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quinta-feira, fevereiro 19, 2026

O CINEMA SOCIAL DE MARTIN RITT

 



Ely Azeredo

(Jornal do Brasil - 1978)

Norma Rae, um dos mais expressivos filmes americanos da produção recente, reuniu a seu favor a quase unanimidade da crítica americana.
Uma unidade não permanente na carreira de Martin Ritt (59 anos), que está em ótima forma. Seu filme sobre a praga das listas negras que assolaram o show business à época do macarthismo, The Front (O Testa-de-Ferro), comédia dramática protagonizada por Woody Allen — com uma inesquecível performance de Zero Mostel — exorcizou num conjunto irônico fantasmas recalcados por muitos anos. Na própria equipe de The Front, vários profissionais — roteirista, ator Zero Mostel, Ritt — entre outros, sofreram problemas semelhantes aos narrados no roteiro, passando privações e vendo interrompidas suas carreiras.

Norma Rae, em vigorosa interpretação de Sally Field, é uma operária que se torna líder sindical. O som do filme esconde-se de Crystal Lee Sutton, operária da indústria têxtil J. P. Stevens, de Roanoke Rapids, Carolina do Norte, e a segunda figura do filme, o organizador sindical Reuben Warshowsky (papel a cargo do ator Ron Leibman), inspirou-se em outro personagem, Eli Zivkovich. Ao agregar os de Zivkovich e Crystal Lee, tornou viável o primeiro grande filme de trabalho nas fábricas de vulto no mundo, nos Estados Unidos.

Não importa, de passagem, em que pelas declarações de Ritt, seu filme não seja obtido “luz em filmagens de documentário”, não havendo necessidade de reproduzir fielmente a realidade sindical. Ritt se fechou ao lado da ficção, e o resultado foi aceito pela documentarista de Harlan County, que lutou para levantar a verba necessária à produção. Mais uma vez, com sua paciência de monja vivendo no local, na intimidade dos dois protagonistas reais e do habitat autêntico, Barbara Kopple levará ainda tempo para concluir o filme? De qualquer maneira, deveremos ver dois filmes sobre o mesmo tema. E o paralelo será interessante.

O êxito de público e crítica de Norma Rae não constituiu favor: a sensibilidade de Martin Ritt para os temas sociais, tendo como protagonistas, em geral, gente de baixo da pirâmide, desempregados, explorados, oprimidos e humilhados. Depois de passar pela Broadway e pela televisão (onde, em início de carreira, dirigiu peças da emigração que incorporou outros nomes de talento, como Sidney Lumet e Robert Mulligan), Ritt, desde cedo, mostrou seus temas preferidos em Um Homem Três Metros de Altura (Edge of the City ou A Man Ten Feet Tall), com Sidney Poitier e John Cassavetes, mostrava a problemática social ungida de cumplicidade étnico-racial, que muitos consideram defeito do cinema americano, mas que se constitui em veia de ouro. O mestre soviético Eisenstein escreveu que o cinema americano tinha os seus maiores temas no conflito racial.

Ritt foi vítima de pecados cometidos pelos produtores que ainda tentam a inutilidade de aproximar-se de obras de Faulkner, e cujo gênero nem The Long Hot Summer (O Mercador de Almas), nem The Sound and the Fury (A Fúria), conseguiram fazer justiça. Mas teve um saldo positivo reforçado por Hud no Brasil, (O Indomado), cena ainda numerosa de suas produções preferidas de Sounder (Lágrimas de Esperança), que consagraram-se.

Norma Rae vive uma existência de dúvidas e esperanças de autorrealização de ingrata ganhadora de mal paga, vive com os pais. Arranja um companheiro, separa-se. Incapaz de educar dois filhos. Encontrou forças em companheiros e similares mas não serviram para completar uma síntese da realização como mulher. Casa-se, tem filhos. Não tem comunicação íntima com o marido, embora ame. Quando chega o perspicaz sindicalista Warshowsky, o organizador sindical, Norma Rae encontra sua ascensão como mulher. Nada de excepcional, mas muito humano.

Mas o foreiro de Nova Iorque foi o mais obediente, a esperar por melhor condição de vida e consciente militância sindical de Norma Rae, em uma história simples e comovente de sua nascente solidariedade de classe.

Características naturais — provavelmente uma forma ou outra de prolongar sua permanência nos cinemas. Para que seja a valorizada produtora Twentieth Century-Fox que há anos não possuía.

Por exemplo: há quanto tempo a Fox não possuía um produto com este tipo de qualidades artísticas, sociais e comerciais?

A história de Norma Rae já tinha sido documentada em filme. O sindicato da indústria têxtil dos Estados Unidos encomendou um documentário de 30 minutos, Crystal Lee, uma Mulher de Têxtil, dirigido por George Stoney, exibido na TV em 1978.

Melhor ainda: o primeiro documentário exibido na NBC, e premiado com o título de “melhor filme sindical”.

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