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sábado, junho 21, 2025

O Sol nas bancas de revistas

 


Crimes, espaçonaves, guerrilhas

CLÁUDIO UCHÓA

Houve uma época em que "O Sol nas bancas de revistas" não era apenas um verso de "Alegria, alegria", música de Caetano Veloso que voltou à tona na abertura da minissérie "Anos Rebeldes" (Rede Globo). Entre setembro de 1967 e janeiro de 1968, "O Sol" iluminou uma geração disposta a mudar o mundo. Idealizado pelo jornalista Jaguar, o jornal reuniu nomes como Ana Arruda CalladoZuenir VenturaCarlos Heitor Cony e Martha Alencar. Apesar de durar apenas três meses, influenciou publicações como "O Pasquim".

Lançado em 21 de setembro de 1967 como encarte do Jornal dos Sports"O Sol" buscava sacudir o marasmo do jornalismo. Sua proposta incluía:

  • Repórteres estudantes selecionados por concurso (prova de atualidades + redação sobre a minissala);

  • Linguagem inovadora, com quadrinhos e quebra da estrutura tradicional;

  • Títulos irreverentes como "Chove paca no Rio", escolhidos por votação democrática na redação.

Entre os colaboradores estavam Dedé Veloso (primeira esposa de Caetano, que imortalizou o jornal na canção), Henfil (em sua primeira experiência no Rio), Ziraldo e Daniel Azulay. A informalidade era tanta que, em uma ocasião, a equipe convocou um gari para decidir a manchete.

Engajamento e repressão

A irreverência não afastou o compromisso político. Otto Maria Carpeaux foi processado pela Lei de Segurança Nacional por um artigo sobre "Fome e Miséria Internacional". O choque com a linha conservadora do Jornal dos Sports levou "O Sol" a circular como vespertino independente — um fracasso financeiro. Sem anúncios e com custos insustentáveis, o jornal fechou em janeiro de 1968.


DEPOIMENTOS

MARTHA ALENCAR:
"Era um grupo jovem que achava que podia mudar o país. Era difícil separar jornalismo da militância. Lembro de correr da polícia enquanto anotava as notícias."

ZIRALDO:
"O jingle do Caetano ficou mais famoso que o jornal. Não concordo que 'O Sol' deu origem ao 'Pasquim'. Foram experiências paralelas."

ANA ARRUDA:
"Era um jornal rebelde, atrevido e juvenil. O momento não permitia que durasse."


A matéria resgata a trajetória de "O Sol", jornal símbolo da contracultura pré-AI-5, que misturou humor, crítica política e experimentalismo gráfico. Sua curta existência reflete tanto o ímpeto criativo da época quanto a asfixia imposta pela ditadura. A menção a Caetano Veloso e "Anos Rebeldes" vincula o passado à memória cultural dos anos 1990, mostrando como a resistência dos anos 1960 ecoou nas gerações seguintes.

sexta-feira, junho 20, 2025

JAWS (1975) Dir. Steven Spielberg


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JAWS (1975) Dir. Steven Spielberg

Tubarão - Jaws 50 anos




                         Em 20 de junho de 1975, Jaws estreava em  400 salas dos EUA  

Cartas de Elizabeth Bishop no Brasil

 



Rio de Janeiro, 14 de fevereiro de 1952
"Lota vendeu uma de suas propriedades para um famoso zoólogo polonês, e você só precisa caminhar por dois minutos na montanha para avistar um jaguar negro, um camelo e os pássaros mais lindos do mundo. Penso em você a todo instante.

*O zoólogo me deu um tucano de aniversário. Ele (ou ela) é manso e travesso — joga moedas pelo quarto, voa carregando minha torrada do café da manhã. É preto, com olhos azul-elétrico, bico azul e amarelo, garras azuis e penas vermelhas sob a cauda, como um pôr-do-sol quando dorme. Nunca recebi presente mais belo."*

☐ ☐ ☐

Samambaia, Petrópolis — 13 de março de 1952
"O correio de Petrópolis para o Rio (30 ou 40 milhas) muitas vezes leva duas semanas. Não reclamo: é parte da sublime imprecisão do Brasil... onde agora uma nuvem adentra meu quarto."

☐ ☐ ☐

26 de julho de 1952
*"Enquanto estávamos fora, a cozinheira descobriu a pintura — prova de que a arte floresce no ócio — e tornou-se uma primitiva maravilhosa. Lota pediu que limpasse as latas de lixo (ela é quase selvagem, mas excelente cozinheira), e dez minutos depois as encontrou pintadas de vermelho e rosa violentos. Temos potes que Portinari fez para Lota, mas até as latas da cozinheira são melhores."*

☐ ☐ ☐

22 de outubro de 1964
"O parque (Aterro) está ficando cada vez mais louco. Lota está tão rica que até vendedores de seguros a reconhecem. Ela teve a ideia genial de construir salas de arte para crianças nos playgrounds — há uma escassez delas aqui."

☐ ☐ ☐

15 de março de 1966
"Lota teve uma crise nervosa e física — anos de trabalho excessivo e preocupação. Recusei o convite para Seattle na época, mas era o melhor a fazer. Seu parque... que adianta trabalhar para qualquer governo?"

☐ ☐ ☐

4 de janeiro de 1968
"Deixei o Brasil com o coração pesado e espero nunca mais ver o Rio. Os últimos anos foram horríveis e exaustivos. Mas acredite: nos amamos como nunca houve ou haverá igual. Sinto sua falta eternamente."


Comentário:
As cartas da poeta Elizabeth Bishop revelam seu amor ambivalente pelo Brasil (1951-1966), onde viveu com a arquiteta Lota de Macedo Soares. Os trechos alternam encantamento com a natureza ("tucano de bico azul"), ironia sobre a burocracia ("sublime imprecisão do Brasil") e dor pelo declínio de Lota (crise nervosa, desilusão política). A prosa de Bishop transforma o cotidiano — uma cozinheira que vira artista, latas de lixo coloridas — em poesia, enquanto expõe as tensões sob o idílio: o Brasil é ao mesmo tempo um paraíso e um lugar de desgaste irreparável. A última carta, escrita após a morte de Lota (1967), é um epitáfio para um amor e um país que a marcariam para sempre.

(Nota: Ortografia e pontuação preservadas conforme o original, com ajustes mínimos para clareza.)

quinta-feira, junho 19, 2025

fay wray

Devia ter meu silêncio
 Antes do grito...
Devia ter conhecido Fay Wray
Antes do King...

GOL de PLACA — Roberto Porto

 



A coluna “Gol de Placa – Dez Recados”, assinada por Roberto Porto, foi publicada no jornal O Globo, na edição de segunda-feira, 26 de junho de 1989

⚽ CONTEXTO HISTÓRICO: A FINAL DE 1989

Em 21 de junho de 1989, o Botafogo venceu o Flamengo por 1 a 0 no Maracanã e conquistou o Campeonato Carioca.

Esse título teve um peso imenso por um motivo:

O Botafogo encerrou um jejum de 21 anos sem títulos.

O gol do título foi marcado por Maurício, após um cruzamento preciso de Mazolinha. Esse jogo se tornou símbolo de renascimento para a torcida botafoguense e um trauma (esportivo) para os rubro-negros, que tinham um time fortíssimo e eram favoritos.

🖋️ SOBRE A COLUNA “DEZ RECADOS” – HUMOR COM ALMA DE CRÔNICA

Roberto Porto, com seu estilo sarcástico e cheio de referências internas ao jornalismo esportivo carioca, escreve “recados” fictícios (ou semi-fictícios) a colegas, amigos e figuras do futebol. Ele faz isso para:

Tirar sarro dos jornalistas flamenguistas,

Enaltecer poeticamente o Botafogo,

Satirizar o drama rubro-negro após a derrota.

🔟 ALGUNS DESTAQUES ENTRE OS RECADOS:

1. Renato Maurício Prado – O Porto cria uma história tragicômica sobre o personagem “Baga”, flamenguista fanático, tentando se matar com gasolina após a derrota. É um exagero teatral típico do humor carioca — e uma crítica à arrogância flamenguista.

2. Josef Berenstein – Matemático e estatístico do esporte, é ironizado por não prever a derrota do Flamengo, mostrando como até a lógica foi derrotada pelo imprevisível Botafogo.

3. Carlos Eduardo Dolabella – Criticado por seu pessimismo e por menosprezar o Botafogo, é lembrado de que até Nilton Santos, lenda viva, apareceu para abençoar o título.

6. Francis Hime – O compositor é citado por ter feito uma música ao Botafogo. Porto ironiza dizendo que agora ele precisa fazer outra, já que o time voltou a vencer.

10. Zico – A última mensagem é a mais respeitosa, mas não sem ironia. Ele reconhece o talento de Zico, mas deixa claro que nem ele foi capaz de salvar o Flamengo naquele dia. “Quem disse que o Botafogo era clube pequeno?”, pergunta.

🧠 INTERPRETAÇÃO CRÍTICA

A coluna é um documento precioso do jornalismo esportivo carioca, por vários motivos:

Híbrido entre crônica, sátira e homenagem, ela se vale de personagens reais e fictícios para dramatizar o contraste entre hegemonia e resistência;

Mistura de futebol com literatura, usando referências filosóficas, históricas e poéticas — típica da pena de Roberto Porto, influenciado por cronistas como Armando Nogueira;

O olhar do “vencido que vence”: Porto celebra o Botafogo como símbolo de luta, sofrimento e dignidade — um time que, mesmo desacreditado, subverteu a lógica (e os favoritos).

GOL de PLACA — Roberto Porto

Dez recados

1. Renato Maurício Prado
Você pode até não acreditar, Renato, mas fiquei entristecido com a notícia da tentativa de suicídio do escarecido torcedor rubro-negro Baga (tomou um litro de gasolina na madrugada da última quinta-feira). O guardador de automóveis não se refazia do desamparo após a derrota do imbatível escrete rubro-negro, integrado por jogadores como Zico, Bebeto, Jorginho, Leonardo, Zé Carlos e Zinho, para um destes entes, responsáveis por tantas glórias do futebol brasileiro. De qualquer maneira, analisando os últimos fatos, até que o gesto tresloucado de que se infundiu no pedestal da risibilidade os torcedores jornalísticos do Flamengo, o doce Baga jamais poderia admitir ser derrotado justamente pelo Botafogo numa final de campeonato. Sua rendição diante do rubro-negro, você sabe, sempre se caracterizou pelo equilíbrio e humildade, desde os tempos de Berico, o quase-finado Baga não poderia imaginar que o imbatível esquadrão da Gávea pudesse tombar de maneira tão humilhante diante do fragilizado Botafogo. Fico aqui torcendo para que ele supere o trauma e volte como personagem de sua coluna. Até porque, meu confrade, os grandes filósofos Evandro Carlos de Andrade e Luiz Gervásio não se sentiram frustrados. Eu, como você sinceramente, vou ficar chateado. Diria, até, que teria um desgosto profundo se o Baga largasse mão do mundo. Saudações alvinegras in abarco.

2. Josef Berenstein
Você pode até achar que é brincadeira, Josef, mas uma nova calculadora para aprimorar seu trabalho à frente do setor de aritmética do Clube de Regatas do Flamengo. Todo esse inusitado fracasso rubro-negro exige novos cálculos a respeito dos jogos entre o Flamengo, seleção brasileira transvestida de rubro-negro, e o juracissímio Botafogo. Pegue o número de vitórias do Flamengo em jogos decisivos com o Botafogo e o resultado não lhe dará o menor consolo nem alívio técnico. O campeonato já está acabado e o Flamengo nunca foi tão derrotado por Botafogo com única e escassa vez, e pelo contrário: perdeu justamente a decisão. Como estou convencido de que você é um sujeito que realmente entende de futebol e foi traído por uma armadilha eletrônica, decidi presenteá-lo. Saudações alvinegras e lembranças ao Jorge Henrique Arêas.

3. Carlos Eduardo Dolabella
Como vai o meu comentarista-esportivo preferido? Fiquei sabendo que você ficou aborrecido com a vitória do Flamengo e de pretas mais sincera e irrestrita solidariedade. Você, Dolabella, sempre esteve certo: o Botafogo só seria campeão se voltasse o Carlinhos Rocha e o Biriba ressuscitasse ou se o Garrincha reaparecesse no Maracanã. O seu azar (puro azar, um daquelas do que isso) foi que Nilton Santos veio de Brasília, a convite do JORNAL DOS SPORTS, ver a decisão. E velho, você sabe, sempre se emocionou e ficou comovido quando o Glorioso ameaçava chutar profissionalmente desde a decisão de 1948. E olha que o Botafogo jogava com uma camisa horrorosa. Você, como comentarista, não poderia contar com isso. Assim como o matemático Josef foi traído pela calculadora, seu problema foi a emoção do imortal Nilton Santos. Não fosse o pequeno detalhe e as abalizadas comentaristas previsíveis teriam acertado na mosca. E aí estaria duro campeonato, com o esquadrão rubro-negro seria campeão. O Botafogo, convenhamos, neste, é uma droga. Tudo indica que o campeonato foi ganho em circunstâncias tão curiosas, que em opossidismos futuros (como a tabela d’Álgebra ou da nova tabela de Newton) que se constatará a presença de evidências habituais, das papeletas-amarelas. Quem sabe se um suborninho aqui, um dinheirinho ali, uma conversinha ao pé do ouvido mais adiante não teria resolvido o assunto? Pelo que sei, o Botafogo, coitado, mandou um repórter (o Emil — sempre foi um sujeito durango-kid da vida) e uns trocados não deixariam de cair bem lá em Marechal Hermes. Quem sabe a rapaziada no almoceríamos um pouco? Como o Flamengo sempre fez? E suas gazetas de aula? Ele trançou sua omissão justamente nesta decisão. Se o Botafogo é o medo e besta? E um clube de gênero incorruptível? E um grupo de cabofriense, que teve a audácia de arrumar um ponto do Maracanã? Como não sou muito bom em matéria, fico por aqui. E continuo torcendo pelo seu crescimento. Afinal, toda vez que você está triste é no dia que o Botafogo foi campeão. Saudações alvinegras (em falta de ideia melhor) e um grande abraço também emocionadíssimo, como de habitual nesse caso.

4. George Helal
Como meu vice-presidente de clube preferido, gostaria de saber se está bem. Mas, creia, a derrota do Flamengo não tem a ver com injustiças: Maurício saiu de impedido, correu uma falta grosseira em Leonardo. O Botafogo, Helal, foi campeão de forma limpa. A crer nas más bocas de muitos e de algumas boas, a ficha caiu: a famosa tabela d’Álgebra ou a Nova Tábua de Newton, de novo, cometeu um erro grosseiro e a equipe foi campeã sem a devida ajuda de vetores matemáticos e dos próprios subornos. Que sabe se um suborninho...

5. Maurício Azêdo
Meu vereador preferido: como sempre acertei em decisões com o Flamengo, devo-lhe dizer que tremi de medo. Só isso.

6. Francis Hime
Como vai o grande compositor da música popular brasileira? Depois de quarta-feira, admito, ando precisando de uma saudade. O que você fará com aquela música encomendada ao Botafogo? Aquela que você se dizia encantado para os alvinegros usarem nos seus dias de glória? Estou no aguardo. E, se quiser, mando logo a gravação do gol do Botafogo, com narração do Boticário com o seu sucesso. Fiquei sinceramente chateado. O Botafogo, Francis, é um clube injusto. Nunca que a música de um compositor do seu talento poderia ser usada para louvar um time tão simplório. Saudações alvinegras, um lubrificante.

7. Celso Unibêri
Meu bom amigo e companheiro, como você está? Foi uma grande noite. Realmente o Botafogo venceu e isso me causa grande contentamento. Botafogo é futebol e é sangue. Cheguei a chorar. Meus filhos vieram ao meu encontro e a minha mulher, emocionada, me abraçou.

8. Fábio Grechi
Meu bom aluno de jornalismo: não caia nas besteiras do Renato Prado e não se meta mais a ver o Flamengo como um exemplo. Você é jovem e deve parar com a tecnologia. A sua paixão não tem para quê. E até uma questão de ternura com a torcida do Flamengo.

9. Eurico Miranda
Olá, meu diretor de futebol, tudo, tudo? Infelizmente, o Botafogo foi campeão invicto. Mas você ainda acha que eu não sou de lá? Saudações alvinegras.

10. Zico
Antes de mais nada, sem gozações, sempre respeitei você como grande jogador de futebol. Não fosse apenas pela liderança que sempre exerceu (espetacularmente concentrada pelo amigo Roberto Porto, então colunista da Revista da CBF), da qual sou o chefe de redação, vou admitir que você jogou bola. Não fosse sua dedicação ao Botafogo (unicamente vista por J.O. Batista e por você, para a TV-Rio). O Botafogo, Zico, não ganhou. Ganhou sim o time do Botafogo, com Paulinho Criciúma, Maurício, Didi, Garrinchinha, Nilton Santos e você, que se emocionou com a decisão. Quem disse que o Botafogo era clube pequeno? E daí? Saudações alvinegras.

Elizabeth Veiga

 

Auto-retrato



Eu tenho nervos de papel de seda, associabilidades em síndrome crítica.
Sinto a perna torta de medo convidar à fuga: a presença do outro me estrangula. Dissimulo, dou um nó com as três mãos: pinga água.

Screvo um sorriso infeliz, uma careta aflita e aguada, e de galga.
Cafei-nho trêmulo, derrubo a cadeira.

O céu desaba sobre a minha cabeça sem parar. Para-raio de estrelas, escrevo.

Quem quiser me ouvir, que me ouça em segredo. Eu tenho nervos de papel de seda.


Elisabeth de Mello Veiga da Silva, mais conhecida como Elisabeth Veiga (Rio de Janeiro, 30 de julho de 1941 - Rio de Janeiro, 2 de agosto de 2018)

quarta-feira, junho 18, 2025

O Manequinho

 **O Manequinho: Uma Fonte Artística de Belmiro de Almeida**  

O "novo " Manequinho" em frente a sede do Botafogo FR


O renomado artista Belmiro de Almeida acaba de apresentar ao público mais uma de suas notáveis criações: uma fonte de linhas elegantes e sóbrias, que combina marmore e bronze com maestria.  

*Descrição da Obra

- **Base**: Pedestal de mármore, do qual emerge uma bacia em forma de concha.  

- **Destaque**: Sobre a bacia, uma estatueta de bronze de *um menino em pé*, esculpida com perfeito acabamento e proporções harmoniosas.  

- **Efeito estético**: A mistura do mármore com o bronze produz um resultado visual refinado, destacando a habilidade técnica do artista.  

### **Reconhecimento Público**  

A obra foi exposta na **Avenida Rio Branco, nº 116**, e atraiu a atenção de figuras ilustres:  

- O **Sr. Presidente da República**, acompanhado de sua casa civil e militar.  

- O **Sr. Ministro da Justiça** e o **General Prefeito**.  

Todos admiraram o trabalho e parabenizaram Belmiro de Almeida, já consagrado pelo pincel e agora revelando igual talento no buril (escultura em metal).  

### **Sobre o Artista**  

Belmiro de Almeida, *"mestre já sobremodo conhecido e admirado"* na pintura, demonstra com esta fonte sua versatilidade nas artes plásticas. A peça é descrita como *"mais uma bela concepção"* de seu espírito operoso e criativo.  -  

**Notas**:  

- O texto original, em português arcaico (ex.: "effetto", "hontem"), sugere que a publicação é do início do século XX.  


- Belmiro de Almeida (1858-1935) foi um pintor e escultor brasileiro, associado ao academicismo e à transição para o modernismo.  


*"Elegante, sóbria e perfeita — assim é a arte de Belmiro."*

Vila Cristina.

Uma das ruas mais íngremes de Petrópolis. Tem até corrimão na calçada.




terça-feira, junho 17, 2025

"Freud no divã de Hollywood",

 publicado no Jornal do Brasil, em 17 de junho de 1992:

Carlos Helí de Almeida



A comunidade gay vislumbrou altas doses de preconceito. Os moralistas enxergaram libertinagem demais. Poucos se deram conta, no entanto, de que Instinto Selvagem (Basic Instinct), o último furacão hollywoodiano, é a mais nova produção a pintar os profissionais da mente com cores fortíssimas. E comprometedoras. No filme de Paul Verhoeven, Catherine Tramell (Sharon Stone) e Beth Garner (Jeanne Tripplehorn) usam à sua maneira as teorias de Freud e se metem em crimes hediondos. Ambas com inteligência e compulsão assassina só comparáveis à sanha de Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), o psiquiatra e double de psicopata de O Silêncio dos Inocentes. O cinema criou esses e outros personagens da era análise e não guarda nenhum complexo de culpa por alçá-los ao posto de estrelas.

A última moda de Hollywood são os supershows, dotados de inteligência descomunal ou de incrível ascendência sobre seus pacientes. Mas a relação entre cinema e psicanálise sempre foi meio instável. O sujeito atrás do divã pode surgir tão desequilibrado quanto o analista de dupla personalidade de Vestida para matar (de Brian de Palma), ou o desesperantemente sincero, bum, toc... das fraquezas humanas, como o personagem-título de Freud, além da alma, filme em que o diretor John Huston resumiu a biografia do próprio pai da psicanálise. Freud até explicaria. Mas o cinema se recusa a pagar a conta das sessões.


GALERIA DE 'PSIS'

Catherine Tramell (Sharon Stone), de Instinto Selvagem. Formada em literatura e psicologia, usa o que aprendeu para escrever best sellers e manipular pessoas. Não necessariamente nessa ordem. É superinteligente, segura e, por isso mesmo, suspeita-se que, por pura desafia à própria genialidade, esteja envolvida em mortes violentas.

Beth Garner (Jeanne Tripplehorn), de Instinto Selvagem. É psicóloga da polícia de São Francisco. Foi colega de banco e de cama de Catherine Tramell, em seus tempos de faculdade, relação até hoje mal resolvida. Mantém uma relação meio instável com o detetive Nick Curran (Michael Douglas), o que não a livra de ser suspeita dos crimes.

Isaac Barr (Richard Gere), de Desejos. Bem-sucedido analista de São Francisco, é enganado por uma falsa paciente (Uma Thurman) e atirado para os braços de sua sedutora irmã (Kim Basinger), a mulherzinha de humor e indesejável mafioso. Para desmoralizar ainda mais a classe, o sujeito se esquece de um dos casos básicos estudados por Freud.

Susan Lowenstein (Barbra Streisand), de O Príncipe das Marés. Uma das mais bem pagas (US$ 100, por sessão!) psicanalistas de Nova Iorque. Seus honorários só não são maiores do que sua ascendência sobre os pacientes. E o liberalismo: põe a ética profissional para o escanteio e se envolve afetiva e sexualmente com o analisado (Nick Nolte).


Jane Grierson (Dianne Wiest), de Mentes que Brilham. Assiste com as crianças de que trata em seu instituto, que também é uma superdotada. A obsessão pelo trabalho, no entanto, a transformou numa figura solitária e carente. A superpsicanalista infantil tem o possível hábito de exercer o reprimido instinto materno com os analisados pacientes-mirim.

Cinema mostra ‘psis’ como manipuladores e assassinos

Susana Schild


Pelás barbas do profeta Freud. Depois dos duros embates que o fundador da psicanálise enfrentou em vida, também não encontra sossego na posteridade. Sua revolucionária teoria sobre os sonhos e o inconsciente dilui-se em um vale-tudo prático e teórico. É numa época em que o marketing é a alma do negócio, seus seguidores têm tido representações nada recomendáveis nas telas. Para Hollywood, engenheram também calada no princípio dos sonhos, o vilão pós-moderno tem muito mais credibilidade se tiver um PhD em Psicologia.


Filmes recentes, como O Silêncio dos Inocentes, Instinto Selvagem, Mentes que Brilham, O Príncipe das Marés e Desejos, com protagonistas da variedade “psis” (psicólogos, psicanalistas, psiquiatras, psicoterapeutas etc.), podem faturar alto nas bilheterias, mas honram índices ínfimos de rigor, competência e equilíbrio esperados da categoria. Pior. Esses filmes inquietos podem revelar-se assassinos com mirabolantes requintes de perversidade ou simplesmente se colocarem à léguas dos discernimentos e dos códigos morais freudianos. Uma coisa, porém, tem em comum: a sofisticada manipulação da mente alheia. E, geralmente, a manipulação da mente alheia.


Depois de assistir a Instinto Selvagem, a psicoterapeuta Maria Aparecida Henriques observou: “Me chocou a atuação fria e o filme tinha irritado tanto as entidades de homossexuais, que ninguém protestou no Conselho”. A presença de duas psicólogas em um mesmo filme — uma formada — como possíveis assassinas.” E ponderou: “As pessoas mal-informadas que usam ou precisam de tratamento se sentem ameaçadas por essa representação totalmente fantasiosa do profissional num campo propenso de manipulação, principalmente no que se refere à sexualidade”.


Para os psicanalistas mais severos, a manipulação da “psi” nas telas está na ponta de uma reação: “Até alguns anos atrás, o psicanalista era uma figura muito idealizada, cercada de mistério. E hoje vem representado por vários filmes como um ser perverso e manipulador.” Perestrello atribui essa “à proliferação de sociedades formadoras de analistas sem preparo, que têm provocado crises muito diversas”. Por esta banalização, enfatiza Perestrello, “todo mundo é analista, independentemente do fato de ter ou não um título”. E pontifica: “Só pode tratar do outro quem fez um bom tratamento”.


Para o psicanalista Jeremias Ferraz já não se distingue com a imagem perjorativa da classe nas telas: “O psicanalista sempre foi objeto de chiste, de deboche, e muito difícil ver um filme que tenha uma temática do profissional, que mobilize muito”, diz. A única exceção recente, segundo Jeremias Ferraz, se veste na cabeça de quem não foi analisado. Segundo ele, um experiente analisando, não ridicularizaria os analistas, como no caso de Catherine Tramell (Instinto Selvagem). “Esse personagem não é analista. Como Freud dizia, muitos psicopatas se fazem de psicanalistas.” Sigmund Perestrello lembra ainda que muitos recentes vêm sendo formulados de ações de danos morais “por filmes sobre advogados e políticos corruptos”. Deixando, deste modo, a tela está para Freud um prato feito.

Poemas (desconhecidos) de Vinícius de Moraes

 


O peixe-espada

(De A Arca de Noé, a entrar num dos próximos livros)

Quando um peixe-espada
Vê outro peixe-espada
Pensam que eles brigam?
Qual brigam qual nada!

Poderão no máximo
Brincar de duelo
Mas brigar só brigam
Com o peixe-martelo.
Ou com o tubarão.


Soneto a quatro mãos

(Com Paulo Mendes Campos)

Tudo de amor que existe em mim foi dado.
Tudo que fala em mim de amor foi dito.
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.

Tão pródigo de amor fiquei coitado,
Tão fácil para amar fiquei prescrito.
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.

Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano.
Desse eterno amor meu, antes não desse.

Para ser tanto dar me fiz engano.
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.

segunda-feira, junho 16, 2025

Glauber Rocha fala sobre Apocsalipse Now de Francis Ford Coppola

 


A GUERRA DO VIETNAM

Glauber Rocha

Jornal do Brasil 

EXIBE-SE no Brasil o filme norte-americano Apocalypse Now, produzido, co-escrito e dirigido por Francis Ford Coppola, considerado o gênio contemporâneo de Hollywood.

O co-roteirista escolhido para adaptar a novela The Heart of Darkness, do romancista polonês Joseph Conrad (1857-1924), foi John Milius, cuja fama se deve às suas autoproclamações fascistas em tudo que fala, escreve ou filma. A escolha de Joseph Conrad e do poeta inglês T.S. Eliot como referências para o apocalipse cinematográfico denota a nostalgia de Coppola pela literatura colonialista.

Conrad, que participou da empreitada colonizadora da Inglaterra na África, Ásia e América, escreveu romances que justificavam crimes em nome de utopias. Thomas Morus revelou que o Eldorado existia em algum "inferno tropical". O mito da Terra Prometida alimentou o protestantismo anglo-saxão, assim como o mito do Graal sustentou o catolicismo latino.

A estratégia colonizadora é conquistar terras "além de Taprobana", como cantou Luís de Camões em Os Lusíadas, obra que, de passagem, menciona o Vietnã. Qualquer crime é justificável se seus autores invocarem valores superiores à vida.

Tudo é relativo (vida e morte), exceto Deus. Esse absolutismo gerador de utopias legitima atrocidades. Para conquistar Jerusalém e territórios judaicos, palestinos e árabes, a Igreja Católica militarizou os cristãos. As Cruzadas invadiram África e Ásia, expandindo a Fé e o Império. Os inimigos, os "infiéis", eram vistos como demônios a serem exterminados. A guerra colonial europeia na África, Ásia e Américas foi santificada.

Moisés comanda a Inglaterra na conquista da América do Norte. Cristo comanda Espanha e Portugal na conquista das Américas Central e do Sul. Os deuses afro-asiáticos e latinos, derrotados, são humilhados por Moisés e Cristo.

Os Estados Unidos surgiram como uma democracia capitalista fruto do protestantismo reformista, em oposição ao catolicismo monárquico da Europa latina. Enquanto os ibéricos católicos exploravam sem construir, os protestantes anglo-saxões estruturaram seu mercado interno, consolidando um sistema psicoeconômico-político-religioso.

Superando a Europa (Oropa, França & Bahia), os EUA iniciaram um novo ciclo imperial até o primeiro abalo causado pela Revolução Soviética em 1917. Após a Segunda Guerra, os norte-americanos apropriaram-se de metade da Europa, enquanto a outra ficou sob domínio soviético. Ironia: Hitler levou consigo o imperialismo britânico para o inferno.


Fragmento Adicional (Continuação):

A patrulha entra no rio Mekong, metaforicamente, e se dirige, também metaforicamente, às ruínas de Angkor, ao sul do Camboja, onde vive Kurtz, o Diabo. Metonimicamente, Francis viaja do seu ego culpado ianque (o Capitão Willard) ao seu ego puro ianque (Marlon Brando). Na ótica satânica de John Milius, o Bem é impuro. Por isso, Willard, agente do Bem, assassina uma vietnamita ferida. O Mal, Brando, é puro. Por isso, recita T.S. Eliot. O Mal é intelectual. O intelectual tem direito de encarnar o Mal. O Mal é divino. O Bem é maldito.


Comentário:

O texto de Glauber Rocha é uma crítica contundente ao colonialismo e à sua representação no cinema, especialmente em Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola. Rocha estabelece um paralelo entre a narrativa do filme — baseada em Heart of Darkness, de Joseph Conrad — e a história real do imperialismo ocidental, destacando como a violência colonial foi justificada por mitos religiosos e utopias civilizatórias.

  1. Crítica ao Colonialismo Cultural: Rocha acusa Coppola e Milius de reviverem uma visão romantizada do colonialismo, usando Conrad e T.S. Eliot como símbolos de uma literatura que legitimou a dominação. A escolha desses autores reflete, segundo ele, uma nostalgia pelo período em que o Ocidente impunha sua "missão civilizatória" através da força.

  2. Religião e Imperialismo: O texto traça uma linha histórica que liga as Cruzadas, a conquista das Américas e o imperialismo moderno, mostrando como a religião (seja católica ou protestante) foi instrumentalizada para justificar a exploração. Os EUA, herdeiros do protestantismo, são vistos como continuadores desse projeto, mas com uma máscara de progresso.

  3. A Inversão Moral em Apocalypse Now: Rocha destaca a contradição no filme: o "Bem" (Willard) comete atrocidades, enquanto o "Mal" (Kurtz/Brando) é retratado como um intelectual puro. Essa ambiguidade reflete, para ele, a hipocrisia da narrativa colonial, onde a violência é glorificada sob o pretexto de ordem ou salvação.

  4. Glauber Rocha e o Cinema Engajado: Como cineasta da Tropicália e do Cinema Novo, Rocha sempre defendeu uma arte que denunciasse as estruturas de poder. Aqui, ele faz do texto uma arma política, expondo como o cinema hollywoodiano reproduz ideologias perversas, mesmo quando pretende criticá-las.

O texto é uma reflexão ácida sobre como a cultura (literatura, cinema) pode ser usada para perpetuar visões distorcidas da história. Rocha desafia o espectador a questionar não apenas Apocalypse Now, mas as narrativas que moldam nossa compreensão do colonialismo e da violência. Sua escrita, cheia de ironia e referências históricas, mantém-se relevante para debates sobre imperialismo e representação artística.

Chico Buarque - Revista Melodias

 MELODIAS Nº 204 - 1974 


Revista Melodias - Edição N° 204 - 1974
(Página 19)


"NÃO ME ARREPENDO DE NADA!"

Considerando-se ultrapassado, Chico Buarque de Hollanda não compõe há mais de um ano.

Tempos atrás, Chico Buarque era um sujeito introvertido que fugia às reportagens. Hoje ele se diz mais maduro e fala aos entrevistadores com naturalidade. Revela que não compõe há um ano.

FASE FECUNDA

Quando Chico Buarque disse que não tinha feito nada em termos musicais, falava a verdade. Há mais de um ano que não compõe música alguma.

— São fases, sabe? Como compositor, dependo muito de novas ideias para me manter como cantor. Como não faço nada, estou parado, aguardando a fase fecunda de músicas e inspiração, para então recomeçar a trabalhar.

O IMPACTO DA SINCERIDADE

— O que você tem feito em termos de música, ultimamente?
— NADA!

A resposta soa como "um baque surdo no ouvido do repórter". Afinal, diante dele está um dos "monstros sagrados" da MPB. A segunda pergunta é inevitável:

— O que acha ultrapassado em sua carreira?
— Não quer dizer que eu não goste, mas tudo o que fiz até hoje está ultrapassado. Se eu não negar isso, estarei, como compositor, me repetindo sempre.

No Hotel Danúbio, cercado pelo MPB-4, Chico reflete sobre a música brasileira:

— Não vai nada pejorativo no que digo, mas é claro que ela também está ultrapassada. Sempre assim: as coisas são feitas, usadas, tornam-se ultrapassadas e depois revividas. A música não foge a essa regra.

SENSO DE HUMOR E COERÊNCIA

— Não faço músicas gozando ninguém. Por isso, não posso dizer quando elas estão gozando alguém. Isso não quer dizer que faço tudo a sério. Felizmente, tenho senso de humor e brinco — às vezes uma brincadeira forte.

Consciente de sua trajetória, ele não vive de arrependimentos:

— Quando comecei, era um amador que tocava violão. Hoje tenho responsabilidade com o público. Não me arrependo de nada, nem me lembro de ter feito algo errado. Se fiz, foi sem importância.

domingo, junho 15, 2025

O Assassino da Machadinha

Texto de Jonas Bayer publicada  em março de 1956 na revista Detetive  

Reconstrução do Crime de 1956

Os textos fragmentados descrevem um crime violento ocorrido em 1956, envolvendo dois homens—Jim e Charley (ou "Chick")—que invadiram uma casa, agrediram e mataram um casal (Hugh e Fern Hill) e depois fugiram, levando a uma intensa caçada policial.






Sequência dos Fatos:

  1. Invasão e Agressão

    • Dois homens armados (Jim e Charley) invadem a casa da família Hill durante a noite.

    • Fern Hill é atacada com uma machadinha enquanto dormia, e Hugh é espancado até ficar inconsciente.

    • Uma criança (Lester, filho do casal) presencia parte do crime e consegue descrever os agressores à polícia.

  2. Fuga e Perseguição

    • Os criminosos roubam o carro da família (um Pontiac) e fogem, iniciando uma perseguição policial.

    • Eles tentam se esconder, mas testemunhas os identificam, e a polícia monta um cerco.

  3. Captura e Confissão

    • Jim é preso primeiro, confessando o crime, mas demonstrando pouquíssimo remorso.

    • Charley é capturado pouco depois, tentando se esconder em uma área rural.

  4. Julgamento

    • Ambos são acusados de homicídio qualificado e condenados.

    • Jim, por ter um histórico criminoso mais violento, recebe uma sentença mais severa (possivelmente pena de morte ou prisão perpétua).


Análise do Crime

  1. Natureza Brutal

    • O uso de uma machadinha e a violência contra uma família indefesa sugerem um crime premeditado e extremamente cruel.

    • O fato de uma criança ter testemunhado o ataque aumenta o impacto traumático do caso.

  2. Perfil dos Criminosos

    • Jim: Parece ser o líder, com um histórico de delinquência e comportamento psicopático (pouca empatia, confissão fria).

    • Charley: Seguidor, menos violento, mas ainda assim cúmplice no crime.

  3. Falhas no Sistema

    • Jim já tinha passagem por reformatórios, indicando que o sistema falhou em reabilitá-lo.

    • A falta de oportunidades econômicas pode ter contribuído para o crime, mas não justifica a brutalidade.

  4. Impacto na Sociedade

    • Crimes como esse geravam grande comoção na década de 1950, levando a debates sobre segurança pública e punição.

    • O caso pode ter influenciado mudanças nas leis de crimes violentos no estado onde ocorreu.


Conclusão

Este foi um crime chocante, marcado por violência gratuita e falhas no sistema penal. A reconstrução sugere que os assassinos agiram por uma combinação de psicopatia e desespero, resultando em uma tragédia que deixou marcas na comunidade local. O caso serve como um exemplo sombrio da criminalidade violenta da época e das limitações da justiça em lidar com criminosos reincidentes.

Observação:  o contexto sugere os anos 1950

deixe ela entrar


Let the Right One In (2008) – Um conto de horror e ternura na neve

Direção: Tomas Alfredson
Roteiro: John Ajvide Lindqvist (baseado em seu próprio romance)
Elenco: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar
País: Suécia
Gênero: Terror / Drama / Coming-of-age
Duração: 114 min
Título brasileiro: Deixe Ela Entrar


📖 Sinopse

Oskar, um garoto de 12 anos, solitário e vítima constante de bullying, vive em um conjunto habitacional nos arredores de Estocolmo. Sua vida muda quando conhece Eli, uma estranha garota que se muda para o apartamento ao lado. Aos poucos, Oskar descobre que Eli é, na verdade, uma vampira. Apesar disso, uma amizade — e talvez algo mais — floresce entre eles, desafiando as noções convencionais de inocência, violência e dependência.


🔍 Análise crítica

1. O vampirismo como metáfora do abandono e da solidão

Muito além dos clichês do gênero, Let the Right One In usa o vampiro como símbolo da marginalidade, da exclusão e da sobrevivência emocional. Oskar é um garoto deslocado, negligenciado pelos pais, e sua amizade com Eli nasce dessa solidão compartilhada. Não se trata apenas de uma história de terror — mas de uma história de dois seres quebrados que se reconhecem no outro.

2. Ambiguidade moral e emocional

Eli, apesar de parecer frágil e angelical, é uma criatura predadora. Sua relação com Oskar é ao mesmo tempo terna e inquietante: ela o protege e acolhe, mas há indícios de uma relação de manipulação, como aquela que tinha com seu cuidador anterior. O espectador é desafiado a sentir empatia por personagens que vivem no limiar entre amor e violência.

3. Estética do frio e do silêncio

A direção de Alfredson é minimalista, silenciosa, meticulosa. A neve que cobre tudo, os ambientes gélidos e silenciosos e a câmera estática evocam um clima de suspensão — como se o tempo estivesse congelado, reforçando a ideia de Eli como uma figura anacrônica, presa no corpo de uma criança. O horror é muitas vezes implícito, pontuado por momentos breves e impactantes de violência.

4. Quebra dos códigos clássicos do terror

Ao contrário dos filmes de vampiro convencionais, Alfredson humaniza o monstro e monstruifica o humano. Os agressores de Oskar, por exemplo, são crianças “normais”, enquanto a figura sobrenatural oferece acolhimento. O horror aqui não vem só do sangue, mas da crueldade cotidiana, da negligência familiar, do vazio existencial.

5. Poética do grotesco

A presença de horror corporal — como a combustão espontânea de um personagem ao entrar na luz do sol ou a maneira como Eli se alimenta — não é gratuita. Ela é tratada com lirismo, quase como se fosse parte de um balé trágico. A dor e o afeto coexistem em uma simbiose quase impossível.


🎯 Temas centrais

  • Solidão e exclusão social

  • Puberdade, descoberta da sexualidade e identidade

  • Amor não convencional

  • Ciclos de violência

  • A infância como território de horror


📚 Curiosidades

  • O título vem de uma canção de Morrissey, “Let the Right One Slip In”, mas também alude à tradição do folclore vampírico de que o vampiro só pode entrar em uma casa se for convidado.

  • O filme ganhou diversos prêmios internacionais e é amplamente considerado um dos melhores filmes de vampiro já feitos.

  • Em 2010, foi feita uma refilmagem americana (Let Me In, dirigida por Matt Reeves), competente, mas sem a mesma sutileza e lirismo do original sueco.

  • A atriz Lina Leandersson teve sua voz dublada por outra atriz, para dar a Eli uma sonoridade mais andrógina e ambígua.


🩶 Conclusão

Let the Right One In é uma joia rara do cinema de horror contemporâneo: delicado, perturbador, existencial e poético. Ao mesmo tempo um coming-of-age, um conto de fadas sombrio e uma reflexão sobre o afeto em tempos de indiferença, o filme de Tomas Alfredson se destaca por fazer o horror emergir não de monstros externos, mas das zonas obscuras da experiência humana. Uma obra-prima que ressignifica o terror com lirismo escandinavo e brutal honestidade emocional.

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Se eu não fosse uma garota… você gostaria de mim mesmo assim?