NEWSDAY, QUINTA-FEIRA, 1º DE NOVEMBRO DE 1979
Halloween como sempre na Casa de Amityville
Por Bill Mason e Stephen Williams
Amityville — Foi apenas mais um Halloween na “Casa do Horror de Amityville”: curiosos e criaturas fantasiadas, seguranças particulares e crianças pedindo doces, gritos de quem passava e bebidas para os convidados da festa lá dentro.
Apesar da enorme publicidade do ano passado, James e Barbara Cromarty decidiram realizar sua terceira festa anual de Halloween na noite passada, na casa da Ocean Avenue.
Graças à cerca de arame e aos seguranças, os convidados sem convite foram mantidos a uma distância razoável. Ainda assim, houve algumas cenas ocasionais na rua: um homem saiu correndo da casa gritando, depois voltou, entrou novamente e foi embora de carro.
Lá dentro, o clima era festivo. Não havia nenhuma abóbora esculpida ou bruxa de papelão à vista, mas havia muitas bebidas, comidas frias e curiosos entre os 100 ou mais convidados.
A maioria dos convidados conhecia a história da casa de três andares: que Ronald DeFeo assassinou seus pais, dois irmãos e duas irmãs ali em 1974; que, depois, George e Kathleen Lutz compraram a casa em 1975, dizendo ter encontrado espíritos malignos.
O resultado foi um livro best-seller, um filme de grande sucesso e, para a casa, uma reputação que os atuais proprietários consideram mais um passivo do que um ativo.
Embora os Cromarty não morem na casa — ela é confiada ao zelador Frank Burch —, eles voltaram na noite passada para manter uma tradição iniciada três anos atrás “para tirar a mente das pessoas do que estava acontecendo lá fora”, disse Barbara Cromarty.
O que acontecia do lado de fora era uma loucura ocasional: bêbados gritando por Ronald DeFeo, outros estacionando e encarando, algumas invasões e vandalismo. Mas os convidados da noite passada pareciam mais fascinados do que assustados.
“Eu sempre ouvi que, se eu entrasse, sentiria algo estranho”, disse Bill Peters, que estava acompanhando a celebridade local Suzy Chafee, do comercial “Suzy Chapstick”. “Mas não é nada disso… todo mundo é tão simpático e as fantasias são tão criativas.”
Os anfitriões se fantasiaram tanto de dia quanto de noite (a Sra. Cromarty à noite). O tio de Cromarty, o juiz Arthur Cromarty, da Suprema Corte do Estado, se vestiu de juiz. Ele se recusou a comentar o aspecto de horror da casa, mas elogiou as “fantasias maravilhosas”.
Laura Baach, 20 anos, de Massapequa, vestida como Peter Pan, disse: “Nunca foi tão divertido”. Mas como saber se alguém recebeu um convite para a festa do Horror de Amityville e não foi? Ainda assim, admitiu: “É só como qualquer outra festa.”
Do lado de fora, porém, não. A maioria dos jovens ficou longe da cerca, dos seguranças e do famoso porco de olhos vermelhos que supostamente habitava a casa. Antes do pôr do sol, no entanto, duas jovens pedindo doces se aproximaram da casa e receberam M&M’s dos Cromarty.
“Todo mundo por aqui acha que é uma piada”, disse a corajosa Wendy Moore, 14 anos, da 305 Richmond Ave. “Nós não temos medo de entrar lá.”
1. Contexto histórico imediato (1979)
A matéria foi publicada em 1º de novembro de 1979, momento em que o caso Amityville já havia ultrapassado o âmbito policial e se consolidado como fenômeno midiático internacional. O livro The Amityville Horror (1977), de Jay Anson, e o filme homônimo de 1979, dirigido por Stuart Rosenberg, haviam transformado a casa em símbolo do horror pop, misturando crime real, alegações sobrenaturais e exploração comercial.
O texto surge, portanto, no olho do furacão cultural, quando a residência já não é apenas um local físico, mas um espaço mitológico.
2. A estratégia narrativa do jornal
O tom adotado por Newsday é deliberadamente banalizante. Logo na abertura, o Halloween é descrito como “apenas mais um”, estratégia que:
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reduz o peso do horror,
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normaliza o espaço,
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e desloca o foco do sobrenatural para o comportamento humano ao redor da casa.
Essa escolha é típica do jornalismo local norte-americano da época, que buscava reapropriar-se da narrativa após a espetacularização promovida pelo cinema e pela literatura sensacionalista.
3. A casa como passivo simbólico
Um dos trechos mais reveladores é a afirmação de que a fama da casa passou a ser vista pelos proprietários como “um passivo, não um ativo”. Isso indica:
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desgaste social;
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invasões frequentes;
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vandalismo;
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presença constante de curiosos, bêbados e fanáticos.
A casa deixa de ser um “lugar maldito” e passa a funcionar como polo de atração patológica, algo que antecipa discussões contemporâneas sobre turismo do horror (dark tourism).
4. Deslocamento do medo: do sobrenatural para o social
O texto faz algo muito interessante: o perigo não está dentro da casa, mas fora dela.
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bêbados gritando o nome de Ronald DeFeo,
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invasões,
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pessoas estacionando apenas para “olhar”.
O medo, aqui, é urbano e social, não paranormal. O sobrenatural é tratado quase como um ruído cultural que perdeu potência diante da repetição midiática.
5. O Halloween como ritual de dessacralização
A festa de Halloween organizada pelos Cromarty funciona simbolicamente como:
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um ritual de dessacralização do espaço;
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uma tentativa de reapropriação doméstica;
-
e uma forma de afirmar normalidade frente ao mito.
Ao transformar a casa em cenário de festa, bebida e fantasias, os anfitriões retiram o controle simbólico da narrativa do horror.
É uma inversão poderosa: o local do medo vira local de sociabilidade.
6. Celebridades locais e cultura pop
A presença de Suzy Chafee, garota-propaganda do ChapStick, reforça a fusão entre:
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horror,
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consumo,
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publicidade,
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e espetáculo.
Amityville já não pertence ao oculto, mas ao entretenimento. O comentário “todo mundo é tão simpático” soa quase como uma negação performática do mito.
7. O porco de olhos vermelhos: o mito residual
O texto menciona o famoso “porco de olhos vermelhos” — Jodie — apenas de passagem, quase com ironia. Ele aparece:
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como lenda persistente,
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mas já esvaziada de terror real,
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restrita à imaginação de quem observa de fora da cerca.
Isso revela como o mito começa a perder centralidade, sobrevivendo apenas como curiosidade folclórica.
8. As crianças e a quebra final do medo
A cena final, com duas meninas pedindo doces e recebendo M&M’s, é crucial:
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encerra a matéria com um gesto de normalidade absoluta;
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desmonta o discurso do horror;
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transforma a casa em mais um ponto do circuito do Halloween.
A fala da adolescente Wendy Moore — “não temos medo de entrar lá” — sela o texto com uma declaração geracional: o mito já não assusta quem cresceu com ele.
9. Leitura crítica geral
A matéria não tenta provar nem refutar o sobrenatural. Seu verdadeiro tema é outro:
o esgotamento do medo quando o horror vira produto cultural.
Amityville, em 1979, já é menos um mistério e mais um objeto de consumo simbólico, algo que ecoa diretamente em discussões atuais sobre true crime, franquias de terror “baseadas em fatos reais” e a diluição do impacto emocional pelo excesso de exposição.

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