NOS ACOMPANHE TAMBÉM :

sexta-feira, janeiro 09, 2026

O Retrato de Dorian Gray

 

O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, traduzido/recontado por Clarice Lispector, publicado pela Coleção Elefante – Edições de Ouro   no início dos 1970.


  1. Projeto editorial e público-alvo

    • A Coleção Elefante era voltada para jovens leitores, apresentando adaptações de clássicos universais em linguagem mais acessível.

    • O fato de Clarice Lispector ter feito uma adaptação é revelador: ela se apropriava do texto de Wilde, mantendo a essência filosófica e moral, mas simplificando a prosa para leitura de formação.

  2. A capa

    • O destaque é a imagem grotesca do retrato, já totalmente corrompido pelo tempo e pelo pecado. A escolha visual é quase de terror gráfico, remetendo a cartazes de filmes de horror dos anos 1970 (a capa poderia facilmente estar em um pôster da Hammer ou da AIP).

    • Essa estética difere do tom decadentista original de Wilde, aproximando a edição do imaginário do horror pulp e das edições baratas de livros de terror que circulavam no Brasil.

  3. A inscrição na capa

    • A frase: “Aquele retrato espantoso refletia, dia a dia, pecado por pecado, os estragos da alma...” funciona como uma espécie de slogan moralizante, reforçando o caráter didático da coleção.

    • Mais do que Wilde, há aqui uma leitura pedagógica: o livro serve como alerta contra os vícios e o hedonismo sem freios.

  4. Valor histórico e cultural

    • Essas edições baratas de bolso tiveram papel central na formação literária popular no Brasil, introduzindo jovens leitores a nomes como Wilde, Shakespeare, Victor Hugo e Dickens.

    • O caso de Clarice é curioso: sua participação nesses projetos mostra sua faceta de escritora também voltada para o mercado editorial de massa, não só para a alta literatura.

  5. O cruzamento entre literatura e horror

    • Essa edição coloca Wilde num patamar de literatura fantástica/horror, aproximando-o de leitores que buscavam emoções fortes.

    • Assim, a recepção de “Dorian Gray” no Brasil acabou contaminada por uma estética mais próxima do cinema de terror que das discussões filosóficas e estéticas do decadentismo fin de siècle.

👉 Em resumo: este exemplar é um testemunho da popularização de Wilde no Brasil via literatura de massa, reinterpretado com uma aura de horror explícito e filtrado pela pena de Clarice Lispector, que recontava clássicos para torná-los acessíveis sem perder o efeito moralizante.

Nenhum comentário :