NOS ACOMPANHE TAMBÉM :

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

A classificação moral dos filmes no Brasil

 


Transcrição do recorte (Correio Paulistano, 15 out. 1960)

Orientação Moral dos Espetáculos
FILMES EM CARTAZ

RECOMENDÁVEIS: — “Ben Hur”; “As 7 Maravilhas do Mundo”.

SEM OBJEÇÃO: — “O Grande Caruso”.

COM OBJEÇÃO A CRIANÇAS: — “A Morte Vem do Espaço”; “Afundem o Bismark”; “Somente Deus por Testemunha”.

COM OBJEÇÃO A MENORES: — “Os Estranguladores de Bombaim”; “A corrida da morte”; “Flor Que Não Murcha”; “O Porteiro”.

TOLERÁVEIS PARA ADULTOS: — “Hoje Como Ontem”; “Cidade Ameaçada”; “Guerra e Humanidade”; “Férias em Majorca”.

DESACONSELHADOS: — “De Repente no Último Verão”; “Hiroshima Meu Amor”; “Camarotes Indiscretos”.

CONDENADOS: — “A Rua das Mulheres Perdidas”; “Um Moralista em Apuros”.


Análise

Esse recorte é um exemplo da classificação moral dos filmes no Brasil antes da adoção do sistema de censura federal mais sistemático (anos 1960-70). O documento mostra como a imprensa publicava as listas preparadas por órgãos ligados à Igreja e comissões de moralidade para orientar o público.

  1. Hierarquia moral clara

    • De “recomendáveis” (filmes vistos como edificantes, históricos ou religiosos, como Ben-Hur) até “condenados” (obras vistas como imorais, de conteúdo sexual, crítico ou existencial).

    • A classificação mistura critérios estéticos, religiosos e políticos.

  2. Controle sobre a juventude

    • Duas categorias centrais: “com objeção a crianças” e “com objeção a menores”. A ideia era preservar a infância de violência, sensualidade ou temas adultos.

    • Filmes policiais, de guerra ou de ficção científica (A Morte Vem do Espaço) eram vistos como impróprios para crianças, mas tolerados para adultos.

  3. Conflito com o cinema de autor europeu

    • Obras de grande valor crítico e artístico aparecem em categorias negativas:

      • Hiroshima, Meu Amor (Alain Resnais, marco da Nouvelle Vague) foi considerado “desaconselhado”.

      • De Repente, no Último Verão (Joseph L. Mankiewicz, com roteiro de Tennessee Williams) foi também colocado entre os desaconselhados — provavelmente pelo tratamento de temas como homossexualidade e violência.

    • Isso mostra como o filtro moral suprimia ou marginalizava obras inovadoras e adultas.

  4. Cinema popular x cinema autoral

    • Filmes épicos, musicais e históricos (Ben-Hur, O Grande Caruso) eram celebrados.

    • Obras “menores” ou ligadas a temas sociais/sexuais eram “condenadas” — como A Rua das Mulheres Perdidas (provavelmente melodrama ou policial com conotação sexual).

  5. Instrumento de poder

    • Esse tipo de lista servia para “educar” o público, mas também funcionava como censura indireta.

    • Mesmo sem proibir oficialmente, um jornal classificar como “condenado” podia afastar espectadores e exibir o alinhamento conservador da imprensa.


👉 Em resumo: esse recorte mostra a mentalidade moralista do Brasil pré-ditadura militar, em que a Igreja Católica e setores conservadores exerciam forte influência sobre o consumo cultural. A lista revela o embate entre o cinema clássico hollywoodiano (aceito e recomendado) e o cinema moderno/autor europeu (rejeitado ou marginalizado).

Nenhum comentário :