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segunda-feira, janeiro 05, 2026

Obras-Primas do Terror: Psicopatas Vol. 2

 Com base no prestígio crítico, impacto cultural e inovação estilística, os filmes da coleção Obras-Primas do Terror: Psicopatas Vol. 2 são ordenados conforme o consenso da crítica especializada. A análise considera avaliações históricas, prêmios, influência no gênero e reavaliações contemporâneas:



🎬 1. DEMÊNCIA 13 (Dementia 13, 1963)

Crítica: Marco do proto-slasher e estreia de Coppola. Apesar de orçamento irrisório (US$22 mil) e produção apressada, recebeu reavaliações positivas pelo uso criativo de sombras, tensão psicológica e fotografia expressionista. Stephen King declarou que seu terror "faz Psicose parecer manso" 10. Restaurações recentes destacaram sua inventividade, com 65% de aprovação no Rotten Tomatoes 28. Roger Corman inicialmente rejeitou o corte, mas hoje é celebrado como prenúncio do New Hollywood.

Inovação: Pioneiro na fusão de gótico europeu com violência gráfica, influenciando Friday the 13th (1980).


🌑 2. A NOITE TUDO ENCOBRE (Night Must Fall, 1964)

Crítica: Obra essencial do terror psicológico, aclamada por Stephen King e indicada a prêmios internacionais. Albert Finney (indicado ao Oscar) brilha como psicopata manipulador, com direção claustrofóbica de Karel Reisz. Críticos elogiam sua "exploração da maldade banal" e diálogos cortantes 36.

Legado: Adaptação do texto de Emlyn Williams, é estudada em academias de cinema por sua construção de suspense sem efeitos visuais.


🔴 3. VERMELHO SANGUE (Profundo carmesí, 1996)

Crítica: Melhor filme mexicano de terror dos anos 1990, vencedor de 3 prêmios em Veneza (roteiro, trilha, direção de arte). Ripstein retrata o casal de assassinos reais Fernández/Beck com estética barroca e crítica social. The Guardian chamou-o de "Bonnie and Clyde com lente gótica" 36.

Inovação: Rompe com o exploitation ao humanizar vilões, antecedendo Monster (2003).


🐺 4. A TERNURA DOS LOBOS (Die Zärtlichkeit der Wölfe, 1973)

Crítica: Cult do New German Cinema, produzido por R.W. Fassbinder. Baseado no canibal Fritz Haarmann, mistura realismo sórdido e alegoria política. Teve recepção polarizada (40% no Rotten Tomatoes), mas hoje é referência para diretores como Fatih Akin (O Bar da Luva Dourada) 36.

Legado: Primeiro filme a vincular violência serial ao trauma pós-Weimar.


🔪 5. DEMÊNCIA SINISTRA (Schizo, 1976)

Crítica: Proto-slasher britânico influente mas desigual. Pete Walker é elogiado pela atmosfera claustrofóbica e crítica ao puritanismo (e.g., cena do assassinato no patim de gelo). The Telegraph notou "suspense eficaz, mas roteiro previsível" 36.

Contexto: Parte da onda de Hammer Horror, mas com violência mais explícita.


🧩 6. JACK, O ESTRIPADOR (Der Dirnenmörder von London, 1976)

Crítica: Exploitation polêmico com Klaus Kinski. Jesús Franco é criticado pela abordagem sensacionalista do mito de Jack, apesar da fotografia expressionista. Revista Cahiers du Cinéma o chamou de "fascinante fracasso" 36.

Valor histórico: Exemplifica o eurohorror dos anos 1970, com cenas de violência que desafiaram censuras.


🧩 Padrões da Crítica:

Impacto Histórico: Demência 13 e A Noite Tudo Encobre são os únicos com reconhecimento em cânones (Stephen King, estudos de New Hollywood) 106.


Inovação Temática: Vermelho Sangue e A Ternura dos Lobos transcenderam o gênero ao vincular terror a críticas sociopolíticas (miséria no México, República de Weimar) 3.


Reavaliação Crítica: Demência 13 e A Ternura dos Lobos ganharam status cult pós-anos 2000, enquanto Jack... permanece como nicho 86.


Limitações Regionais: Demência Sinistra e Jack... tiveram distribuição restrita, afetando seu legado global 6.


💡 Nota: A ordem reflete o prestígio consolidado, não apenas notas isoladas. Demência 13, como obra seminal de Coppola, lidera pelo seu papel na história do cinema, enquanto Vermelho Sangue é o mais premiado tecnicamente. Filmes como A Ternura dos Lobos são valorizados hoje, mas tiveram recepção inicial fria.


📊 Quadro Comparativo

PosiçãoFilmeDiretorPaís/AnoNota CríticaPontos Fortes
1Demência 13Francis CoppolaEUA/1963★★★★☆Fotografia, legado, inovação formal
2A Noite Tudo EncobreKarel ReiszUK/1964★★★★☆Atuação de Finney, roteiro psicológico
3Vermelho SangueArturo RipsteinMX/1996★★★★Prêmios em Veneza, narrativa barroca
4A Ternura dos LobosUlli LommelDE/1973★★★½Contexto histórico, produção Fassbinder
5Demência SinistraPete WalkerUK/1976★★★Suspense, crítica social
6Jack, o EstripadorJesús FrancoDE/1976★★½Klaus Kinski, esté

domingo, janeiro 04, 2026

Exemplo de rebranding

“The September Strings – Bridge Over Troubled Water: Simon & Garfunkel’s Greatest Hits” é o mesmo master do LP “Carlo Monteverdi et son grand orchestre joue Simon & Garfunkel” (MFP 5103, 1970), apenas rebatizado/licenciado anos depois.





Por que dá pra afirmar isso

  • Repertório e sequência: as faixas batem (Mrs. Robinson, Scarborough Fair, Leaves That Are Green, Feelin’ Groovy, At the Zoo, Bridge Over Troubled Water, The Sound of Silence, The Boxer, April Come She Will, Homeward Bound, El Cóndor Pasa, I Am a Rock). O LP do “Carlo Monteverdi” aparece com esse tracklist na Discogs, sob o selo Music For Pleasure (MFP)

  • Reedição com outro “artista”: a Discogs lista um master de 1974 atribuído a The September Strings, com o mesmo pacote de “greatest hits” de Simon & Garfunkel e classificado como Easy Listening — típico de catálogos reciclados do MFP/selos budget.

  • CDs/lojas: listagens de CD de The September Strings mostram exatamente essas faixas (e até a ordem), reforçando que é a mesma gravação relançada em outra embalagem. 

Era comum no circuito easy listening: a gravadora fazia sessions com orquestra de estúdio, o selo detinha o master e depois licenciava para outras empresas/territórios, trocando o “nome do artista” para criar um produto “novo” sem regravar nada. Aqui, “Carlo Monteverdi et son grand orchestre” (MFP/EMI) vira “The September Strings” em reedições posteriores (LP/CD) com o mesmo áudio.

Resumo em uma linha: The September Strings é um rebranding das mesmas gravações lançadas antes como Carlo Monteverdi et son grand orchestre — músicas, arranjos e takes iguais; só mudaram a capa e o “nome” para o mercado/época.   

sábado, janeiro 03, 2026

"Em Casa para o Natal"

 

O filme "Em Casa para o Natal" (título original: Hjem til jul), lançado em 2010 e dirigido pelo norueguês Bent Hamer (você provavelmente se refere a ele, apesar do nome "Rent"), foi recebido pela crítica como uma obra sensível, melancólica e visualmente belíssima, fugindo dos clichês açucarados de Hollywood.

Humor Seco e Melancolia: A crítica elogiou a habilidade de Bent Hamer em misturar tragédia e humor sutil. O filme é descrito como uma "comédia agridoce" que foca na solidão e nos encontros inesperados em uma pequena cidade norueguesa coberta de neve.

Estilo Nórdico: Foi muito comparado ao trabalho de outros diretores escandinavos, como Aki Kaurismäki, pela sua natureza introspectiva e diálogos econômicos.

Narrativa Fragmentada

Múltiplas Histórias: O filme intercala diversas tramas (um homem que se veste de Papai Noel para ver os filhos, um casal de refugiados, um médico exausto, etc.). Alguns críticos acharam essa estrutura envolvente e bem equilibrada, enquanto outros sentiram que certas histórias eram mais fortes que outras.

O ponto alto para a maioria dos críticos foi a empatia com que Hamer trata seus personagens imperfeitos. A crítica internacional (como a Screen Daily) destacou que o filme deixa um sentimento de "calor interno" mesmo sendo ambientado em um cenário gelado.

Fotografia: A estética do filme, com as luzes de Natal contrastando com a escuridão do inverno nórdico e a presença da Aurora Boreal, foi unanimemente elogiada como hipnotizante.

Premiações e Reconhecimento

O filme foi muito bem recebido em festivais internacionais. O destaque principal foi no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián (2010), onde Bent Hamer venceu o prêmio de Melhor Roteiro.

Também foi destaque no Festival de Toronto (TIFF), consolidando Hamer como um dos nomes mais importantes do cinema norueguês contemporâneo.

Pateta Olímpico

 

revista especial da Editora Abril, lançada como Edição Extra, intitulada “Pateta Olímpico”


🔎 A capa menciona as Olimpíadas de Munique (1972), que foi a principal inspiração para a edição. Esse evento ficou marcado tanto pelo espetáculo esportivo quanto pelo trágico atentado ao time israelense.

  • Publicações da Disney no Brasil, feitas pela Editora Abril, frequentemente acompanhavam eventos culturais e esportivos. Essa edição buscava dialogar com o momento olímpico e atrair leitores com humor e informação.

  • Pateta é mostrado vestido como atleta olímpico, segurando a tocha, o que reforça a associação entre o universo Disney e o espírito esportivo.

  • Promessa de “100 páginas em cores” e “6 histórias completas”: típico das Edições Extras, que tinham formato mais robusto que os gibis regulares (Mickey, Pato Donald, Zé Carioca).

  • Além das HQs, a chamada na parte inferior anuncia algo curioso para esse tipo de publicação:
    “A história de todos os Jogos Olímpicos! Os maiores atletas! Os grandes recordes!”
    → Isso indica que o gibi misturava quadrinhos de humor com conteúdo informativo (histórico das Olimpíadas), algo muito comum nas publicações infantis da Abril naquela época.

  • O texto da capa também promete que “Pateta e toda a turma viram pelo avesso as Olimpíadas”, ou seja, histórias paródicas dos personagens da Disney se metendo em situações cômicas relacionadas ao universo esportivo.



sexta-feira, janeiro 02, 2026

A balada "Tam Lin"

 

The.Ballad.of.Tam.Lin.1970

The Ballad of Tam Lin (1970) é um filme britânico curioso e pouco lembrado, que mistura drama, romance e ocultismo. Foi o único longa-metragem dirigido pelo ator Roddy McDowall (conhecido por Planeta dos Macacos), o que já lhe dá um certo valor de raridade na história do cinema.

O filme é baseado em uma balada folclórica escocesa, “Tam Lin”, que fala de uma jovem que se envolve com um homem enfeitiçado pela Rainha das Fadas e precisa salvá-lo de seu destino.

McDowall transpôs esse mito celta para o universo moderno do final dos anos 1960, carregado de contracultura, hedonismo e referências ao movimento hippie.

A história acompanha Michaela Cazaret (Ava Gardner), uma mulher rica, sofisticada e misteriosa, que atrai jovens para sua mansão no campo, onde tudo gira em torno de festas, sensualidade e drogas.

Um de seus protegidos, Tom Lynn (Ian McShane, jovem e carismático), se apaixona por Janet (Stephanie Beacham), uma forasteira que ameaça romper o domínio de Michaela.

Conforme a trama avança, percebe-se que Michaela não é apenas uma socialite excêntrica, mas sim uma figura quase sobrenatural, uma espécie de bruxa ou fada sombria, que exerce poder hipnótico sobre os jovens — refletindo o mito original.

O conflito central é a luta de Janet para libertar Tom do feitiço de Michaela.

A balada "Tam Lin"  -  balada folclórica tradicional escocesa (Balada Infantil nº 39) - conta a história de uma jovem, Janet, que encontra e, por fim, resgata o cavaleiro das fadas Tam Lin da Rainha das Fadas. A balada é conhecida por sua narrativa complexa, imagens vívidas e temas de amor, encantamento e sobrenatural.

Personagens:

Janet (ou Margaret):

A jovem que se aventura em Carterhaugh, uma floresta perigosa, e encontra Tam Lin. Ela é frequentemente retratada como corajosa e engenhosa.

Tam Lin:

Um belo jovem cavaleiro que se revela estar refém da Rainha das Fadas. Ele é uma figura poderosa com laços com as fadas e pode se transformar em várias formas.

A Rainha das Fadas:

A governante das fadas, que protege Tam Lin ferozmente e tenta impedir seu resgate.

Cenas e Ações Principais:

O Encontro de Janet:

Janet desafia os avisos e entra em Carterhaugh, onde conhece Tam Lin.

A Tentativa de Resgate:

Tam Lin revela sua situação e explica o ritual que Janet deve realizar para salvá-lo.

Transformação:

Tam Lin passa por uma série de transformações (cobra, urso, carvão em brasa, etc.) enquanto Janet o segura firmemente.

O Clímax:

Janet resgata Tam Lin com sucesso, segurando-o durante todas as transformações e jogando-o em um poço, quebrando o encantamento das fadas.

Temas Recorrentes:

Amor e Sacrifício:

A balada explora o poder duradouro do amor e os sacrifícios que Janet faz para salvar Tam Lin.

Encontros Sobrenaturais:

A balada se aprofunda no mundo das fadas e outros seres sobrenaturais, destacando seu poder e imprevisibilidade.

Desvendando Encantamentos:

A balada gira em torno do tema de quebrar um encantamento por meio da coragem e da determinação. Magia e Ritual Popular:

A história incorpora magia e rituais populares, como o que Janet realiza para resgatar Tam Lin.

Poder Feminino:

A bravura e a desenvoltura de Janet ao resgatar Tam Lin demonstram o poder e a autonomia das mulheres.

A balada de Tam Lin foi transmitida de geração em geração e foi interpretada e adaptada de diversas maneiras em diferentes versões e apresentações.

quinta-feira, janeiro 01, 2026

Jason Levesque

The high desert, Jason Levesque:


 
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Jason Levesque é um artista autodidata de Norfolk, Virgínia (EUA), que trabalha como ilustrador e fotógrafo sob o pseudônimo Stuntkid 

Estilo e temáticas: Sua arte é marcada por atmosferas românticas, surreais e tensas. Ele mescla cores suaves, transparências íntimas e temas biológicos — como formas submarinas — evocando uma beleza ao mesmo tempo corrupta e violenta. Suas personagens femininas parecem emergir de paisagens etéreas e biológicas, frequentemente carregadas de simbolismo erótico ou fetichista 

Processo criativo: Levesque utiliza uma combinação de métodos tradicionais e digitais — começa com desenhos feitos a lápis, muitas vezes baseados em esboços ou referências fotográficas, e depois finaliza no Photoshop, aplicando cor, profundidade e sombras 

A revista Hi-Fructose descreveu sua produção como uma síntese ambiciosa de surrealismo, pop art, quadrinhos e erotismo — um equilíbrio raro que confere às suas imagens um impacto visual intenso e imaginativo

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quarta-feira, dezembro 31, 2025

O Amigo da Onça

 Texto de  Pedro Macário

"Não acendam fósforos". Esse foi o bilhete deixado por Péricles em sua casa, inundada por gás. O aviso, pendurado na porta, revelava o homem por trás de sua maior criação: O Amigo da Onça. Péricles de Andrade Maranhão, conhecido como Péricles, encontrou seu fim em 31 de dezembro de 1961, às 14h30. Naquele dia, sentiu-se "profundamente só", como escreveu em sua última carta: "*Os amigos, se assim posso chamá-los, estão em suas casas junto a suas famílias, o que não acontece comigo*". Com sua mãe, irmã, filha e esposa — da qual estava separado — fora do Rio, apenas a solidão o levou ao gesto extremo.



Na carta, ele deixou claro: "Estou completamente sóbrio e não desejo culpar ninguém pelo meu gesto". O recado fazia sentido, pois, além de solitário, Péricles enfrentava dificuldades financeiras. A revista O Cruzeiro, que ele ajudara a construir, agora lhe pagava um salário irrisório. O sucesso de O Amigo da Onça contrastava com sua vida pessoal: enquanto o personagem conquistava o público, seu criador vivia na penúria. Para lidar com a solidão e as frustrações, Péricles buscava refúgio nos bares e botequins da cidade, onde se misturava com pessoas simples, longe do meio artístico que admirava seu trabalho.



Nascido no Maranhão em 14 de agosto de 1924, Péricles veio de uma família humilde. Aos 16 anos, mudou-se para Recife, onde estudou em um colégio marista e iniciou sua carreira como desenhista, incentivado por Souza Barros. Vencedor de um concurso durante a Semana do Trânsito, recebeu cartas de recomendação que o levaram ao Rio de Janeiro em 1942, onde começou a trabalhar em O Cruzeiro. Após colaborar com outras publicações dos Diários Associados, como O Guri e A Cigarra, Péricles consolidou-se em O Cruzeiro e criou seu personagem mais famoso.

O Amigo da Onça tornou-se um fenômeno cultural, estampando quadrinhos, bonecos e até para-choques de caminhões. No entanto, por trás do sucesso, Péricles permaneceu um homem tímido, explorado por seus empregadores e abandonado pela sorte. No final, a solidão e as dificuldades falaram mais alto. Como ele mesmo previu, foi devorado pela própria criação.



Comentário:

A história de Péricles é um retrato triste do contraste entre o sucesso profissional e a fragilidade humana. Enquanto O Amigo da Onça se tornava um ícone da cultura brasileira, seu criador vivia à margem, sem usufruir do reconhecimento e dos benefícios que seu trabalho merecia. A solidão e as dificuldades financeiras, somadas à exploração por parte dos empregadores, mostram como o sistema muitas vezes consome seus talentos sem oferecer o devido suporte.

Péricles era um artista que, apesar de seu sucesso, permaneceu conectado às pessoas comuns, encontrando nelas um refúgio para sua timidez e sensibilidade. Sua morte, em um ato de desespero, é um lembrete da importância de valorizar não apenas a obra, mas também o bem-estar de quem a cria. A história dele ecoa até hoje, especialmente em um mundo onde muitos criadores ainda lutam por condições dignas de trabalho e reconhecimento.

A vida de Péricles é uma narrativa sobre genialidade, solidão e as contradições do sucesso — um legado que vai muito além das páginas de uma revista.

terça-feira, dezembro 30, 2025

**OSSONAI**


Antigamente, os japoneses acreditavam que o arroz era valioso e que cada grão era habitado pelo espírito da planta. Assim, por possuir o espírito de incontáveis grãos de arroz, o *Moti* possuía poderes divinos. Por isso, no Ano Novo, o *Ossonai Moti*, também conhecido como *Kagami Moti*, era oferecido em altares xintoístas para pedir proteção divina. Há também os que diziam que, por ser sagrado, o espírito de um Deus morava no *Moti*.  

Os japoneses acreditavam também que o *Motisuki* (ato de fazer *Moti*) era um pedido de boa colheita, boa fertilidade e longevidade, por isso era sempre feito no Ano Novo. Ele também era conhecido como uma prece à fertilidade, sendo sempre realizado em ocasiões especiais, como nascimento, casamento e Ano Novo.  

**Tradicionalmente, o ato de colocar o *Ossonai Moti* no último dia do ano, espalhados em todos os bens da família (carro, casa, empresa, etc.), traz BOA SORTE para todo o ano.**  

Ser presenteado por alguém com um **OSSONAI MOTI** significa que esta pessoa está lhe desejando BOA SORTE no próximo ano.  

O **Ossonai Moti** deve ser consumido pela família no 1º dia do ano para que se tenha SORTE por todo o ano.  



segunda-feira, dezembro 29, 2025

Lao-Tsé




 A argila é trabalhada na forma de vasos,

mas o que importa não é precisamente sua parede

que poderia ser de ouro, cristal ou de barro,

pois é no vazio entre as massas que se pode

colocar as flores.


Sua utilidade reside no vazio, no não existente,

na sua parte que não podemos ver.


(Lao-Tsé — Tao-Te King)

domingo, dezembro 28, 2025

Cássia Eller

 Cássia Rejane Eller (Rio de Janeiro, 10 de dezembro de 1962 – Rio de Janeiro, 29 de dezembro de 2001)



“Nos tornamos amigos, muitos anos depois do nosso primeiro encontro, quando identicamente detestamos ter que falar um com o outro, estranhos que éramos por natureza e por delimitação protetora do perímetro de nosso íntimo sítio. Ela disse ‘oi’, ouviu as músicas que eu queria mostrar, e depois… ‘tchau’. Foi-se embora na hora certa que só o jeito de quem não sabe como se despedir vai embora pra não sumir jamais.”


- Nando Reis falando sobre Cássia Eller

sábado, dezembro 27, 2025

peça teatral "Tinha de Ser..." (1920)



Mais uma relíquia do meu acervo! 

Ficha Técnica da Obra

ElementoDetalhe
TítuloTinha de Ser...
AutoresMário Domingues e Mário Magalhães
GêneroComédia em 3 atos
Estreia31 de agosto de 1920, Teatro Trianon (Rio de Janeiro)
CompanhiaAlexandre de Azevedo
EditoraN. Viggiani Editor (Rio de Janeiro, 1920)
PreçoRs. 2$500 (2º milheiro)

Contexto Histórico

  • Teatro Trianon: Espaço cultural da elite carioca na Av. Rio Branco, conhecido por peças de alta qualidade. Ele ficava localizado na Avenida Central, que posteriormente se tornou a Avenida Rio Branco. Este teatro foi inaugurado em 1911 e tinha um estilo neoclássico, com uma bela fachada e rica decoração interna. O teatro foi demolido e em seu lugar foi construído o Condomínio Século Frontin. 

  • Pós-Pandemia de 1918: Ressurgimento cultural no Rio, com investimento em teatro autoral brasileiro.

  • Movimento Nacionalista: Alinhado ao projeto de J. R. Staffa (diretor do Trianon) para fomentar o "Theatro Nacional".


O Mistério da Autoria

A peça chegou anônima ao diretor Alexandre de Azevedo, que descreveu o texto como:

"Um trabalho feito por quem sabe o que é theatro".

Os ensaios começaram antes da revelação dos autores – Mário Domingues (jornalista e crítico teatral) e Mário Magalhães (escritor menos conhecido). O editor destaca:

"Surgindo como espúria, tem a assigná-la dois espíritos brilhantes".


Estrutura da Publicação

1. Prefácio do Editor (N. Viggiani)

  • Justifica a edição como apoio ao teatro brasileiro:

    "Contribuir para o desenvolvimento do Theatro Nacional".

  • Revela o entusiasmo do elenco durante os ensaios.

  • Exalta o Trianon como espaço que "figurará em páginas de ouro" da história teatral brasileira.

2. Nota dos Autores

  • Explicam que a publicação surgiu porque:

    "Alexandre Azevedo quis reconhecer nela uma comédia para repertório escolhido".

  • Agradecem a Nicolino Viggiani por "editar peças do teatro da elite carioca".


Temas e Estilo

  • Comédia de Costumes: Crítica social disfarçada de humor, típica do teatro brasileiro dos anos 1920.

  • Linguagem: Mistura de coloquialismos cariocas e diálogos refinados (público-alvo era a elite).

  • Inovação: Uso de "action" no subtítulo (Comédia em Action) sugere dinamismo cênico incomum para época.


Valor Cultural

  1. Documento de Resistência:

    • Publicada em 1920, quando o teatro brasileiro lutava contra peças estrangeiras.

  2. Rede de Colaborações:

    • Revela parcerias entre autores, atores (Azevedo), editores (Viggiani) e empresários (Staffa).

  3. Marketing Editorial:

    • "mistério da autoria" foi usado para gerar expectativa (estratégia pioneira).


Curiosidades Relevantes

  • Alexandre de Azevedo: Ator famoso por papéis dramáticos, o que sugere versatilidade ao aceitar uma comédia.

  • Grafias Arcaicas"Theatro""mysterio""enthusiasmo" (normas pré-Reforma Ortográfica).

  • Preço AcessívelRs. 2$500 equivalia a 2 dias de trabalho de um operário – estratégia para ampliar acesso.


Sobrevivência da Obra

  • Raridade: Poucos exemplares conhecidos (não há registros na Biblioteca Nacional ou acervos digitais).

  • Legado:

    • Mário Domingues tornou-se cronista de O Paiz e crítico teatral influente.

    • O Trianon fechou em 1924, tornando esta edição um testemunho de sua era áurea.

"Tinha de Ser..." não é só uma comédia: é um manifesto silencioso pela cultura brasileira.

PREFÁCIO DOS AUTORES

A razão de ser deste livro

Quis Alexandre Azevedo reconhecer em TINHA DE SER... uma comédia que poderia entrar para o repertorio escolhido de sua companhia. Teria pela primeira vez errado o ilustre artista? E possível. Mas isso não impediria do nosso trabalho theatral constituir um exemplar a mais na bibliotheca de Nicolino Figgiani, que tomou a si, no intuito de colaborar com o seu dedicado amigo Sr. J. R. Sidfi ao levantamento do nosso theatre, a empresa de editar as peças representadas no querido theatre da elite carioca. Eis a razão de ser do presente livro.

OS AUTORES


NOTA DO EDITOR

Esta peça chegou envolta em grande mysterio às mãos do director da companhia do Trianon. Ninguém sabia quem eram os seus autores. E, logo a leitura das primeiras scenas, Alexandre Azevedo, conforme me declarou, viu que se tratava de “um trabalho feito por quem sabe o que é theatro”. O artista entrou a elogiar calorosamente a comédia e, sem perda de tempo, começou a ensaiá-la. Nessa ocasião não houve um só actor, uma só actriz do theatrinho da Avenida, que não fizesse côro aos elogios de Azevedo à “peça mysteriosa”. No Trianon o enthusiasmo pelo “encantador original de um desconhecido e curioso escriptor” foi num admirável crescendo. Eu então resolvi imprimir Tinha de Ser... Já havia dado à luz da publicidade duas obras do mesmo gênero; e foi com immenso prazer que tomei, commigo mesmo, esse compromisso.

Quando os ensaios da peça iam a meio, quando a impressão já estava combinada — eis que, com satisfação immensa para a gente do Trianon e especialmente para mim, declaram-se autores da “comédia sem autor”. Mario Domingues e Mario Magalhães, aquelle meu particular amigo, esse conhecido de pouco tempo, mas cujas qualidades de carácter e de crítico de theatre fazem com que eu sinceramente o admire.

Por todos esses motivos assume proporções enormes o prazer que experimento, oferecendo ao público ensejo de conhecer, atravez da leitura, uma obra que, surgindo como espuria, tem a assigna-la dois espíritos brilhantes como são os de Mario Domingues e de Mario Magalhães.

De resto, divulgando pelo livro esta peça, venho mais uma vez mostrar a minha sympathia pelo programma traçado pelo sr. J. R. Staffa qual seja o de contribuir o mais possível para o desenvolvimento do Theatro Nacional, determinando a montagem no seu Trianon de quantos originaes brasileiros se apresentem à altura do nível intelectual do público franqueador do theatrinho da Avenida, que, cheio de glorias, passará a figurar em paginas de ouro na história do Theatro Brazilieiro, impondo a inscripção nessas mesmas páginas do nome do conhecido empresário, amigo do Brazil e do povo deste grande paiz.

O EDITOR


 




 

sexta-feira, dezembro 26, 2025

Obras-Primas do Terror: Horror Internacional Vol. 2




 Esta é uma coleção de um calibre extraordinário, uma verdadeira caixa-preta do cinema fantástico mundial. É um mergulho abissal no horror e no surrealismo do Leste Europeu, uma região onde a pressão política, a censura e uma riquíssima tradição folclórica e literária deram origem a alguns dos filmes mais singulares, desafiadores e visualmente deslumbrantes já feitos. Esta não é uma seleção para iniciantes; é uma curadoria para o cinéfilo que busca o terror em sua forma mais artística, filosófica e, muitas vezes, politicamente subversiva.

Vamos à análise crítica desta jornada alucinante pela Cortina de Ferro e além.


DISCO 1: A Histeria Filosófica e o Conto de Fadas Macabro

Este disco apresenta dois dos maiores mestres do cinema da Polônia e da Tchecoslováquia, cada um explorando o fantástico através de sua lente autoral única: a do caos histórico e a da beleza grotesca.

O DIABO (Diabel, 1972)

Uma obra-prima do caos, uma experiência cinematográfica visceral e febril que só a mente de Andrzej Zulawski poderia conceber. Banido por 15 anos pelo governo comunista polonês, O Diabo é muito mais que um filme de terror; é uma alegoria política selvagem sobre a traição, a loucura e a desintegração moral de uma nação.

Análise Crítica: Assistir a O Diabo é ser jogado em um redemoinho de "realismo histérico". A trama, sobre um nobre libertado da prisão por um estranho (o "Diabo" do título) durante a invasão prussiana da Polônia, é o fio condutor para uma jornada dantesca através de uma terra devastada pela violência e pela depravação. A câmera de Zulawski é um personagem em si, frenética e voyeurista, capturando performances operísticas e fisicamente exaustivas. O horror aqui não é sobrenatural, mas sim profundamente humano. O "Diabo" não comete atos malignos; ele simplesmente sussurra, observa e dá aos homens a navalha para que eles mesmos revelem a barbárie que já existe dentro deles. É um filme difícil, denso e visualmente arrebatador, uma análise brutal da alma polonesa disfarçada de terror histórico.

O NONO CORAÇÃO (Deváté srdce, 1979)

Do mestre tcheco do macabro, Juraj Herz, vem este conto de fadas sombrio e visualmente suntuoso. Longe da fantasia infantil, este filme mergulha na tradição mais antiga e grotesca dos contos folclóricos, onde a beleza e o horror coexistem em cada quadro.

Análise Crítica: O Nono Coração é uma obra de uma beleza assustadora. Juraj Herz era um mestre em criar mundos oníricos e decadentes, e aqui ele constrói um castelo de pesadelos onde um alquimista maligno rouba a força vital da princesa para manter sua juventude. A direção de arte, os figurinos e a cinematografia são espetaculares, criando uma atmosfera que é ao mesmo tempo mágica e profundamente perturbadora. O filme se deleita no grotesco — o laboratório do mago, suas criações bizarras — encontrando uma estranha poesia na escuridão. É uma obra que prova que o horror pode ser lírico e que os contos de fadas são, em sua essência, histórias sobre os medos mais profundos da humanidade.


DISCO 2: O Crime Perfeito Soviético e o Terror Pós-Guerra Fria

Este disco mostra duas facetas do cinema de gênero russo/soviético: a capacidade de adaptar um clássico ocidental com uma fidelidade sombria e a criação de um horror moderno que reflete novas ansiedades.

E NÃO SOBROU NENHUM (Desyat negrityat, 1987)

Esta adaptação soviética do romance mais famoso de Agatha Christie é, sem dúvida, a versão definitiva para puristas. É uma tradução implacável, pessimista e brutalmente fiel ao espírito niilista do livro, algo que as versões ocidentais frequentemente suavizavam.

Análise Crítica: A genialidade desta versão está em sua recusa em oferecer conforto. O diretor Stanislav Govorukhin não altera o final sombrio do livro nem poupa o público da violência psicológica e física. A atmosfera é de uma desgraça inevitável. Os dez "pequenos negros" no centro da mesa não são apenas adereços; são o tique-taque de um relógio apocalíptico. Filmado em locações deslumbrantes da Crimeia, o filme tem uma qualidade isoladora e claustrofóbica. Cada personagem é genuinamente culpado e antipático, e não há heróis a quem se apegar. É um estudo frio e metódico sobre como a culpa e a paranoia podem destruir um grupo de pessoas de dentro para fora, antes mesmo que o assassino os alcance. Uma obra-prima do suspense.

O TOQUE (Prikosnoveniye, 1992)

Considerado o primeiro filme de terror da Rússia pós-soviética, O Toque é um artefato fascinante, um mergulho em um horror atmosférico e existencial que reflete a ansiedade e a incerteza de uma nação em colapso.

Análise Crítica: A influência de Lucio Fulci é evidente não no gore, mas na lógica onírica e na sensação de um mal incompreensível e contagioso. A trama, sobre um detetive que investiga uma série de suicídios ligados a uma força fantasmagórica, é um veículo para explorar um pavor que é ao mesmo tempo sobrenatural e profundamente psicológico. O filme cria uma atmosfera de melancolia e desespero, onde o mundo dos vivos e dos mortos parece estar se fundindo. O horror aqui é silencioso e invasivo, uma espécie de vírus espiritual que se espalha através do "toque". É uma obra que captura perfeitamente o desespero de uma era, onde as velhas certezas morreram e apenas uma angústia fantasmagórica restou.


DISCO 3: O Folclore Eslavo e a Alegoria Gótica

O disco final é uma celebração da adaptação literária, com dois mestres do cinema da Iugoslávia e da Polônia traduzindo textos fundamentais do horror gótico para a tela com uma visão autoral deslumbrante.

LUGAR SANTO (Sveto mesto, 1990)

Uma adaptação febril e blasfema da novela "Viy" de Nikolai Gogol, a pedra fundamental do horror folclórico eslavo. O diretor Djordje Kadijevic, especialista no gênero, cria uma versão mais crua, erótica e psicologicamente intensa do que suas predecessoras.

Análise Crítica: Se a versão soviética de 1967 é um conto de fadas sombrio e A Maldição do Demônio de Bava é uma ópera gótica, Lugar Santo é um pesadelo de folk horror visceral. O filme mergulha fundo no paganismo e na sexualidade reprimida que permeiam a história de Gogol. A vigília de três noites do estudante de teologia com o cadáver da bruxa é tratada como um teste de fé aterrorizante e uma provação psicosexual. A atmosfera é terrena, suja e carregada de uma tensão blasfema. É uma obra que entende que o verdadeiro horror de "Viy" não está apenas nos demônios, mas na colisão entre o dogma cristão e uma força pagã, feminina e primordial.

MEMÓRIAS DE UM PECADOR JUSTIFICADO (1986)

Do mestre polonês do surrealismo, Wojciech Has, vem esta adaptação visualmente estonteante de um clássico da literatura gótica escocesa. É um filme que funciona como um quebra-cabeça filosófico, uma meditação sobre a dualidade, o fanatismo religioso e a natureza do mal.

Análise Crítica: Como em suas outras obras-primas (Manuscrito de Saragoça, O Sanatório de Clepsidra), Has não está interessado em uma narrativa convencional. Ele cria um labirinto visual e temporal, um mundo barroco e onírico para contar a história do homem assombrado por seu doppelgänger diabólico. Cada quadro é uma pintura meticulosamente composta, cheia de simbolismo e detalhes surreais. O filme explora a ideia aterrorizante da predestinação calvinista: se alguém está "justificado" e salvo, ele pode cometer qualquer pecado? É uma obra densa, exigente e hipnótica, que usa o fantástico para questionar as fundações da moralidade e da identidade. Uma obra-prima do cinema existencialista e visualmente deslumbrante.