Autor: Pedro Zamora
Princípio de conversa
A Copa do Mundo de 1974 deixou muita gente boquiaberta neste meu Brasil velho de guerra. De olhos escancarados para os holandeses! Como jogam bonito os holandeses! Jogam sim, e daí?
Você viu o Beckenbauer? Vi, sim, mas tinha visto o Fausto, e o Danilo, muito tempo antes...
Os poloneses! Como correm os poloneses!!!
E tome futebol total e outras baboseiras. Futebol total. Ah! Ah! Ah! Ou se escovam os dentes totalmente, ou então os dentes não foram escovados.
Futebol total é asneira. Simplesmente porque não existe futebol parcial. O que há é futebol, um jogo simples que alguns idiotas teimam em complicar, recuando pontas ou encolhendo o espaço de jogar.
Cada um salta do bonde como sabe. Nós não temos nada que imitar o jeito de jogar de quem quer que seja.
Do livro "Assim falou Neném Prancha" de Pedro Zamora. Copyright © by Ipswich Brasil. Reproduzido com permissão da Editora Crítica Ltda. Rio de Janeiro, RJ.
O futebol chegou aqui no princípio do século e em menos de cinquenta anos inserimos-lhe nossa bossa, nossa malemolência e fizemos o futebol mais lindo do mundo, que já assombrou a Europa várias vezes. Em 25 com o Paulista do Arthur Friedenreich; em 38 com Romeu, Tim e Leônidas. Em 58 com Pelé, Didi e Garrincha. E tantos anos a fio com o Santos do Pelé e do Coutinho.
Nós temos o nosso futebol intimamente ligado às nossas tradições. De um povo alegre e descontraído. Esse futebol valente que entrava em qualquer gramado do mundo de viseira erguida e de peito aberto, saindo para massacrar quem aparecesse pela frente.
Nós passeamos esse futebol pelos quatro cantos do mundo e os de lá foram obrigados a ficar de pé para nos aclamar. Porque nós lhes apresentávamos espetáculo de tal natureza que um cronista, ofuscado pelo jogo da Seleção Brasileira em 1970, chegou a gritar: “As palavras, onde estão as palavras?”.
O que aconteceu em 1974 acontece em qualquer família da alta linhagem. Fizeram do panache pavor. O valente futebol brasileiro chegou à Alemanha todo encolhido. E entrou na Copa, não de olhos fitos na vitória, mas com os olhos esbugalhados ante o fantasma da derrota. “Arrecuaram os raízes”, os pontas e tudo mais...
O futebol brasileiro existe. O futebol brasileiro é aquele das onze feras que o Saldanha mobilizou em 1970. Tal foi o ímpeto que Saldanha injetou no coração dos rapazes da Seleção de 1970, que nada conseguiu quebrar-lhes a meritória coragem. O resultado foi aquela última apresentação internacional do futebol macho, do futebol pra frente, do futebol brasileiro.
Nosso futebol engatinhou nos braços da intuição durante muitos anos. Entendo que começamos a jogar o futebol maravilhoso que jogamos a partir do dia em que aqui aportou Doris Krusenko. Ele veio acrescentar apenas ao jogo que tínhamos um pouco de técnica. Depois veio Giúla Mardi e muitos outros. Até que Don Fleitas Soltou chegou para pôr fim ao individualismo exagerado de nossos craques.
No fundo, o nosso futebol sempre foi jogado em ritmo de samba. Cantem o "Tico-tico no fubá" e vejam se não se parece com aquele ritmo dos 5 gols na Suécia e na França. Já o futebol argentino cheira a "Mano a mano", "Rechiflão em mi tristeza..." Assim, os demais estilos de jogo de futebol do mundo. O alemão tresanda a Wagner. O holandês é naquela base da música flamenga. O italiano é ópera pura. Eic, Eic.
Quer dizer, cada futebol tem sua melodia própria. Melodia que é sua, só sua, e cuja instrumentação pode levar um pouco ali técnica instrumental daqui ou dali. O que acontece com o nosso futebol, via de regra, é que os nossos grandes instrumentistas tocam de ouvido. Pouquíssimos são os que estudaram teoria.
Cito um exemplo. Leônidas da Silva era um jogador de grande cartaz entre nós. Tinha sido o herói da Copa Rio Branco de 1925 e era um dos monstros sagrados de nosso futebol. Aportou nestas paragens o húngaro Doris Kruschner que veio treinar o Flamengo. Ele espiou o primeiro treino do Fla e depois detonou falatório. Dedicou especial atenção a Leônidas. Disse-lhe que ele tinha grandes qualidades para jogar futebol, mas que estava desperdiçando.
O homem que grita com os meninos é o Senhor Antônio Franco de Oliveira. O famoso Neném Prancha, que Saldanha imortalizou em suas crônicas e a quem Armando Nogueira chamou de "filósofo do futebol". Por suas mãos passaram quatro gerações de meninos das praias de Copacabana.
O atual Prefeito desta Cidade Maravilhosa passou pelas areias de Copacabana e escutou alguns sermões do Neném quando jogou diferente daquilo que o velho falou.
Ele está sempre ali, no mesmo local. Principalmente nas tardes de terça, quinta e sábado. Ele vive para o futebol.
Neném Prancha não está mais entre nós. Morreu. Morreu na simplicidade em que viveu. Pode-se afirmar que Neném amou o Glorioso acima de todas as coisas.
Um certo Senhor Neném Prancha. A gente vai andando pelo calçadão da Avenida Atlântica, assim como quem não quer nada. Quando chega ali na altura da Constante Ramos, mais pra lá do que pra cá, há de encontrar um bando de garotos correndo atrás de uma bola.
Esses clubes todos formavam uma Liga onde o Posto 4 causou de colher triunfos memoráveis. No time de Neném jogou o Sérgio Porto, o inesquecível Stanislaw Ponte Preta, e jogaram o Saldanha, Heleno de Freitas, o Neves e muita gente boa.
O jogo de futebol. "Uma das razões pela qual o futebol se torna um jogo atraente, quer para os jogadores, quer para o público, é a sua liberdade de movimentos. Ataque e defesa fluem naturalmente, um no outro, e os jogadores podem ser deixados quase que completamente livres em seus movimentos, no campo de jogo."
Há três fases principais do jogo que se desenvolvem em três compartimentos do gramado. O ataque, o meio de campo e a defesa. O ataque conquista os gols, o meio de campo que os prepara, e a defesa que barra ao adversário o caminho para o gol.
O domínio da bola não é tudo; é uma parte da habilidade do jogador de futebol. Um jogador de futebol que domina bem a bola poderá dar show, fazer exibições para as arquibancadas, e nunca vir a ser um grande craque.
"É preciso forjar a ferramenta (o corpo) com paciência e reflexão, porque ele é o servidor, é o operário do cérebro."
Maurice Baquet enfatiza que o preparo físico é a base para um jogador de futebol. Sem domínio do corpo, habilidades técnicas são inúteis. O texto critica jogadores que negligenciam o condicionamento físico, levando a falhas nervosas em momentos decisivos.
Princípios do jogo:
Posse de bola como fundamento – O futebol se resume a fazer gols, e sem a bola, isso é impossível.
Simplicidade – Evitar firulas desnecessárias; passes precisos são mais eficazes.
Riscos calculados – Arriscar a perda da bola apenas em chutes a gol ou contra-ataques estratégicos.
Condição física e mental:
Um jogador deve estar apto a jogar os 90 minutos em alto rendimento.
"O jogo só acaba quando termina" (Alfredo Di Stefano). Relaxar antes do apito final pode custar a vitória.
Frase emblemática:
"Jogador é o Didi; ele joga bola como quem chupa laranja."
Jogar sem a bola:
Em uma partida de 90 minutos, cada jogador fica em média 4 minutos com a bola. O restante do tempo exige movimentação inteligente.
Exemplo: Tostão, na Copa de 1970, decidiu jogos com passes precisos e ocupação de espaços, mesmo sem posse prolongada.
Crítica:
Peladas são caóticas porque todos correm atrás da bola. No futebol organizado, ocupar posições vazias é crucial.
Posicionamento e coletividade:
"O passe é feito para a posição, não para o indivíduo."
Caso emblemático: O gol de Jairzinho na final de 1970 surgiu porque Tostão "sentiu" onde Pelé estaria, sem vê-lo.
Frase curiosa:
"Jogador de futebol tem que ser que nem sorveteria: ter muitas qualidades."
Prefácio de João Saldanha:
Destaca a importância da obra "Assim falou Neném Prancha" para entender o futebol brasileiro, ainda marcado pelo empirismo e improvisação.
Elogia a figura de Neném Prancha como símbolo da simplicidade e sabedoria das peladas.
Disciplina tática:
Um jogador deve sair de sua posição para apoiar o companheiro, mas retornar imediatamente se não for útil.
Drible como arma secreta: Usar apenas em momentos decisivos, não como exibicionismo.
Alerta:
"Na zona do agrião (próximo ao gol), chute como puder e pra onde Deus quiser."
Profundidade e leitura de jogo:
Profundidade: Escalonar jogadores para garantir segurança defensiva e opções de ataque.
Ler o jogo: Antecipar movimentos adversários e ajustar táticas em tempo real.
Conselho de Neném:
"O jogador deve ir na bola como quem vai num prato de comida."
Análise em campo:
Perguntas-chave para jogadores:
Por que meu time está sendo dominado?
Quem está falhando na marcação?
Crítica: Muitos jogadores "se escondem" em partidas difíceis, fingindo participação.
Frase humorada:
"O goleiro deve dormir com a bola e, se for casado, dormir com as duas."
Domínio tático:
Jogadores devem identificar:
Quem comanda o ataque adversário.
Por onde as penetrações ocorrem.
Conclusão: "O jogador que sabe ler o jogo é o autêntico comandante da partida."



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