NOS ACOMPANHE TAMBÉM :

segunda-feira, julho 27, 2026

O Irmão João

 


Faz 52 anos que uso óculos. Só os abandonei agora devido a uma inevitavel catarata que me obrigou a cirurgias nos dois olhos que agora passam a entender o mundo com novas lentes. É estranho. Os oculos estavam incorporados à minha personalidade. E me faz lembrar quando comecei a usa-los

A armação era daquelas feiosas, que pareciam pesar uma tonelada em cima do nariz de uma criança de dez anos. Na Petrópolis de 1974, usar óculos na infância não era um charme retrô nem um manifesto estilístico; era uma sentença de desajuste com o temeroso apelido: "quatro olho" .

Eu os odiava com a força que só a infância consegue destilar. Havia dias em que eu os desafiava, saindo de casa no escuro da minha miopia, tateando o mundo para provar a mim mesmo que podia viver sem eles. Outros dias, a realidade impedia o blefe e eu os vestia, sentindo o olhar de todo mundo pesar sobre as lentes fundas.

Era época da colônia de férias, sediada bem no coração do Batalhão de Petrópolis — uma ironia e tanto para os meus dez anos, numa época em que a ditadura militar impunha seu passo pesado e fardado sobre o país, transformando até quartéis em áreas de lazer como cartilha de relações públicas. No primeiro dia, fui de óculos. No segundo, sem. No terceiro, a hesitação.

Até que o Otávio me pegou no flagra.

O Otávio era um garoto curioso, daqueles que investigam o universo com a naturalidade de quem não teme as regras ou o ambiente austero do batalhão. Ele empacou na minha frente, cruzou os braços e disparou a pergunta inevitável:

— Por que ontem você tava de óculos e hoje tá sem?

Naquele segundo exato -  entre a vergonha de admitir a fraqueza dos meus olhos e a urgência da sobrevivência infantil -  nasceu o meu irmão.

— É que eu tenho um irmão gêmeo — soltei, sem piscar.

— Gêmeo? — os olhos do Otávio se arregalaram.

— É. Eu me chamo Marcelo. Ele se chama João. O João usa óculos. Eu não uso.

— E por que a gente nunca viu vocês dois juntos? — desconfiou ele, estreitando os olhos.

A mentira, quando é boa, exige precisão logística. Dei de ombros com a maior naturalidade do mundo e mandei a cartada mestre:

— Porque quando a minha mãe foi fazer a inscrição aqui no Batalhão, só tinha uma vaga. Ela tentou de tudo, mas não conseguiu outra. Aí ela botou a vaga no nome do Marcelo. Como a gente queria muito vir, resolveu fazer um esquema: um dia eu venho, no outro ele vem. Por isso que a gente nunca se cruza.

O Otávio  se amarrou com a explicação. Ficou fascinado em ter dois coleguinhas em dias diferentes. 

Sim, a história colou. E colou tanto que o João virou uma entidade oficial da colônia de férias militar. Nos dias em que eu aparecia de óculos, os colegas me olhavam com a solidão de quem sabia que eu estava carregando o fardo da miopia pelo irmão. Nos dias sem óculos, era o Marcelo quem reinava. 

Mas toda narrativa complexa  exige engenharia de sobrevivência.

O ápice da tensão aconteceu no último dia da colônia. Era o encerramento oficial no batalhão, com direito a mães reunidas, balçoes de gás,  discursos dos oficiais e monitores e, o pior de tudo, o perigo iminente de cruzamento de dados.

Meu maior pavor não era ser descoberto pelos meninos; era a minha mãe dar de cara com a mãe do Otávio. Imagine a cena: senhora dona de casa abordando minha mãe no meio do quartel para elogiar o esforço dos gêmeos e perguntando qual dos dois era o mais estudioso. Eu passei a manhã inteira circulando pelas beiradas para manter as duas senhoras em órbitas totalmente distantes. Por milagre divino e correria estratégica, consegui evitar o colapso diplomático. A colônia acabou, o quartel ficou para trás, e o mito de João e Marcelo sobreviveu intacto no papel.

Um mês depois, estava eu com outros coleguinhas num domingo abafado de carnaval no tradicional baile infantil do Clube Petropolitano. Confete no chão, serpentina nos salões , o som abafado de marchinhas ecoando pelas paredes do clube.

Eu estava distraído quando alguem  gritou :

— João! João! 

Antes que eu pudesse raciocinar, um vulto disparou na minha direção, desviando de crianças fantasiadas de pirata e super-homem no meio da folia do Petropolitano. Era o Otávio. Ele parou na minha frente, ofegante, abrindo o maior sorriso do mundo, genuinamente feliz por reencontrar o parceiro de quartel de verão.

Eu congelei por um segundo, olhando para o rosto dele. Nunca fui o João. Nunca serei o João. O João era apenas um pedaço de vidro que eu escolhia ou recusava colocar no rosto.

Mas naquele instante, no meio do salão lotado do clube, eu não tive coragem de desmanchar a fantasia. Sorri de volta para o Otávio, aceitei o meu nome emprestado e deixei, por alguns instantes, que o meu irmão gêmeo vivesse mais um pouco. O Marcelo, aquele sem óculos, resurgiria 52 anos depois. 



Heidi Priebe

AMAR ALGUÉM A LONGO PRAZO É COMPARECER A MIL FUNERAIS DAS PESSOAS QUE ELAS COSTUMAVAM SER.



As pessoas que elas estão exaustas demais para continuar sendo. As pessoas que elas não reconhecem mais dentro de si mesmas. As pessoas que elas deixaram para trás ao crescer, as pessoas em que elas acabaram nunca se tornando. Nós queremos tanto que as pessoas que amamos recuperem sua faísca quando ela se apaga; que sejam encontradas rapidamente quando estão perdidas. Mas não é nosso trabalho cobrar de ninguém a pessoa que ela costumava ser. Nosso trabalho é viajar com elas entre cada versão e honrar o que emerge pelo caminho. Às vezes, será uma chama ainda mais luminescente. Às vezes, será um estalo que desaparece e inunda temporariamente a sala com uma escuridão perfeita e necessária.



domingo, julho 26, 2026

Mathieu Van Assche







 Estas imagens fazem parte do trabalho artístico do fotógrafo, ilustrador e designer gráfico belga Mathieu Van Assche.

Esta série específica — frequentemente chamada pelo artista de "fotos sabotadas" (sabotaged photos) — não é gerada por inteligência artificial. O processo de criação de Mathieu Van Assche é inteiramente analógico e manual:

  1. Fotografias originais: O artista recolhe fotografias antigas reais (frequentemente retratos de família dos séculos XIX ou início do XX, postais antigos ou imagens de arquivo) em feiras da ladra e mercados de antiguidades em Bruxelas.

  2. Intervenção manual: Em vez de usar edição digital ou IA, ele desenha diretamente sobre as fotografias em papel utilizando canetas acrílicas (como as canetas Posca).

Os monstros escuros, criaturas de olhos brilhantes ou silhuetas que abraçam as pessoas nas fotos são intervenções físicas feitas à mão. O objetivo do artista é dar uma "segunda vida" a estas imagens esquecidas, misturando a nostalgia e a seriedade dos retratos antigos com um universo lúdico, misterioso e por vezes cómico de criaturas fantásticas.


sábado, julho 25, 2026

O Cão dos Baskervilles (The Hound of the Baskervilles) 1959



O Cão dos Baskervilles (The Hound of the Baskervilles, no original) é um livro escrito por Sir Arthur Conan Doyle, tendo como protagonistas Sherlock Holmes e o Dr. Watson. Publicado em 1902, a história era originalmente dividida em diversas partes, impressas pela revista Strand Magazine de Agosto de 1901 a Abril de 1902.
Considerada uma das melhores aventuras do famoso detetive, O Cão dos Baskervilles conta a história do Solar dos Baskerville, que há quinhentos anos abriga a família com o mesmo nome. No entanto, no dia da morte de Hugo Baskerville por um suposto cão diabólico, ergue-se a lenda de que este mesmo cão negro e com fogo a saír dos olhos e da boca assombra a família, matando cada um dos seus membros que se arrisca na perigosa charneca próxima ao solar. Sir Charles Baskerville tem o mesmo destino de Hugo: é morto pelo cão. O terrível animal não precisou nem de tocar no homem, mas matou-o de susto, já que Sir Charles sofria do coração.
Já em 221B Baker Street, o Dr. Mortimer, antigo amigo de Charles, pede ajuda a Holmes para desvendar o mistério do Cão dos Baskervilles, e apresenta o novo morador do Solar: Sir Henry Baskerville, sobrinho de Sir Charles.
De todas as versões deste famoso conto de Sherlock Holmes, esta é sem dúvida a melhor e também das mais fiéis ao espírito de Arthur Conan Doyle. Peter Cushing dá ao personagem do detective a mesma personalidade e confiança que ele tem nos livros, enquanto que André Morell desempenha um óptimo Dr. Watson. E como este é um filme da Hammer, realizado por Terence Fisher, não podia faltar Christopher Lee, na pele do anfitrião Sir Henry Baskerville.
Uma verdadeira pérola da Hammer.

sexta-feira, julho 24, 2026

Andréa Tragueta

 




Andréa Tragueta relembra quase 30 anos no O Diário e diz que ainda não consegue passar em frente ao antigo jornal

Quase três décadas dedicadas ao jornal impresso fizeram de Andréa Tragueta uma das mais respeitadas diagramadoras de Maringá. Convidada do Encontros com a Imprensa, da Rádio UEM FM e UEM TV, apresentado pelo jornalista Marcelo Bulgarelli, ela relembrou sua trajetória profissional, as transformações do jornalismo e a emoção de viver o último dia de funcionamento de O Diário do Norte do Paraná.

Natural de Palotina, Andréa conta que desde criança tinha dois sonhos: morar em Maringá e trabalhar em um jornal. O primeiro se realizou quando veio estudar na Universidade Estadual de Maringá (UEM). O segundo começou pouco depois, ao conquistar uma vaga como revisora em O Diário, onde permaneceu por quase 30 anos, acompanhando todas as mudanças tecnológicas e editoriais do veículo.

Durante a entrevista, ela recordou a evolução da produção gráfica do jornal, desde a diagramação manual até a informatização das páginas. Mesmo sem experiência, foi uma das primeiras profissionais a assumir o novo sistema de diagramação digital, ajudando a liderar a transformação da equipe. Ao longo dos anos, trabalhou com diversos editores, entre eles Jorge Henrique Lopes, Edson Lima, Edvaldo Magro, Rogério Fischer, Décio Sperandio, Milton Havaiane e Tele.

Reconhecida pelo cuidado com o acabamento visual das páginas, Andréa afirma que o fechamento de cada edição exigia rapidez, precisão e capacidade de adaptação às constantes alterações de última hora. Hoje, além de atuar no Jornal do Povo, continua desenvolvendo projetos de diagramação de livros e materiais editoriais para diversos clientes.

Um dos momentos mais marcantes da conversa foi o relato sobre o encerramento das atividades de O Diário. Andréa esteve presente no último dia de funcionamento do jornal e ajudou a apagar as luzes da redação. A lembrança ainda é dolorosa. Segundo ela, até hoje evita passar em frente ao prédio onde trabalhou durante grande parte da vida, por ainda não conseguir aceitar o fechamento do jornal.

Após o encerramento das atividades do veículo e os impactos da pandemia, viu boa parte dos trabalhos desaparecer. Em busca de estabilidade, ingressou por meio de processo seletivo no sistema penitenciário do Paraná, onde atua como monitora de ressocialização. Mesmo na nova função, sua experiência em comunicação continua sendo aproveitada em atividades relacionadas à produção de conteúdo.

Ao refletir sobre o cenário atual da comunicação, Andréa demonstra preocupação com o uso indiscriminado da inteligência artificial na produção de textos. Para ela, nenhuma tecnologia substitui a sensibilidade, a criatividade e a qualidade da apuração realizadas por profissionais preparados. "O bom jornalista sempre vai existir", afirma.

Aos estudantes de Comunicação, ela aconselha que preservem a essência do jornalismo e invistam na formação contínua. Embora tenha construído uma carreira de sucesso, revela que ainda sonha em cursar a faculdade de Jornalismo, desejo que pretende realizar no futuro.

Fora do ambiente profissional, Andréa gosta de ler, assistir séries, praticar exercícios físicos e cuidar dos gatos. Ao olhar para sua trajetória, afirma que gostaria de ser lembrada pelo trabalho que realizou e pelo compromisso que sempre teve com a qualidade da informação e da produção editorial.

O Encontros com a Imprensa vai ao ar às sextas-feiras, às 13h, e aos sábados, às 16h, pela UEM FM 106,9, com transmissão também no YouTube da UEM TV e no Spotify.

quinta-feira, julho 23, 2026

A História Real de Eline Lena Jacobsen

 



Estivemos na exposição sobre o Titanic no Shopping Eldorado  em SP.  Logo no inicio, voce recebe o cartão com, o nome de um passageiro do naufrágio do RMS Titanic que aconteceu na madrugada do dia 15 de abril de 1912, após a colisão do navio com um iceberg.  No fibnal da exposição, erxistem os nomes de todos os passageiros e tripulantes e o visdistante tenta descobrir o que aconteceu com aquele cujo nome está no cartão.

Porém, não encontrei o nome da minha passageira, mas depois fui saber sobre Eline Penni / Gunhilde Oline Jacobsen. Isso!  Segurar nas mãos um objeto que parece uma simples lembrança de museu, mas que esconde por trás dele uma história humana profunda, esquecida pelo tempo.  Foi exatamente isso que aconteceu ao examinar detalhadamente um cartão de embarque de exposição do Titanic com o nome de Eline Penni Jacobsen (ou Eline Lena Jacobsen).

De Objeto de Exposição a uma Vida Real

À primeira vista, cartões de embarque distribuídos em exposições sobre o transatlântico parecem apenas ferramentas interativas para engajar o visitante. No entanto, pesquisas detalhadas revelam que a imensa maioria desses materiais é baseada em passageiros reais que estiveram a bordo do navio mais famoso do mundo na sua tragédia inaugural.

Cruzando os dados legíveis do cartão — como a idade de 63 anos, a origem na Noruega e o porto de partida em Southampton —, descobrimos que a identidade por trás do nome remonta a uma mulher de carne e osso: Gunhilde Oline "Lena" Jacobsen (também registrada historicamente sob o sobrenome Solvang).

Ficha da Passageira Real:

  • Nome Registrado: Gunhilde Oline "Lena" Jacobsen (Lena Solvang)

  • Idade: 63 anos

  • Origem: Skaare, Haugesund, Noruega

  • Porto de Embarque: Southampton, Reino Unido

  • Destino: Estados Unidos (visitar a filha)

  • Desfecho: Vítima fatal no naufrágio de 15 de abril de 1912

O Enigma do Sobrenome e a Jornada em Direção à Família

Um dos aspectos mais fascinantes e debatidos por historiadores sobre Gunhilde Oline é a divergência em seu registro oficial nas listas da White Star Line, onde apareceu sob o nome de Lena Solvang. Esse detalhe gera discussões até os dias de hoje, levantando hipóteses sobre o uso de um nome ligado ao seu local de residência ou a laços de parentesco da época.

Independente das nuances burocráticas do registro, o propósito da viagem de Gunhilde era carregado de afeto e esperança: ela estava cruzando o Atlântico rumo à Dakota do Sul (EUA) com o objetivo de visitar sua filha. Era a promessa de reencontro familiar que movia milhares de imigrantes europeus no início do século 20. 

O Trágico Fim e o Legado da Memória

Infelizmente,  ela foi uma das vitimas da madrugada de 15 de abril de 1912 após a colisão com o iceberg, Gunhilde Oline não sobreviveu ao naufrágio do RMS Titanic.

Via IA, tentei criar uma possivel imagem dela.