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quarta-feira, março 18, 2026

Dillon Marsh


  • Nasceu em 1981, em Cape Town, África do Sul, onde vive até hoje. 

  • Formou-se em Fine Art pela University of Stellenbosch em 2003

  • Começou a se interessar por fotografia durante seus estudos, e evoluiu para ser um artista cujo meio principal é a fotografia, com fortes influências e intervenções digitais

Dillon Marsh trabalha bastante com a relação entre seres humanos e meio-ambiente. Algumas linhas de investigação:


  1. Nos seus trabalhos mais antigos, ele constrói séries tipológicas: ou seja, isolando características de paisagens ou de objetos no ambiente para que se tornem visíveis relações sutis entre o “natural” e o “artificial”.Intervenções visuais + CGI

  2. Em seus trabalhos mais recentes, ele incorpora imagens geradas por computador para revelar dinâmicas ou escalas que a fotografia pura não permitiria mostrar, como volumes de material extraído de minas, por exemplo. Mineradoras, extração e impacto ambiental

  3. Uma de suas séries mais conhecidas é For What It’s Worth, em que Marsh visualiza quanto material (ouro, cobre, diamante etc.) foi extraído de minas em regiões da África do Sul. Ele coloca esferas ou volumes representativos desses materiais nas próprias paisagens mineradas, criando um contraste visual forte

    Outro trabalho, Assimilation, documenta ninhos de aves Sociable Weaver construídos em postes de telefone no Deserto do Kalahari, evidenciando como a vida animal interage com infraestruturas humanas, às vezes adaptando-se ou apropriando-se delas. Ausência humana como presença simbólica





  4. Muitas fotos de Marsh mostram paisagens ou construções abandonadas, objetos deixados para trás, ou comunidades que desapareceram. Não são retratos de pessoas, mas mostram indícios de sua presença — casas vazias, carros sucateados, ambientes degradados. Isso cria uma narrativa forte sobre mudança, memória, abandono

 

terça-feira, março 17, 2026

O Primeiro Celular da CBN Maringá



Este Motorola foi o protagonista da estreia da CBN Maringá em 1998.
Lembro-me como se fosse hoje da primeira reportagem para a qual saí carregando esse "tijolo",. A adrenalina de estar na rua com a possibilidade de entrar "ao vivo" a qualquer momento era enorme, mas havia um pequeno detalhe: eu não tinha a menor ideia de como ligá-lo.  Era o início de uma era onde o manual de instruções era quase tão importante quanto a pauta. 

Durante muito tempo, este Motorola foi o "queridinho" da rádio devido a qualidade do áudio.Diferente dos modelos digitais que vieram depois, que comprimiam a voz e a deixavam com aquele tom metálico e robótico, o sinal deste aparelho era analógico deixava a voz do repórter com uma textura mais quente, mais humana, um som "cheio". 

Winston Tseng

 


Sátira política e crítica social extremamente ácida. Embora utilize o nome da Polymarket (uma plataforma real de mercado de previsões baseada em blockchain), ela não é um anúncio oficial, mas sim uma obra do artista Winston Tseng, conhecido por substituir anúncios em espaços públicos por mensagens provocativas.

A ilustração central — um punho fechado com o polegar para cima e uma mancha colorida (que lembra um hematoma ou mancha de idade) — é uma referência direta a Donald Trump. A manga do paletó azul e a camisa branca são sua "farda" característica

A pergunta: "When will he die?" (Quando ele vai morrer?) é brutalmente direta, subvertendo a polidez esperada na publicidade urbana.

As opções: "Soon" (Logo) e "Not Soon Enough" (Não logo o suficiente) elevam o tom da crítica, sugerindo um desejo de oposição política que ultrapassa o debate de ideias e entra no campo da mortalidade biológica.

A Polymarket é famosa por permitir que usuários apostem em eventos do mundo real (eleições, decisões judiciais, guerras). Ao usar essa marca, Winston Tseng critica

A ideia de que absolutamente tudo, inclusive a morte de um ser humano ou o destino de uma nação, pode ser transformado em um mercado de apostas e lucro.

A interface limpa, com botões coloridos e design moderno, contrasta com a morbidez do tópico, evidenciando como a tecnologia pode desumanizar questões existenciais.

Winston Tseng

Tseng é um "subvertiser" (mistura de subvert + advertiser). Ele utiliza a estética perfeita das marcas para inserir mensagens que as corporações jamais diriam.

  • Geralmente essas obras são colocadas em abrigos de ônibus reais (como o da JCDecaux na foto), enganando o pedestre distraído que, à primeira vista, acha que se trata de uma campanha legítima.

  •  Embora a imagem pareça "anti-Trump", ela também serve como um espelho feio para quem a lê, questionando até onde vai o ódio político e a nossa obsessão por prever o futuro em vez de vivê-lo.

Marieta Severo

 Estrela de luz própria



TEXTO DE MÁRCIA VIEIRA

Domingo JORNAL DO BRASIL

 Nº 702, 1º de outubro de 1989. 


Atriz e empresária de sucesso, Marieta Severo sobe ao palco sem medo de fantasmas familiares

Marieta Severo tem tido sonhos estranhos nos últimos 15 dias. Noite dessas estava grávida de nove meses. Depois acordou no alto de um edifício de 40 andares que balançava de um lado para o outro. Para quem fez análise junguiana durante 13 anos não foi difícil deduzir que os sonhos mostravam sua insegurança neste período de gestação de um novo personagem. "É tão óbvio. Meus sonhos parecem manuais de psicologia de revista feminina", brinca a culpada por estes sonos agitados e esparsos, uma dona-de-casa de Barra criada por Mauro Rasi que Marieta interpreta na peça A estrela do lar, com estreia marcada para o final do mês no Teatro Copacabana. É a quarta peça em que Marieta acumula também a produção, o que a levou a percorrer gabinetes de diretores de empresas à procura de patrocínio. Conseguiu vender 80% dos NCz$ 400 mil de custo. "Descobri que sou uma ótima vendedora." Um talento a mais para o currículo de quem ainda continua sendo reconhecida na rua como a mulher do Chico Buarque.

Marieta não se importa com este título que carrega há 22 anos, desde que foi morar com "uma unanimidade nacional", como Chico já foi chamado. "Me orgulho muito do trabalho dele e nunca fui louca de querer competir com ele." Durante os ensaios de A estrela do lar, no Copacabana, foi parada por um dos participantes de um bingo beneficente, que subia e já tinha visto aquele rosto em algum lugar. Depois de segundos de hesitação, desistiu de perguntar e deu o apelo: "A senhora não é a mulher do Buarque de Holanda?" Era mais do que isso. Marieta já foi premiada três vezes por seu desempenho em No Natal a gente vem te buscar, com o Kikito de melhor atriz de curta e longa-metragem no Festival de Gramado de 86 e já atuou durante mais de um ano e meio em Ópera do Malandro, com a aura da minha vida. De qualquer maneira, o fã do casal recebeu um sorriso de resposta e nunca brigaria contra esta minha imagem de mulher do Chico.

"Não briguei contra essa minha imagem de mulher do Chico. Me orgulho muito do trabalho dele e nunca pensei em competir."

ACORDO MÚTUO. Marieta reconhece que o fato de ter deixado de lado a carreira para acompanhar o marido num exílio voluntário na Itália, em 69, e a sua decisão de não aceitar mais convites para trabalhar em televisão por ser "um veículo onde Chico estava proibido de aparecer" ajudaram a criar esta imagem. Mas sempre tomou cuidado para evitar estágios. "Houve épocas em que a imprensa me procurava apenas para servir de ponte até o Chico. Sempre me recusei e acabei prejudicando a divulgação dos meus trabalhos." Por isso mesmo o casal tem um acordo: um não participa das entrevistas do outro. "Fotos juntos então nem pensar, a não ser que seja um dos segredos do sucesso do casamento." Vinte e dois anos com uma pessoa é muito tempo. "Antigamente, eu ficava achando que tinha alguma coisa errada com a gente porque estava todo mundo se separando", brinca.





Na verdade este é o segundo casamento de Marieta. Em 65, se casou de véu e grinalda com o ator e artista plástico Carlos Vergara. Durou só um ano. Quando dividia um apartamento com a amiga Leila Diniz, conheceu Chico, que tinha sido casado. E, como se diz, o bicho pega. Marieta tinha sido chamada por Oduvaldo Vianna Filho para substituir a mãe de sua filha, Tânia, que tinha feito uma plástica, na comédia Viagem à Bordo, com direção de Eduarda Dolabella, no filme Society em baby-doll, de 66, do diretor Carlos Maciel. "Fui acompanhar uma amiga que ia fazer o teste. Acabei sendo escolhida."

"sou do tipo que senta e chora sem parar, mas também sou como joão-teimoso: caio logo e levanto mais rápido"

Marieta faria o filme, se não fosse a fúria de Natália Thimberg, que namorava o diretor, e o ciúme de Sérgio Brito, que por sua vez era casado com Yoná Magalhães.

O diretor Luis Carlos Maciel vê no talento de Marieta uma prova da ressurreição. "O teste dela foi disparado o melhor. Além do bom-senso, já nasce feito, é uma coisa de reencarnação." Maciel só lamenta que esta tenha sido a única vez que trabalhou com ela. "Mas pelo menos hoje todos da equipe do filme temos orgulho por ter descoberto a Marieta." A estréia em cinema não facilitou sua relação com a sétima arte. Com exceção de pequenas participações em poucos filmes, como Chuva de verão, de Cacá Diegues, ela só voltou a ser convidada para fazer cinema em 85. "Teve um tempo que ficava triste porque nenhum diretor me chamava. Depois acabei me conformando. Achava que era porque eu não era nem bonita, nem loura e nem feia o suficiente para fazer o papel de uma horrorosa. Eu sempre tive uma cara muito normal. Além do mais, passei a maior parte da vida de jeans." De 84 a 86 fez três novelas seguidas. Isso chamou muita atenção.



DESILUSÃO. O jejum foi quebrado pelo convite de Ana Torres para viver a mãe de Eliane Giardini, interpretada por Fernanda Torres, em Com licença eu vou à luta. No mesmo ano fez O homem da capa preta, de Sergio Rezende. Soube, por fim, de lauros mais favoráveis no curta A marvada carne, de André Klotzel, e no curta de Fernando Carvalho, O enviado, não sei para onde vai. Este ano já filmou O corpo, de José Antonio Garcia, com Antonio Fagundes e Cláudia Gimenez. O ator vagabundo, de Hugo Carvana. O que Marieta nunca deixou de fazer foi teatro. "O palco é o meu lugar. No cinema por mais que o ator se entregue ao personagem, o que vale é a edição. No teatro não. O diretor faz as marcações dele, mas o dono do espetáculo é o ator." Mesmo assim Marieta raramente fica satisfeita com o resultado de seus desempenhos nos palcos. "Sempre tive consciência dos meus limites. Minhas coisas sempre foram muito batalhadas. Eu vejo a Marília Pêra representar e percebo que ela tem uma coisa especial pronta, que sai naturalmente."

Pura modéstia. "Confio muito no processo de trabalho da Marieta. Ela vai descobrindo o personagem aos poucos. Depois que adquire segurança, solta a parte para novas descobertas", analisa o diretor Naum Alves de Souza. Marieta e Naum já trabalharam juntos em quatro peças, desde que foram apresentados pela atriz Analu Prestes na metade dos anos 80. "É bom demais trabalhar com ela. Geralmente, ela já o centro do que eu estou escrevendo e vai dando sugestões."

Legendas das fotos:

  • Aos cinco anos, no Rio

  • Com a irmã menor, Lúcia

  • Aos 15 anos, formatura


Marieta Severo passou a infância em Ipanema, se formou no curso de ginásio do Colégio Bennett. Resolveu virar professora porque foi reprovada duas vezes nas vagas para o curso de teatro do Tablado, de Maria Clara Machado. Em 66, estreava em televisão como a princesa de O sheik de Agadir, uma personagem que no final da novela se revelava ser a temível Katia. Com a amiga Leila Diniz fez O homem proibido. Um de seus primeiros sucessos foi em Desgraças de uma criança, em 73.





Do sugestões." É o mesmo processo que guiou A estrela do lar. "Nosso namoro profissional começou na década de 70, mas sempre acontecia alguma coisa para estragar", lembra Naum. Agora, as entidades do teatro se encarregaram de nos unir", teoriza Mauro. Marieta tem uma explicação mais prática. "Eu estava precisando de um texto que tivesse também humor. Quando o Mauro falou sobre a ideia dele, achei ótima e fiquei acompanhando todo o processo de criação."

Mais do que isso, Marieta começou a se mexer para conseguir dinheiro suficiente para a produção. "Como atriz, eu tenho um cachê. Como produtora, viabilizo esta minha vontade." Com o novo fôlego que ela já acumulou em No Natal a gente vem te buscar, Um beijo, um abraço e um aperto de mão e Ópera do malandro, estava criando um novo hábito. Marieta não vende mais os dois terços do cachê da comandita da TV Globo, Lilian e Ivete Vibe. "Eu e Chico sempre fomos péssimos para administrar nosso dinheiro. Aqui nesta casa dinheiro nunca foi assunto. Tudo aqui foi conseguido com trabalho, mas nunca soubemos ao certo saber como aplicar."

A prática para vender as peças nos gabinetes de empresas ela já tem. Além do patrocínio da Shell do Brasil que custeou o projeto de incentivo ao teatro, tem a ajuda do Banco do Brasil, Bozzano Simonsen, da Vasp e do Atlântico Amort Hoteis.

JOÃO-TEIMOSO. O sucesso em vender as cotas de patrocínio contribuiu para que Marieta entrasse na sua atual fase de Marieta. "Estou recolhendo o que plantei nos últimos 20 anos. Tenho orgulho de ver que as minhas três filhas cresceram, que eu passei por uma crise séria que fiz durante a minha carreira." Uma separação de Chico Buarque, que a ajuda dos seus 15 anos de análise. "Foi fundamental para mim. Me deu uma maior capacidade de conhecer o personagem, uma vontade maior de ir até continuar, mas não foi fácil. 'Acho que eu já fui fundo demais.' Tão fundo que conseguiu superar uma gastrite nervosa e parar de fumar." Só não conseguiu perder a mania de se controlar sempre. "Nunca explodo. Sou do tipo que senta e chora sem parar, mas também sou como um joão-teimoso: caio logo e me levanto mais rápido ainda."



A peça de Marieta

A estrela do lar é a segunda peça da trilogia sobre Marieta, uma típica família brasileira na década de 60. O autor Mauro Rasi se baseou nos mesmos de cerimônia de ópera, mas a peça de sua mãe para dar vida à personagem de Iolanda. Além de Aspásia (Marieta Severo) a mãe doentia de Iolanda (Stella Rodrigues) e seu marido, o ator paulista Emilio de Mello. Ele é o responsável por toda a parte da peça, para escrever suas histórias. "Na verdade, os personagens não têm um enredo propriamente dito. O roteiro é o banal em climas, a rotina", explica Rasi. Para transformar Aspásia numa personagem cômica, Rasi usa o fato de que os personagens se tornam grandes e se julgam importantes. "É uma coisa tão engraçada quanto a vida", diz ele. A trilha sonora da peça, sempre ao som de músicas dos anos 60 e 70, foi feita por Nelson Silva ou as canções judaicas. Além de um texto leve com piadas e reflexões cariocas, a peça traz pela primeira vez ao teatro um strip-tease. Um motivo para aumentar a ansiedade de Marieta, que há um ano esteve em Paris ou em Berlim não podia sequer imaginar que ficaria no palco, de calcinha. "Não sei como vai ser..." No elenco de A estrela do lar estão ainda Deborah Beltrão, Sonia Guedes, José Carlos de Oliveira, Marise Farias, o ator Alexandre Toro, figurinos de Rita Murtinho e música de Edgard Duvi-vier.

Raios X

Marieta Severo é uma devoradora de cultura. Vai a todas as peças de teatro, adora comprar livros e já assistiu a mais de 80 filmes este ano. Depois de participar de dez ou três curtas-metragens nos últimos três anos, não tem dúvidas de que estes novos cineastas são tão importantes para o cinema quanto a geração de Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil foi para a música popular.

Legendas das fotos:

  • Geraldo Viola

  • Emílio contracena com a atriz

  • Com um jeito terno, apaixonante...

  • West side story, um cult




A atriz analisa. Principalmente que Marieta só fica irritada quando alguém dá palpites em seu trabalho. "Ela é muito organizada e só perde a estribeira quando está ao mesmo tempo é muito louca. Isso é uma relação muito forte, moldes tradicionais, mas supereficiente", enfatiza Mauro. O autor que não elogia a atriz. O paulista Emílio de Mello, 25, que fará o papel de filho de Marieta em A estrela do lar, está encantado com a companheira de palco. "Apesar de ter uma grande atriz permite que o nosso trabalho seja de igual para igual. No início eu me sentia inibido na frente dela, mas ela sabe deixar a gente à vontade. Ela é fantástica", elogia. Mauro Rasi não só concorda com os adjetivos como acha que ela supera fisicamente o tipo da personagem, que não deve ter mais da idade de 40. "Ela é bonita demais para viver a Aspásia. Ninguém diz que ela tem mais de 40 anos, é tão jovem."

Glamour não é exatamente o que interessa a Marieta. Além da peça, seu grande projeto é um centro de documentação do teatro de 600 lugares na Fundição Progresso, que deverá ser inaugurado no dia de 1991. Antes mesmo da inauguração do centro, ela já sabe que vai faltar tempo para administrar tantas atividades. "Mas a minha prioridade continua sendo as minhas filhas, a minha casa." Marieta mora há 18 anos num casarão em Ipanema com Chico e as filhas Helena, de 18 anos, e Luísa, de 14, numa casa espaçosa com vista para a Lagoa, cercada de árvores. A filha mais velha, Sílvia Buarque, mora no prédio em frente. "A minha sorte é que o Chico trabalha em casa. Costumo brincar que ele é a verdadeira estrela do lar." Modéstia da Marieta.

MÁRCIA VIEIRA



Filme: West side story ("é a paixão da minha vida. Acabou virando um vício para as minhas filhas. Sabemos as letras de cor").

Livro: Orlando, de Virginia Woolf ("de vez em quando releio e continuo adorando").

Peça: A estrela do lar ("é bárbara").

Manias: Beatriz, de Chico Buarque (dorme com esta música).

Ator/atriz: A classe artística brasileira ("apesar de não haver escolas, o artista brasileiro aprende na marra. Estes atores jovens se mostram antes de estarem prontos. São de uma coragem enorme").

Diretor: No teatro, Naum Alves de Souza ("despiste enorme. Um grande estudioso"); no cinema os jovens diretores ("está para virar que nem Luiz Carlos Sérgio Resende: estes diretores de curta, na década que vem, formarão o cenário do cinema"). Na TV, é fã de Jorge Fernando ("dá prazer trabalhar com ele, pela competência, criatividade e humor").

Prato predileto: Galinha ao molho pardo, preparada pela cozinheira Madalena.

Mania: Comprar livro ("não importa o assunto, leio muito, forem bonitos eu compro. Tenho prazer em passear por livrarias procurando livros de arte").




segunda-feira, março 16, 2026

diários de Susan Sontag

 diários de Susan Sontag (Reborn: Journals and Notebooks, 1947-1963). 






26 de Janeiro.

Garota, garota envelhecendo, é assombrada pela própria insignificância e devora visões de janelas (histórias, filmes, conversas ouvidas por acaso & cenas na rua, fotos em jornais, etc.) com o sentimento contínuo de que está ‘prestes a’, milagrosamente, assumir o controle de si — de sua própria vida.

A Tragédia da Serra de Sapucaia

 

🌒  o voo que apagou o céu da Panair

 28 de julho de 1950, madrugada de neblina e silêncio sobre as montanhas fluminenses.


A madrugada que se partiu ao meio

A chuva caía fina sobre a Serra de Petrópolis quando, às 4h38 da manhã de 28 de julho de 1950, o céu se rasgou com um estrondo que acordou os moradores do vale. Um clarão cortou a neblina — e depois, o silêncio.
Minutos antes, o voo 099 da Panair do Brasil, vindo de Porto Alegre com escalas em São Paulo, preparava sua descida final para o aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro.
A bordo do Lockheed Constellation PP-PCG, o avião mais moderno e elegante da frota nacional, viajavam 51 pessoas — empresários, famílias, oficiais e uma tripulação veterana. Nenhum deles veria o nascer do sol.


Um símbolo dos céus brasileiros

A Panair do Brasil era orgulho do país. Fundada ainda nos anos 1930, com ligações internacionais e aviões de quatro motores, simbolizava a modernidade de uma nação que começava a se conectar por via aérea.
O Constellation, com seu design futurista e cabine pressurizada, era o orgulho da companhia — o mesmo modelo usado pela TWA e pela BOAC em rotas transatlânticas.
Aquela sexta-feira seria apenas mais um voo de rotina, não fosse a combinação fatal de mau tempo, instrumentos imprecisos e escuridão total sobre as montanhas.


O último contato

Por volta das quatro da manhã, o comandante José Pedro de Barros informou ao controle do Galeão que iniciava a descida para o Rio.
O rádio chiava. As estações de solo da época operavam por radiogoniometria — tecnologia limitada, sem radar de altitude.
“Prosseguindo para aproximação Santos Dumont”, teria sido a última frase audível. Depois disso, nada.

Às 04h38, o Constellation colidiu contra o topo da Serra de Sapucaia, em um ponto de mais de mil metros de altitude. A aeronave explodiu, espalhando destroços e fogo pela mata. O impacto foi tão violento que o clarão pôde ser visto a quilômetros, entre Magé e Petrópolis.


O resgate impossível

Com o dia amanhecendo sob chuva e lama, camponeses da região foram os primeiros a alcançar o local — guiados pelo cheiro de querosene e pelo som distante de metal crepitando.
Equipes da FAB, da Panair e do Exército partiram de Petrópolis, mas a trilha até a fazenda de Sapucaia era quase intransponível.
O que encontraram foi um cenário desolador: destroços carbonizados, árvores retorcidas e corpos espalhados pela encosta. Nenhum sobrevivente.

A notícia chegou ao Rio ao meio-dia. Em poucas horas, as manchetes de O Globo, Diário de Notícias e Correio da Manhã estampavam o mesmo título em letras negras:

“Avião da Panair cai na serra — 51 mortos.”


A dor e o luto

Os corpos foram transportados em caminhões para Petrópolis e depois ao Rio de Janeiro, onde centenas de pessoas se aglomeraram diante do necrotério.
Entre as vítimas havia famílias inteiras, empresários conhecidos e funcionários da própria companhia.
O governo decretou luto oficial de três dias. Igrejas de todo o país celebraram missas em memória dos mortos.

Nos dias seguintes, uma comissão da Diretoria de Aeronáutica Civil foi criada para apurar as causas.
O laudo final apontou erro de navegação e descida prematura, agravados pelo mau tempo. O avião estava em perfeito estado mecânico.
A tragédia foi, portanto, fruto da falta de instrumentos de precisão e da confiança cega na própria experiência — o mesmo tipo de falha que vitimaria tantas tripulações nas décadas seguintes.


O eco de Sapucaia

Por anos, o acidente seria lembrado como o “Desastre de Sapucaia”, sinônimo de tragédia aérea.
Ele expôs as deficiências do sistema de controle de voo brasileiro e impulsionou a modernização da navegação aérea no país.
A Panair, embora abalada, continuou suas operações e manteve prestígio até ser encerrada em 1965, em meio a pressões políticas da ditadura militar.
Mas o nome de Sapucaia nunca mais se apagou do imaginário da aviação civil.


As montanhas ainda guardam

Hoje, passados mais de 70 anos, moradores da região ainda relatam encontrar fragmentos metálicos e pequenas peças de alumínio entre as pedras cobertas de musgo.
Há cruzes discretas fincadas no alto da serra — homenagens silenciosas de famílias que nunca deixaram de subir até lá.
Em noites de neblina, dizem que o som dos motores ainda parece ecoar ao longe, como se o Constellation da Panair, perdido no tempo, tentasse enfim pousar no Rio de Janeiro.

domingo, março 15, 2026

A Poética do Abandono de Dimitri Bourriau

 Sentem-se, acomodem-se. Hoje não vamos falar de cidades que crescem, mas de palácios que silenciam.

Se você é frequentador assíduo aqui do Bar, sabe que temos uma queda por "coisas que o tempo levou". Mas o fotógrafo francês Dimitri Bourriau (o homem por trás da lente do Jahz Design) elevou isso a um nível artístico absurdo. Ele percorre a Europa, especialmente a França, atrás de castelos e mansões que foram esquecidos por herdeiros, pelo governo e pelo próprio mundo.

Trouxe três joias do acervo dele para a gente analisar enquanto a bebida não esquenta:

1. O Manoir aux Palmiers: Onde o Trópico Encontra o Clássico



Na primeira imagem, vemos uma mansão imponente que parece estar sendo engolida por um exército verde. O detalhe das palmeiras à frente dá um ar exótico, quase surrealista, para o interior da França. É o contraste perfeito: a rigidez das janelas francesas contra o caos orgânico da vegetação. É como se a casa estivesse pedindo: "Abandone-me com mais força".

2. O Château des Cheminées: Sentinelas de Tijolo



Olhem para essas chaminés listradas na segunda foto. Elas parecem dedos apontados para o céu, testemunhas de um teto que já não existe mais. Este castelo, conhecido no meio Urbex como o "Castelo das Chaminés", mostra o esqueleto da nobreza. Sem o telhado, o sol invade o que antes era o lugar mais privado da elite. A hera sobe pelas torres como se estivesse tentando costurar as feridas da pedra.

3. O Château Rouge: O Outono Eterno



A terceira imagem nos traz o "Castelo Vermelho". Com seus tijolos aparentes e torres laterais, ele remete a uma era de caçadas e verões intermináveis. Mas reparem nas janelas: são órbitas vazias. Não há mais ninguém olhando para fora. O tapete de folhas secas no chão não será limpo por nenhum jardineiro. Aqui, o outono não é uma estação, é um estado permanente.

O trabalho de Bourriau nos faz questionar: quem ganhou a batalha? O homem que construiu algo tão grandioso para durar séculos, ou a natureza que, com paciência e silêncio, retoma cada centímetro de volta?

Como diria Flannery O’Connor, "de onde você veio já não existe mais". Esses castelos são a prova física disso. Eles são portais para um passado que não tem mais volta, mas que, graças ao olhar de fotógrafos como Dimitri, ainda conseguem nos arrepiar.

15 anos do Aniversario do Tsunami no Japão






fotos : @tkitamura2001

 "3/11" refere-se ao dia 11 de março de 2011, quando o Japão enfrentou uma sucessão de catástrofes que pareciam saídas de um filme de ficção científica, mas eram cruelmente reais.

1. O Gatilho: O Terremoto de Tohoku

Às 14:46 (horário local), um terremoto de magnitude 9.1 atingiu a costa leste do Japão. Foi o terremoto mais forte da história do país e o quarto mais potente já registrado no mundo. A força foi tanta que a ilha principal do Japão (Honshu) se deslocou cerca de 2,4 metros para o leste e o eixo da Terra foi alterado.

2. O Desastre: O Tsunami

O terremoto deslocou uma massa colossal de água. Cerca de 30 a 60 minutos depois, ondas que chegaram a 40 metros de altura em alguns pontos atingiram a costa.

  • O "Muro de Água": Diferente das ondas de surfe, o tsunami de 3/11 foi uma inundação implacável de águas negras carregadas de destroços (carros, casas, barcos e lama).

  • A Destruição: Cidades inteiras, como Rikuzentakata e Minamisanriku, foram praticamente varridas do mapa em minutos.

3. A Crise Nuclear: Fukushima Daiichi

O tsunami inundou os geradores de reserva da usina nuclear de Fukushima Daiichi, causando o derretimento de três núcleos de reatores. Foi o maior desastre nuclear desde Chernobyl em 1986, gerando uma zona de exclusão que existe até hoje.

4. O Saldo e a Memória

  • Vítimas: Cerca de 18.500 pessoas morreram ou desapareceram.

  • Imagens Inesquecíveis: Para o seu blog, as fotos mais emblemáticas são as dos navios que foram parar em cima de prédios de dois ou três andares, uma prova física da altura surreal da água.



Curiosidade: Existe um fenômeno chamado "Telefone do Vento" (Kaze no Denwa) em Otsuchi, uma cabine telefônica sem fios onde as pessoas vão para "falar" com os entes queridos perdidos no tsunami. É um detalhe poético e triste que daria um post belíssimo sobre como lidamos com a perda.

Flannery O'Connor




 “De onde você veio já não existe mais, para onde você pensava que ia nunca existiu, e onde você está não serve para nada a menos que consiga escapar. Onde há um lugar para você estar? Nenhum lugar […] Nada fora de você pode lhe dar um lugar […] Dentro de você, agora mesmo, está todo o lugar que você tem.”


Flannery O'Connor, de Wise Blood (Harcourt, Brace, & Co., 1952)


“Where you come from is gone, where you thought you were going to was never there, and where you are is no good unless you can get away from it. Where is there a place for you to be? No place […] Nothing outside you can give you any place […] In yourself right now is all the place you’ve got.”


Flannery O'Connor, from Wise Blood (Harcourt, Brace, & Co., 1952)

Pirralhos e Pessoas Perfeitas

                        Artigo da revista TIME de 13 de agosto de 1979




Pirralhos e Pessoas Perfeitas

Ah, sim, talvez a gracinha ainda esteja por aí, em algum canto. Roddy McDowall, em A Força do Coração, podia fazer a boneca Barbie parecer uma heroína trágica. A Elizabeth Taylor de 11 anos em A Mocidade é Assim Mesmo tinha uma beleza e um aprumo que certamente seriam notados. Margaret O'Brien em E a Vida Continua podia chorar com ou sem motivo; de qualquer forma, era inevitável. Eram os "bebês" superdotados dos anos 30 e 40, e o fato de Baby LeRoy ter arrancado o nariz de W.C. Fields no set de Um Velho Ninho sempre nos lembra que sob a fachada de Hollywood reside o coração de um protestante descontente.

Mas a posterior escola de atores infantis de LeRoy — um naturalismo com fofura e um sentimentalismo acentuado — raramente era convincente. Quando Jackie Cooper, por exemplo, chorava em O Campeão, ele parecia mais um adotado pelo pai doente do que o filho do lutador. Com poucas exceções, como as crianças em O Rei do Bairro, os astros infantis daqueles dias, quando choravam, choravam baldes de xarope de bordo. Pense na desavergonhada doçura de Freddie Bartholomew em O Pequeno Lord. Com a exceção visionária de O Rei do Bairro, é um cinema de cachos empoeirados que se parece mais com mastros de maio do que com marcos.

A morte, por exemplo, parece menos pungente em suas mãos do que em um cartão de condolências. A morte de Elizabeth Taylor no final de Lassie (1943) parece projetada para equiparar o céu com um canil.

Foi preciso uma boa dose de coragem e algo como um gênio para mudar isso. Judy Garland, em O Mágico de Oz, e Mickey Rooney, em A Cidade dos Rapazes, conseguiram. Mas foi após a Segunda Guerra Mundial, à medida que os estilos mudavam e um novo realismo social surgia, que as crianças no cinema começaram a atuar com seriedade. "Somos os artistas perfeitos", escreveu James Agee em uma crítica de A Força do Coração para a revista Nation em 1946. "Não é de se admirar que gostemos de nos ver."

Apenas um mês antes, Margaret O'Brien e a igualmente jovem Peggy Ann Garner haviam combinado charme de rua e polidez de salão de beleza para dar a Laços Humanos um toque sombrio e ousado. À medida que as crianças começavam a ver o mundo como ele era — uma ameaça sempre presente de todos os lados —, os filmes sobre a infância ficavam melhores.

O final dos anos 40 foi uma época de cinema notável sobre crianças. Filmes como Alemanha, Ano Zero, de Roberto Rossellini, e Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica, olham para o lado sombrio da rua, onde crianças endurecidas pela guerra eram confrontadas com a fome e a morte.

Na Inglaterra, o diretor Carol Reed escalou Bobby Henrey como o filho solitário de um diplomata em O Ídolo Caído, que era sobre a separação abrupta e chocante do ideal.

Cineastas e roteiristas americanos, mais astutos e cautelosos, raramente correram tais riscos. O jovem Dean Stockwell, quase romanticamente belo, deu uma performance impecavelmente natural em O Menino dos Cabelos Verdes, um filme sobre um órfão de guerra cujos cabelos ficam verdes. Mas Stockwell teve que lutar contra um roteiro que era um melodrama descarado. John Ford, em Como Era Verde o Meu Vale, escalou o jovem Roddy McDowall. Foi uma das primeiras performances juvenis a explorar a força básica da infância, mas o filme, um tanto sentimental, antecipou os sonhos dos pobres. Para ser justo com o filme de Ford, o garoto com a espingarda em Shane é um dos momentos mais arrepiantes da história do cinema, mas não é uma criança, é um arquétipo.

Da mesma forma, ninguém usou, também, a frase "pessoas perfeitas" de Truffaut para descrever o sentimento adolescente perfeito em The Last Picture Show (A Última Sessão de Cinema), de Peter Bogdanovich. Bogdanovich, ele mesmo um crítico de cinema, traçou para Jean Vigo, cujo Zero de Comportamento foi feito sem compromisso profissional, e para François Truffaut, cuja estreia na direção, Os Incompreendidos, é um grande poema à juventude rebelde e incompreendida. Mas é George Roy Hill, em Butch Cassidy, que deu ao cinema americano a sua mais perfeita elegia à infância.

Enquanto isso, havia duas crianças excêntricas de filmes de terror que, energizadas, mas não afetadas, por sua possessão demoníaca, pareciam mais anormais do que assustadoras.

Enquanto isso, havia insinuações muito tênues de coisas sombrias no horizonte. Na versão original de A Tara Maldita, de 1956, havia crianças aparentemente normais encenando uma parábola de assassinato e ressurreição, enquanto seus pais mantinham o corpo da mãe morta em um armário.

Filmes como esses lançam um brilho de leviandade sobre a maior parte do que é feito hoje. Hollywood, no entanto, é o baluarte do sentimentalismo profissional. A morte da mãe de Ricky Schroder em O Campeão é recebida com uma reação pequena, mas previsível. Consequentemente, tem havido um retorno aos dramas familiares açucarados na televisão, como The Goodbye Girl e a família sit-com.

O sinal de esperança: uma nova versão de Um Pequeno Romance, de George Roy Hill, que escalou Kristy McNichol e Christopher Atkins para os papéis principais. O diretor está atualmente em pré-produção, e a escalação não foi anunciada. Ele nunca atuou antes, em um teste de elenco aberto. Ninguém poderia dizer que seu pai, ou mesmo sua filha, já o viram.

sábado, março 14, 2026

As Crianças-Prodígio de Hollywood

                                              Artigo da revista TIME de 13 de agosto de 1979

Diane Lane




Show Business

As Crianças-Prodígio de Hollywood Um buquê de rostos novos para iluminar as telas

MATÉRIA DE CAPA

A passagem de catecismos breves e de fácil memorização não deve ser lamentada. Com eles, você ia de Acapulco ao Zaire, mas hoje eles não dizem nada. A doença é o cotovelo de tenista. A OPEP, exigindo seu tributo de sete quilos de papel de jornal, a nova companhia aérea East, o novo conservadorismo. O problema, em suma, é a extensão e a falta de substância das notícias.

É surpreendente, então, e inesperadamente delicioso, por alguma razão, encontrar um número incomum de filmes extremamente bons sobre adolescentes. E os filmes foram feitos, em sua maioria, por adolescentes.



Atrizes que mal entravam na adolescência, ou nem isso, receberam papéis principais. Diane Lane tinha 13 anos quando foi escalada para Um Pequeno Romance. Mariel Hemingway, 17, que interpreta a amante adolescente de Woody Allen em Manhattan, tinha 13 anos quando fez sua estreia em Lipstick - Uma Gota de Sangue, Uma Gota de Amor, quatro anos atrás. A igualmente precoce Tatum O'Neal, 15, está trabalhando em seu oitavo filme. O diretor Terrence Malick escalou Linda Manz, de 16 anos, com rosto de querubim e voz de beco sem saída, após vê-la em um documentário. Ela rouba a cena como a narradora cínica de Cinzas no Paraíso e agora estrela em The Wanderers - Os Selvagens da Noite.

Essas crianças estão criando performances impressionantemente precoces e chocantemente seguras. Os adultos que as dirigem e atuam com elas não são condescendentes ao elogiá-las.

Do ponto de vista de um adulto, esses filmes oferecem uma visão comovente de um país estrangeiro: a adolescência, onde, como escreveu F. Scott Fitzgerald, "se vive uma vida própria, um amor próprio, uma guerra própria de classes". O filme oferece uma visão útil, mas na maioria das vezes romantiza a adolescência, a tal ponto que a maioria dos menores de idade atormentados a reconheceria com um olhar de total incredulidade. O problema não é a acne, mas sim a rebelião, o tédio e a puberdade, sem mencionar a sexualidade. Quando os problemas surgem, é em grande parte por causa do mundo adulto que insiste em sua intromissão. O Mickey Rooney de antigamente poderia ter querido dar um show; esses jovens parecem querer silêncio.

No entanto, dois desses filmes retratam adolescentes de 14 anos como prostitutas, e eles foram interpretados por atrizes da mesma idade. O que poderia ter sido considerado pornografia há uma década agora é visto como um tema apropriado para um filme sério. Os tabus estão sendo quebrados.

A exploração do tabu mais antigo, o incesto, foi tentada em uma série de TV francesa, onde o tabu ainda vigora. A série foi comprada pela NBC, que então se viu em um dilema. A história, filmada em locações em Paris, mostrava uma estudante de intercâmbio americana de 16 anos, interpretada por Kristy McNichol, também de 16 anos, que se apaixona por seu anfitrião francês, Zack (Leif Garrett), de 19 anos. Ele quer dormir com ela. A questão que agitava os executivos da TV era: os irmãos podem fazer isso? A resposta tem sido não. Uma vez que a TV, a resposta é difícil. Como a relação quase incestuosa era realista para um drama sobre adolescentes, embora estático, exceto que a televisão exige ação, os produtores da série descartaram a ideia. O programa resultante foi uma provocação tímida e erótica.

Essa provocação raramente é confrontada em Um Pequeno Romance. Aos 14 anos, Diane Lane já é uma beleza deslumbrante, com olhos de corça, uma boca pretensiosa e um andar tímido. Ela interpreta uma garota americana que mora em Paris e que foge com um garoto francês da mesma idade (Thelonious Bernard). Um amigo em comum (interpretado com grande estilo por um idoso Laurence Olivier) os ajuda em sua busca. Olivier, que diz que é um diplomata aposentado, é na verdade um batedor de carteiras profissional.

O charme dos três lhes deu a chance de viajar de trem de Paris para Veneza, onde os amantes pretendem selar seu amor beijando-se em uma gôndola sob a Ponte dos Suspiros ao pôr do sol. A premissa é encantadora, o roteiro de Allan Burns é afiado e engraçado, e as atuações são habilmente controladas pelo diretor George Roy Hill (Butch Cassidy, Golpe de Mestre). Talentos ajudam. Mas outra razão pela qual o filme é tão encantadoramente romântico — eles têm 13 anos, é a inocência.


Talento de sobra

Eles são jovens, brilhantes e um pouco assustadores em seu profissionalismo. A timidez, pelo menos no set, não é uma das suas características. Mas, como dizem todos os que trabalharam com elas, são completamente crianças, nem um pouco afetadas pela adulação, e ainda propensas a crises de riso. Thelonious Bernard, que foi escolhido entre 2.000 garotos franceses para interpretar o papel principal masculino em Um Pequeno Romance, não tinha experiência em atuação. Quando Olivier estava por perto, "ele ficava paralisado", lembra o diretor George Roy Hill. "Ele ficava os observando, sem ser condescendente com eles. Ele sempre os tratava como colegas." O que o surpreendia era que eles não o tratavam de forma diferente. Shields lembra que o diretor Louis Malle lhe disse: "Laurence Olivier tem medo de você. Ele não está acostumado com crianças. Ele vem e me diz o que você fez de errado. Ele tem tanto medo de você que não sabe o que dizer." O resultado, no final das contas, foi que o famoso ator veterano e a criança se tornaram bons amigos. "Nós o tratávamos como um adulto, não como uma criança pequena", diz Olivier. "Depois de alguns dias, eles não se sentiam mais constrangidos. Às vezes, eles me provocavam, mas outras vezes eram doces e me contavam seus problemas. Nós todos nos tratávamos como iguais."

Para suas primeiras cenas, os momentos mais difíceis foram com as câmeras Arriflex. "Tão grandes e assustadoras", diz Diane Lane. "E o microfone é tão próximo que é difícil para eles se lembrarem de não olhar para ele." Diane conseguiu um papel na produção da La Mama Theater de Medeia. "Eu era tão ruim", diz ela, "mas continuei." Para sua estreia no cinema, em Pretty Baby, Shields teve que esmagar uma garrafa na cabeça de um homem. Ela fez a cena em que esmaga a garrafa cenográfica contra um poste para sentir como seria. Quando a produção, diz Lipstick, começou a tomar forma, foi decidido que a irmã mais nova de Margaux, a estrela, deveria ter o papel da irmã de 13 anos. Tatum O'Neal fez o teste para o papel, mas foi considerada "muito profissional". Os críticos estão dizendo que esta garota séria e gordinha é a atriz certa, mas ela não tem treinamento. Tatum O'Neal fez o teste para o papel principal em International Velvet, mas foi rejeitada. Em vez disso, a jovem Nanette Newman, filha do diretor Bryan Forbes, foi escalada para o papel. Tatum foi dispensada da casa de O'Neal, e Tatum, segundo ela, "agiu como uma idiota". O próprio O'Neal a apoiou para o papel, mas o diretor Lamont Johnson se recusou a contratá-la.

Hemingway: maçãs do rosto e primavera, alma rápida

Linda Manz foi à escola um dia para descobrir que um diretor de elenco estava lá. Ela não sempre sonhou em atuar e foi informada que estava sendo escalada em um filme de baixo orçamento. Mas quando ela fez o teste para Cinzas no Paraíso e The Wanderers, os diretores ficaram impressionados com a atrevida, dura e sábia Linda Manz, uma gata de rua de verdade que instantaneamente se tornou a favorita da crítica. Na entrevista, ela disse o mesmo de si mesma: "Eu não tinha ideia do que estava falando. Era só para me safar da aula." Então, fiz um teste com outras quatro garotas. Eu só fiquei brincando com elas para parecer descolada. E funcionou. O que ela fez, Manz, como o resto de seus colegas prodígios, foi parecer natural. Um olhar para o jardim.



Diane Lane. Ela passou seis felizes semanas no México, em Durango, onde Cattle Annie and Little Britches estava sendo filmado. "Todo dia era a mesma coisa. Mas não havia Bubble Yum. Eu sempre quis ir para um faroeste", diz ela. "Zip, lá vamos nós." Ela fez aulas de equitação e aprendeu a atirar. Lane não ficou muito tempo em Los Angeles para sessões de fotos e testes. Logo ela estava de volta a Nova York para interpretar uma adolescente quieta em A Watcher in the Woods. Ela passou o verão andando a cavalo na fazenda da família em Connecticut, em um cavalo que ganhou no Obispo Rugby Club (um presente de sua mãe). Quando questionada sobre Um Pequeno Romance, confessando que tinha um pôster de John Travolta em seu quarto, ela pergunta: "Você se importa se eu disser isso? Eu vi Os Embalos de Sábado à Noite sete vezes." Ela diz que se interessou por um roteiro de um drama sobre a vida de uma garota chamada Alice, mas "não era realmente o papel certo para mim". Ela foi uma das muitas que tentaram um papel em O Despertar de um Pesadelo, mas não foi escolhida. "Eu estava tentando conseguir um papel. Mas eles eram todos mais altos que eu." Ela o fez na frente do público. Ela estava se apresentando para o diretor de elenco.

Diane interpretou seu papel de prostituta infantil em Ladies and Gentlemen, The Fabulous Stains, um filme sobre duas adolescentes fugitivas. A produtora de Elia Kazan, que a viu em Um Pequeno Romance, telefonou e ofereceu-lhe um papel. A princípio, Lane estava relutante, porque o roteiro pedia nudez. Ela foi ao escritório de Kazan, com a mãe, e discutiu suas razões para rejeitar um papel que poderia prejudicar sua reputação e sua autoimagem. Ela e a mãe conversaram com o produtor por horas. Ela decidiu não aceitar porque havia muito mais do que nudez envolvida. Não seria publicado.

Ao final do longo discurso de aceitação, Kazan se levantou, cruzou a sala, pegou a conversa e pisou em todo o seu discurso. No dia seguinte, Malle a aconselhou a não aceitar o papel. Mas o pai dela, Burt, um ex-ator, a convenceu a reconsiderar.



Lori Loughlin: um impacto que vai além da beleza

Se Lolita fosse filmado hoje, o papel-título seria interpretado por uma atriz de onze ou doze anos que realmente entende de sexo. "Eu olhei primeiro para ver se ela atuava bem", diz François Truffaut, cujo filme sobre uma adolescente que engravida, A Mulher do Lado, é um dos melhores sobre o assunto. "Eu também procuro vivacidade, acima de tudo." Diz o diretor George Roy Hill, que adaptou o roteiro de Um Pequeno Romance para crianças: "Prefiro dar o roteiro a elas e deixá-las ler, para que possam expressar as ideias com seu próprio vocabulário. Acho que essa é a maior diferença." Adolescentes, diz Hill, "têm menos inibições, pelo menos no começo".

Truffaut pode estar subestimando a seriedade com que as jovens atrizes levam seu trabalho. Brooke Shields se aplica com diligência ao que está fazendo. "Eu nunca fiquei nervosa, e fiz seis filmes", diz ela. "Talvez eu fique um pouco tensa, mas o mais próximo de ficar nervosa foi em Just You and Me, Kid."

Hill diz que às vezes atuar se torna mais uma questão de imitar adultos ou enganar as pessoas. "É isso que atuar é", diz ele. Se ele fosse fazer o filme hoje, ele diz, "eles fariam todo tipo de coisa juntos". Para o almoço, Hill sentava-se com as duas jovens estrelas de Um Pequeno Romance e as ouvia fofocar. Às vezes, o principal problema parecia ser que Thelonious não falava inglês tão bem quanto Diane, e ela não falava a língua dele. Diz Hill: "Isso não durou muito." Para resolver o problema de química, ele os fez assistir a filmes juntos. "Eles se davam bem por dez minutos. Logo começaram a rir, depois a brigar e depois a terminar."



Brooke Shields, uma curiosidade de Louis Malle, mas a Sra. Shields é a maior personagem que não parece ser inventada, alguém que poderia facilmente se passar pela filha do presidente. Ela é uma garota de doze anos interpretada por Brooke Shields, mas interpretada com tanta convicção que é difícil dizer onde termina a atriz e começa o personagem. O que depois do filme parece ser uma alegre pacifista é, na verdade, uma adolescente confiante, uma beleza feliz que poderia iluminar o dia de qualquer um. Ela parece aproveitar sua vida, ou pelo menos sua carreira, como atriz. "Fui a muitos testes de cinema e não consegui nenhum papel", diz ela.

A carreira de atriz pode ser difícil, chata, e o trabalho pode ser tão exigente para as crianças mais novas quanto para alguns dos outros atores infantis. Sumac, a estrela infantil peruana, foi submetida ao mesmo tipo de escrutínio. Durante as filmagens de The Blue Lagoon, um diretor ficou tão furioso com a jovem estrela que a colocou em um barco e remou para o meio de um lago, deixando-a lá. A história diz que ela era tão boa atriz quanto sua irmã, Jane, mas não tão bonita. "Oh, meu Deus", diz ela, "ele disse isso?" Sua mãe insiste que Brooke é alta o suficiente (5 pés e 9 polegadas) para parecer mais velha, embora ela não diga. "Não, mas obrigado por perguntar." Brooke começou sua carreira na infância em comerciais de TV para a boneca Ivory Snow e a comida de bebê da Nestlé.

Sua imagem pública é a de uma garota legal, a vizinha que por acaso é uma beldade. Seus pais se separaram quando ela era criança. "Ela é muito parecida com a mãe", diz um amigo da família. Mas ela também é parecida com o pai, que a vê com frequência e leva a filha para Long Island. O que pode ser mais natural? Ela é modelo desde os onze meses e admite: "É estranho ver seu rosto nas revistas".



Mariel Hemingway. Seu último filme, Manhattan, e ela é a personagem feminina mais forte e memorável do filme: dura e cheia de alma. Ela vive em Ketchum, Idaho, com seu marido, o restaurateur Stephen Crisman. Ela está morando em Nova York; Mariel Hemingway é uma daquelas atrizes que você sente que conhece há anos, mas não conhece. No verão, ela está saindo com os amigos da cidade, onde todo mundo parece pertencer a Ketchum, Idaho. No outono passado, ela estava em Paris. Então, quatro meses antes de Mariel estar em Manhattan, ela estava no rancho da família com dois labradores sujos.



Tatum O'Neal. Zits não são permitidos, nem conversa de bebê. Os pais de Tatum estão cientes do constrangimento de ser para outras crianças, e eles mantiveram sua filha longe da imprensa. Os Movie kids são uma raça à parte, e aos 15, Tatum não é exceção.

Ela está estrelando em um drama da CBS-TV, agendado para lançamento no próximo ano. Ela é uma garota rica e tímida em uma cidade pequena. Em International Velvet, ela está programada para visitar a cidade com seu pai. No entanto, Tatum está relutante em deixar o rancho. Ela diz: "Do meu ponto de vista, ela está certa. Ela não pode interpretar uma garotinha." Talvez ela se identifique com o papel. Seu papel no filme é aquele de uma radical de 18 anos, mas a personagem de 18 anos está tendo uma chance.

Sua mãe, a atriz Joanna Moore, diz que se arrepende de não ter passado mais tempo com a filha quando ela era mais nova, "mas 18 anos é uma idade terrível". Talvez no próximo ano os roteiros fiquem mais interessantes.

Ela lembra que lhe ofereceram o papel de uma prostituta, mas recusou. "Não estava certo para mim", diz ela. "Não quero ser rotulada." Ela parece próxima de seu pai, que a criou desde os quatro anos.



Linda Manz. "Eu não tive que atuar. Eu simplesmente estava sendo eu mesma. Não foi grande coisa", diz a assustadora Linda Manz, uma vigarista de rua de 16 anos com sotaque do Queens que vive em Manhattan, sobre seu primeiro papel no cinema em Cinzas no Paraíso. A narradora original do filme era uma adulta, mas o diretor Terrence Malick decidiu usar a voz de Manz porque "era eu". Não sou uma pessoa estranha, onírica, como Ursula, mas certamente posso me identificar com isso."