UPA — O Voo Livre do Desenho Animado
Por Antônio Moreno - Jornal do Brasil 1979
Psicose, Unicórnio no Jardim, Aventuras de um Asterisco
O desenvolvimento do desenho animado nos Estados Unidos foi por muito tempo limitado e também bem imprensado em termos de criação, pelo formato clássico, o desenho certinho, com boneco de rosto redondo, proporções exatas e movimentos suaves — sempre cultivado como um bem de família. A fórmula, desenvolvida à função por Walt Elias Disney, percorreu o mundo e conquistou prestígio e lucro para quem passasse em suas mãos. Desde cedo, ele soube perceber o gosto do público infantil e familiar, atingindo todas as faixas de idade.
Numerosos artistas que se dedicaram à arte de animação se notabilizaram na década de 30, trabalhando em estúdios que não fugiam dessa forma clássica. Entre eles, Dave e Max Fleischer — os produtores de Betty Boop, a escandalosa bonequinha condenada na década de 30 por um tribunal de Nova York, com sua saia curta e sua liga com flores prendendo a meia.
Sua tentativa de dar ao desenho animado uma nova forma de expressão foi abafada pela moral dominante e acabou em 1945, quando artistas saídos dos grandes estúdios de cinema americano se uniram para fazer frente a Walt Disney, formando a United Productions of America: UPA. Do movimento deflagrado pela UPA brotou a forma, hoje comum em todo o mundo, de traço solto, geométrico, colorido, com figuras simplificadas. Formou-se escola nos países socialistas (URSS, Tchecoslováquia, Iugoslávia, Bulgária, Hungria), refletindo a nova concepção criativa, com traços descontraídos, simples e historicistas.
Filmes como The Cat, que previamente jamais seriam distribuídos no Brasil, começaram a ser exibidos ao público, como é o caso do filme italiano de Brunno Buzzetto, que, partindo da ideia do melhor dos Disney, Fantasia, se expande em direção ao novo, realizando Música e Fantasia (Allegro Non Troppo), onde se abrem a magia da criação e as formas e personagens em espaço livre.
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Três estilos de desenho: Cinderela (E), de Disney; Betty Boop, de Davi e Max Fleischer; e uma personagem da UPA, influenciada pelo traço de Modigliani.
A UPA: O Voo Livre da Animação
A UPA nasce pelas mãos de Stephen Bosustow, que, junto a John Hubley, Pete Burness, Robert Cannon, Ted Parmelee, William Hurtz, Art Babbitt, Lew Keller e Al Kouser, forma um grupo dissidente dos estúdios de Walt Disney.
O resultado surgiu do único método novo: a criação do desenho animado sem caricatura. Utilizando traços de melhores cartunistas e ilustradores, como os da New Yorker e Esquire, criaram personagens como o robô Gerald McBoing-Boing e Mr. Magoo, conhecido até hoje na televisão, personagem criado por Pete Burness.
Mas, como o caminho da arte hoje não seja imediato, a penetração da UPA foi difícil. Sofreu a mesma lentidão da crítica, e foi relegada ao segundo plano em função do êxito comercial dos filmes de Disney.
Satirizando o american way of life, os sonhos do homem prático, Mr. Magoo, míope, desastrado, faz tudo errado e nunca percebe nada — e sempre termina bem. Um exemplo clássico é o episódio Take the Elevator (“Pegue o elevador”), parodiando o filme Do Not Smoke (“Não fume”).
Outro personagem, Gerald McBoing-Boing, é o menino que vive problemas de comunicação. Os pais, incapazes de compreendê-lo, procuram curá-lo, pois o menino só consegue emitir sons e acordes vocais, emitindo um tremendo ruído.
Os sons vão se ampliando, e o menino, quando tenta se aproximar da garotada, ouve um ruído de locomotiva quando estão em animado jogo de bola de gude. Expulso da escola, por não falar e causar perturbações entre os alunos, foge de casa — numa sequência inesquecível da animação mundial: ele atravessa uma escada de traço simples, num fundo negro, carregando uma trouxa de roupa nas costas e, de um pedaço de madeira, surgem os primeiros flocos de neve.
Um trem entra em cena, Gerald corre perturbado e cai de cansaço. Pessoas o rodeiam e entre elas um velhinho que vai impressioná-lo e levá-lo ao sucesso, aperfeiçoando em shows a sua arte de emitir sons. Gerald volta à sua cidade natal e é recebido com grande pompa e euforia.
A Simplificação e a Liberdade da UPA
A UPA, seguidamente, se renova, e o traço simplificado, na maior liberação e uso da cor, principalmente na desestruturação da proporção acadêmica dos “bonecos”, desenvolve um desenho livre, abordando temáticas adultas com muita graça, mas sempre renegando o escapismo.
São filmes da UPA preciosidades como Madeleine, Unicórnio no Jardim, Jogos Ternos e Aventuras de um Asterisco. O estilo da UPA chega inclusive a influenciar Disney, que, adotando a realização Toot, Whistle, Plunk and Boom (filme premiado com o Oscar para a Disney e responsável pela criação de um número de escolas desvinculadas do academicismo).
A UPA, no entanto, vai mais tarde se voltar para produções digestivas e adaptadas para televisão, por não despertar interesse suficiente no público americano. Mas as ideias lançadas permaneceram, ainda por muito tempo como traço criativo aceito, hoje assimiladas e, por isso, de maior veiculação, sufocando a área do experimentalismo, da vanguarda.
Os Mestres e o Legado
No entanto, artistas como John Hubley, premiado em diversos festivais, Ernest Pintoff e Saul Bass — que se especializou em desenhar créditos e apresentações para filmes longos ao vivo — prosseguem em novas experiências de grande valor.
De Saul Bass podemos citar a magnífica apresentação de Psicose, onde os créditos se misturam a traços, dando uma perfeita noção visual de uma personalidade dividida, interpretada por Anthony Perkins.
Dois Filmes Notáveis
Em dois filmes, Flebus, de Ernest Pintoff, e O Pequeno Malabarista de Nossa Senhora, de Al Kouser e Gene Deitch, a tela grande do cinemascope é explorada com utilização de todos os espaços em sequência, de canto a canto, criando um curto de ação dentro do mesmo enquadramento.
A história de O Pequeno Malabarista de Nossa Senhora é a de um frade triste que, fracassando em seu intuito de obter sucesso com o público, resolve entrar para um mosteiro. O espaço oferecido pela tela do cinemascope serve para mostrar, num traço mínimo (um risco formando um arco representando as diversas portas dos corredores dos frades), o caminho do jogador de bolinhas, entrando a cada uma delas.
Ao final, ele se encontra num grande salão, e à frente da imagem da Virgem, começa a malabarizar com bolinhas. Tendo se cansado, desmaia, e sua alma é acolhida por dois frades. Pela manhã, quando os frades chegam à igreja, presenciam um milagre: a mão da Virgem surge numa das janelas segurando as bolinhas.
Outra vez, a tela grande foi usada com grande força na cena final, mostrando a presença divina do milagre e a leveza do traço.
Legendas originais
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Três estilos de desenho: Cinderela (E), de Disney; Betty Boop, de Davi e Max Fleischer; e uma personagem da UPA, influenciada pelo traço de Modigliani.
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A utilização da tela grande do cinemascope no traço simples da UPA, em O Pequeno Malabarista de Nossa Senhora.
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Mickey e a turma de Disney, todos no estilo clássico.
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O estilo da UPA comparado com uma pintura de Modigliani.
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Cenas de Música e Fantasia, de Brunno Buzzetto, onde a descontração e a irreverência tomam conta de um espetáculo de primeira linha.





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