segunda-feira, abril 09, 2012

Circo Vostok - 9 de abril de 2000


Revista Época
RECIFE

Não era dia de circo

Como foi o último domingo na vida do garoto devorado pelos leões que estavam fora do picadeiro

O céu estava nublado às 8h30 da manhã do dia 9 de abril, quando José Miguel dos Santos Fonseca Júnior, de 6 anos, acordou. Chovera muito na madrugada do Recife. Juninho, como o menino era chamado pelos pais e pela irmã Mirela, de 3 anos, estava ansioso. Rejeitou o café da manhã. Pediu à mãe que pusesse um CD de músicas evangélicas no três-em-um. Maria da Conceição Silva Guerra atendeu. Depois, Juninho trouxe do vizinho, emprestado, o disco do cantor brega Gino Liver. Ouviu-o. Dançou um pouco. Cansou-se. Estacionou diante do televisor para assistir ao programa infantil Eliana no Parque, da Record. Não era um domingo como tantos outros. O garoto tinha saudade do pai, José Miguel dos Santos Fonseca, separado de Maria da Conceição há dois anos. A mãe está grávida de sete meses. O nome do bebê será Júlia. Foi escolhido pelo irmão que ela não conhecerá.


José Miguel Fonseca não encontrava os filhos havia três semanas. Estava envergonhado por ter atrasado o pagamento da pensão judicial. Garçom desempregado, nos meses de boa féria consegue ganhar R$ 300 com a venda de capas de telefone celular a camelôs.

Juninho rejeitou o almoço. A inquietude preocupou a mãe. O garoto saiu em disparada ao vislumbrar a silhueta do pai virando a esquina. "Ei, não vai nem dar um beijo de despedida?", intimou Maria da Conceição. Recebeu o último carinho apressado e se despediu dos filhos. O Sport, clube do coração da família Fonseca, jogaria com o Ferroviário pelo campeonato pernambucano. Mas o pai preparara uma surpresa. "Vamos ao circo", anunciou. Estavam no ônibus. Juninho sorriu.


A última apresentação do Circo Vostok, armado no estacionamento do Guararapes, um dos cinco grandes shopping centers do Recife, começaria às 17h30. Uma hora antes, a família Fonseca estava na fila da bilheteria. Juninho pediu ao pai pipoca e guaraná. Os ingressos de R$ 4 para a arquibancada popular tinham acabado. José Miguel comprou bilhetes para cadeiras de R$ 6. O espetáculo começou com dez minutos de atraso. Entraram palhaços, malabaristas, algumas dançarinas e cavalos com selas coloridas, que fecharam a primeira parte. Anunciado um intervalo de 20 minutos, o locutor convidou as crianças a tirar fotos com os animais. Mirela, o pai e o irmão gostaram da idéia.

Os cinco leões amestrados do Vostok, que seriam a atração seguinte, estavam presos perto do picadeiro. Passando ao lado do carro-jaula que levaria os leões ao palco, Juninho recebeu um golpe da pata direita de Bongo, macho de 8 anos e 220 quilos. Com a esquerda, o animal enlaçou a criança e a puxou para dentro da jaula. Os ossos do garoto quebraram-se, permitindo a passagem do corpo pelas grades. O braço esquerdo foi devorado. O leão mordeu-lhe o pescoço. Dilacerou-o com fortes movimentos verticais de cabeça. "Só deu tempo de ouvir meu filho dizer: 'Ai, pai'. Ele sorria. Parecia achar que o leão estava brincando", lembra José Miguel. Paxá, outro macho de 8 anos, atacou seguidamente o corpo que jazia ante o público perplexo. Policiais militares mataram quatro dos cinco leões. O circo levantou a lona, cancelou as apresentações e agora responde a inquéritos policiais pelo desleixo. O dono do circo, Alexandre Vostok, assumiu a responsabilidade pela morte, garante que vai indenizar a família de José Miguel e todo o público presente. Promete também nunca mais trabalhar com animais. "Meu irmão? Meu irmão?", pergunta Mirela seguidamente. Ela assistiu a tudo. Como o restante da platéia, nunca mais esquecerá o que viu.

Lula Portela, do Recife

8 comentários :

Benedito Ap. da Silva (Benê) disse...

Lembro deste fato e foi muito triste. Coitado da criança, dos pais, né?!

Vini Nogueira disse...

Fato triste sim,mas me desculpem a todos,os animais não ficam ao alcance do publico,o menino deve ter invadido alguma area restrita,o publico nem podia passar perto dos animais,no minimo dois metros de distancia.

Anônimo disse...

Ao Vini Nogueira,

E a culpa é do garotinho de 6 anos de idade que achava que o leão estava brincando?

Santa paciência...

Anônimo disse...

/\/\ Claro, uma criança de 6 anos, acompanhada pelo pai, sabe exatamente as consequencias de seus atos.... Aja ignorância nesse mundo.
Não boa, eu achei ridículo a polícia ter sacrificado os leões, que não comiam a 3 dias. Olha eu trabalhei com leões durante 5 anos, são animais relativamente "dóceis" (exceto a leoa) e muito dorminhocos, mas vc deixa de alimentar um animal selvagem p/ ver o que acontece.

Anônimo disse...

A polícia abateu os animais para preservar o que restava do corpo do garoto. Quer dizer que, além de perder o filho, os pais ainda teriam que enterrar um caixão cheio de ossos?

Atitude corretíssima dos policiais militares.

Anônimo disse...

Não deveriam usar animais em circos.

Anônimo disse...

Não deveriam ter animais em circos.

Anônimo disse...

A culpa não é de ninguém, senão dos irresponsáveis fdps, que capturam os animais nos seus habitats naturais, criados por Deus e os encarceram para ganhar seus lucros, deixando-os estressados, famintos e sem condições de se reproduzirem. Deviam ser responsabilizados, condenados e presos sem direito a fiança pela morte do.