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quarta-feira, setembro 30, 2026

Racismo em Maringá provoca reações

 Marcelo Bulgarelli no jornal *O Diário do Norte do Paraná

30 de setembro de 2001.



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# Racismo em Maringá provoca reações

Comunidade negra reage contra a discriminação, promove curso pré-vestibular para negros e mostra que não está desmobilizada

*Marcelo Bulgarelli*

Da equipe de O DIÁRIO*


São "500 anos de encobrimento". Assim a comunidade negra de Maringá resume a questão do racismo no Brasil. O assunto volta à tona devido à 3ª Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância que está sendo realizada em Durban, África do Sul.

A Associação União e Consciência Negra de Maringá e a Assessoria Especial da Comunidade Negra, recém-criada pela atual administração municipal, registram casos declarados de racismo no município nos últimos quatro anos.

Embora hoje a prática de racismo seja crime inafiançável, nos deparamos diariamente com ele de maneira mais ou menos explícita. Se observa que quanto mais dissimulado é o preconceito, maior é a dificuldade de reação e defesa contra esse tipo de crime.

O último deles, registrado pela Associação, aconteceu no dia 19 de maio e resultou num inquérito policial que hoje está tramitando na delegacia do 4º Distrito na Vila Operária. Naquele dia, o operário Luis Cláudio Oliveira cuidava da esposa recém-chegada do hospital após o nascimento do filho do casal de 11 meses.

No final da tarde ela foi comprar um botijão de gás em uma mercearia perto de sua residência. Estava sem dinheiro, mas como receberia o salário na semana seguinte, pediu fiado. O crédito foi negado sob a justificativa de que o sócio do estabelecimento não aceitava esse tipo de condição.

Oliveira foi, então, procurar uma outra mercearia que acabou aceitando a forma de pagamento após ele ter mostrado um comprovante de residência. Dentro de uma hora, o botijão de gás estaria na residência do operário.

O horário chegou às 19 horas. No mesmo momento, já estava em sua residência o proprietário da primeira mercearia, a mesma que lhe tinha negado o crédito. O estabelecimento havia sido assaltado minutos depois de Oliveira ter saído do local e, por isso, o comerciante o acusava de participação no roubo. A justificativa para a desconfiança era de que um dos ladrões também era negro como Oliveira.

O comerciante, além da grave acusação, queria entrar na casa de Oliveira para "conferir" e ameaçou chamar a polícia caso fosse impedido. A esposa do trabalhador passou mal diante da humilhação. Ao perceber que não encontraria objetos furtados na casa, o comerciante se retirou.

LEGISLAÇÃO

O fato chegou ao conhecimento da Assessoria Especial da Comunidade Negra e encaminhado para o advogado Alaor Gregório de Oliveira, presidente do Movimento Consciência Negra. O comerciante foi enquadrado no Código Penal pelos crimes de calúnia e injúria com dolo racial.

De acordo com a Constituição de 1988 o crime de racismo é inafiançável e imprescritível. Mas segundo Alaor, ao invés de ajudar, esses detalhes acabam fazendo com que ninguém seja condenado. "É muito difícil o delegado ou promotor enquadrar a pessoa nesse tipo de crime pois acaba inviabilizando a soltura do acusado". Assim, o que mais se utiliza é o artigo 140 do Código Penal que prevê reclusão de um a três anos para os casos de injúria dolosa.

 LIVRO "RACISTA"

O preconceito racial é um assunto espinhoso e até mesmo quem combate a discriminação pode cair em erro na tentativa de ajudar. Um exemplo foi um livro didático, distribuído gratuitamente pelo governo do Paraná com um desastroso capítulo dedicado ao racismo no Brasil. O assunto veio à tona durante um seminário na Câmara Municipal de Maringá, em 97, sobre os povos africanos.

Uma professora chamou a atenção para o livro "Brasil uma história em construção", adotado pela rede pública, escrito por José Rivair Macedo e Mariley Oliveira. Apesar das boas intenções, Macedo não percebeu os transtornos e embaraços que estava causando nas salas de aula na tentativa de mostrar que o racismo existe. Nesse capítulo do livro, ele cita versinhos, provérbios e ditados que recolhidos pelo sociólogo Florestan Fernandes demonstram o preconceito racial. Para o autor os exercícios, Macedo sugere aos alunos para que se lembrem e comentem algum ditado ou expressão preconceituosa. O caso foi parar no Ministério Público e levado ao conhecimento do governador Jaime Lerner.

A repercussão fez com que os responsáveis pela editora e o próprio autor do capítulo procurassem a Associação União e Consciência Negra de Maringá. Macedo pediu desculpas, pensava que apenas estava colaborando para o debate sobre o racismo na sala de aula. Porém ficou sabendo que assim que os alunos liam as piadas e provérbios racistas, as crianças choravam e não queriam ir para a aula devido aos comentários dos colegas baseados nas versas e provérbios transcritos no livro. A publicação foi recolhida e hoje o capítulo foi refeito.

 REPERCUSSÃO

Dois outros casos ganharam repercussão nacional em 99. O primeiro envolveu uma funcionária pública de Maringá presa em flagrante na madrugada do dia 16 de fevereiro de 1999 por crime de racismo. Ela foi acusada de ofender e agredir um policial militar negro e um investigador da Polícia Civil, na saída de um baile de Carnaval.

Em abril, o jornal Folha da Cidade, de Sarandi, foi alvo de uma ação impetrada pela Associação União e Consciência Negra. A publicação, além das matérias de praxe, tinha uma coluna de piadas, uma delas de teor racista, comparando uma criança negra a um animal de zoológico.

A Associação entendeu que esse tipo de piada destrói a autoestima da pessoa negra, criando espaço para o que eles chamam de complexo de inferioridade no negro, pondo por terra os esforços que eles lutam contra as manifestações racistas no país. O caso está na promotoria de Sarandi.

Comparações, depreciações e tudo que colabora para o crescimento do preconceito racial é alvo do movimento negro de Maringá e região. Outro caso que acabou terminando em um pedido formal de desculpas envolveu um ex-comodoro de agremiação durante uma palestra proferida por ele no Colégio Estadual Cunha de Vasconcelos na Avenida Luis Teixeira Mendes.

Ao chamar a atenção de alguns alunos que estavam conversando, ele teria citado friamente, "para a infelicidade de uma professora loira do meu lado, uma professora lagartixa ou o meu moreno negro...". Depois da repercussão do fato, um acordo entre as partes fez com que o vice-comodoro fosse pessoalmente ao colégio reconhecer o erro e pedir desculpas na frente dos alunos e professores.

 NA MÍDIA

Esses são apenas alguns casos registrados em Maringá. No dia-a-dia, porém, a discriminação está presente nas escolas, clubes e no ambiente de trabalho. São grandes as dificuldades para um negro conseguir emprego. Quando a agência ou empresa percebe a cor do pretendente à vaga, a desculpa é sempre a mesma: "o cargo já foi ocupado".

Mas o combate ao racismo propõe uma política de resistência. É nesse contexto que surge a Assessoria Especial da Comunidade Negra, uma ferramenta poderosa que vai agir nas áreas de políticas públicas, principalmente na áreas de educação, mercado de trabalho e ações voltadas para o combate à discriminação racial.

Há um trabalho também voltado para a valorização dos negros na mídia. "Basta dar uma volta pela cidade e perceber que não há modelos negros nos outdoors", observa Valdeci Gomes de Souza, coordenador da Assessoria.

No ano passado, na época do Dia das Mães, um encarte de um supermercado circulou mostrando apenas crianças junto com mães brancas. O fato revoltou a comunidade negra, pois ela também é consumidora. O supermercado, hoje escolheu uma forma mais segura de lidar com o assunto e em comum acordo o casal negro em destaque.

Essa mobilização em defesa da valorização dos consumidores negros não descarta no futuro, até mesmo uma campanha de boicote às marcas, produtos e empresas que ignorassem o segmento que representa quase metade da população brasileira.

 NO PODER

Junto a essa reação, a comunidade negra vem conquistando seus espaços. Maringá, por sinal, tem hoje o primeiro secretário negro em sua história. O agrônomo Élson Borges dos Santos, o Zumbi, secretário municipal de Agricultura e Abastecimento, trabalha na construção de uma identidade em busca a auto-estima para a comunidade negra.

O que se percebe no Brasil, segundo ele, é fruto da política de branqueamento criada pelo sistema, o mito da democracia racial. Isso impediu a criação de políticas públicas para a promoção da comunidade negra. "Desde pequeno o negro aprende a não gostar de si mesmo. Só me livrev desse complexo quando tinha 15 anos e estou pagando preço por isso", revela.

O mecanismo de exclusão elaborado pelo sistema, "é perfeito" segundo ele, pois consegue convencer o negro de que ele tem um espaço no esporte e na música, mas não permite que ele possa estar nas universidades. "Parte dos preconceitos vem dos próprios negros. Os mulatos querem ser brancos".

O processo de exclusão em Maringá não é muito diferente do restante de país, mas há fatos que chamam atenção. O secretário, por exemplo, não causa estranhamento em seus contatos com autoridades europeias ou asiáticas, mas percebe que parte da elite maringaense tem dificuldades para aceitar um negro no primeiro escalão do governo municipal. Borges, aliás, estev recentemente na Espanha em um evento reunindo 40 mil pessoas e foi destaque numa matéria publicada no semanário Triangle, publicado na Catalunha.

O ESTRANHAMENTO"

A elite parece assustada quando percebe um negro no poder com o mesmo status de um branco. Isso não deixa de ser um traço cultural. "Todo dia tenho que matar um leão e provar de que sou capaz por causa da minha cor. Já notei que sou três vezes mais vigiado do que as demais pessoas. Se passo como outro no shopping, a polícia sempre me olha de uma certa vez, de Londrina para Maringá fui parado três vezes", conta Borges.

Esse estranhamento também é percebedido por Alaor, casado há 29 anos com Maria Auxiliadora. O fato de a esposa ser branca chama a atenção das pessoas, mas o casal já se acostumou. "A maior reação, porém, é quando se observa uma mulher negra com um homem branco", conta o advogado.

PRÉ-VESTIBULAR

Um dos principais objetivos da comunidade negra em Maringá é implantar um curso pré-vestibular voltado para os negros. Segundo Valdeci, da Assessoria Especial da Comunidade Negra, já existem 50 inscritos. As aulas serão na Faculdade Estadual Ayrton Plaisant.

O cursinho nasce da necessidade em criar condições para que os negros tenham acesso à universidade. Dados da Universidade Estadual de Maringá mostram que apenas 2% dos formados são descendentes da raça negra.

O cursinho será semelhante ao existente na Universidade de São Paulo, patrocinado pelo Núcleo de Consciência Negra. Naquela instituição, o número de negros não chega a 3% dos 52 mil estudantes. O curso atenderá os estudantes que trabalham durante o dia ou que não conseguem um emprego qualificado mesmo após a conclusão do 2º grau.

 AS COTAS

Outra discussão gira em torno do sistema de cotas, semelhante ao existente nos Estados Unidos, para garantir vagas para os negros nas universidades. Alguns acham que a medida poderá aumentar a discriminação. Porém dentro da comunidade negra, o projeto tem recebido adesões.

Até o ano passado, Borges era contra o sistema de cotas. Agora apoia o projeto argumentando que o país único negro a se formar em Agronomia nos últimos vinte anos em sua universidade. "Se não tiver um sistema de compensação, quantos anos vão demorar para que um outro Zumbi se forme novamente?", questiona. "A miséria do negro é um trabalho que o Estado planejou durante todos esses anos".

Vale ressaltar que os negros no Brasil representam 44% da população, não formam uma minoria como outros grupos sociais. As quotas, então, não seriam necessárias se houvesse oportunidades para todos. Com isso não ocorre, a sociedade deve garantir mecanismos de igualdade.

Diferentemente dos Estados Unidos e da África do Sul, onde o racismo existe explicitamente, o Brasil forjou o mito da "democracia racial". É como que nos segredou o negro com a galanteza especial. "Tem, mas o fazem sem identidade, provocando um hiato de indignação e mobilização".

 ENSAIO

O escritor norte-americano Anthony W. Marx, autor do livro *Making Race and Nation* (Traduzido: "Construindo Raça e Nações" / Editora Martins Fontes) faz uma comparação histórica dos três modelos de segregação, o brasileiro, o americano e o sul-africano.

Nos Estados Unidos a barreira do Norte e do Sul se reconciliaram após a Guerra Civil. Havia a ideia de nação que excluía e discriminava legalmente a população negra. Algo semelhante ocorreu na África do Sul, ante o confronto de origem holandesa e os de origem britânica, após a Guerra dos Bôeres, no início do século. O resultado foi o apartheid.

Já no Brasil, debaixo do mito da democracia racial, não ocorreu nada semelhante. Nas duas nações americanas e na africana, os negros lutaram pelos direitos civis. Essa mobilização deu à população negra americana uma bandeira de luta, reforçando sua identidade. Os brasileiros, ao evitarem o problema, impediram que os direitos avançassem. Em suma: se não há exclusão legal não se deve ignorar a existência da exclusão social no Brasil.


terça-feira, setembro 29, 2026

Como conheci Chico

 

COMO CONHECI CHICO

WALTER SILVA

Do particular para o geral, dizem, está a melhor maneira de comunicação. “Pinte a sua aldeia e você será universal” (Tolstoi).

Essa, talvez, seja a melhor forma para falar sobre o que sei, penso e acho sobre Chico Buarque de Hollanda, que no meu jornal não deixam sair com dois “I”.

Naquela época era “anticomercial” tocar bossa-nova em rádio — aliás por isso mesmo fomos afastados do programa radiofônico de maior audiência em todo o Brasil, “O Pick-Up do Picapau”, que era levado pela Rádio Bandeirantes — não nos restava outra alternativa a não ser o teatro.

Como os meninos do Centro Acadêmico XI de Agosto já haviam realizado com enorme sucesso “O Fino da Bossa”, com o qual também colaboramos, a idéia só podia mesmo nos animar.

Assim, sem nunca ter entrado na coxia de um teatro, lá fomos nós alugar o Paramount para espetáculos de música brasileira moderna.

Apoiados na idéia de usar os centros acadêmicos para divulgar e patrocinar os mesmos, já marcamos para o dia 16 de outubro de 1964 o primeiro deles, que se chamou “Mens Sana in Corpore Samba”, claro que promovido pelos alunos da Escola de Educação Física do DEFE (Departamento de Educação Física e Esportes). Na primeira parte, amadores com os quais já havíamos tido contato antes em shows beneficentes (como o que ajudamos a produzir para a Associação de Moças e que foi realizado no próprio Paramount, do qual participaram, entre outros, Elis Regina e Silvio César, que faziam uma temporada na boate Djalma’s, na Praça Roosevelt). Esses amadores eram Toquinho, Taiguara, Ivette, Bossa Jazz Trio, Maria Lúcia, César Roldão Vieira e Solano Ribeiro, que na época cantava num conjunto de rock chamado “The Avalons”, mas que na última hora acabou não indo. Na segunda parte participaram Silvinha Telles e o conjunto de Roberto Menescal.

Ajudavam a gente na elaboração do espetáculo, além dos estudantes e pessoas de sua família, dois rapazes que eram verdadeiros apaixonados pela coisa. Um deles, Homero Honório Ferreira Filho, é hoje cunhado de Chico Buarque, casado com sua irmã Cristina; o outro, Antônio Márcio Fernandes Costa — ambos de São José do Rio Preto e estudantes universitários. Manoel Barembein, que era divulgador de discos e estudioso de som, cuidava da parte técnica dos shows.

Eram os três da mesma idade e transavam muito o barzinho em frente ao Mackenzie, onde se realizavam, na hora do almoço, os conhecidos encontros de samba, chamados “Sambafo”, dos quais fazia parte um tal de “Carioca” — Chico Buarque.

Um dia, antes do espetáculo já citado, chega-se a nós o Homerinho e diz:

— Rapaz, você precisa ouvir o “Carioca”, um cara que canta no “Sambafo” do Mackenzie. Ele estuda na FAU e é superengraçado.

— Manda o “Carioca” procurar a gente aqui no teatro, dissemos nós.

E já no dia seguinte estava lá o moço com ar de tímido, mas com uma cara de malandro encoberto que dizia tudo sobre ele e suas intenções.

Devia ter, no máximo, uns 19 anos. Tocava muito mal violão e tanto melodicamente e como harmonicamente nada tinha que ver com o que nos propúnhamos.

Além de segurar o bordão com o polegar da mão esquerda, não tinha nada de atraente como ritmista e melodista. Em compensação suas letras eram de uma força incrível e apesar dela, ou por isso mesmo, sua cara de sonso comunicava muito.

Começou a freqüentar a casa da gente como os demais e num curto espaço de tempo já era líder da turma. Todos queriam cantar suas composições.

Não raro aparecia às 10 horas da manhã, com aquela cara de quem não dormiu nada e bebeu muito. Vinha num Aero-Willys bordô, daqueles bem desbotados, e ia entrando com decisão e pontaria. O barzinho era seu alvo, depois o sofá e em seguida o violão.

Cantava, tocava e pouco falava ou discutia.

Marcava sempre sua presença por tiradas de muito humor e inteligência e de imediato sabia-se que estava acima dos demais que com ele começavam.

Tinha uma resposta irônica para tudo e a cada instante, denotando uma experiência muito grande para seus poucos quase vinte anos.

Entrosava-se muito com Maria Lúcia, que era a mais extrovertida do grupo e que adorava cantar suas músicas.

Um dia, num show que levamos na Hebraica, Chico e Maria Lúcia cantaram juntos “Primavera”, de Carlos Lyra e Vinicius, da peça “Pobre Menina Rica”.

Já que formavam um par jovem muito bonito, usamos o aspecto físico dos dois e os colocamos cada um numa extremidade do palco, sentados no chão e com as pernas balançando para fora, de frente para a platéia.

O número saiu lindo e os aplausos maiores foram para os dois, embora naquela noite homenageássemos outro autor novo que conosco caminhava, o Adilson Godoy.

A idéia de lançar todas ou o maior número possível de músicas de um só autor dos jovens deu certo naquela noite e animou-nos a fazer o mesmo com Chico já no show seguinte cujo nome era “1.ª Denti-Samba” e, como o trocadilho infame já denuncia, era dos alunos da Faculdade de Odontologia.

Durante toda a primeira parte, os amadores só cantaram músicas de Chico Buarque, algumas das quais jamais regravadas, ou lançadas por ele, como, por exemplo “Malandro Quando Morre”.

“Malandro quando morre vira samba/ mulher vira uma flor no céu”, que foi muito bem interpretada por Maria Lúcia.

O show dessa primeira parte, escrito por nós, chamava-se “Sambairro” e defendia o direito de todos serem bairristas. “Some-se depois esse bairrismo todo e teremos um imenso universalismo”.

Na segunda parte do espetáculo, explodia Elis Regina com o “Copa-Trio” (Salvador, Dom Um Romão e Gusmão). Casa supercheia e paletós jogados para cima numa histérica maneira de aplaudir, não mais vista nos últimos onze anos.

Chico cantou quatro músicas e seus colegas amadores desfilaram quase todo o repertório do “Carioca”. O maior sucesso da noite foi “Marcha para um Dia de Sol”, que nós sugerimos que se transformasse em “João XXIII”.

“Eu quero ver um dia/numa só canção/o pobre e o rico andando mão e mão/que nada falte, que nada sobre/ o pão do rico/o pão do pobre...”

A platéia, toda feita de jovens que já sabiam do Chico, cantou junto e quase vira carnaval. Ao final do espetáculo, o compositor e psiquiatra Roberto Freire enxugava as lágrimas e dizia:

— Menino, algo está começando. Algo está começando...

E estava mesmo.

Começava ali uma das mais importantes carreiras artísticas de toda a história da nossa música popular. Começava ali o ciclo Chico Buarque.

No mês seguinte, novembro de 1964, estudantes de um ginásio de Campinas marcaram um show para sua cidade, realizado no Cine Ouro Verde. Seria no dia 23 de dezembro, dois dias, portanto, antes do Natal.

Para participar desse show, os amadores também seriam pagos. Cada um receberia a importância de 50 cruzeiros, que, aliás, não foi paga para a maioria, uma vez que os meninos de Campinas deram um tremendo cano. Só uma parte da turma recebeu. Para alguns profissionais tivemos que dar um cheque, coisa que não agradou o pessoal. Houve até um que, por não receber no dia marcado, levou pro protesto. Tudo bem.

Os profissionais que participaram do espetáculo de Campinas foram Pedrinho Mattar, Oscar Castro Neves, Alaíde Costa, Paulinho Nogueira, entre outros. Mas foi Chico Buarque quem chamou a atenção da maioria das pessoas presentes. Contente com o primeiro cachê, resolveu, junto com seu inseparável amigo “Barão”, ir passar o Natal em Borborema, pequena cidade próxima a São Carlos.

Aproveitou o táxi que nos levaria a Rio Preto e parou na praça de São Carlos, junto com “Barão”, tocando violão, cantando e bebendo tudo.

Chico sempre teve um só compromisso: consigo mesmo.

Era de uma independência total e dono de seus atos.

Quem quisesse se enturmar, que se enturmasse com ele, pois ele não se enturmava com ninguém.

Veio o dia em que Chico gravou seu primeiro disco.

A RGE, que cedia todo o seu equipamento de som para os nossos shows no Paramount, resolveu atender ao nosso pedido mais do que insistente para que se gravasse com o pessoal novo que estava sendo lançado.

Por muito favor José Scatena, dono da gravadora, achou uma hora livre e cedeu-nos o estúdio “B” de sua gravadora. O “A” já era ruim, imaginem o “B”.

Uma sala diminuta, onde havia uma mesinha para locutor, uma cadeira e um microfone. Só isso. Somando tudo, não dava mais de 4 metros quadrados.

Com o pé sobre a cadeira e tocando do violão, assim foi feita a primeira gravação de Chico Buarque: “Pedro Pedreiro”, um dos seus muitos sucessos nos shows do Paramount.

Depois veio o festival da Record e com ele “A Banda”. Nessa ocasião uma importante passagem: o 1.º lugar ficara com o Chico, mas ele exigiu que fosse dividido com o Vandré e sua “Disparada”.

No dia da apresentação da “Banda”, às 5 da tarde, mais ou menos, Chico assinou contrato de edição de sua música com a Fermata.

Testemunhas, Manoel Barembein e Glorinha Moreira. A edição de Enrique Lebendiger ganhou seu maior sucesso até hoje.

Antes desse dia, levamos Chico e César Roldão Vieira, a pedido de Lebendiger, para editar suas músicas naquela editora.

Como ambos estavam “duros”, Lebendiger deu a cada um 250 cruzeiros.

Eles, que pensavam que uns 30 estariam muito bem, saíram doidos com tanto dinheiro que acabavam de ganhar como adiantamento de seus futuros direitos.

Também contente, Lebendiger fez nos sócios de uma editora que recebeu o nome de “M.B.M.” (Música Brasileira Moderna). Como nunca entendemos do assunto, duros, vendemos nossa parte ao sócio-editor meses depois por 10 milhões (antigos).

Foi uma festa. Antes tivéssemos ouvido os conselhos de Chico de Assis e de José Roy, que, na porta da editora nos pediam para desfazer o negócio, uma vez que só no carnaval a gravação de “A Banda” nos daria mais de trezentos milhões (antigos).

Não acreditamos e ainda fomos vítima de uma intriga feita, não se sabe por quem, que nos separou de Chico Buarque por sete anos.

Nunca mais nos falamos, até que um dia, ou melhor, numa noite, depois de um show pelo circuito universitário no Tuca, em pleno Restaurante Gigetto, sentimos um tapa nas costas.

Era ele que nos cumprimentava e nos abraçava. E ambos, sentimentalóides como todo brasileiros, nos pusemos a chorar, sem perguntas, sem respostas.

Acompanhamos suas atuações à distância. Sentimos o quanto ele evoluiu e fez evoluir nossa música popular. O quanto de importante ele representa e representou para a formação de nossa cultura popular urbana. Chico Buarque, o “Carioca” da FAU, é universal porque soube cantar e pintar sua aldeia. Tolstoi estava certo.