A reportagem publicada no jornal A Notícia em 28 de agosto de 1977 é um exemplar fascinante do sensacionalismo ufológico que marcou certas épocas, especialmente durante a Guerra Fria, quando avistamentos de OVNIs eram frequentes e amplamente divulgados.
Nas últimas 72 horas, cinco Objetos Voadores Não identificados, libertando uma fantástica luminosidade avermelhada, cruzaram os céus de Manaus, de acordo com depoimentos de pessoas idôneas e dignas de toda fé, cujos nomes são omitidos a pedido dos próprios, para evitar que sejam incomodados por curiosos em saber mais sobre o assunto.
A primeira aparição de um feixe de luz estranha-mente luminoso no céu ocorreu no domingo a tarde e várias pessoas que se encontravam em pontos elevados da cidade, tais como morros ou terraços, vislumbraram a passagem do provável disco voador. Na quarta-feira, à noite, a torre de controle do aeroporto internacional “Eduardo Gomes” detectou a presença de um aparelho estranho nas proximidades daquele campo de pouso, desaconselhando aos aviões que chegavam a Manaus a aterrissagem.
A esposa de um conhecido comerciante de Manaus viu no céu duas estranhas “estrelas” na madrugada da quinta-feira e seu marido, chamado por ela, também assistiu as “manobras” dos discos-voadores.
Quase que ao mesmo tempo, outro também conhecido professor e jornalista assistiu dois aparelhos luminosos na rota do edifício “Cecilhão” para o conjunto de Japim. Além destes várias outras pessoas, desconhecidas do público mas não eram por isso menos dignas de fé, dizem ter visto a estranha luz, noutras oportunidades, cortarem o céu amazonense.
Ao mesmo tempo em que estas informações nos chegam, surgem mais detalhes da visita dos OVNI ao aeroporto de Manaus. Ali, tudo começou quando um avião da VASP pediu autorização para pousar. No mesmo instante, o piloto alertava a torre sobre uma estranha luz que pairara sobre seu aparelho e pedia instruções. A torre, vislumbrando a luminosidade vermelha, desaconselhou o pouso e o avião arremeteu novamente, ganhando altitude, sempre perseguido pelo feixe de luz avermelhada.
Mais dois aparelhos que tentaram o pouso quase na mesma hora foram perseguidos por luzes idênticas, um deles da VARIG, que conseguiu primeiro o pouso, depois que o pessoal de apoio correu à pista, assim como um destacamento de bombeiros, pois então se previa algum problema de extrema gravidade nos aviões. Finalmente, o pouso foi autorizado para outras duas aeronaves, sem maiores anormalidades, embora a luz vermelha continuasse focando diretamente sobre os três aviões que desembarcavam passageiros. Em diversas ocasiões, os focos luminosos se entrecruzavam. Já não eram três mais cinco os feixes de luz, se cruzando no ar, ora iluminando a parte superior do bojo das naves, inclusive de outras que estavam aterrizadas há tempo, sem que o pessoal distinguisse de onde as luzes eram dirigidas.
Jornal A Notícia de 28 de agosto de 1977
1. Sensacionalismo e Linguagem
A manchete já estabelece um tom dramático: "CINCO DISCOS VOADORES VISITARAM A CAPITAL AMAZONENSE EM 72 HORAS". O uso de "discos voadores" em vez de "objetos não identificados" (ainda que o texto depois use "OVNI") e o verbo "visitaram" humanizam o fenômeno, sugerindo uma narrativa de contato ou invasão. A descrição da "fantástica luminosidade avermelhada" reforça o apelo ao mistério e ao extraordinário.
2. Fontes Anônimas e Credibilidade
O texto menciona "pessoas idôneas e dignas de toda fé", mas seus nomes são omitidos a pedido próprio. Essa estratégia protege as fontes, mas também enfraquece a verificabilidade da história. Em jornalismo, fontes anônimas são problemáticas porque impedem que o leitor avalie a credibilidade das testemunhas. A ausência de nomes específicos (exceto a referência indireta a um "conhecido comerciante" e um "professor e jornalista") deixa a narrativa dependente da autoridade do jornal.
3. Narrativa Fragmentada e Inconsistências
A reportagem relata eventos em diferentes momentos (domingo, quarta-feira, quinta-feira) e locais (aeroporto, morros, conjuntos residenciais), mas não há uma linha do tempo clara. Detalhes como a perseguição a aviões comerciais (VASP e VARIG) são apresentados de forma caótica, com descrições confusas sobre o número de luzes ("já não eram três mais cinco"). Essa falta de clareza pode refletir tanto a dificuldade de apuração quanto a tentativa de amplificar o drama.
4. Contexto Histórico e Cultural
Em 1977, o Brasil vivia a ditadura militar, e relatos de OVNIs eram comuns – inclusive com supostas ocorrências oficiais (como o caso da Ilha da Trindade). A ufologia ganhava espaço na mídia, muitas vezes com aceitação tácita de autoridades. O aeroporto mencionado (Eduardo Gomes) é militar, o que acrescenta um elemento de possível interesse governamental. A reportagem pode espelhar um clima de paranoia ou curiosidade coletiva em relação a fenômenos aéreos inexplicáveis.
5. Falta de Investigação Cética
Não há qualquer tentativa de oferecer explicações alternativas (como testes militares, fenômenos atmosféricos ou balões). O jornal trata os relatos como factuais, sem questionar a plausibilidade ou buscar especialistas (astrônomos, pilotos, físicos) para contextualizar os eventos. Isso era comum em reportagens ufológicas da época, que priorizavam o entretenimento sobre a análise crítica.
6. Impacto e Repercussão
O texto termina abruptamente, sem conclusão ou reflexão, o que sugere que o objetivo era mais chocar do que informar. A menção a bombeiros e equipes de apoio correndo para a pista aumenta o tom de urgência, mas não há informações sobre desfecho ou consequências reais (acidentes, danos, investigações).
7. Legado Ufológico
Hoje, a reportagem serve como documento histórico de uma era em que a cultura pop e o jornalismo se alimentavam mutuamente de mitologias extraterrestres. Manaus, pela sua localização isolada e céu amplo, era (e ainda é) palco de relatos ufológicos, muitos deles atribuídos a testes secretos ou à própria dificuldade de observação em áreas remotas.

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