"boceta" = No português do século XIX, o termo significava simplesmente uma "caixinha" ou "estojo".
Fragmento sobre Hamlet (Pandora - Jornal de 1873)
Texto: "...tão. Até o próprio Goetho, espirito luminoso e autorisado, parece obscuro na sua analyse. Hamleto é um presente feito ao mundo litterario à semelhança de uma boceta de Pandora. Aquellas suas harmonias philosophicas são de tal maneira desusadas e inauditas que..."
O texto é um fragmento de uma crítica ou ensaio literário do século XIX, como evidencia a linguagem erudita e as referências culturais ("Goetho" - Goethe, "Hamleto" - Hamlet).
A ortografia é arcaica para o português moderno ("analyse", "litterario", "boceta"), o que situa o texto historicamente antes das reformas ortográficas do século XX.
O autor faz uma crítica profunda e inteligente à obra Hamlet, de Shakespeare. A peça é comparada a uma "boceta de Pandora" (caixa de Pandora).
Essa é uma metáfora poderosa. Assim como a caixa de Pandora na mitologia grega liberou todos os males e esperanças do mundo, Hamlet é vista como uma obra que abre um universo de complexidades psicológicas, dúvidas existenciais e contradições humanas que são, ao mesmo tempo, uma dádiva e um tormento para o mundo literário.
A menção a Goethe, um "espírito luminoso", sendo considerado "obscuro" em sua análise de Hamlet, reforça a ideia da complexidade intransponível da peça. Se até um gênio como Goethe não conseguiu decifrá-la completamente, ela é verdadeiramente um abismo de interpretação.
Conclusão: Este pequeno trecho revela um alto nível de debate intelectual na imprensa da época. Não era apenas um texto noticioso, mas uma peça de crítica cultural, demonstrando como a literatura clássica era discutida e reverenciada no Brasil do século XIX.
Classificado "Boceta Perdida" (1875)
Texto: "Quem tiver achado uma boceta d’ouro, para tabaco, perdida em a noite de 5 do corrente, fará favor entregar na casa n. 16 à rua Direita, e querendo será bem gratificado... Boceta perdida, na edição de 7 de dezembro de 1875"
Análise Crítica:
Contexto e Linguagem:
Este é um anúncio classificado comum para a época, um "avisos e perdidos". A linguagem é formal e cortês ("fará favor", "será bem gratificado").
A palavra "boceta" é o elemento mais crucial para a análise. No português do século XIX, o termo significava simplesmente uma "caixinha" ou "estojo". Neste caso, uma "boceta d'ouro para tabaco" era um objeto de luxo, um porta-tabaco ou rapé, pertencente certamente a um membro abastado da sociedade.
Significado Histórico e Social:
Mudança Semântica: Este anúncio é um exemplo perfeito de como a língua evolui. A palavra "boceta", hoje um termo vulgar e de baixo calão para a genitália feminina, era um termo neutro e comum no passado. Sua presença em um jornal formal demonstra isso claramente. Analisar textos históricos exige cuidado para não projetar significados modernos sobre palavras antigas.
Janela para o Cotidiano: O anúncio é uma pequena janela para a vida no Rio de Janeiro Imperial (a Rua Direita era uma das mais importantes da capital).
Economia e Sociedade: Revela a circulação de objetos de valor (ouro) e a existência de uma rede de confiança e civilidade onde se esperava que a pessoa que encontrasse o objeto o devolvesse em troca de uma gratificação.
Geografia Urbana: A lista de ruas onde o objeto pode ter sido perdido (Commercio, Rozario, Boa Vista) mapeia o centro comercial e social da cidade, mostrando os locais de circulação da elite.
Conclusão: Muito mais do que um simples aviso, este classificado é um documento histórico. Ele nos fala sobre hábitos (uso de rapé), economia (posse de ouro), urbanismo e, o mais fascinante, sobre a evolução da língua portuguesa. É um lembrete poderoso de que o significado das palavras está intrinsecamente ligado ao seu contexto social e histórico.

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