santos, o Zumbi, secretário municipal de Agricultura e Abastecimento, trabalha na construção de uma identidade em busca a auto-estima para a comunidade negra.
O que se percebe no Brasil, segundo ele, é fruto da política de branqueamento criada pelo sistema, o mito da democracia racial. Isso impediu a criação de políticas públicas para a promoção da comunidade negra. "Desde pequeno o negro aprende a não gostar de si mesmo. Só me livrev desse complexo quando tinha 15 anos e estou pagando preço por isso", revela.
O mecanismo de exclusão elaborado pelo sistema, "é perfeito" segundo ele, pois consegue convencer o negro de que ele tem um espaço no esporte e na música, mas não permite que ele possa estar nas universidades. "Parte dos preconceitos vem dos próprios negros. Os mulatos querem ser brancos".
O processo de exclusão em Maringá não é muito diferente do restante de país, mas há fatos que chamam atenção. O secretário, por exemplo, não causa estranhamento em seus contatos com autoridades europeias ou asiáticas, mas percebe que parte da elite maringaense tem dificuldades para aceitar um negro no primeiro escalão do governo municipal. Borges, aliás, estev recentemente na Espanha em um evento reunindo 40 mil pessoas e foi destaque numa matéria publicada no semanário Triangle, publicado na Catalunha.
O ESTRANHAMENTO"
A elite parece assustada quando percebe um negro no poder com o mesmo status de um branco. Isso não deixa de ser um traço cultural. "Todo dia tenho que matar um leão e provar de que sou capaz por causa da minha cor. Já notei que sou três vezes mais vigiado do que as demais pessoas. Se passo como outro no shopping, a polícia sempre me olha de uma certa vez, de Londrina para Maringá fui parado três vezes", conta Borges.
Esse estranhamento também é percebedido por Alaor, casado há 29 anos com Maria Auxiliadora. O fato de a esposa ser branca chama a atenção das pessoas, mas o casal já se acostumou. "A maior reação, porém, é quando se observa uma mulher negra com um homem branco", conta o advogado.
PRÉ-VESTIBULAR
Um dos principais objetivos da comunidade negra em Maringá é implantar um curso pré-vestibular voltado para os negros. Segundo Valdeci, da Assessoria Especial da Comunidade Negra, já existem 50 inscritos. As aulas serão na Faculdade Estadual Ayrton Plaisant.
O cursinho nasce da necessidade em criar condições para que os negros tenham acesso à universidade. Dados da Universidade Estadual de Maringá mostram que apenas 2% dos formados são descendentes da raça negra.
O cursinho será semelhante ao existente na Universidade de São Paulo, patrocinado pelo Núcleo de Consciência Negra. Naquela instituição, o número de negros não chega a 3% dos 52 mil estudantes. O curso atenderá os estudantes que trabalham durante o dia ou que não conseguem um emprego qualificado mesmo após a conclusão do 2º grau.
AS COTAS
Outra discussão gira em torno do sistema de cotas, semelhante ao existente nos Estados Unidos, para garantir vagas para os negros nas universidades. Alguns acham que a medida poderá aumentar a discriminação. Porém dentro da comunidade negra, o projeto tem recebido adesões.
Até o ano passado, Borges era contra o sistema de cotas. Agora apoia o projeto argumentando que o país único negro a se formar em Agronomia nos últimos vinte anos em sua universidade. "Se não tiver um sistema de compensação, quantos anos vão demorar para que um outro Zumbi se forme novamente?", questiona. "A miséria do negro é um trabalho que o Estado planejou durante todos esses anos".
Vale ressaltar que os negros no Brasil representam 44% da população, não formam uma minoria como outros grupos sociais. As quotas, então, não seriam necessárias se houvesse oportunidades para todos. Com isso não ocorre, a sociedade deve garantir mecanismos de igualdade.
Diferentemente dos Estados Unidos e da África do Sul, onde o racismo existe explicitamente, o Brasil forjou o mito da "democracia racial". É como que nos segredou o negro com a galanteza especial. "Tem, mas o fazem sem identidade, provocando um hiato de indignação e mobilização".
ENSAIO
O escritor norte-americano Anthony W. Marx, autor do livro *Making Race and Nation* (Traduzido: "Construindo Raça e Nações" / Editora Martins Fontes) faz uma comparação histórica dos três modelos de segregação, o brasileiro, o americano e o sul-africano.
Nos Estados Unidos a barreira do Norte e do Sul se reconciliaram após a Guerra Civil. Havia a ideia de nação que excluía e discriminava legalmente a população negra. Algo semelhante ocorreu na África do Sul, ante o confronto de origem holandesa e os de origem britânica, após a Guerra dos Bôeres, no início do século. O resultado foi o apartheid.
Já no Brasil, debaixo do mito da democracia racial, não ocorreu nada semelhante. Nas duas nações americanas e na africana, os negros lutaram pelos direitos civis. Essa mobilização deu à população negra americana uma bandeira de luta, reforçando sua identidade. Os brasileiros, ao evitarem o problema, impediram que os direitos avançassem. Em suma: se não há exclusão legal não se deve ignorar a existência da exclusão social no Brasil.
WALTER SILVA
Do particular para o geral, dizem, está a melhor maneira de comunicação. “Pinte a sua aldeia e você será universal” (Tolstoi).
Essa, talvez, seja a melhor forma para falar sobre o que sei, penso e acho sobre Chico Buarque de Hollanda, que no meu jornal não deixam sair
Naquela época era “anticomercial” tocar bossa-nova em rádio — aliás por isso mesmo fomos afastados do programa radiofônico de maior audiência em todo o Brasil, “O Pick-Up do Picapau”, que era levado pela Rádio Bandeirantes — não nos restava outra
Como os meninos do Centro Acadêmico XI de Agosto já haviam realizado c
Assim, sem nunca ter entrado na coxia de um teatro, lá fomos nós alugar o Paramount para espet
Apoiados na idéia de usar os centros acadêmicos para divulgar e patrocinar os
Ajudavam a gente na elaboração do espetáculo, além dos estudantes e pessoas
Eram os três da mesma idade e transavam m
Um dia, antes d
— Rapaz, você precisa ouv
— Manda o “Carioca” procurar a gente aqui no teatro, dissemos nós.
E já
Devia ter, no máximo, uns 19 anos. Tocava muito mal violã
Além de segurar o bordão com o polegar da mão esquerda, não tinha nada de atraente como ritmista e melodista. Em compensação suas letras eram de uma força inc
Começou a freqüentar a casa da gente como os demais e num curto espaço de tempo já era líder da turma. Todos queriam cantar suas composições.
Não raro aparecia às 10 horas da manhã, com
Cantava, tocava e pouco falava ou discutia.
Marcava sempre sua presença por tiradas de muito humor e inteligência e de imediato sabia-se que estava acima dos demais que com ele começavam.
Tinha uma respos
Entrosava-se muito com Maria Lúcia, que era a mais extrovertida do grupo e que adorava cantar suas músicas
Um dia, num show que levamos na Hebraica, Chico e Maria Lúcia cantaram juntos “Primaver
Já que formavam u
O número saiu lindo e os
A idéia de lançar todas ou o maior número possível de músicas de um só autor dos jo
Durante toda a primeira parte, os amadores só cantaram músicas de Chico Buarque, algumas das quais jamais regravadas, ou
“Malandro quando
O show dessa primeira parte, escrito por nós, chamava-se “Sambairro” e defendia o direito de todos serem
Na segunda part
Chico cantou quatro músicas e seus colegas amadores desfilaram quase todo o repert
“Eu quero ver um dia/numa só canção/o pobre e o rico andando mão e mão/que nada falte, que nada sobre/ o pão do rico/o pão do pobre...”
A platéia, toda feita de jovens que já sabiam do Chico, cantou junto e quase vira carnaval. Ao final do espetáculo, o compositor e psiquiatra Roberto Freire enxugava as lágri
— Menino, algo está começando. Algo está começando...
E estava mesmo.
Começ
No mês seguinte, novembro de 1964, estudantes de um ginásio de Campinas marcaram um show para sua cidade, realizado no Cine Ouro Verde. Seria no dia 23 de dezembro, dois dia
Para participar desse show, os amadores também seriam pagos. Cada um receberi
Os profissionais que participaram do espetáculo de Campinas foram Pedrinho Mattar,
Aproveitou o táxi que nos levaria a Rio Preto e parou na praça de São Carlos, junto com “Barão”, tocando violão, cantando e bebendo tudo.
Chico sempre teve um só compromis
Era de uma independência total e dono de seus atos.
Quem quisesse se enturmar, que se enturmasse com ele, pois ele não se enturmava com ninguém.
Veio o dia em que Chico gravou seu primeiro disco.
A RGE, que cedia todo o seu equipamento de som para os nossos shows no Paramount, resolveu atend
Por muito favor José S
Uma sala diminut
Com o pé sobre a cadeira e tocan
Depois veio o festival da Record e com ele “A Banda”. Nessa ocasião uma importante passag
No dia da apresentação da “Banda”, às 5 da tarde, mais ou menos, Chico assinou contrato de edição de sua música com a Fermata.
Te
Antes desse dia, levamos Chico e César Roldão Vieira, a pedido de Lebendiger, para editar suas músi
Como ambos estavam “duros”, Lebendiger deu a cada um 250 cruzeiros.
Eles, que pensavam que uns 30 estariam muito bem, saíram doidos com tanto dinheiro que acabavam de ganhar como adiantamento de seus futuros direitos.
Também contente, Lebendiger
Foi uma f
Não acreditamos e ainda fomo
Nunca mais nos falamos, até que um dia, ou melhor, numa noite, depois de um show pelo circuito universitário no Tuca, em pleno Restaurant
Era ele que nos cumprimentava e nos abraçava. E am
Acompanhamos suas atuações à distância. Sentimos o quanto ele evoluiu e fez evoluir nossa música popular. O quanto de importante ele representa e represen