quarta-feira, outubro 31, 2012

Menino Chorando na Noite




Carlos Drummond de Andrade 
Na noite lenta e morna, morta noite sem ruído, um menino chora. O choro atrás da parede, a luz atrás da vidraça perdem-se na sombra dos passos abafados, das vozes extenuadas. E no entanto se ouve até o rumor da gota de remédio caindo na colher. Um menino chora na noite, atrás da parede, atrás da rua, longe um menino chora, em outra cidade talvez, talvez em outro mundo. E vejo a mão que levanta a colher, enquanto a outra sustenta a cabeça e vejo o fio oleoso que escorre do queixo do menino, escorre pela rua, escorre pela cidade (um fio apenas). E não há ninguém mais no mundo a não ser esse menino chorando.

Da série As Piores Capas de Todos os Tempos



Halloween


quinta-feira, outubro 25, 2012

Minas no Bar do Bulga

Uma seleção bem ao estilo de Minas. Muita coisa que está  aqui podemos ouvir também em cidades como Viconde de Mauá e em especial, na Vila Maringá , na divisa entre os estados do Rio e Minas Gerais. De tudo um pouco. Começamos com Cruzada, considerada uma das canções mais importantes da história da MPB.
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01  Cruzada -tavinho moura e  Beto Guedes
02 Um Girassol da Cor de Seu. Cabelo - Lo Borges
03 Sol de primavera - Beto Guedes
04 - Certas Canções - Milton Nascimento
05 Cheiro mineiro de flor -Cacau e Ribeiro
06- Feira Moderna - Som Imaginário
07 - Cinamomo - Sá & Guarabira
08 - Clube Da Esquina N. 2 -Cacau e Ribeiro
09 Caminho de São Tomé - Sá Rodrix e Guarabira
10 Maria Solidaria - Beto Guedes
11 - Queimada - O Terço
12 Feito Misterio - Boca Livre
13 Chuva na montanha - Affonsinho
14 Lumiar - Beto Guedes
15 Canoa Canoa -Boca Livre
16 Frisson -Tunai
17 Planeta Sonho - 14 Bis
18 - Sapato Velho - Roupa Nova
19 Fe Cega e Faca Molada - Lô Boges
20 Amor de De Indio - Beto Guedes

terça-feira, outubro 23, 2012

Rock Brasil Anos 80


Tudo bem. Está faltando muita gente aí. Mas a intenção era fazer um retrô anos 80 um pouco mais divertido com algumas raridades em coletâneas. É o caso do Luciano Bahia e Eletrodomésticos. A diversão está AQUI

01 Pintura Íntima - Kid Abelha                                          
02  Tudo Pode Mudar - Metrô                                                
03 Telefone - Gang 90 & Absurdettes                                      
04 Johny Pirou - João Penca & Seus Miquinhos Adestrados                      
05 Serão Extra - Dr Silvana e Cia.                                          
06 Eu Sou Free - Sempre Livre.                                              
07 Choveu No Meu Chip! - Eletrodomesticos.                                      
08 Sou Boy - Magazine.                                                      
09 Menina Veneno - Ritchie.                                                  
09 Nós Vamos Invadir Sua Praia - Ultraje a Rigor                              
10 Bete balanço - Barão Vermelho.                                              
11 Adelaide - Inimigos do Rei.                                                
13 A Fórmula do Amor - Léo Jaime &  Kid Abelha                              
14 Viagem ao Fundo do Ego - Egotrip.                                          
15 Fui Eu - Sempre Livre.                                                    
16  Carol - Luciano Bahia.                                                    
17 Beat Acelerado - Metro.                                                  
18 Voce Nao Soube Me Amar  -  Blitz.                                          
19 Vital e Sua Moto - Paralamas do Sucesso.                                    
20 - Pro dia nascer feliz - Barão Vermelho.

sexta-feira, outubro 19, 2012

Da série As Piores Capas de Todos os Tempos


Samba Soul no...



Depois do samba rock, sobrou essa coletânea para os romanticos. É meio setentista, é verdade. Mas tem muito Tim. Sobrou até pra Elis Regina e novamente Di Melo o ilustre desconhecido do time com mais uma faixa do LP A Vida Em Seus Métodos Diz Calma de 1975 (raridade). AQUI

01-TIM MAIA _ PRIMAVERA .
02-HYLDON _ NA SOMBRA DE UMA.ARVORE.
03 CARLOS DAFE PRA QUE VOU RECORDAR O QUE CHOREI
04-TIM MAIA _ RÉU CONFESSO
05-HYLDON _ AS DORES DO MUNDO..
06 - PAULO DINIZ - UM CHOPE PRA DISTRAIR
07 - TIM MAIA - RISOS.
08-HYLDON _ NA RUA, NA CHUVA..
09-CASSIANO _ A LUA E EU
10-TIM MAIA _ GOSTAVA TANTO DE VOCE..
11-HYLDON _ SÁBADO E DOMINGO..
12-CASSIANO _ COLEÇÃO.
13-TIM MAIA _ AZUL DA COR DO MAR.
14 - TIM MAIA - VOCÊ.
15 -ELIS REGINA - BLACK IS BEAUTIFUL..
16 - TIM MAIA - EU AMO VOCÊ..
17 - DI MELO - MÁ-LIDA.
18 -PAULO DINIZ - COMO.
19 TIM MAIA - CRISTINA.
20 - DOM BETO - PENSANDO NELA..

quinta-feira, outubro 18, 2012

Polêmica no Blog

A jornalista Cibele Chacon escreve (bem) sobre o filme Réquiem para Laura Martin e o diretor Luiz Rangel perde as estribeiras. E o mais engraçado: a crítica é favorável ao filme. Mas Rangel meteu os pés pelas mãos. Ou fez marketing involuntário. Resultado: todo mundo quer ver o filme e conferir o blog da Cibele. Confira AQUI


Ziembiński



Zbigniew Marian Ziembiński (Wieliczka, 7 de março de 1908 — Rio de Janeiro, 18 de outubro de 1978), mais conhecido como Ziembinski, foi um ator e diretor de teatro, cinema e televisão.Desde os doze anos envolvido com o mundo teatral, deixa sua terra natal em 1941, com 33 anos, quando emigra para o Brasil.
Chamado carinhosamente de Zimba, é considerado um dos fundadores do moderno teatro brasileiro por sua encenação inovadora do texto Vestido de Noiva, em 1943 do dramaturgo Nelson Rodrigues. Com esta montagem e por seu processo de ensaio, introduz-se a noção de diretor no teatro brasileiro, aquele que cria uma encenação, quase como um pintor da cena, substituindo a de ensaiador, aquele que se preocupava apenas em distribuir papéis e ordenar a movimentação em cena.
Ziembinski, em cena do filme Appassionata




Entrevista concedida a Veja(26/11/1975), a Marinho de Azevedo, durante os preparativos para a segunda montagem da peça Vestido de Noiva.


Veja — Encenar "Vestido de Noiva" agora, 32 anos depois do sucesso de sua estréia, não seria um pouco como se Orson Welles pretendesse filmar uma nova vesão de "O Cidadão Kane"?
ZIEMBINSKI — Não. Em 1943, "Vestido de Noiva" não foi apenas uma peça que obteve maior repercussão. Ela representou uma mudança visceral na dramaturgia brasileira. Foi um espetáculo muito adiantado, tanto no setor do texto quanto no aspecto formal. A montagem mexeu com o teatro, mas, principalmente, mexeu com os teatrólogos de então, que, com raríssimas exceções, limitavam-se a criar as peças comerciais. Sendo assim, à medida que o tempo ia passando, "Vestido de Noiva" adquiria mais importância. Sentimos agora a necessidade de mostrar esse marco de nosso teatro a uma geração que ouve falar dela, responsabiliza o espetáculo por uma porção de coisas que vieram depois, mas nunca o assistiu. A idéia foi fazer o mesmo espetáculo, inclusive com os cenários originais de Santa Rosa. Naturalmente, recorremos a novos recursos. Na ocasião, dispúnhamos quase só de amadores. Agora temos um elenco profissional e outras concepções de luz e palco.
Veja — Foi difícil reconstruir os cenários de Santa Rosa?
ZIEMBINSKI — Tínhamos um vastíssimo material fotográfico em preto e branco. Só faltavam as cores. Mas o espetáculo ficara inteiramente gravado em minha memória. Só precisei recorrer às fotos quanto a um ou outro detalhe.
Veja — Será que a peça conserva o mesmo impacto?
ZIEMBINSKI — Acho que seu vigor, hoje em dia, se não for maior, é pelo menos igual ao de sua estréia em novembro de 1943. Interessa-me saber até que ponto esta nossa versão do "Vestido" pode beneficiar a nós e ao teatro brasileiro. Não se trata de uma simples remontagem, que vise ao sucesso financeiro. Para mim, significa a recolocação de um espetáculo que vigora há 32 anos e continuará vivo no futuro.
Veja — Como vê o teatro brasileiro de hoje?
ZIEMBINSKI — O teatro brasileiro percorreu, num prazo de tempo excepcionalmente curto, um caminho que os outros teatros do mundo percorreram muito mais lentamente. Nasceu, cresceu e fez todas essas tentativas que conhecemos em pouco mais de trinta anos. Esse desenvolvimento precoce, essa maturidade sem infância, o tornaram forçosamente mais vulnerável ao desnorteamento e a inúmeras tentativas infelizes, ou simplesmente descabidas. Mas devemos nos dar conta do que está acontecendo no teatro do mundo inteiro. Trata-se de uma época de desorientação. Em países onde o teatro tem mais vida, mais infância, mais tradição (no bom sentido da palavra), criou-se uma certa resistência às inovações. Nosso teatro, sendo jovem, tem o fervor e a impaciência dos recém-batizados e por isso se embrenha em aventuras que podem não trazer, afinal, nada de positivo. Mas muitas vezes acerta, de maneira puramente casual, quando parte para a sinceridade.
Veja — A sinceridade, então, seria o essencial?
ZIEMBINSKI — Sim. O que prejudica muito o sucesso dessas tentativas é a situação econômica de nosso teatro e a colocação específica do público.
Veja — Em que sentido?
ZIEMBINSKI — A situação econômica do teatro, no Brasil, é extremamente precária, embora a época atual pareça mais feliz. Essa instabilidade não permite ao autor nem ao produtor partirem para um espetáculo pelo seu eventual interesse, mas sim pelo dinheiro que possa render. O público brasileiro não tem o hábito do teatro. Vai a um espetáculo atraído pelo nome de algum artista ou por determinado tema. Agora é o erotismo. Mas não há um interesse pelo teatro. Este, muitas vezes, se transforma então em um espetáculo de duas ou três pessoas unidas por conveniências comerciais. Muitos, ao saberem que eu estava montando "Vestido de Noiva", indagaram: "Mas como é que você está fazendo uma peça com trinta personagens?" Essa pergunta não deveria existir. Qualquer peça de importância — e estou falando no panorama dos séculos — tem muitas personagens e cenários. Mas tais peças hoje vivem amaldiçoadas, são desprezadas sem que se pergunte o que podem significar.
Veja — Mas a época atual, segundo o senhor, não apresenta maior estabilidade?
ZIEMBINSKI — É verdade, embora eu não saiba por quê. Curiosamente, ninguém jamais consegue explicar por que as coisas acontecem no teatro. Mas tem havido uma afluência de público bastante auspiciosa. Sem dúvida, o sexo vem a ser um grande elemento de atração. Outra causa seria o fato de o teatro permitir uma maior liberdade de linguagem e um tratamento de problemas pessoais nos quais o público se reconhece. Além disso, ... não sei ... parece-me que é uma conseqüência da superpotência da televisão. No primeiro momento ela atraiu terrivelmente o público e continua a ter uma audiência estável. Mas há uma parte desses espectadores que voltaram a se interessar pelo teatro, porque ele, hipoteticamente, mostra-se mais livre e procura uma profundidade maior.
Veja — O senhor considera, então, que a televisão teve um papel positivo no desenvolvimento do teatro?
ZIEMBINSKI — Sem dúvida. Costuma-se dizer, levianamente, que a televisão tirou o público do teatro. O que se esquece é que, no começo, ninguém levava televisão a sério. Só se começou a prestar atenção nela quando ficou claro que é um importantíssimo veículo de comunicação do século XX. Também se disse que a TV matou o cinema. Talvez a mais justa dessas acusações é a que relaciona a televisão com o cinema. Foi o cinema que levou a paulada. Primeiro, porque a televisão atinge uma platéia maior. Segundo, porque oferece uma imagem parecida com a do cinema. Nos grandes centros, o confronto tornou-se violento. O próprio cinema refugiou-se abertamente na televisão. Mas o teatro, como disse não me lembro mais quem, está em crise há 5.000 anos. É uma crise muito sadia. Ela acompanha qualquer movimento da humanidade. A televisão não só não prejudica o teatro como ajuda a divulgá-lo. Ela trouxe a consciência do espetáculo teatral a pessoas que não tinham a menor idéia do que ele significa. Isso criou nelas uma grande curiosidade pelo palco. Quem sabe se, futuramente, ela não se tornará responsável por uma nova época áurea do teatro?
Veja — Como se sente o senhor trabalhando na televisão?
ZIEMBINSKI — Olha: eu gosto muito. Desde o início da televisão, me liguei muito a ela. Não vou dizer que fui pioneiro, mas sempre tentei fazer coisas novas, ainda no tempo que a TV era uma cinderela, um veículo meio desacreditado, com milhares de defeitos técnicos, que servia de "bico" para os artistas. Sou um profissional e sinto-me bem em tudo que estiver ligado à minha profissão. Não tenho dessa profissão um conceito romântico. Às vezes me perguntam qual o papel que eu mais desejaria representar. Isso nunca me passou pela cabeça. Gosto de fazer qualquer papel. Por isso me considero um artesão. Quando parti para a TV, embarquei com a maior boa fé e disposição. Não é verdade que um bom ator de teatro não pode ser um bom ator de cinema ou que um bom ator de televisão não pode ser bom ator de teatro. É tudo lenda. Existem dois tipos de intérpretes: o bom e o ruim. O bom se adapta a qualquer veículo, todas as portas se abrem ao seu talento. A televisão me apresenta, como intérprete, duas grandes possibilidades. A primeira é que estou diante de uma audiência monstruosa, a mais heterogênea possível, a mais subdividida culturalmente. Essa platéia me absorve e julga meu trabalho de mil formas diferentes. Embora eu não possa ser de mil maneiras diferentes, posso ter uma atuação que satisfaça a todos ou que, pelo menos, não os decepcione.
Veja — Como é representar na TV?
ZIEMBINSKI — Ela me oferece o flagrante da autenticidade, aquele velho sonho do ator de se queimar na emoção criadora da hora de interpretar. No teatro, paradoxalmente, essa chama autêntica do ator acaba muito prejudicada. No decorrer da peça, surge um aperfeiçoamento técnico mas vem também um desgaste circunstancial. A televisão me propõe a delícia íntima de pesquisar intensamente durante as horas que antecedem a gravação para queimar esse precioso material em alguns minutos. Por isso eu digo aos jovens: não tentem a televisão, que vocês não vão agüentar a barra. É preciso ter muito preparo.
Veja — Mas há muitos artistas que surgem na televisão e fazem sucesso sem ter experiência de teatro.
ZIEMBINSKI — Não é verdade. Quase sempre saem do teatro. Há o que o cinema alemão, no tempo da "UFA", chamava de Naturmensch (homem da natureza), que filmava sem ter consciência do que estava interpretando, como as crianças: são os intérpretes ideais, justamente porque lhes falta experiência. As plantas também são excelentes exemplos de "naturalidade". Mas, até hoje, só poucas crianças que fizeram sucesso conseguiram tomar-se bons artistas, e é mais difícil ainda manter a curiosidade em torno de uma planta. Muitas vezes, depois de uma primeira experiência na televisão, os artistas se refugiam no teatro para se reabastecer.
Veja — Representar no palco dá mais prazer ao ator?
ZIEMBINSKI — Ninguém discute que o público vivo representa um desafio constante. Existe sempre dentro de nós a vontade de provar até onde se consegue levar o público. Mas devo confessar que, às vezes, o público proporciona um enorme desprazer. Ele leva o ator ao desespero, com reações erradas, quando se agita, quando tosse, quando espirra. Existe uma lenda segundo a qual as pessoas param de tossir se o ator representou extraordinariamente bem. Nada mais falso. A gripe é uma coisa indomável. Por outro lado, na televisão, há o fenômeno da máquina funcionando. Não podemos deixar que isso nos afete. É muito importante manter um desligamento em relação a ela.
Veja — Até agora estávamos falando do ator. Como é Ziembinski diretor?
ZIEMBINSKI — Você está me pegando muito de surpresa. Tive várias colocações durante minha vida, às vezes totalmente opostas. Nas décadas de 30 e 40, quando havia uma predominância, quase uma autocracia do diretor, segui essa colocação. Mas, por mais arbitrárias que fossem minhas concepções do espetáculo, sempre tive um grande encantamento pelo material humano. Tentava desenvolver o intérprete ao máximo de sua potência. Confesso que agora minha maneira de dirigir é diferente. Sou muito mais liberto. Quero que os atores venham a mim. Mas que venham a mim sabendo o que quero. O problema é que se confunde liberdade dentro da arte com confusão dentro da arte. E confusão gera sempre confusão. O fato de o diretor esperar que o elenco o estimule na criação só pode resultar em algo positivo se todos — atores e diretor — souberem para onde caminham. Senão viram mercado persa.
Veja — Um diretor pode criar um ator? Ou esmagá-lo?
ZIEMBINSKI — Nem uma coisa nem outra. A colocação do diretor, especialmente hoje, é muito diferente daquela do passado. Acredito que um diretor possa ajudar muito um ator que tenha um verdadeiro potencial e não desenvolver tanto outro que apresente um potencial limitado. Acho que o diretor pode até prejudicar um ator, mas só se este não for bastante forte. Não podem nunca matar um ator. Mas, hoje em dia, a concepção de direção é tão ampla que alguns encenadores nem se interessam pelo ator. Outros só se interessam por ele e jogam fora o espetáculo. Nessa relação de ator e diretor aparecem também muitas lendas, muitas histórias românticas, que a gente gosta de contar mas que não são verdadeiras.
Veja — Quais são os grandes atores, atualmente? Ou melhor, quais atores o senhor prefere?
ZIEMBINSKI — Vou ser muito sincero: isso não tem a menor importância. É uma coisa muito íntima, muito especial. Assim, não sei responder. Gosto, por exemplo, do inglês Paul Scofield. Eu o vi em Varsóvia, em 1964, fazendo "Rei Lear". Foi uma das coisas mais impressionantes que já vi em minha vida. Este ano eu o vi fazendo a "Tempestade". Foi das coisas mais medíocres que já assisti. Mas é possível que outros tenham achado bom. Gosto muito, por exemplo, de Laurence Olivier e de vários outros. Mas gosto em determinadas ocasiões e em certos papéis.
Veja — O senhor disse que não lhe importa o papel que interpreta. Mas qual lhe deu maior satisfação?
ZIEMBINSKI — Não tenho nenhum amor ou deslumbramento pelos papéis que deixei para trás. Posso avaliar quais deles consegui fazer mais ou menos bem. Mas não tenho encantamento especial por nenhum. Não me "amarro" em nenhum, como se diz hoje. É sempre o meu último filho que me desperta maior amor e interesse. A não ser quando é uma dessas coisas que a gente faz só para ganhar dinheiro. Ninguém está livre disso.
Veja — Mas o sucesso?
ZIEMBINSKI — Seria insincero se não dissesse que uma receptividade maior me causa prazer, mesmo uma ligeira vaidade. Mas esse processo não parte de mim. Parte dos que recebem o que fiz.
Veja — E como o senhor reage diante do fracasso?
ZIEMBINSKI — É muito difícil responder isso sem ser acusado de cabotinismo. Na minha carreira, a não ser nos tempos muito de juventude, quando devo ter cometido vários pecados de imaturidade e nos quais eu era um pasto excelente para afiar os dentes dos juízes, não me lembro de papéis que tenham me decepcionado. Podia causar decepção a peça, por não ter sido aceita. Mas nunca me senti repudiado, isolado, sem encontrar em mim a verdade humana. Talvez porque nunca tenha partido para um papel sem a segurança de que o iria fazer bem. E olha que me arrisquei muito. Por exemplo, quando fiz, na televisão, o papel da velha Stanislava na novela "O Bofe". Não é fácil fazer um travesti que possa ser visto por espectadores de subúrbio. É um perigo.
Veja — O senhor nunca escreveu para teatro?
ZIEMBINSKI — Escrevi. Foi na época de minha partida para cá: várias peças em polonês que não teriam sentido no Brasil. Sinto vontade de escrever. Mas não tenho tempo físico. Muito confidencialmente, posso dizer que ajudei a escrever algumas peças de teatro. Para escrever é necessário um tal afastamento temporal de todas as circunstâncias que nos envolvem que para mim isso hoje em dia seria impossível. Meu grande desejo é escrever um livro. Não sei quando nem como. Só sei que, para isso, me fecho de noite com meu gravador e falo coisas que poderão servir.
Veja — Um livro de memórias?
ZIEMBINSKI — Não sei. Um livro que falasse de tudo aquilo que o teatro fez de minha vida e do que minha vida fez do teatro.
Veja — Qual o saldo dessa experiência? O senhor se sente mais rico ou mais cansado?
ZIEMBINSKI — Quando olho para minha vida, vejo uma longa história de desenvolvimento. Não só de minha arte, mas principalmente da canceituação dessa arte. Mais ainda: a conceituação do próprio ser humano, de minha qualidade de gente. Acho que isso acontece na carreira de todo profissional. Há alguns anos, houve um dia em que eu me dei ao luxo de dizer para mim mesmo: agora sei representar. Foi uma descoberta. Hoje ela me permite qualquer tentativa. Não quero dizer que vá ser bem sucedido. Mas já tenho bastante capital humano e profissional para me credenciar. Na prática, isso representa uma maior economia de forma. Quanto mais maduros ficamos, menos precisamos de forma. Com o tempo, ela fica mais direta, mais cristalina, mais penetrante.

quarta-feira, outubro 17, 2012

Nise da Silveira

Nise da Silveira (Maceió, 15 de fevereiro de 1905 — Rio de Janeiro, 30 de outubro de 1999) médica psiquiatra brasileira, Dedicou sua vida à psiquiatria e manifestou-se radicalmente contrária às formas agressivas de tratamento de sua época, tais como o confinamento em hospitais psiquiátricos, eletrochoque , insulinoterapia e lobotomia . Durante a Intentona Comunista foi denunciada por uma enfermeira pela posse de livros marxistas . A denúncia levou à sua prisão em 1936 no presídio da Frei Caneca por 18 meses. Neste presídio também se encontrava preso Graciliano Ramos , assim ela tornou-se uma das personagens de seu livro Memórias do Cárcere . De 1936 a 1944 permanece com seu marido na semi-clandestinidade, afastada do serviço público por razões políticas . Durante seu afastamento faz uma profunda leitura reflexiva das obras de Spinoza , material publicado em seu livro Cartas a Spinoza em 1995.


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terça-feira, outubro 16, 2012

O poema "Quase"


Parte do comentário de Luis Fernando Veríssimo sobre o texto 'Quase' que circula na internet com se o autor fosse ele.


Uma das incomodações menores da internet, além das repetidas manifestações que recebo de uma inquietante preocupação, em algum lugar, com o tamanho do meu pênis, é o texto com autor falso, ou o falso texto de autor verdadeiro. Ainda não entendi o recato ou a estranha lógica de quem inventa um texto e põe na internet com o nome de outro, mas o fato é que os ares estão cheios de atribuições mentirosas ou duvidosas. Já li vários textos com assinaturas improváveis na internet, inclusive vários meus que nunca assinei, ou assinaria. Um, que circulou bastante, comparava duplas sertanejas com drogas e aconselhava o leitor a evitar qualquer cantor saído de Goiânia, o que me valeu muita correspondência indignada. Outro era sobre uma dor de barriga desastrosa, que muitos acharam nojento ou, pior, sensacional. O incômodo, além dos eventuais xingamentos, é só a obrigação de saber o que responder em casos como o da senhora que declarou que odiava tudo que eu escrevia até ler, na internet, um texto meu que adorara, e que, claro, não era meu. Agradeci, modestamente. Admiradora nova a gente não rejeita, mesmo quando não merece.
O texto que encantara a senhora se chamava "Quase" e é, mesmo, muito bom. Tenho sido elogiadíssimo pelo "Quase". Pessoas me agradecem por ter escrito o "Quase". Algumas dizem que o "Quase" mudou suas vidas. Uma turma de formandos me convidou para ser seu patrono e na última página do caro catálogo da formatura, como uma homenagem a mim, lá estava, inteiro, o "Quase". Não tive coragem de desiludir a garotada. Na internet, tudo se torna verdade até prova em contrário e como na internet a prova em contrário é impossível, fazer o quê?
Eu gostaria de encontrar o verdadeiro autor do "Quase" para agradecer a glória emprestada e para lhe dar um recado. No Salão do Livro de Paris, na semana passada, ganhei da autora um volume de textos e versos brasileiros muito bem traduzidos para o francês, com uma surpresa: eu estava entre Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e outros escolhidos, adivinha com que texto. Em francês ficou Presque


Abaixo,  o tal poema:

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono. Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém,preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

Retrô

Anos 90. O livro Olho Magico fazia leitores revirarem os olhos nas livrarias. Era a busca
para encontrar imagens ocultas em 3D. Eu ainda tenho um VHS sobre esse tema. Ficava
tentando encontrar as imagens nas frente da TV. Encontrei algumas imagens e aumentei
alguns graus na minha miopia...

Clique pra ampliar ( e tente encontrar) 

Memórias da 2 Grande Guerra Mundial


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segunda-feira, outubro 15, 2012

A casa da tortura em Petrópols


 (Reportagem de Leandro Loyolla para a revista Época em 1.11.2010) 

Nas ruas estreitas, sinuosas e inclinadas de Petrópolis (RJ), a casa branca, com pedras de granito na base, janelas de madeira, jardim impecável e um velho portão de ferro não chama a atenção. No alto do morro, ela não destoa da paisagem ao redor. Talvez por isso, há quartenta anos, ela tenha sido escolhida para a função que teve. Entre os militares, a casa da rua Arthur Barbosa, 668 , no bairro Caxambu, era tratada pelo codinome Codão. Para quem a conheceu era a Casa da Morte, um cárcere privado mantido pelo Centro de Informações do Exército (CIE). Dentro dela eram torturados e mortos militantes de organizações de esquerda presos pelo braço repressivo da ditadura militar (1964-85). Após o golpe militar de 1964, o governo militar montou sua rede de repressão. Os DOI-Codis eram instalações militares, onde militantes ficavam presos e eram torturados. Eram instalações oficiais criadas para cometer crimes. Com o tempo, no entanto, surgiram os cárceres privados, centros de tortura mantidos pelas Forças Armadas fora de suas instalações oficiais. Como a Casa de Petrópolis, houve uma casa no bairro de São Conrado, no Rio de Janeiro. Em São Paulo houve o Sítio 31 de Março (em referência ao aniversário do golpe militar), na zona sul da cidade, e a casa de Itapevi (SP).



Uma das funções de locais assim era esconder os presos. Ao chegar aos DOI-Codis, os presos eram reconhecidos por companheiros que também eram supliciados lá dentro. Com o tempo, sua organizações criaram redes para distribuir a informação. Assim, os companheiros nas ruas sumiam e as famílias dos presos começavam a procurá-los.
Os cárceres privados surgiram como um modo de driblar isso. Eles evitavam que os companheiros soubessem da prisão de um militante. Nos cárceres, os militantes eram convencidos – na base da tortura, das ameaças e das ofertas financeiras – a colaborar. Se topassem, eram devolvidos às ruas para se integrar a suas organizações, como se nada tivesse acontecido. Mas passavam a informar os repressores e a entregar companheiros para a morte. Tornavam-se “cachorros”. Mais de uma dúzia deles ajudou a desmantelar organizações como a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), a Aliança Libertadora Nacional (ALN) e o Partido Comunista Brasileiro (PCB). A outra função de locais como a casa era torturar e eliminar presos considerados estratégicos, sem deixar rastros. Segundo alguns militares, isso incluía a norma macabra de picotar os corpos em mais de dez pedaços e enterrá-los separadamente. A ideia era que os corpos nunca fossem encontrados. Nesse quesito, a Casa da Morte de Petrópolis foi prolífica. Pelo menos 16 militantes foram trucidados em suas dependências. Eles eram torturados com choques elétricos, espancamentos e diversos tipos de crueldade. Nenhum corpo de quem passou por lá foi localizado até hoje. A única sobrevivente do local foi Inês Etienne Romeu, militante da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares). Ela passou 96 dias presa na casa. Não se sabe por que ou como, Inês foi deixada para morrer na rua, mas sobreviveu. O corajoso relato de Inês, que ocupou 23 páginas, é a principal fonte sobre as desumanidades cometidas na Casa. Ao sair de lá, Inês ajudou a localizar a casa e entregou os nomes de 19 torturadores. Eles eram homens do Centro de Informações do Exército. Todos operavam com codinomes. Poucos foram identificados até hoje.
A Casa da Morte foi emprestada ao Centro de Informações do Exército pelo comerciante alemão Mário Lodders. Segundo Lodders declarou quando foi descoberto, ele atendeu a um pedido de um amigo. Lodders morava a pouco mais de 100 metros da casa, em outra casa, no número 120, com uma irmã e um cachorro. Lodders afirmava que não sabia o que acontecia na casa que havia emprestado. Mas Lodders foi reconhecido por Inês Etienne. Ela disse que ele frequentava a casa e até deu-lhe uma barra de chocolate quando estava machucada. Lodders morreu em 2008. Até hoje, no entanto, sua casa no fim da rua tem dois grandes cães bravos. O portão velho tem até um placa com aviso de que a casa hospeda “vira-latas neurótico”. O problema é que, como a via não tem saída, eles ficam soltos na rua. Até hoje o lugar não é convidativo.

Conheço um lugar...

Bombinhas, Santa Catarina,  Brasil 

Hoje é segunda feira...

 







sexta-feira, outubro 12, 2012

Reconstruir "O Espelho"

Via O Homem Que Sabia Demasiado
Aqui está um exemplo do poder da montagem  e da música. O filme "O Espelho" ("Zerkalo", 1975), obra maior de Andrei Tarkovski, foi editado por Romana Vujasinovic e, recorrendo à excelente música "One of These Days" dos Pink Floyd, atribui outro significado visual e estético às imagens e sequências do filme do cineasta russo. O resultado é brilhante, porque não desvirtua a essência do filme em causa, e revela outra abordagem de estilo muito bem conseguido (porque o ritmo das imagens como que é conduzido pelas várias dinâmicas da música):