Estrela de luz própria
TEXTO DE MÁRCIA VIEIRA
Domingo
JORNAL DO BRASIL
Nº 702, 1º de outubro de 1989.
Atriz e empresária de sucesso, Marieta Severo sobe ao palco sem medo de fantasmas familiares
Marieta Severo tem tido sonhos estranhos nos últimos 15 dias. Noite dessas estava grávida de nove meses. Depois acordou no alto de um edifício de 40 andares que balançava de um lado para o outro. Para quem fez análise junguiana durante 13 anos não foi difícil deduzir que os sonhos mostravam sua insegurança neste período de gestação de um novo personagem. "É tão óbvio. Meus sonhos parecem manuais de psicologia de revista feminina", brinca a culpada por estes sonos agitados e esparsos, uma dona-de-casa de Barra criada por Mauro Rasi que Marieta interpreta na peça A estrela do lar, com estreia marcada para o final do mês no Teatro Copacabana. É a quarta peça em que Marieta acumula também a produção, o que a levou a percorrer gabinetes de diretores de empresas à procura de patrocínio. Conseguiu vender 80% dos NCz$ 400 mil de custo. "Descobri que sou uma ótima vendedora." Um talento a mais para o currículo de quem ainda continua sendo reconhecida na rua como a mulher do Chico Buarque.
Marieta não se importa com este título que carrega há 22 anos, desde que foi morar com "uma unanimidade nacional", como Chico já foi chamado. "Me orgulho muito do trabalho dele e nunca fui louca de querer competir com ele." Durante os ensaios de A estrela do lar, no Copacabana, foi parada por um dos participantes de um bingo beneficente, que subia e já tinha visto aquele rosto em algum lugar. Depois de segundos de hesitação, desistiu de perguntar e deu o apelo: "A senhora não é a mulher do Buarque de Holanda?" Era mais do que isso. Marieta já foi premiada três vezes por seu desempenho em No Natal a gente vem te buscar, com o Kikito de melhor atriz de curta e longa-metragem no Festival de Gramado de 86 e já atuou durante mais de um ano e meio em Ópera do Malandro, com a aura da minha vida. De qualquer maneira, o fã do casal recebeu um sorriso de resposta e nunca brigaria contra esta minha imagem de mulher do Chico.
"Não briguei contra essa minha imagem de mulher do Chico. Me orgulho muito do trabalho dele e nunca pensei em competir."
ACORDO MÚTUO. Marieta reconhece que o fato de ter deixado de lado a carreira para acompanhar o marido num exílio voluntário na Itália, em 69, e a sua decisão de não aceitar mais convites para trabalhar em televisão por ser "um veículo onde Chico estava proibido de aparecer" ajudaram a criar esta imagem. Mas sempre tomou cuidado para evitar estágios. "Houve épocas em que a imprensa me procurava apenas para servir de ponte até o Chico. Sempre me recusei e acabei prejudicando a divulgação dos meus trabalhos." Por isso mesmo o casal tem um acordo: um não participa das entrevistas do outro. "Fotos juntos então nem pensar, a não ser que seja um dos segredos do sucesso do casamento." Vinte e dois anos com uma pessoa é muito tempo. "Antigamente, eu ficava achando que tinha alguma coisa errada com a gente porque estava todo mundo se separando", brinca.

Na verdade este é o segundo casamento de Marieta. Em 65, se casou de véu e grinalda com o ator e artista plástico Carlos Vergara. Durou só um ano. Quando dividia um apartamento com a amiga Leila Diniz, conheceu Chico, que tinha sido casado. E, como se diz, o bicho pega. Marieta tinha sido chamada por Oduvaldo Vianna Filho para substituir a mãe de sua filha, Tânia, que tinha feito uma plástica, na comédia Viagem à Bordo, com direção de Eduarda Dolabella, no filme Society em baby-doll, de 66, do diretor Carlos Maciel. "Fui acompanhar uma amiga que ia fazer o teste. Acabei sendo escolhida."
"sou do tipo que senta e chora sem parar, mas também sou como joão-teimoso: caio logo e levanto mais rápido"
Marieta faria o filme, se não fosse a fúria de Natália Thimberg, que namorava o diretor, e o ciúme de Sérgio Brito, que por sua vez era casado com Yoná Magalhães.
O diretor Luis Carlos Maciel vê no talento de Marieta uma prova da ressurreição. "O teste dela foi disparado o melhor. Além do bom-senso, já nasce feito, é uma coisa de reencarnação." Maciel só lamenta que esta tenha sido a única vez que trabalhou com ela. "Mas pelo menos hoje todos da equipe do filme temos orgulho por ter descoberto a Marieta." A estréia em cinema não facilitou sua relação com a sétima arte. Com exceção de pequenas participações em poucos filmes, como Chuva de verão, de Cacá Diegues, ela só voltou a ser convidada para fazer cinema em 85. "Teve um tempo que ficava triste porque nenhum diretor me chamava. Depois acabei me conformando. Achava que era porque eu não era nem bonita, nem loura e nem feia o suficiente para fazer o papel de uma horrorosa. Eu sempre tive uma cara muito normal. Além do mais, passei a maior parte da vida de jeans." De 84 a 86 fez três novelas seguidas. Isso chamou muita atenção.

DESILUSÃO. O jejum foi quebrado pelo convite de Ana Torres para viver a mãe de Eliane Giardini, interpretada por Fernanda Torres, em Com licença eu vou à luta. No mesmo ano fez O homem da capa preta, de Sergio Rezende. Soube, por fim, de lauros mais favoráveis no curta A marvada carne, de André Klotzel, e no curta de Fernando Carvalho, O enviado, não sei para onde vai. Este ano já filmou O corpo, de José Antonio Garcia, com Antonio Fagundes e Cláudia Gimenez. O ator vagabundo, de Hugo Carvana. O que Marieta nunca deixou de fazer foi teatro. "O palco é o meu lugar. No cinema por mais que o ator se entregue ao personagem, o que vale é a edição. No teatro não. O diretor faz as marcações dele, mas o dono do espetáculo é o ator." Mesmo assim Marieta raramente fica satisfeita com o resultado de seus desempenhos nos palcos. "Sempre tive consciência dos meus limites. Minhas coisas sempre foram muito batalhadas. Eu vejo a Marília Pêra representar e percebo que ela tem uma coisa especial pronta, que sai naturalmente."
Pura modéstia. "Confio muito no processo de trabalho da Marieta. Ela vai descobrindo o personagem aos poucos. Depois que adquire segurança, solta a parte para novas descobertas", analisa o diretor Naum Alves de Souza. Marieta e Naum já trabalharam juntos em quatro peças, desde que foram apresentados pela atriz Analu Prestes na metade dos anos 80. "É bom demais trabalhar com ela. Geralmente, ela já o centro do que eu estou escrevendo e vai dando sugestões."
Legendas das fotos:
Aos cinco anos, no Rio
Com a irmã menor, Lúcia
Aos 15 anos, formatura
Marieta Severo passou a infância em Ipanema, se formou no curso de ginásio do Colégio Bennett. Resolveu virar professora porque foi reprovada duas vezes nas vagas para o curso de teatro do Tablado, de Maria Clara Machado. Em 66, estreava em televisão como a princesa de O sheik de Agadir, uma personagem que no final da novela se revelava ser a temível Katia. Com a amiga Leila Diniz fez O homem proibido. Um de seus primeiros sucessos foi em Desgraças de uma criança, em 73.
Do sugestões." É o mesmo processo que guiou A estrela do lar. "Nosso namoro profissional começou na década de 70, mas sempre acontecia alguma coisa para estragar", lembra Naum. Agora, as entidades do teatro se encarregaram de nos unir", teoriza Mauro. Marieta tem uma explicação mais prática. "Eu estava precisando de um texto que tivesse também humor. Quando o Mauro falou sobre a ideia dele, achei ótima e fiquei acompanhando todo o processo de criação."
Mais do que isso, Marieta começou a se mexer para conseguir dinheiro suficiente para a produção. "Como atriz, eu tenho um cachê. Como produtora, viabilizo esta minha vontade." Com o novo fôlego que ela já acumulou em No Natal a gente vem te buscar, Um beijo, um abraço e um aperto de mão e Ópera do malandro, estava criando um novo hábito. Marieta não vende mais os dois terços do cachê da comandita da TV Globo, Lilian e Ivete Vibe. "Eu e Chico sempre fomos péssimos para administrar nosso dinheiro. Aqui nesta casa dinheiro nunca foi assunto. Tudo aqui foi conseguido com trabalho, mas nunca soubemos ao certo saber como aplicar."
A prática para vender as peças nos gabinetes de empresas ela já tem. Além do patrocínio da Shell do Brasil que custeou o projeto de incentivo ao teatro, tem a ajuda do Banco do Brasil, Bozzano Simonsen, da Vasp e do Atlântico Amort Hoteis.
JOÃO-TEIMOSO. O sucesso em vender as cotas de patrocínio contribuiu para que Marieta entrasse na sua atual fase de Marieta. "Estou recolhendo o que plantei nos últimos 20 anos. Tenho orgulho de ver que as minhas três filhas cresceram, que eu passei por uma crise séria que fiz durante a minha carreira." Uma separação de Chico Buarque, que a ajuda dos seus 15 anos de análise. "Foi fundamental para mim. Me deu uma maior capacidade de conhecer o personagem, uma vontade maior de ir até continuar, mas não foi fácil. 'Acho que eu já fui fundo demais.' Tão fundo que conseguiu superar uma gastrite nervosa e parar de fumar." Só não conseguiu perder a mania de se controlar sempre. "Nunca explodo. Sou do tipo que senta e chora sem parar, mas também sou como um joão-teimoso: caio logo e me levanto mais rápido ainda."
A peça de Marieta
A estrela do lar é a segunda peça da trilogia sobre Marieta, uma típica família brasileira na década de 60. O autor Mauro Rasi se baseou nos mesmos de cerimônia de ópera, mas a peça de sua mãe para dar vida à personagem de Iolanda. Além de Aspásia (Marieta Severo) a mãe doentia de Iolanda (Stella Rodrigues) e seu marido, o ator paulista Emilio de Mello. Ele é o responsável por toda a parte da peça, para escrever suas histórias. "Na verdade, os personagens não têm um enredo propriamente dito. O roteiro é o banal em climas, a rotina", explica Rasi. Para transformar Aspásia numa personagem cômica, Rasi usa o fato de que os personagens se tornam grandes e se julgam importantes. "É uma coisa tão engraçada quanto a vida", diz ele. A trilha sonora da peça, sempre ao som de músicas dos anos 60 e 70, foi feita por Nelson Silva ou as canções judaicas. Além de um texto leve com piadas e reflexões cariocas, a peça traz pela primeira vez ao teatro um strip-tease. Um motivo para aumentar a ansiedade de Marieta, que há um ano esteve em Paris ou em Berlim não podia sequer imaginar que ficaria no palco, de calcinha. "Não sei como vai ser..." No elenco de A estrela do lar estão ainda Deborah Beltrão, Sonia Guedes, José Carlos de Oliveira, Marise Farias, o ator Alexandre Toro, figurinos de Rita Murtinho e música de Edgard Duvi-vier.
Raios X
Marieta Severo é uma devoradora de cultura. Vai a todas as peças de teatro, adora comprar livros e já assistiu a mais de 80 filmes este ano. Depois de participar de dez ou três curtas-metragens nos últimos três anos, não tem dúvidas de que estes novos cineastas são tão importantes para o cinema quanto a geração de Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil foi para a música popular.
Legendas das fotos:
A atriz analisa. Principalmente que Marieta só fica irritada quando alguém dá palpites em seu trabalho. "Ela é muito organizada e só perde a estribeira quando está ao mesmo tempo é muito louca. Isso é uma relação muito forte, moldes tradicionais, mas supereficiente", enfatiza Mauro. O autor que não elogia a atriz. O paulista Emílio de Mello, 25, que fará o papel de filho de Marieta em A estrela do lar, está encantado com a companheira de palco. "Apesar de ter uma grande atriz permite que o nosso trabalho seja de igual para igual. No início eu me sentia inibido na frente dela, mas ela sabe deixar a gente à vontade. Ela é fantástica", elogia. Mauro Rasi não só concorda com os adjetivos como acha que ela supera fisicamente o tipo da personagem, que não deve ter mais da idade de 40. "Ela é bonita demais para viver a Aspásia. Ninguém diz que ela tem mais de 40 anos, é tão jovem."
Glamour não é exatamente o que interessa a Marieta. Além da peça, seu grande projeto é um centro de documentação do teatro de 600 lugares na Fundição Progresso, que deverá ser inaugurado no dia de 1991. Antes mesmo da inauguração do centro, ela já sabe que vai faltar tempo para administrar tantas atividades. "Mas a minha prioridade continua sendo as minhas filhas, a minha casa." Marieta mora há 18 anos num casarão em Ipanema com Chico e as filhas Helena, de 18 anos, e Luísa, de 14, numa casa espaçosa com vista para a Lagoa, cercada de árvores. A filha mais velha, Sílvia Buarque, mora no prédio em frente. "A minha sorte é que o Chico trabalha em casa. Costumo brincar que ele é a verdadeira estrela do lar." Modéstia da Marieta.
MÁRCIA VIEIRA
Filme: West side story ("é a paixão da minha vida. Acabou virando um vício para as minhas filhas. Sabemos as letras de cor").
Livro: Orlando, de Virginia Woolf ("de vez em quando releio e continuo adorando").
Peça: A estrela do lar ("é bárbara").
Manias: Beatriz, de Chico Buarque (dorme com esta música).
Ator/atriz: A classe artística brasileira ("apesar de não haver escolas, o artista brasileiro aprende na marra. Estes atores jovens se mostram antes de estarem prontos. São de uma coragem enorme").
Diretor: No teatro, Naum Alves de Souza ("despiste enorme. Um grande estudioso"); no cinema os jovens diretores ("está para virar que nem Luiz Carlos Sérgio Resende: estes diretores de curta, na década que vem, formarão o cenário do cinema"). Na TV, é fã de Jorge Fernando ("dá prazer trabalhar com ele, pela competência, criatividade e humor").
Prato predileto: Galinha ao molho pardo, preparada pela cozinheira Madalena.
Mania: Comprar livro ("não importa o assunto, leio muito, forem bonitos eu compro. Tenho prazer em passear por livrarias procurando livros de arte").