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segunda-feira, março 16, 2026

A Tragédia da Serra de Sapucaia

 

🌒  o voo que apagou o céu da Panair

 28 de julho de 1950, madrugada de neblina e silêncio sobre as montanhas fluminenses.


A madrugada que se partiu ao meio

A chuva caía fina sobre a Serra de Petrópolis quando, às 4h38 da manhã de 28 de julho de 1950, o céu se rasgou com um estrondo que acordou os moradores do vale. Um clarão cortou a neblina — e depois, o silêncio.
Minutos antes, o voo 099 da Panair do Brasil, vindo de Porto Alegre com escalas em São Paulo, preparava sua descida final para o aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro.
A bordo do Lockheed Constellation PP-PCG, o avião mais moderno e elegante da frota nacional, viajavam 51 pessoas — empresários, famílias, oficiais e uma tripulação veterana. Nenhum deles veria o nascer do sol.


Um símbolo dos céus brasileiros

A Panair do Brasil era orgulho do país. Fundada ainda nos anos 1930, com ligações internacionais e aviões de quatro motores, simbolizava a modernidade de uma nação que começava a se conectar por via aérea.
O Constellation, com seu design futurista e cabine pressurizada, era o orgulho da companhia — o mesmo modelo usado pela TWA e pela BOAC em rotas transatlânticas.
Aquela sexta-feira seria apenas mais um voo de rotina, não fosse a combinação fatal de mau tempo, instrumentos imprecisos e escuridão total sobre as montanhas.


O último contato

Por volta das quatro da manhã, o comandante José Pedro de Barros informou ao controle do Galeão que iniciava a descida para o Rio.
O rádio chiava. As estações de solo da época operavam por radiogoniometria — tecnologia limitada, sem radar de altitude.
“Prosseguindo para aproximação Santos Dumont”, teria sido a última frase audível. Depois disso, nada.

Às 04h38, o Constellation colidiu contra o topo da Serra de Sapucaia, em um ponto de mais de mil metros de altitude. A aeronave explodiu, espalhando destroços e fogo pela mata. O impacto foi tão violento que o clarão pôde ser visto a quilômetros, entre Magé e Petrópolis.


O resgate impossível

Com o dia amanhecendo sob chuva e lama, camponeses da região foram os primeiros a alcançar o local — guiados pelo cheiro de querosene e pelo som distante de metal crepitando.
Equipes da FAB, da Panair e do Exército partiram de Petrópolis, mas a trilha até a fazenda de Sapucaia era quase intransponível.
O que encontraram foi um cenário desolador: destroços carbonizados, árvores retorcidas e corpos espalhados pela encosta. Nenhum sobrevivente.

A notícia chegou ao Rio ao meio-dia. Em poucas horas, as manchetes de O Globo, Diário de Notícias e Correio da Manhã estampavam o mesmo título em letras negras:

“Avião da Panair cai na serra — 51 mortos.”


A dor e o luto

Os corpos foram transportados em caminhões para Petrópolis e depois ao Rio de Janeiro, onde centenas de pessoas se aglomeraram diante do necrotério.
Entre as vítimas havia famílias inteiras, empresários conhecidos e funcionários da própria companhia.
O governo decretou luto oficial de três dias. Igrejas de todo o país celebraram missas em memória dos mortos.

Nos dias seguintes, uma comissão da Diretoria de Aeronáutica Civil foi criada para apurar as causas.
O laudo final apontou erro de navegação e descida prematura, agravados pelo mau tempo. O avião estava em perfeito estado mecânico.
A tragédia foi, portanto, fruto da falta de instrumentos de precisão e da confiança cega na própria experiência — o mesmo tipo de falha que vitimaria tantas tripulações nas décadas seguintes.


O eco de Sapucaia

Por anos, o acidente seria lembrado como o “Desastre de Sapucaia”, sinônimo de tragédia aérea.
Ele expôs as deficiências do sistema de controle de voo brasileiro e impulsionou a modernização da navegação aérea no país.
A Panair, embora abalada, continuou suas operações e manteve prestígio até ser encerrada em 1965, em meio a pressões políticas da ditadura militar.
Mas o nome de Sapucaia nunca mais se apagou do imaginário da aviação civil.


As montanhas ainda guardam

Hoje, passados mais de 70 anos, moradores da região ainda relatam encontrar fragmentos metálicos e pequenas peças de alumínio entre as pedras cobertas de musgo.
Há cruzes discretas fincadas no alto da serra — homenagens silenciosas de famílias que nunca deixaram de subir até lá.
Em noites de neblina, dizem que o som dos motores ainda parece ecoar ao longe, como se o Constellation da Panair, perdido no tempo, tentasse enfim pousar no Rio de Janeiro.

domingo, março 15, 2026

A Poética do Abandono de Dimitri Bourriau

 Sentem-se, acomodem-se. Hoje não vamos falar de cidades que crescem, mas de palácios que silenciam.

Se você é frequentador assíduo aqui do Bar, sabe que temos uma queda por "coisas que o tempo levou". Mas o fotógrafo francês Dimitri Bourriau (o homem por trás da lente do Jahz Design) elevou isso a um nível artístico absurdo. Ele percorre a Europa, especialmente a França, atrás de castelos e mansões que foram esquecidos por herdeiros, pelo governo e pelo próprio mundo.

Trouxe três joias do acervo dele para a gente analisar enquanto a bebida não esquenta:

1. O Manoir aux Palmiers: Onde o Trópico Encontra o Clássico



Na primeira imagem, vemos uma mansão imponente que parece estar sendo engolida por um exército verde. O detalhe das palmeiras à frente dá um ar exótico, quase surrealista, para o interior da França. É o contraste perfeito: a rigidez das janelas francesas contra o caos orgânico da vegetação. É como se a casa estivesse pedindo: "Abandone-me com mais força".

2. O Château des Cheminées: Sentinelas de Tijolo



Olhem para essas chaminés listradas na segunda foto. Elas parecem dedos apontados para o céu, testemunhas de um teto que já não existe mais. Este castelo, conhecido no meio Urbex como o "Castelo das Chaminés", mostra o esqueleto da nobreza. Sem o telhado, o sol invade o que antes era o lugar mais privado da elite. A hera sobe pelas torres como se estivesse tentando costurar as feridas da pedra.

3. O Château Rouge: O Outono Eterno



A terceira imagem nos traz o "Castelo Vermelho". Com seus tijolos aparentes e torres laterais, ele remete a uma era de caçadas e verões intermináveis. Mas reparem nas janelas: são órbitas vazias. Não há mais ninguém olhando para fora. O tapete de folhas secas no chão não será limpo por nenhum jardineiro. Aqui, o outono não é uma estação, é um estado permanente.

O trabalho de Bourriau nos faz questionar: quem ganhou a batalha? O homem que construiu algo tão grandioso para durar séculos, ou a natureza que, com paciência e silêncio, retoma cada centímetro de volta?

Como diria Flannery O’Connor, "de onde você veio já não existe mais". Esses castelos são a prova física disso. Eles são portais para um passado que não tem mais volta, mas que, graças ao olhar de fotógrafos como Dimitri, ainda conseguem nos arrepiar.

15 anos do Aniversario do Tsunami no Japão






fotos : @tkitamura2001

 "3/11" refere-se ao dia 11 de março de 2011, quando o Japão enfrentou uma sucessão de catástrofes que pareciam saídas de um filme de ficção científica, mas eram cruelmente reais.

1. O Gatilho: O Terremoto de Tohoku

Às 14:46 (horário local), um terremoto de magnitude 9.1 atingiu a costa leste do Japão. Foi o terremoto mais forte da história do país e o quarto mais potente já registrado no mundo. A força foi tanta que a ilha principal do Japão (Honshu) se deslocou cerca de 2,4 metros para o leste e o eixo da Terra foi alterado.

2. O Desastre: O Tsunami

O terremoto deslocou uma massa colossal de água. Cerca de 30 a 60 minutos depois, ondas que chegaram a 40 metros de altura em alguns pontos atingiram a costa.

  • O "Muro de Água": Diferente das ondas de surfe, o tsunami de 3/11 foi uma inundação implacável de águas negras carregadas de destroços (carros, casas, barcos e lama).

  • A Destruição: Cidades inteiras, como Rikuzentakata e Minamisanriku, foram praticamente varridas do mapa em minutos.

3. A Crise Nuclear: Fukushima Daiichi

O tsunami inundou os geradores de reserva da usina nuclear de Fukushima Daiichi, causando o derretimento de três núcleos de reatores. Foi o maior desastre nuclear desde Chernobyl em 1986, gerando uma zona de exclusão que existe até hoje.

4. O Saldo e a Memória

  • Vítimas: Cerca de 18.500 pessoas morreram ou desapareceram.

  • Imagens Inesquecíveis: Para o seu blog, as fotos mais emblemáticas são as dos navios que foram parar em cima de prédios de dois ou três andares, uma prova física da altura surreal da água.



Curiosidade: Existe um fenômeno chamado "Telefone do Vento" (Kaze no Denwa) em Otsuchi, uma cabine telefônica sem fios onde as pessoas vão para "falar" com os entes queridos perdidos no tsunami. É um detalhe poético e triste que daria um post belíssimo sobre como lidamos com a perda.

Flannery O'Connor




 “De onde você veio já não existe mais, para onde você pensava que ia nunca existiu, e onde você está não serve para nada a menos que consiga escapar. Onde há um lugar para você estar? Nenhum lugar […] Nada fora de você pode lhe dar um lugar […] Dentro de você, agora mesmo, está todo o lugar que você tem.”


Flannery O'Connor, de Wise Blood (Harcourt, Brace, & Co., 1952)


“Where you come from is gone, where you thought you were going to was never there, and where you are is no good unless you can get away from it. Where is there a place for you to be? No place […] Nothing outside you can give you any place […] In yourself right now is all the place you’ve got.”


Flannery O'Connor, from Wise Blood (Harcourt, Brace, & Co., 1952)

Pirralhos e Pessoas Perfeitas

                        Artigo da revista TIME de 13 de agosto de 1979




Pirralhos e Pessoas Perfeitas

Ah, sim, talvez a gracinha ainda esteja por aí, em algum canto. Roddy McDowall, em A Força do Coração, podia fazer a boneca Barbie parecer uma heroína trágica. A Elizabeth Taylor de 11 anos em A Mocidade é Assim Mesmo tinha uma beleza e um aprumo que certamente seriam notados. Margaret O'Brien em E a Vida Continua podia chorar com ou sem motivo; de qualquer forma, era inevitável. Eram os "bebês" superdotados dos anos 30 e 40, e o fato de Baby LeRoy ter arrancado o nariz de W.C. Fields no set de Um Velho Ninho sempre nos lembra que sob a fachada de Hollywood reside o coração de um protestante descontente.

Mas a posterior escola de atores infantis de LeRoy — um naturalismo com fofura e um sentimentalismo acentuado — raramente era convincente. Quando Jackie Cooper, por exemplo, chorava em O Campeão, ele parecia mais um adotado pelo pai doente do que o filho do lutador. Com poucas exceções, como as crianças em O Rei do Bairro, os astros infantis daqueles dias, quando choravam, choravam baldes de xarope de bordo. Pense na desavergonhada doçura de Freddie Bartholomew em O Pequeno Lord. Com a exceção visionária de O Rei do Bairro, é um cinema de cachos empoeirados que se parece mais com mastros de maio do que com marcos.

A morte, por exemplo, parece menos pungente em suas mãos do que em um cartão de condolências. A morte de Elizabeth Taylor no final de Lassie (1943) parece projetada para equiparar o céu com um canil.

Foi preciso uma boa dose de coragem e algo como um gênio para mudar isso. Judy Garland, em O Mágico de Oz, e Mickey Rooney, em A Cidade dos Rapazes, conseguiram. Mas foi após a Segunda Guerra Mundial, à medida que os estilos mudavam e um novo realismo social surgia, que as crianças no cinema começaram a atuar com seriedade. "Somos os artistas perfeitos", escreveu James Agee em uma crítica de A Força do Coração para a revista Nation em 1946. "Não é de se admirar que gostemos de nos ver."

Apenas um mês antes, Margaret O'Brien e a igualmente jovem Peggy Ann Garner haviam combinado charme de rua e polidez de salão de beleza para dar a Laços Humanos um toque sombrio e ousado. À medida que as crianças começavam a ver o mundo como ele era — uma ameaça sempre presente de todos os lados —, os filmes sobre a infância ficavam melhores.

O final dos anos 40 foi uma época de cinema notável sobre crianças. Filmes como Alemanha, Ano Zero, de Roberto Rossellini, e Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica, olham para o lado sombrio da rua, onde crianças endurecidas pela guerra eram confrontadas com a fome e a morte.

Na Inglaterra, o diretor Carol Reed escalou Bobby Henrey como o filho solitário de um diplomata em O Ídolo Caído, que era sobre a separação abrupta e chocante do ideal.

Cineastas e roteiristas americanos, mais astutos e cautelosos, raramente correram tais riscos. O jovem Dean Stockwell, quase romanticamente belo, deu uma performance impecavelmente natural em O Menino dos Cabelos Verdes, um filme sobre um órfão de guerra cujos cabelos ficam verdes. Mas Stockwell teve que lutar contra um roteiro que era um melodrama descarado. John Ford, em Como Era Verde o Meu Vale, escalou o jovem Roddy McDowall. Foi uma das primeiras performances juvenis a explorar a força básica da infância, mas o filme, um tanto sentimental, antecipou os sonhos dos pobres. Para ser justo com o filme de Ford, o garoto com a espingarda em Shane é um dos momentos mais arrepiantes da história do cinema, mas não é uma criança, é um arquétipo.

Da mesma forma, ninguém usou, também, a frase "pessoas perfeitas" de Truffaut para descrever o sentimento adolescente perfeito em The Last Picture Show (A Última Sessão de Cinema), de Peter Bogdanovich. Bogdanovich, ele mesmo um crítico de cinema, traçou para Jean Vigo, cujo Zero de Comportamento foi feito sem compromisso profissional, e para François Truffaut, cuja estreia na direção, Os Incompreendidos, é um grande poema à juventude rebelde e incompreendida. Mas é George Roy Hill, em Butch Cassidy, que deu ao cinema americano a sua mais perfeita elegia à infância.

Enquanto isso, havia duas crianças excêntricas de filmes de terror que, energizadas, mas não afetadas, por sua possessão demoníaca, pareciam mais anormais do que assustadoras.

Enquanto isso, havia insinuações muito tênues de coisas sombrias no horizonte. Na versão original de A Tara Maldita, de 1956, havia crianças aparentemente normais encenando uma parábola de assassinato e ressurreição, enquanto seus pais mantinham o corpo da mãe morta em um armário.

Filmes como esses lançam um brilho de leviandade sobre a maior parte do que é feito hoje. Hollywood, no entanto, é o baluarte do sentimentalismo profissional. A morte da mãe de Ricky Schroder em O Campeão é recebida com uma reação pequena, mas previsível. Consequentemente, tem havido um retorno aos dramas familiares açucarados na televisão, como The Goodbye Girl e a família sit-com.

O sinal de esperança: uma nova versão de Um Pequeno Romance, de George Roy Hill, que escalou Kristy McNichol e Christopher Atkins para os papéis principais. O diretor está atualmente em pré-produção, e a escalação não foi anunciada. Ele nunca atuou antes, em um teste de elenco aberto. Ninguém poderia dizer que seu pai, ou mesmo sua filha, já o viram.

sábado, março 14, 2026

As Crianças-Prodígio de Hollywood

                                              Artigo da revista TIME de 13 de agosto de 1979

Diane Lane




Show Business

As Crianças-Prodígio de Hollywood Um buquê de rostos novos para iluminar as telas

MATÉRIA DE CAPA

A passagem de catecismos breves e de fácil memorização não deve ser lamentada. Com eles, você ia de Acapulco ao Zaire, mas hoje eles não dizem nada. A doença é o cotovelo de tenista. A OPEP, exigindo seu tributo de sete quilos de papel de jornal, a nova companhia aérea East, o novo conservadorismo. O problema, em suma, é a extensão e a falta de substância das notícias.

É surpreendente, então, e inesperadamente delicioso, por alguma razão, encontrar um número incomum de filmes extremamente bons sobre adolescentes. E os filmes foram feitos, em sua maioria, por adolescentes.



Atrizes que mal entravam na adolescência, ou nem isso, receberam papéis principais. Diane Lane tinha 13 anos quando foi escalada para Um Pequeno Romance. Mariel Hemingway, 17, que interpreta a amante adolescente de Woody Allen em Manhattan, tinha 13 anos quando fez sua estreia em Lipstick - Uma Gota de Sangue, Uma Gota de Amor, quatro anos atrás. A igualmente precoce Tatum O'Neal, 15, está trabalhando em seu oitavo filme. O diretor Terrence Malick escalou Linda Manz, de 16 anos, com rosto de querubim e voz de beco sem saída, após vê-la em um documentário. Ela rouba a cena como a narradora cínica de Cinzas no Paraíso e agora estrela em The Wanderers - Os Selvagens da Noite.

Essas crianças estão criando performances impressionantemente precoces e chocantemente seguras. Os adultos que as dirigem e atuam com elas não são condescendentes ao elogiá-las.

Do ponto de vista de um adulto, esses filmes oferecem uma visão comovente de um país estrangeiro: a adolescência, onde, como escreveu F. Scott Fitzgerald, "se vive uma vida própria, um amor próprio, uma guerra própria de classes". O filme oferece uma visão útil, mas na maioria das vezes romantiza a adolescência, a tal ponto que a maioria dos menores de idade atormentados a reconheceria com um olhar de total incredulidade. O problema não é a acne, mas sim a rebelião, o tédio e a puberdade, sem mencionar a sexualidade. Quando os problemas surgem, é em grande parte por causa do mundo adulto que insiste em sua intromissão. O Mickey Rooney de antigamente poderia ter querido dar um show; esses jovens parecem querer silêncio.

No entanto, dois desses filmes retratam adolescentes de 14 anos como prostitutas, e eles foram interpretados por atrizes da mesma idade. O que poderia ter sido considerado pornografia há uma década agora é visto como um tema apropriado para um filme sério. Os tabus estão sendo quebrados.

A exploração do tabu mais antigo, o incesto, foi tentada em uma série de TV francesa, onde o tabu ainda vigora. A série foi comprada pela NBC, que então se viu em um dilema. A história, filmada em locações em Paris, mostrava uma estudante de intercâmbio americana de 16 anos, interpretada por Kristy McNichol, também de 16 anos, que se apaixona por seu anfitrião francês, Zack (Leif Garrett), de 19 anos. Ele quer dormir com ela. A questão que agitava os executivos da TV era: os irmãos podem fazer isso? A resposta tem sido não. Uma vez que a TV, a resposta é difícil. Como a relação quase incestuosa era realista para um drama sobre adolescentes, embora estático, exceto que a televisão exige ação, os produtores da série descartaram a ideia. O programa resultante foi uma provocação tímida e erótica.

Essa provocação raramente é confrontada em Um Pequeno Romance. Aos 14 anos, Diane Lane já é uma beleza deslumbrante, com olhos de corça, uma boca pretensiosa e um andar tímido. Ela interpreta uma garota americana que mora em Paris e que foge com um garoto francês da mesma idade (Thelonious Bernard). Um amigo em comum (interpretado com grande estilo por um idoso Laurence Olivier) os ajuda em sua busca. Olivier, que diz que é um diplomata aposentado, é na verdade um batedor de carteiras profissional.

O charme dos três lhes deu a chance de viajar de trem de Paris para Veneza, onde os amantes pretendem selar seu amor beijando-se em uma gôndola sob a Ponte dos Suspiros ao pôr do sol. A premissa é encantadora, o roteiro de Allan Burns é afiado e engraçado, e as atuações são habilmente controladas pelo diretor George Roy Hill (Butch Cassidy, Golpe de Mestre). Talentos ajudam. Mas outra razão pela qual o filme é tão encantadoramente romântico — eles têm 13 anos, é a inocência.


Talento de sobra

Eles são jovens, brilhantes e um pouco assustadores em seu profissionalismo. A timidez, pelo menos no set, não é uma das suas características. Mas, como dizem todos os que trabalharam com elas, são completamente crianças, nem um pouco afetadas pela adulação, e ainda propensas a crises de riso. Thelonious Bernard, que foi escolhido entre 2.000 garotos franceses para interpretar o papel principal masculino em Um Pequeno Romance, não tinha experiência em atuação. Quando Olivier estava por perto, "ele ficava paralisado", lembra o diretor George Roy Hill. "Ele ficava os observando, sem ser condescendente com eles. Ele sempre os tratava como colegas." O que o surpreendia era que eles não o tratavam de forma diferente. Shields lembra que o diretor Louis Malle lhe disse: "Laurence Olivier tem medo de você. Ele não está acostumado com crianças. Ele vem e me diz o que você fez de errado. Ele tem tanto medo de você que não sabe o que dizer." O resultado, no final das contas, foi que o famoso ator veterano e a criança se tornaram bons amigos. "Nós o tratávamos como um adulto, não como uma criança pequena", diz Olivier. "Depois de alguns dias, eles não se sentiam mais constrangidos. Às vezes, eles me provocavam, mas outras vezes eram doces e me contavam seus problemas. Nós todos nos tratávamos como iguais."

Para suas primeiras cenas, os momentos mais difíceis foram com as câmeras Arriflex. "Tão grandes e assustadoras", diz Diane Lane. "E o microfone é tão próximo que é difícil para eles se lembrarem de não olhar para ele." Diane conseguiu um papel na produção da La Mama Theater de Medeia. "Eu era tão ruim", diz ela, "mas continuei." Para sua estreia no cinema, em Pretty Baby, Shields teve que esmagar uma garrafa na cabeça de um homem. Ela fez a cena em que esmaga a garrafa cenográfica contra um poste para sentir como seria. Quando a produção, diz Lipstick, começou a tomar forma, foi decidido que a irmã mais nova de Margaux, a estrela, deveria ter o papel da irmã de 13 anos. Tatum O'Neal fez o teste para o papel, mas foi considerada "muito profissional". Os críticos estão dizendo que esta garota séria e gordinha é a atriz certa, mas ela não tem treinamento. Tatum O'Neal fez o teste para o papel principal em International Velvet, mas foi rejeitada. Em vez disso, a jovem Nanette Newman, filha do diretor Bryan Forbes, foi escalada para o papel. Tatum foi dispensada da casa de O'Neal, e Tatum, segundo ela, "agiu como uma idiota". O próprio O'Neal a apoiou para o papel, mas o diretor Lamont Johnson se recusou a contratá-la.

Hemingway: maçãs do rosto e primavera, alma rápida

Linda Manz foi à escola um dia para descobrir que um diretor de elenco estava lá. Ela não sempre sonhou em atuar e foi informada que estava sendo escalada em um filme de baixo orçamento. Mas quando ela fez o teste para Cinzas no Paraíso e The Wanderers, os diretores ficaram impressionados com a atrevida, dura e sábia Linda Manz, uma gata de rua de verdade que instantaneamente se tornou a favorita da crítica. Na entrevista, ela disse o mesmo de si mesma: "Eu não tinha ideia do que estava falando. Era só para me safar da aula." Então, fiz um teste com outras quatro garotas. Eu só fiquei brincando com elas para parecer descolada. E funcionou. O que ela fez, Manz, como o resto de seus colegas prodígios, foi parecer natural. Um olhar para o jardim.



Diane Lane. Ela passou seis felizes semanas no México, em Durango, onde Cattle Annie and Little Britches estava sendo filmado. "Todo dia era a mesma coisa. Mas não havia Bubble Yum. Eu sempre quis ir para um faroeste", diz ela. "Zip, lá vamos nós." Ela fez aulas de equitação e aprendeu a atirar. Lane não ficou muito tempo em Los Angeles para sessões de fotos e testes. Logo ela estava de volta a Nova York para interpretar uma adolescente quieta em A Watcher in the Woods. Ela passou o verão andando a cavalo na fazenda da família em Connecticut, em um cavalo que ganhou no Obispo Rugby Club (um presente de sua mãe). Quando questionada sobre Um Pequeno Romance, confessando que tinha um pôster de John Travolta em seu quarto, ela pergunta: "Você se importa se eu disser isso? Eu vi Os Embalos de Sábado à Noite sete vezes." Ela diz que se interessou por um roteiro de um drama sobre a vida de uma garota chamada Alice, mas "não era realmente o papel certo para mim". Ela foi uma das muitas que tentaram um papel em O Despertar de um Pesadelo, mas não foi escolhida. "Eu estava tentando conseguir um papel. Mas eles eram todos mais altos que eu." Ela o fez na frente do público. Ela estava se apresentando para o diretor de elenco.

Diane interpretou seu papel de prostituta infantil em Ladies and Gentlemen, The Fabulous Stains, um filme sobre duas adolescentes fugitivas. A produtora de Elia Kazan, que a viu em Um Pequeno Romance, telefonou e ofereceu-lhe um papel. A princípio, Lane estava relutante, porque o roteiro pedia nudez. Ela foi ao escritório de Kazan, com a mãe, e discutiu suas razões para rejeitar um papel que poderia prejudicar sua reputação e sua autoimagem. Ela e a mãe conversaram com o produtor por horas. Ela decidiu não aceitar porque havia muito mais do que nudez envolvida. Não seria publicado.

Ao final do longo discurso de aceitação, Kazan se levantou, cruzou a sala, pegou a conversa e pisou em todo o seu discurso. No dia seguinte, Malle a aconselhou a não aceitar o papel. Mas o pai dela, Burt, um ex-ator, a convenceu a reconsiderar.



Lori Loughlin: um impacto que vai além da beleza

Se Lolita fosse filmado hoje, o papel-título seria interpretado por uma atriz de onze ou doze anos que realmente entende de sexo. "Eu olhei primeiro para ver se ela atuava bem", diz François Truffaut, cujo filme sobre uma adolescente que engravida, A Mulher do Lado, é um dos melhores sobre o assunto. "Eu também procuro vivacidade, acima de tudo." Diz o diretor George Roy Hill, que adaptou o roteiro de Um Pequeno Romance para crianças: "Prefiro dar o roteiro a elas e deixá-las ler, para que possam expressar as ideias com seu próprio vocabulário. Acho que essa é a maior diferença." Adolescentes, diz Hill, "têm menos inibições, pelo menos no começo".

Truffaut pode estar subestimando a seriedade com que as jovens atrizes levam seu trabalho. Brooke Shields se aplica com diligência ao que está fazendo. "Eu nunca fiquei nervosa, e fiz seis filmes", diz ela. "Talvez eu fique um pouco tensa, mas o mais próximo de ficar nervosa foi em Just You and Me, Kid."

Hill diz que às vezes atuar se torna mais uma questão de imitar adultos ou enganar as pessoas. "É isso que atuar é", diz ele. Se ele fosse fazer o filme hoje, ele diz, "eles fariam todo tipo de coisa juntos". Para o almoço, Hill sentava-se com as duas jovens estrelas de Um Pequeno Romance e as ouvia fofocar. Às vezes, o principal problema parecia ser que Thelonious não falava inglês tão bem quanto Diane, e ela não falava a língua dele. Diz Hill: "Isso não durou muito." Para resolver o problema de química, ele os fez assistir a filmes juntos. "Eles se davam bem por dez minutos. Logo começaram a rir, depois a brigar e depois a terminar."



Brooke Shields, uma curiosidade de Louis Malle, mas a Sra. Shields é a maior personagem que não parece ser inventada, alguém que poderia facilmente se passar pela filha do presidente. Ela é uma garota de doze anos interpretada por Brooke Shields, mas interpretada com tanta convicção que é difícil dizer onde termina a atriz e começa o personagem. O que depois do filme parece ser uma alegre pacifista é, na verdade, uma adolescente confiante, uma beleza feliz que poderia iluminar o dia de qualquer um. Ela parece aproveitar sua vida, ou pelo menos sua carreira, como atriz. "Fui a muitos testes de cinema e não consegui nenhum papel", diz ela.

A carreira de atriz pode ser difícil, chata, e o trabalho pode ser tão exigente para as crianças mais novas quanto para alguns dos outros atores infantis. Sumac, a estrela infantil peruana, foi submetida ao mesmo tipo de escrutínio. Durante as filmagens de The Blue Lagoon, um diretor ficou tão furioso com a jovem estrela que a colocou em um barco e remou para o meio de um lago, deixando-a lá. A história diz que ela era tão boa atriz quanto sua irmã, Jane, mas não tão bonita. "Oh, meu Deus", diz ela, "ele disse isso?" Sua mãe insiste que Brooke é alta o suficiente (5 pés e 9 polegadas) para parecer mais velha, embora ela não diga. "Não, mas obrigado por perguntar." Brooke começou sua carreira na infância em comerciais de TV para a boneca Ivory Snow e a comida de bebê da Nestlé.

Sua imagem pública é a de uma garota legal, a vizinha que por acaso é uma beldade. Seus pais se separaram quando ela era criança. "Ela é muito parecida com a mãe", diz um amigo da família. Mas ela também é parecida com o pai, que a vê com frequência e leva a filha para Long Island. O que pode ser mais natural? Ela é modelo desde os onze meses e admite: "É estranho ver seu rosto nas revistas".



Mariel Hemingway. Seu último filme, Manhattan, e ela é a personagem feminina mais forte e memorável do filme: dura e cheia de alma. Ela vive em Ketchum, Idaho, com seu marido, o restaurateur Stephen Crisman. Ela está morando em Nova York; Mariel Hemingway é uma daquelas atrizes que você sente que conhece há anos, mas não conhece. No verão, ela está saindo com os amigos da cidade, onde todo mundo parece pertencer a Ketchum, Idaho. No outono passado, ela estava em Paris. Então, quatro meses antes de Mariel estar em Manhattan, ela estava no rancho da família com dois labradores sujos.



Tatum O'Neal. Zits não são permitidos, nem conversa de bebê. Os pais de Tatum estão cientes do constrangimento de ser para outras crianças, e eles mantiveram sua filha longe da imprensa. Os Movie kids são uma raça à parte, e aos 15, Tatum não é exceção.

Ela está estrelando em um drama da CBS-TV, agendado para lançamento no próximo ano. Ela é uma garota rica e tímida em uma cidade pequena. Em International Velvet, ela está programada para visitar a cidade com seu pai. No entanto, Tatum está relutante em deixar o rancho. Ela diz: "Do meu ponto de vista, ela está certa. Ela não pode interpretar uma garotinha." Talvez ela se identifique com o papel. Seu papel no filme é aquele de uma radical de 18 anos, mas a personagem de 18 anos está tendo uma chance.

Sua mãe, a atriz Joanna Moore, diz que se arrepende de não ter passado mais tempo com a filha quando ela era mais nova, "mas 18 anos é uma idade terrível". Talvez no próximo ano os roteiros fiquem mais interessantes.

Ela lembra que lhe ofereceram o papel de uma prostituta, mas recusou. "Não estava certo para mim", diz ela. "Não quero ser rotulada." Ela parece próxima de seu pai, que a criou desde os quatro anos.



Linda Manz. "Eu não tive que atuar. Eu simplesmente estava sendo eu mesma. Não foi grande coisa", diz a assustadora Linda Manz, uma vigarista de rua de 16 anos com sotaque do Queens que vive em Manhattan, sobre seu primeiro papel no cinema em Cinzas no Paraíso. A narradora original do filme era uma adulta, mas o diretor Terrence Malick decidiu usar a voz de Manz porque "era eu". Não sou uma pessoa estranha, onírica, como Ursula, mas certamente posso me identificar com isso."

sexta-feira, março 13, 2026

Museu de Histórias em Quadrinhos,

MEMÓRIA



Refúgio para os heróis

Museu em São Cristóvão guarda história do gibi

 Revista Domingo - Jornal do Brasil 

Por Carla Andrade


Uma avalanche de sete milhões de exemplares de gibis chega mensalmente às bancas de todo o Brasil e sempre com endereço certo: o público jovem. São as histórias em quadrinhos, que desde seu surgimento em 1895, já passaram por um estágio de "emburrecimento" e hoje se encontram numa fase otimista, com o renascimento de seus super-heróis de outras galáxias. Tanto avanço não foi capaz de derrubar veteranos como Batman ou Flash Gordon, que fora das páginas dos gibis costumam se refugiar no Rio num paraíso para os amantes dos quadrinhos poderem se deliciar com 150 mil raridades do gênero. É o Museu de Histórias em Quadrinhos, localizado em São Cristóvão (Rua Gotemburgo, 58/sobrado - fone: (021) 585-0303), e que faz parte da Editora Ebal, a pioneira do estilo no país. Há 14 anos, o museu vem conservando a feição e a nostalgia dos aficionados.

O nome do acervo do museu foi de Adolfo Aizen, presidente da Ebal e o responsável pela publicação da primeira história em quadrinhos no Brasil, o Suplemento Juvenil, em 1934, "provocando" os concorrentes que a editora existia de 28 países, ele resolveu abrir um espaço onde as pessoas pudessem visitar e consultar todo o acervo que acumulou. "É uma viagem no tempo", diz Aizen. Um tempo que exige cuidados indispensáveis a qualquer preciosidade. Os exemplares mais antigos são protegidos com sacos plásticos, guardados em caixas para não haver deterioração e todo o mês eles revisam, levando uma borrifada com um spray especial antimofo. "Tudo é conversado com muito cuidado", frisa Ana Lúcia Siqueira, coordenadora de educação da editora, ela já foi obrigada por desocupar uma sala funcional e que planejava reunir-se depois as vendas numa feira em Cartum a colocar as obras coubessem mais valiosos numa sala especial e a única sessão fechada dentre as culturas de que os gibis eram tão especiais têm acesso. "Essa chave dorme no meu bolso".

PATRIMÔNIO PESSOAL Toda essa preocupação se justifica. Afinal, no museu podem ser encontrados os primeiros números da Action comics (a primeira versão do Batman), Tico Tico (considerado o mais antigo quadrinho brasileiro), Tarzan, Lone Ranger (Zorro), Flash Gordon, entre outros. "É um patrimônio pessoal do Aizen, por isso cuidamos com tanto zelo", explica Ana. Só para ter uma ideia do valor desses gibis, o primeiro número da Capitão Marvel está avaliado em US$ 15 mil, o da Action Comics em US$ 24 mil e o primeiro número do gibi Tio Patinhas, está mais de quanto valem todos os nossos gibis, mas pra nós, o seu grande valor é o sentimental. Tudo isso foi conseguido com base num pequeno apoio oficial", comenta a coordenadora. Por todo esse chamego com as revistas, são raras as concessões que o museu faz quando algum colecionador se interessa em comprar um exemplar que falta em sua coleção. "Não é comum vender revistas, só fazemos para um pessoa que já nos conheçam bem. Mesmo assim, pensamos muito no caso."

Visitantes não têm faltado ao museu. A procura é tão intensa que Leni Siqueira adotou uma agenda onde os horários são marcados por telefone. "É uma loucura, o telefone não para de tocar. Tem muita gente que marca hoje e tem que esperar dois, três meses para poder vir até aqui". De segunda a sexta, de 8 às 16h, o museu recebe duas escolas que levam turmas de 60 crianças para conhecer o lugar, fora outros interessados, de todas as idades, que por seu fascínio com os quadrinhos esperam o tempo necessário para conseguir um horário. "Nossa agenda está lotada até 1990. Não podemos colocar muitas pessoas dentro do museu para não haver tumulto". Visitantes ilustres, como Cecília Meirelles, Ana Maria Machado, Daniel Azulay e Alex Raymond — o criador do Flash Gordon — já passaram pelo salão do museu. Até Walt Disney tinha interesse pela coleção, mesmo sem jamais ter ido lá.

Hoje muito badalados, os quadrinhos venceram o tempo de difíceis leis que surgiram. Na época, os gibis foram encarados como antiquados, e era comum os fãs do estilo terem que driblar seus pais para se deliciar com as aventuras. "Minha mãe, que era professora, achava que atrapalhava minha educação", relembra o jornalista e fã Ziraldo. "Antes havia uma opressão forte, mas hoje eles são encarados como arte", diz o artista plástico Luiz Stein. Uma história do próprio museu confirma. Um dia desses, um senhor de 70 anos apareceu por lá para ler um exemplar do Flash Gordon que ele comprou aos 10 anos e seu pai, por não simpatizar com o estilo, "rasgou. Foram 60 anos de frustração", relembra Naumim Aizen, diretor editorial da Ebal.

Mas agora muita coisa mudou. As crianças estão tão íntimas com o mundo dos quadrinhos que telefonam para a editora à procura do Batman, Pernalonga e do Super-homem. "Digo sempre que eles estão em ação, resolvendo um caso e não podem atender. Tudo para não desapontá-las", conta Naumim. Histórias mais hilárias acontecem e são guardadas na memória de Leni. "Teve um colecionador de Minas Gerais que, ao vir passar três dias de sua lua-de-mel no Rio, acabou parando aqui enquanto sua mulher estava na praia." Gosto não se discute, se comenta.


CARLA ANDRADE



O ídolo de cada um

  • Rogéria (atriz) — "Você não acha que eu sou inspirada na Princesa Narda, a namorada do Mandrake?"

  • Nelson Piquet (empresário) — "Tarzan e Valentina, entre os clássicos, e Garfield, porque é um gato de personalidade independente."

  • Telmo Zanini (compositor) — "Asterix e Tim-Tim."

  • Aldir Blanc (compositor) — "Zé do Boné, 'Curto Circuito' e todos os de super-heróis e heroínas."

  • Jorge Guinle (playboy) — "Dick Tracy."

  • Sérgio Cabral (jornalista) — "Capitão Marvel e Charlie Brown."

  • Isabel (jogadora de vôlei) — "Mônica e Zé Carioca."

  • Ziraldo (jornalista) — "Dick Tracy. 'Ele é uma caricatura, está próximo de um ser humano normal'."

  • Luiz Jasmin (artista plástico) — "Batman e Spirit."

  • Oswaldo Lopes Jr. (estudante) — "Batman."

  • Dulce Quental (cantora) — "Surfista Prateado."


Domingo 24

quinta-feira, março 12, 2026

Janis Joplin

 

Carta fala de um grande amor no Rio





Abril, 1970
Aló !Estou realmente a mil nos ensaios, com uma nova (dois dos rapazes de sempre, três novos) banda menor e as coisas estão realmente fantásticas! Ótimas novas canções — realmente precisava de novas canções — e então faremos um disco e uma turnê novos. Albert (NA: seu empresário) está aliviando um pouco a minha agenda por causa da minha velha idade & porque eu fui fundo demais. Dois meses na estrada e então dois fora. Assim poderei ter um pouco mais de vida pessoal, espero. Encontrei um homem realmente legal no Rio, mas tive que voltar ao trabalho, então ele está por aí dando a volta do mundo — Africa ou Marrocos agora, eu penso, mas ele realmente me amava & era tão bom para mim & ele queria voltar & casar! Pensei que morreria sem alguém comigo, além dos fãs me perseguindo. Mas ele foi verdadeiro & quem sabe — talvez eu me canse da indústria musical, mas agora estou realmente mergulhada nisto!

Love, Janis

Uma das últimas cartas de Janis para os familiares, do livro "Love, Janis" (Villard Books, 1992), organizado por sua irmã, Laura Joplin.

Rei Momo s beija Joplin, Rio de Janeiro, Fevereiro de 1970


quarta-feira, março 11, 2026

Um Romance Muito Perigoso

 

A vez do marido



Wilson Cunha
10/10/85 - Jornal do Brasil

O casamento continua sendo um assunto perigoso para o cinema americano. Doméstico ou extraconjugal, ele sempre acaba em crises, tiros ou lágrimas. O tema parece inesgotável — e rende comédias (A Primeira Noite de um Homem, Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos) ou tragédias (Kramer vs. Kramer, Cenas de um Casamento). Desta vez, é a vez do marido.

Jeff Goldblum é quem encarna o homem envolvido em situações rigorosamente domésticas em Um Romance Muito Perigoso, que estreia hoje em vários cinemas. Ele é Ed Okin, funcionário de uma companhia de seguros, casado com Diana (Michelle Pfeiffer).

Ed vive entediado com o trabalho e o casamento. Dorme mal, chega atrasado ao serviço e já não demonstra qualquer interesse pela mulher. À noite, vagueia sem rumo pela cidade, tentando vencer a insônia.

É durante uma dessas noites que ele encontra a bela Diana (Pfeiffer), uma mulher envolvida com contrabandistas de joias e perseguida por criminosos iranianos. Ed a salva de ser assassinada num estacionamento e acaba mergulhando numa aventura improvável, que o transforma de um homem apático em herói acidental.

O filme, dirigido por John Landis (de Um Lobisomem Americano em Londres e Os Irmãos Cara-de-Pau), mistura comédia, suspense e ação, com ritmo ágil e humor negro. Landis mantém o mesmo tom de paródia do gênero policial e dá ao personagem de Goldblum uma dimensão cômica e humana, bem distante dos machões hollywoodianos habituais.

A química entre Goldblum e Pfeiffer é um dos pontos fortes do filme, que combina perseguições pelas ruas de Los Angeles, tiroteios, carros capotando e boas doses de sarcasmo.

É curioso notar como o diretor Landis, mais conhecido por sua colaboração com John Belushi e Dan Aykroyd, encontra em Um Romance Muito Perigoso uma forma de amadurecer seu humor — menos escrachado, mais sofisticado.

O roteiro de Ron Koslow evita as fórmulas convencionais de Hollywood, brincando com os clichês do gênero. Há ecos de Depois de Horas, de Scorsese, mas a abordagem é mais leve e menos neurótica.

A trilha sonora, assinada por Ira Newborn, acentua o clima urbano e noturno, enquanto a fotografia de Robert Paynter reforça a ironia e o contraste entre o tédio cotidiano e o absurdo da aventura.

Jeff Goldblum, do tédio ao lar à boa aventura na rua, prova mais uma vez ser um ator capaz de unir humor e estranheza em doses perfeitas.

terça-feira, março 10, 2026

Brincou com fogo... acabou fisgado,

 

Na montanha das águias



Angela Regina Cunha

Jornal do Brasil

10/8/89

A presença de John Belushi pode trazer algum charme à comédia Brincou com fogo... acabou fisgado, que a TV Globo exibe hoje. Foi um de seus últimos trabalhos antes de morrer de overdose em 1982. O filme conta a história de uma ornitóloga (Blair Brown) e de um jornalista de irregularidades ecológicas (Belushi), que acabam apaixonados quando são obrigados a conviver no alto das montanhas. Na Montanha das Águias é uma produção de 1981, que tem o mesmo título original do filme americano.

A diretora é um nome mais associado à televisão do que ao cinema: a inglesa Michael Apted. Ela é responsável por diversos documentários, entre eles a famosa série Seven Up, que acompanha a vida de um grupo de britânicos desde os sete anos de idade, em intervalos de sete em sete anos. Nas montanhas das gorilas, sobre Dianne Fossey, com Sigourney Weaver. Apted começou na TV, onde fez comédias, documentários e shows, e em 83 dirigiu O Mistério do Parque Gorky.

Brincou com fogo... tem, entretanto, outros pesos pesados em ação. A produção executiva é de Stephen Lawrence, o mesmo que trabalhou em O Império Contra-Ataca, Os Caçadores da Arca Perdida, Silverado e Touro Indomável. É, portanto, um filme bem situado no coração da indústria ocidental.



A história da aproximação da ornitóloga e do jornalista é narrada com humor e algum sarcasmo. O tom lembra Woody Allen, embora o filme não chegue a ser brilhante como os melhores trabalhos do diretor. A ornitóloga Tina sobrevive ao tratar do mundo do show business em que Woody Allen vive em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. Ela é uma mulher pragmática e racional, que vê o mundo com o olhar científico e distante de quem já não se encanta facilmente.

A atriz Blair Brown, que dá vida à ornitóloga Tina Vitale, é uma veterana da TV americana, com participações em várias séries e telefilmes.

O ator John Belushi, por sua vez, interpreta o jornalista Richard Dice. É um papel mais contido do que o habitual em sua carreira, embora ainda traga traços do humor físico e debochado que o consagrou no Saturday Night Live.

A história é, enfim, uma comédia romântica leve, de ritmo irregular, mas com momentos agradáveis. A bela fotografia de montanhas geladas e florestas reforça a atmosfera fria e racional que cerca os protagonistas.