NOS ACOMPANHE TAMBÉM :

quinta-feira, janeiro 15, 2026

Obras-Primas do Terror: Folk Horror


 Trata-se de uma verdadeira caixa de tesouros sombrios, uma coleção que mergulha fundo nas veias menos exploradas do horror folclórico, demonstrando a vastidão e a versatilidade do gênero para além de seus títulos mais canônicos. Cada filme aqui presente oferece uma faceta diferente do medo que brota da terra, da tradição e do inexplicável.

DISCO 1

OLHOS DE FOGO (Eyes of Fire, 1983)

Este é um dos artefatos mais singulares e redescobertos do folk horror americano. Lançado em meio à explosão do slasher, Olhos de Fogo foi um filme anacrônico e incompreendido em sua época, mas que hoje é corretamente cultuado. Sua força reside em como ele transplanta a sensibilidade do folk horror britânico para o solo da América colonial. A narrativa do pregador exilado e seus seguidores é o arquétipo perfeito do gênero: a comunidade isolada forçada a confrontar uma paisagem que não é vazia, mas sim habitada por uma força ancestral e hostil.

Análise Crítica: A direção de Avery Crounse cria uma atmosfera de pesadelo febril. O filme é visualmente impressionante, com uma fotografia enevoada e uma paleta de cores terrosas que fazem a floresta parecer um purgatório vivo. O horror aqui não é apenas o dos espíritos indígenas que assombram o vale — representados de forma surreal e aterrorizante, com rostos emergindo das árvores —, mas também o horror interno da desintegração social e da culpa puritana. Os verdadeiros monstros podem ser tanto as entidades da mata quanto o fanatismo e a hipocrisia que o grupo carrega consigo. A versão estendida, em particular, aprofunda o desenvolvimento dos personagens e a mitologia do lugar, solidificando-o como uma obra-prima perdida, um elo perdido entre A Bruxa (2015) e o cinema de vanguarda dos anos 70.

A FITA DE PEDRA (The Stone Tape, 1972)

Uma obra seminal que demonstra a genialidade da programação televisiva da BBC na época. A Fita de Pedra é uma fusão perfeita de horror gótico e ficção científica, escrita pelo lendário Nigel Kneale (criador do Professor Quatermass). A premissa de que a pedra pode "gravar" eventos traumáticos — a "teoria da fita de pedra" — é uma das ideias mais influentes e aterrorizantes do horror moderno, diretamente citada por John Carpenter em O Príncipe das Trevas.

Análise Crítica: O que torna A Fita de Pedra tão eficaz é como ele transforma o folk horror em um problema científico. A arrogância da equipe de pesquisadores, que acredita poder medir, analisar e dominar o fenômeno, colide frontalmente com a natureza primordial e incontrolável do horror. O fantasma não é uma entidade consciente, mas um eco, uma cicatriz psíquica na paisagem. A direção de Peter Sasdy, veterano da Hammer, é claustrofóbica e cria uma tensão insuportável, especialmente nas cenas de experimentação sonora. O filme explora o medo de que o passado não está morto e de que a ciência moderna é impotente diante de traumas tão antigos que se tornaram parte da própria geologia do lugar. É um folk horror para a era tecnológica.


DISCO 2

O ESTRANHO PODER DE MATAR (The Shout, 1978)

Dirigido pelo mestre polonês Jerzy Skolimowski, O Estranho Poder de Matar é uma obra-prima do horror psicológico que se infiltra no território do folk horror de maneira oblíqua e perturbadora. O elemento "folk" aqui não vem de uma comunidade pagã, mas do conhecimento ancestral e xamânico que o personagem de Alan Bates alega ter adquirido com os aborígenes australianos. É o horror da tradição oral e do poder primordial da voz humana.

Análise Crítica: Este não é um filme de sustos, mas de um pavor crescente e existencial. A performance de Alan Bates é magnética e aterrorizante; ele é a personificação do "outro", o intruso que desestabiliza a ordem racional e burguesa do casal vivido por John Hurt e Susannah York. Skolimowski filma a pacata paisagem inglesa de Devon com uma sensação de estranhamento, como se a loucura estivesse sempre à espreita sob a superfície da normalidade. O conceito do "grito do terror" que pode matar é uma metáfora poderosa para o conhecimento proibido e a força irracional que a civilização tenta reprimir. O filme questiona a natureza da realidade, da sanidade e do poder, resultando em uma experiência cinematográfica inesquecível e profundamente inquietante.

O PÂNTANO DE PENDA (Penda’s Fen, 1974)

Mais uma joia da série "Play for Today" da BBC, O Pântano de Penda é talvez o filme mais intelectual, complexo e lírico desta coleção. É uma obra que transcende o horror para se tornar uma meditação profunda sobre identidade — nacional, sexual e espiritual. O jovem Stephen, filho de um pastor, embarca em uma jornada de autodescoberta que o coloca em contato com as camadas pagãs e radicais da história inglesa, personificadas pelo rei Penda, o último rei pagão da Inglaterra.

Análise Crítica: Alan Clarke, mais conhecido por seu realismo social brutal, aqui dirige um roteiro denso e poético de David Rudkin. O filme é uma tapeçaria de visões surreais, sonhos e debates filosóficos. O "horror" não é externo, mas interno: é o medo da repressão, a angústia de questionar as próprias crenças e a descoberta de uma identidade queer em uma sociedade conservadora. Penda's Fen argumenta que a verdadeira Inglaterra não é a da Igreja ou do Estado, mas uma força pagã, anárquica e primordial que reside na paisagem. É uma obra essencial para entender como o folk horror pode ser uma ferramenta poderosa para a exploração de temas políticos e pessoais, e sua importância para o cinema queer é imensurável.


DISCO 3

VINGANÇA DO ALÉM (Shadow of the Hawk, 1976)

Este filme é um exemplo crucial do folk horror norte-americano, pois se afasta das tradições europeias para explorar a rica e complexa cosmologia dos povos originários. A trama central, sobre a passagem do conhecimento xamânico de avô para neto, é um terreno fértil para o conflito clássico do gênero: a tradição versus a ceticismo moderno.

Análise Crítica: O grande trunfo de Vingança do Além é a presença imponente de Chief Dan George, que empresta uma gravidade e autenticidade imensas ao papel do xamã. O filme trata as crenças indígenas com respeito, apresentando o mundo espiritual como uma realidade tangível e perigosa. O horror se manifesta através de maldições, visões e confrontos com forças místicas, representadas por efeitos especiais setentistas que, embora datados, possuem um charme peculiar. Mais do que um simples filme de terror, é uma aventura sobrenatural sobre a reconexão com as raízes e a aceitação de uma herança cultural em um mundo que a despreza. É uma pérola que mostra como o folk horror pode dar voz a mitologias não-ocidentais.

O ANIVERSÁRIO DE ALISON (Alison’s Birthday, 1981)

Um excelente exemplar do "Ozploitation" (cinema de gênero australiano), O Aniversário de Alison pega a estrutura de O Bebê de Rosemary e a infunde com elementos de folk horror e uma conspiração pagã que remete diretamente a O Homem de Palha. A sensação de isolamento e paranoia é potencializada pelo cenário australiano.

Análise Crítica: O filme constrói sua tensão de forma lenta e eficaz. Alison é a clássica "donzela em perigo", mas sua situação é particularmente assustadora porque seus captores são seus próprios parentes, a comunidade que deveria protegê-la. O culto que a cerca não é abertamente satânico no sentido cristão, mas está ligado a uma entidade ancestral e a rituais druídicos, conectando a trama a uma linhagem antiga de sacrifício. O filme é habilidoso em criar uma atmosfera de estranhamento onde gestos de carinho e preocupação familiar se revelam como manipulações sinistras. É uma obra que merece ser redescoberta por sua execução sólida do tropo da "conspiração rural" e por seu final implacável.


Menção Honrosa: Robin Redbreast (1970)

Incluído como um especial, este telefilme da BBC é historicamente vital. Produzido três anos antes de O Homem de Palha, ele contém quase todos os elementos que consagrariam o filme de Robin Hardy: uma mulher moderna e independente se muda para uma aldeia isolada, se envolve com um local e lentamente descobre que os costumes da comunidade são bizarros, sexuais e, por fim, mortais. É uma peça fundamental para entender a gênese do gênero na Inglaterra.

Nenhum comentário :