NOS ACOMPANHE TAMBÉM :

segunda-feira, agosto 10, 2026

#Maringá nasceu de um aceno de adeus

 Aqui está a transcrição integral da matéria principal assinada por Marcelo Bulgarelli no jornal *O Diário do Norte do Paraná*, publicada em 10 de maio de 2002


# Maringá nasceu de um aceno de adeus

**A canção que emprestou seu nome ao município, foi inspirada num fato ocorrido em Pombal, na Paraíba, a mais nova cidade-irmã de Maringá**


*MARCELO BULGARELLI*

*Da equipe de O DIÁRIO*

Cidade de Pombal, Paraíba, década de 20. Uma família de retirantes arruma seus poucos pertences em um pau-de-arara. Um jovem casal se despede. Ela, bonita, deixaria a cidade junto com a miserável família para tentar uma vida melhor em São Paulo. Era a família de Maria. Da cabocla Maria do Ingá.

Ela, um jovem mais triste ainda. Sem dinheiro, não tinha condições de embarcar no caminhão. Todas as economias daquela família eram mínimas para a longa viagem. Não haveria espaço para mais um corpo franzino. E muito menos para mais uma boca.

O pau-de-arara parte, deixando no ar o último toque de mãos entre Maria e o namorado. Ele corre atrás do caminhão, amargando todo o fôlego possível no silêncio, em meio à poeira. Não há registros sobre o nome do caboclo que ficou. João Sem Ninguém? Talvez.

No bar próximo, um grupo de amigos assistia a cena. Comovidos, chegaram a recolher moedas perdidas nas bolsas, mas poucos réis não seriam suficientes para cobrir os gastos da viagem ou para conformar os corações daqueles jovens separados pela miséria.

Eles conheciam Maria. Ela morava numa região conhecida como Ingá, nas margens do rio Piranhas. Daí esse nome. Moça prendada, desde os 12 anos já preparava pratos típicos. Com um sorriso no rosto, era a alegria de centenária cidade paraibana até o dia do adeus parado no tempo.

 JOUBERT DE CARVALHO

Pombal, antiga capital do Recôncavo, 1930. Joubert de Carvalho era um mineiro de Uberaba recém-formado em Medicina na capital federal e apaixonado por música e versos. O pai, Tobias de Carvalho, sempre o aconselhou a ficar afastado dos pianos e violões. Na aristocrática família Carvalho só eram permitidos médicos ou advogados.

Joubert passava por um momento difícil. Recém-formado em medicina, lhe assustava o fato de gostar mais do piano do que do bisturi. Porém, nunca foi um boêmio. Apesar de ter estudado medicina a pedido do pai, sempre se destacou como um grande compositor. Ao contrário de Noel Rosa, boêmio inveterado. Esse já havia tomado o rumo da boemia ao abandonar precocemente o curso de medicina.

 UM EMPREGO

Mas Joubert não podia se dar a esse luxo. A sombra paterna parecia seguir a sua mãe antes de conseguir qualquer vaga em órgão público. Necessitava de um emprego seguro. E foi em um anúncio de jornal que descobriu a existência de uma vaga para médico no Ministério de Viação e Obras Públicas.

Na época não existiam concursos públicos. Joubert recorreu, então, ao amigo, poeta e político Rui Carneiro, chefe de gabinete do ministro da viação, José Américo de Almeida.

* Joubert, vá você mesmo lá e peça, disse Rui.

* Mas eu não tenho jeito pra essas coisas.

* Por que você não faz uma canção falando dessa seca no Nordeste? Ele está fazendo estragos por lá, faça uma canção.

* Onde é que José Américo nasceu?

* Em Areias.

* Areias está meio ruim. E você, onde nasceu?

* Em Pombal.

* Pombal, Pombal, Pombal... Está ótimo... "Antigamente uma alegria sem igual dominava aquela gente da cidade de Pombal... mas veio a seca toda chuva foi-se embora, só restando então as águas dos meus olhos quando chora..."

A canção surgiu ali, na sala de espera do gabinete. Joubert também queria saber de uma cidade do Nordeste em que a seca foi tremenda. Rui citou várias, inclusive Maria do Ingá, interior da Paraíba, distante 87 quilômetros de João Pessoa.

Independente da música, o médico garantiu a vaga no Ministério, conseguiu satisfazer a vontade do pai e ao mesmo tempo pôde se dedicar à música. Joubert chegou a ser nomeado para o cargo de médico do Instituto dos Marítimos, onde fez carreira.

A homenagem, porém, ficaria para o amigo: Rui, ilustre filho da cidade de Pombal, também na Paraíba. Foi ele mesmo que teria contado para Joubert, durante uma conversa em um café no centro do Rio, a triste história de uma cabocla chamada Maria do Ingá.

 SERÁ LENDA?

Joubert ficou emocionado com o relato sobre a família de retirantes e do desespero do namorado de Maria, deixado em Pombal. Mas seria tudo aquilo verdade ou lenda? Rui, sabendo, revelou. Ele era um dos rapazes que estava no bar, uma das testemunhas do adeus. Provavelmente, foi o próprio amigo de Joubert quem batizou a triste moça de Maria do Ingá, também inspirado na lenda de uma cabocla conhecida com este nome, vítima de terrível seca em 1877. Convencido, Joubert partiu para o escritório a fim de terminar a composição.

Vara a madrugada compondo a música. O refrão estava pronto: "Maringá, Maringá, Maria do Ingá, depois que tu partiste tudo aqui ficou tão triste que eu fiquei a chorar". Não, não estava bem. "Maringá, Maringá, depois que tu partiste...", foi o último retoque. A obra-prima estava pronta.

 PELAS ONDAS DO RÁDIO

"Prezados ouvintes, vamos ouvir agora a composição Maringá, de Joubert de Carvalho na voz de Gastão Formenti", anunciava o locutor da rádio carioca em meados de 1932. A toada tomaria conta do Brasil e dividiria as paradas ao lado da marchinha O Teu Cabelo Não Nega (Irmãos Valença e Lamartine Babo) e do bolero Aquellos Ojos Verdes.

Durante algum tempo, muitos atribuíam que a letra de Maringá fosse do poeta Olegário Mariano, também parceiro de Joubert em outro clássico, "De Papo pro Ar". Mais tarde, o jornalista e compositor David Nasser descartou essa hipótese.

 MARINGÁ

Noroeste do Paraná, década de 40.* A Companhia Melhoramentos Norte do Paraná explorava e organizava a venda as glebas que lhe pertenciam, implantando núcleos urbanos. Famílias inteiras derrubavam as matas. Tempos difíceis. As poucas horas de lazer, porém, eram dedicadas aos bailes improvisados. Se escutava muita toada...

Em 1947, Elizabeth Thomas, esposa do presidente da Companhia Melhoramentos, sugeriu que a composição desse nome à cidade recém-construída pela empresa. Foi um fato inusitado. Em todos os países do mundo, cidades emprestam seus nomes a canções. Raro, no entanto, uma canção dar origem a uma cidade. Sobre a mesa dos engenheiros da empresa, os rascunhos tinham um novo nome: Projeto Maringá.

Em 1959, Joubert visitou Maringá para inaugurar a antiga rua Bandeirantes, que passou a receber o nome dele. Dez anos depois, ele recebeu um convite do então prefeito de Maringá, Adriano José Valente, para ser o embaixador de Maringá no Estado da Guanabara. Aceitou na hora e ainda retribuiu com a música "A cidade que virou canção".

O registro fonográfico de sua composição é raro. A TV Cultura de São Paulo mantém em seus arquivos uma gravação da série Ensaio em que o músico apresenta esta canção junto ao piano.

### CIDADE IRMÃ

Pombal, maio de 2002. O elo entre as duas cidades vai além do batismo Maringá. Distante 37 quilômetros de João Pessoa, hoje Pombal tem pouco mais de 29 mil habitantes e ainda preserva seus prédios coloniais junto aos rios Piranhas e Piancó. Fundada por Marcondes de Pombal no século XVIII, tem sua economia baseada na agropecuária. Atualmente a maior novidade é a construção de seu minishopping.

O povo pombalense homenageia Joubert de Carvalho e sua obra-prima dando o nome de Maringá para uma rádio FM, um clube campestre e a um restaurante. A toada, por sinal, é um hino lúdico de Pombal.

O pacto municipal paranaense com a cidade irmã de Maringá ganhou força ainda em novembro do ano passado pelo prefeito José Cláudio Pereira Neto. O projeto, de autoria dos vereadores Paulo Mantovani (PSDB) e Manoel Álvares Sobrinho (PDT), permitiu os convênios e intercâmbios culturais.

Assim como Joubert, Sobrinho também é médico e quase conterrâneo de Rui Carneiro. Ele nasceu em Serra Negra do Norte, município a 40 quilômetros de Pombal, perto das divisas entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte. O vereador foi um grande entusiasta do projeto de cidades irmãs.

É uma justa homenagem ao local de onde a dita cabocla partiu. Se foi lenda ou um fato testemunhado pelo poeta Rui Carneiro, não importa. Maringá nasceu de uma história. Maringá nasceu de Maria. Cidade Mulher.

 marcelo@odiariomaringa.com.br

Agradecimentos: Vereador Manoel Sobrinho, historiadores Reginaldo Benedito Dias e João Laércio Lopes Leal e professor Arthur Andrade. Bibliografia: A Canção no Tempo de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello; Maringá ontem, hoje e amanhã de Arthur Andrade; O Fenômeno Urbano numa zona pioneira: Maringá de França Luz, site da Prefeitura Municipal de Pombal ([http://sites.uol.com.br/pmp.pombal](https://www.google.com/search?q=http://sites.uol.com.br/pmp.pombal)); Enciclopédia Pop de Música Popular Brasileira da Folha de São Paulo. História de Maringá, de João Laércio Lopes Leal e professor Arthur Andrade. Foto da Biblioteca (Edson Abrãao); arquivos pessoais do jornalista.*

Nenhum comentário :