Faz 52 anos que uso óculos. Só os abandonei agora devido a uma inevitavel catarata que me obrigou a cirurgias nos dois olhos que agora passam a entender o mundo com novas lentes. É estranho. Os oculos estavam incorporados à minha personalidade. E me faz lembrar quando comecei a usa-los
A armação era daquelas feiosas, que pareciam pesar uma tonelada em cima do nariz de uma criança de dez anos. Na Petrópolis de 1974, usar óculos na infância não era um charme retrô nem um manifesto estilístico; era uma sentença de desajuste com o temeroso apelido: "quatro olho" .
Eu os odiava com a força que só a infância consegue destilar. Havia dias em que eu os desafiava, saindo de casa no escuro da minha miopia, tateando o mundo para provar a mim mesmo que podia viver sem eles. Outros dias, a realidade impedia o blefe e eu os vestia, sentindo o olhar de todo mundo pesar sobre as lentes fundas.
Era época da colônia de férias, sediada bem no coração do Batalhão de Petrópolis — uma ironia e tanto para os meus dez anos, numa época em que a ditadura militar impunha seu passo pesado e fardado sobre o país, transformando até quartéis em áreas de lazer como cartilha de relações públicas. No primeiro dia, fui de óculos. No segundo, sem. No terceiro, a hesitação.
Até que o Otávio me pegou no flagra.
O Otávio era um garoto curioso, daqueles que investigam o universo com a naturalidade de quem não teme as regras ou o ambiente austero do batalhão. Ele empacou na minha frente, cruzou os braços e disparou a pergunta inevitável:
— Por que ontem você tava de óculos e hoje tá sem?
Naquele segundo exato - entre a vergonha de admitir a fraqueza dos meus olhos e a urgência da sobrevivência infantil - nasceu o meu irmão.
— É que eu tenho um irmão gêmeo — soltei, sem piscar.
— Gêmeo? — os olhos do Otávio se arregalaram.
— É. Eu me chamo Marcelo. Ele se chama João. O João usa óculos. Eu não uso.
— E por que a gente nunca viu vocês dois juntos? — desconfiou ele, estreitando os olhos.
A mentira, quando é boa, exige precisão logística. Dei de ombros com a maior naturalidade do mundo e mandei a cartada mestre:
— Porque quando a minha mãe foi fazer a inscrição aqui no Batalhão, só tinha uma vaga. Ela tentou de tudo, mas não conseguiu outra. Aí ela botou a vaga no nome do Marcelo. Como a gente queria muito vir, resolveu fazer um esquema: um dia eu venho, no outro ele vem. Por isso que a gente nunca se cruza.
O Otávio se amarrou com a explicação. Ficou fascinado em ter dois coleguinhas em dias diferentes.
Sim, a história colou. E colou tanto que o João virou uma entidade oficial da colônia de férias militar. Nos dias em que eu aparecia de óculos, os colegas me olhavam com a solidão de quem sabia que eu estava carregando o fardo da miopia pelo irmão. Nos dias sem óculos, era o Marcelo quem reinava.
Mas toda narrativa complexa exige engenharia de sobrevivência.
O ápice da tensão aconteceu no último dia da colônia. Era o encerramento oficial no batalhão, com direito a mães reunidas, balçoes de gás, discursos dos oficiais e monitores e, o pior de tudo, o perigo iminente de cruzamento de dados.
Meu maior pavor não era ser descoberto pelos meninos; era a minha mãe dar de cara com a mãe do Otávio. Imagine a cena: senhora dona de casa abordando minha mãe no meio do quartel para elogiar o esforço dos gêmeos e perguntando qual dos dois era o mais estudioso. Eu passei a manhã inteira circulando pelas beiradas para manter as duas senhoras em órbitas totalmente distantes. Por milagre divino e correria estratégica, consegui evitar o colapso diplomático. A colônia acabou, o quartel ficou para trás, e o mito de João e Marcelo sobreviveu intacto no papel.
Um mês depois, estava eu com outros coleguinhas num domingo abafado de carnaval no tradicional baile infantil do Clube Petropolitano. Confete no chão, serpentina nos salões , o som abafado de marchinhas ecoando pelas paredes do clube.
Eu estava distraído quando alguem gritou :
— João! João!
Antes que eu pudesse raciocinar, um vulto disparou na minha direção, desviando de crianças fantasiadas de pirata e super-homem no meio da folia do Petropolitano. Era o Otávio. Ele parou na minha frente, ofegante, abrindo o maior sorriso do mundo, genuinamente feliz por reencontrar o parceiro de quartel de verão.
Eu congelei por um segundo, olhando para o rosto dele. Nunca fui o João. Nunca serei o João. O João era apenas um pedaço de vidro que eu escolhia ou recusava colocar no rosto.
Mas naquele instante, no meio do salão lotado do clube, eu não tive coragem de desmanchar a fantasia. Sorri de volta para o Otávio, aceitei o meu nome emprestado e deixei, por alguns instantes, que o meu irmão gêmeo vivesse mais um pouco. O Marcelo, aquele sem óculos, resurgiria 52 anos depois.



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