O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, traduzido/recontado por Clarice Lispector, publicado pela Coleção Elefante – Edições de Ouro no início dos 1970.
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Projeto editorial e público-alvo
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A Coleção Elefante era voltada para jovens leitores, apresentando adaptações de clássicos universais em linguagem mais acessível.
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O fato de Clarice Lispector ter feito uma adaptação é revelador: ela se apropriava do texto de Wilde, mantendo a essência filosófica e moral, mas simplificando a prosa para leitura de formação.
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A capa
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O destaque é a imagem grotesca do retrato, já totalmente corrompido pelo tempo e pelo pecado. A escolha visual é quase de terror gráfico, remetendo a cartazes de filmes de horror dos anos 1970 (a capa poderia facilmente estar em um pôster da Hammer ou da AIP).
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Essa estética difere do tom decadentista original de Wilde, aproximando a edição do imaginário do horror pulp e das edições baratas de livros de terror que circulavam no Brasil.
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A inscrição na capa
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A frase: “Aquele retrato espantoso refletia, dia a dia, pecado por pecado, os estragos da alma...” funciona como uma espécie de slogan moralizante, reforçando o caráter didático da coleção.
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Mais do que Wilde, há aqui uma leitura pedagógica: o livro serve como alerta contra os vícios e o hedonismo sem freios.
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Valor histórico e cultural
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Essas edições baratas de bolso tiveram papel central na formação literária popular no Brasil, introduzindo jovens leitores a nomes como Wilde, Shakespeare, Victor Hugo e Dickens.
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O caso de Clarice é curioso: sua participação nesses projetos mostra sua faceta de escritora também voltada para o mercado editorial de massa, não só para a alta literatura.
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O cruzamento entre literatura e horror
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Essa edição coloca Wilde num patamar de literatura fantástica/horror, aproximando-o de leitores que buscavam emoções fortes.
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Assim, a recepção de “Dorian Gray” no Brasil acabou contaminada por uma estética mais próxima do cinema de terror que das discussões filosóficas e estéticas do decadentismo fin de siècle.
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👉 Em resumo: este exemplar é um testemunho da popularização de Wilde no Brasil via literatura de massa, reinterpretado com uma aura de horror explícito e filtrado pela pena de Clarice Lispector, que recontava clássicos para torná-los acessíveis sem perder o efeito moralizante.

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