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terça-feira, agosto 04, 2026

RAUL CORTEZ: ENTRE A ESPANHA E PORTUGAL

 

RAUL CORTEZ: ENTRE A ESPANHA E PORTUGAL



Um Certo Olhar... une a poesia do português Fernando Pessoa com o lirismo do espanhol Federico García Lorca; hoje tem a última apresentação no Calil Haddad

Marcelo Bulgarelli — Da equipe de O DIÁRIO

Maringá, sábado, 22 de maio de 1999

É momento de dar voz às palavras. Um Certo Olhar Pessoa e Lorca é exatamente isso: através dos poemas de Fernando Pessoa e García Lorca, o público poderá entender que as palavras existem como força transformadora do mundo. Quem conhece a poesia portuguesa e espanhola, sabe disso.

O espetáculo que está sendo apresentado no Teatro Calil Haddad pelo ator Raul Cortez, pretende resgatar a nossa origem ibérica. "Temos o Portugal pela frente e a Espanha pelas costas", resumiu Raul durante uma entrevista ao O DIÁRIO, no mezanino do Hotel Golden Inga, onde está hospedado. Ele não poupou a mediocridade reinante na mídia.

Num mundo globalizado, estaria na hora de resgatar a cultura latina?

— Eu acho justamente isso, acho que você pode reforçar demais no momento que você tem essa força. Todo "o novo" deve ser provocado por nós. Nós somos um povo com uma série de problemas de "povo novo", que está começando. Até nossos vícios, nossa corrupção deve ser banida... Isso veio com nossos imigrantes que vieram de maneira meio estranha pra cá. Uma "certa purificação" (risos) deve ser provocada pela gente para termos um futuro melhor para nossos filhos e netos.

Fernando Pessoa por Raul Cortez

— Fernando é uma grande surpresa, é um exemplo da língua portuguesa. É uma viagem no interior do homem e do seu sentimento. Foi uma surpresa particularmente incrível devido ao seu despudoramento. Ele tinha uma vida muito simples, fechada, introvertida, mas os demônios que ele tinha dentro dele realmente eram extraordinários. Há versos dele que lutei muito porque tinha um pudor imenso em falar. Não é uma palavra, mas o sentimento que ele traz. Eu trabalhei em cada poema interessado em cada subtexto que estava por detrás de cada palavra e o que ele deveria estar sentindo no momento em que escreveu.

E García Lorca?

— Recolhemos entrevistas de García Lorca e Fernando Pessoa e colocamos como se fosse uma entrevista de uma pessoa só. Isso tem uma certa graça dentro do próprio espetáculo. Quando Fernando diz que "o poeta é um fingidor, que finge que a dor é a dor que deveras sente", Lorca responde: "eu sou todo de estrelas derretidas, sangue do infinito. Ea caravela dos sonhos ao desconhecido e tenho a amargura solitária de não saber nem o meu fim, nem o meu destino". Essa união leva a pessoa que assiste a ter um sentimento tão forte que, a faz voar, faz uma viagem ali...

Até mesmo no teatro...

— Eu tenho muita curiosidade de ver como fica esse espetáculo nesse teatro. Aliás o teatro (Teatro Calil Haddad) é lindíssimo, vocês estão de parabéns. Além de ser um teatro é também um centro cultural, tem exposições ali. É um bonito trabalho que a Dina (Dina Dollis, diretora de Cultura) está fazendo.

Em relação à mediocridade que acontece hoje na mídia. Vejo que você tem vontade de resgatar, com essa peça, um pouco da nossa latinidade, de nossa identidade...

— Mas isso depende de vocês também. Veja o exemplo da TV Cultura de São Paulo. Todos os jornalistas se uniram e fizeram uma espécie de código de ética do que deveria ser perguntado ou informado ao público em relação ao entrevistado e ao assunto. Achei extraordinário. Há uma lei que obriga a televisão dar sua parte, já que é uma concessão, através de uma atividade cultural dentro de seus canais. Mas não acontece nada. Se briga por uma guerra de audiência baixando o nível da maneira que tá...

Contrariando até a Constituição.

— É, mas quando a gente fala isso para um jornalista, como aconteceu comigo em São Paulo, ele responde que está "dando para o público aquilo que ele quer". Eu digo que não, são vocês que estão querendo que o público aceite isso. Eu sempre achei que detrás de uma bunda estampada na Playboy, tem um cafetão de luxo atrás. Então eles pegam esse cafetão de luxo e jogam na revista Caras, mostrando a casa e não sei mais o quê... É exaltação? O que é isso? É uma inversão de valores total. A mulher é até uma gracinha. Participo também do desejo de todo o brasileiro em dar "uma volta por lá" (risos). Mas, pô, não se pode dar esse espaço...

E muita coisa vem de fora...

— Existe o entretenimento, e ele tem que existir mesmo, mas há uma série de coisas que são importantes. Hoje em dia é impossível separar Educação e Cultura para se obter uma condição de vida melhor. Não se acata para essa mediocridade, esse americanismo, essa musiquinha e filminho de violência classe b, o lixo que eles trazem pra cá e que toma conta de todos os espaços de cinema. Isso é geral, não só aqui, na Europa também. No Festival de Cannes eles foram até quase banidos... O Oscar foi uma palhaçada, todo mundo viu e não digo isso porque nós perdemos. É o poder do dinheiro, do dólar que influi até numa premiação que deveria ser artística em primeiro lugar. Isso tudo deve ser fiscalizado por todo o cidadão, cada um que exerce sua profissão. Vocês têm que peitar os donos dos jornais e tal...

É a cultura do "fast-food".

— Aqui está sendo conduzido para isso. Mas no Chile você abre o jornal de domingo que tem aquela folha do "teenager", que entrevista adolescente, e a primeira pergunta que eles fazem é "qual o livro que você está lendo? Tá gostando e por quê?". Essa garotada tem uma outra cultura, totalmente virada para a Europa... Olha, não dá pra ser um Dom Quixote, mas você tem como conduzir o seu país para uma cultura melhor.

Seria importante pra nossa autoestima...

— Exatamente. Você se acha um lixo, rodeado num país cheio de gente corrupta querendo tirar vantagem e que não leva a nada, a não ser um prazer momentâneo e individual.

SERVIÇO

  • Espetáculo: Um Certo Olhar, Pessoa e Lorca

  • Quando: Hoje, último dia, às 20h30.

  • Onde: Teatro Calil Haddad.

  • Ingressos: R$ 20,00 nos shoppings Avenida Center e Aspen Park (Happy e Happy Man) e na bilheteria do teatro.

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