LIÇÃO DE VIDA
Deficiente físico quer dirigir escola especial
Marcelo Bulgarelli — Da equipe de O DIÁRIO
30 de abril de 2000
Ricardo Alexandre de Souza, 25, entrou para o curso de Magistério à Distância com o firme propósito de um dia administrar uma pré-escola que possa integrar crianças com deficiência física junto com as consideradas normais.
O jovem tem conhecimento de causa. Deficiente desde os 6 anos, devido a uma lesão cerebral, nunca aceitou o paternalismo imposto pelas escolas destinadas a alunos especiais, geralmente administradas por não deficientes.
A palavra-chave é "inclusão". A pré-escola de Ricardo estará aberta para toda a comunidade. A cidadania será conquistada junto com a sociedade e não à margem dela.
Os deficientes físicos sabem que a melhor arma contra o preconceito é a informação: "A escola deve ser dirigida por deficientes. Nós sabemos o que é melhor para nós".
Apesar de todas as dificuldades, inclusive para falar, Ricardo não tem tido problemas em acompanhar suas colegas de turma. Ele é o único homem no meio das 30 alunas. Exigente, não se inibe em criticar trabalhos mal feitos.
A LESÃO
Sua trágica história começa há 19 anos quando fraturou a rótula do joelho durante uma brincadeira. No dia seguinte amanheceu com um sério hematoma.
O raio "x" não revelou muita coisa. Assim mesmo, a dor continuava. Era necessária uma cirurgia, uma "operação simples para uma contusão simples".
Mas uma inesperada crise epilética no meio da cirurgia causou uma lesão cerebral, comprometendo definitivamente a parte motora de Ricardo.
Um erro médico e a dura realidade: o menino de seis anos passaria os próximos sete anos numa cadeira de rodas.
A situação melhorou depois que a família de Ricardo descobriu um neurocirurgião alemão em São Paulo. Após 10 cirurgias, ele passou a andar.
LIÇÕES
Na Associação Norte Paranaense de Reabilitação (ANPR) conseguiu se alfabetizar aos 10 anos. Ele faria todo o primário naquela instituição.
Mas uma escola especial o limitava. "Quero ir para uma escola comum!" disse para a mãe. Mas Dona Aparecida era temerosa. Não sabia como seria a reação dos colegas.
Sem problemas: em duas semanas Ricardo já estava enturmado com os alunos do Colégio Estadual Branca da Mota.
Na 8ª série se transferiu para uma outra escola pública, mas não teve a mesma sorte. Um professor de Português o discriminava. Ricardo quase não podia perguntar nada.
MAGISTÉRIO
Em julho do ano passado, com o diploma do 1º grau, ele tomou mais uma determinada decisão: queria fazer o magistério, apesar de todas as dificuldades.
Ricardo, então, entrou em contato com as coordenadoras do curso, Elaine Scarci e Alaíde Paulino Machado Oliveira. Conquistada a vaga, restava fazer o estágio obrigatório.
Ele tentou uma escola particular, mas a diretora alegou que "os demais alunos poderiam não gostar". Foi um preconceito velado, típico dos que tentam disfarçar a ignorância diante do "diferente".
Finalmente ele conseguiu o estágio no Colégio de Aplicação Pedagógica (CAP), bem ao lado do Centro de Vida Independente (CVI), dentro do campus da UEM.
INGLÊS
Recentemente o jovem realizou um sonho antigo: estudar inglês. Ricardo quer ter uma base de conhecimento no idioma para poder enfrentar o vestibular no ano que vem.
Fez a matrícula, comprou livros, apostilas e frequentou as primeiras aulas em um cursinho. Só não entendia por que os professores o ignoravam.
Dias depois a secretária do curso lhe pediu desculpas, mas que ele "não poderia frequentar o curso". Os professores estariam constrangidos com sua presença.
De qualquer maneira, Ricardo não se entregou. Graças a amizade que mantém com sua fonoaudióloga, conseguiu se matricular em uma outra instituição.
FUTURO
Sobre o erro médico que mudou sua vida, Ricardo garante que perdoou os culpados.
"Não vou passar a minha vida toda em função da raiva. Serei um profissional também. E posso errar".
A cidadania conquistada por Ricardo se deve muito a sua forma de encarar o mundo. Mostra que um futuro promissor começa pelo desapego do passado.
CENTRO DE VIDA INDEPENDENTE
Ricardo Alexandre de Souza trabalha no Centro de Vida Independente de Maringá (CVI), entidade pioneira no Paraná criada e dirigida por portadores de deficiência.
O CVI funciona dentro do campus da UEM, ao lado do Colégio de Aplicação Pedagógica (CAP). O objetivo é a prestação de serviços e a melhoria da qualidade de vida das pessoas portadoras de deficiência.
O CVI encaminha deficientes para o mercado de trabalho, presta assessoria e consultoria, tira dúvidas e faz aconselhamentos. Tem ainda os setores dedicados aos diabéticos e aos renais crônicos.
O Projeto Século XXI, criado pelo CVI, realiza palestras em escolas, universidades, centros comunitários e empresas. Esses encontros servem para mostrar à sociedade, de forma clara e real, o que é uma deficiência, os problemas enfrentados pelos deficientes, dúvidas e situações que possam ser debatidas com os participantes.
O presidente da entidade, Alexandre Baroni, explica que o CVI é baseado no modelo norte-americano, criado nos anos 70 a partir da Guerra do Vietnã.
Associações e entidades destinadas aos deficientes existem principalmente em países que sofreram as consequências da guerra.
Alexandre acredita que o fato do Brasil não ter participado diretamente de um grande conflito não significa que tenhamos menos deficientes. Diariamente, pelo menos três vítimas de assaltos sofrem lesões medulares.
Marcelo Bulgarelli
(Legenda da foto: "Ricardo Alexandre: otimismo")




















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