Transcrição do recorte (Correio Paulistano, 15 out. 1960)
RECOMENDÁVEIS: — “Ben Hur”; “As 7 Maravilhas do Mundo”.
SEM OBJEÇÃO: — “O Grande Caruso”.
COM OBJEÇÃO A CRIANÇAS: — “A Morte Vem do Espaço”; “Afundem o Bismark”; “Somente Deus por Testemunha”.
COM OBJEÇÃO A MENORES: — “Os Estranguladores de Bombaim”; “A corrida da morte”; “Flor Que Não Murcha”; “O Porteiro”.
TOLERÁVEIS PARA ADULTOS: — “Hoje Como Ontem”; “Cidade Ameaçada”; “Guerra e Humanidade”; “Férias em Majorca”.
DESACONSELHADOS: — “De Repente no Último Verão”; “Hiroshima Meu Amor”; “Camarotes Indiscretos”.
CONDENADOS: — “A Rua das Mulheres Perdidas”; “Um Moralista em Apuros”.
Análise
Esse recorte é um exemplo da classificação moral dos filmes no Brasil antes da adoção do sistema de censura federal mais sistemático (anos 1960-70). O documento mostra como a imprensa publicava as listas preparadas por órgãos ligados à Igreja e comissões de moralidade para orientar o público.
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Hierarquia moral clara
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De “recomendáveis” (filmes vistos como edificantes, históricos ou religiosos, como Ben-Hur) até “condenados” (obras vistas como imorais, de conteúdo sexual, crítico ou existencial).
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A classificação mistura critérios estéticos, religiosos e políticos.
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Controle sobre a juventude
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Duas categorias centrais: “com objeção a crianças” e “com objeção a menores”. A ideia era preservar a infância de violência, sensualidade ou temas adultos.
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Filmes policiais, de guerra ou de ficção científica (A Morte Vem do Espaço) eram vistos como impróprios para crianças, mas tolerados para adultos.
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Conflito com o cinema de autor europeu
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Obras de grande valor crítico e artístico aparecem em categorias negativas:
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Hiroshima, Meu Amor (Alain Resnais, marco da Nouvelle Vague) foi considerado “desaconselhado”.
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De Repente, no Último Verão (Joseph L. Mankiewicz, com roteiro de Tennessee Williams) foi também colocado entre os desaconselhados — provavelmente pelo tratamento de temas como homossexualidade e violência.
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Isso mostra como o filtro moral suprimia ou marginalizava obras inovadoras e adultas.
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Cinema popular x cinema autoral
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Filmes épicos, musicais e históricos (Ben-Hur, O Grande Caruso) eram celebrados.
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Obras “menores” ou ligadas a temas sociais/sexuais eram “condenadas” — como A Rua das Mulheres Perdidas (provavelmente melodrama ou policial com conotação sexual).
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Instrumento de poder
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Esse tipo de lista servia para “educar” o público, mas também funcionava como censura indireta.
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Mesmo sem proibir oficialmente, um jornal classificar como “condenado” podia afastar espectadores e exibir o alinhamento conservador da imprensa.
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👉 Em resumo: esse recorte mostra a mentalidade moralista do Brasil pré-ditadura militar, em que a Igreja Católica e setores conservadores exerciam forte influência sobre o consumo cultural. A lista revela o embate entre o cinema clássico hollywoodiano (aceito e recomendado) e o cinema moderno/autor europeu (rejeitado ou marginalizado).

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