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quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Steven Spielberg 1974 - Revista Manchete

 Um Novo Orson Welles?



O nome talvez vocês não reconheçam — Steven Spielberg —, mas do filme que ele dirigiu, caso você tenha visto, certamente se lembrará: Encurralado (Duel), a insólita batalha entre um automóvel e um caminhão. Aos 25 anos, Spielberg está sendo considerado pelos críticos americanos um novo Orson Welles. Ou, traduzindo, jovem e gênio. Como Hollywood jamais dormiu de touca, Spielberg já foi devidamente contratado para realizar um filme de grande orçamento — Sugarland Express — cercado da maior publicidade. Goldie Hawn — aquela lourinha que mais parece o Piu-Piu das histórias em quadrinhos — será a estrela. Resta a incógnita: Hollywood agüenta um cara jovem e gênio? ● John Updown (de Nova Iorque)




Esta manchete, publicada provavelmente em 1974, é um documento fascinante que captura um momento específico e crucial na história do cinema: a emergência de Steven Spielberg como um talento promissor, antes de ele se tornar o cineasta icônico e consagrado que conhecemos hoje.

1. Contexto Histórico e Profético:
A reportagem é notavelmente profética, ainda que não pudesse prever a magnitude do sucesso futuro de Spielberg. Na época, ele era conhecido principalmente por Duel (1971), um filme para TV (lançado nos cinemas internacionalmente) que demonstrava sua habilidade magistral com a tensão e a narrativa visual. A comparação com Orson Welles – que também revolucionou o cinema com Cidadão Kane aos 25 anos – era um lugar-comum para críticos da época tentarem categorizar um novo talento explosivo. A pergunta final, "Hollywood agüenta um cara jovem e gênio?", soa quase cômica para o leitor moderno, mas encapsula a desconfiança que a velha indústria tinha de prodígios que desafiavam as estruturas estabelecidas.

2. Linguagem e Tom Jornalístico:
A linguagem é típica do jornalismo cultural brasileiro (ou da cobertura internacional traduzida) dos anos 70: coloquial, irreverente e um pouco sensacionalista. Frases como "Hollywood jamais dormiu de touca" e a descrição de Goldie Hawn como "aquela lourinha que mais parece o Piu-Piu" refletem um estilo mais informal e opinativo, comum em revistas de variedades e manchetes. O tom é de admiração, mas também de curiosidade e certo ceticismo sobre a capacidade de Hollywood "aguentar" um gênio.

3. A Sombra de Orson Welles:
A comparação com Welles é o cerne da matéria. Era um elogio ambivalente. Welles era um gênio incontestável, mas sua relação com Hollywood foi conturbada, cheia de interferências e projetos incompletos. Ao chamar Spielberg de "um novo Welles", a reportagem não só celebrava seu talento, mas também lançava a dúvida sobre se ele teria o mesmo destino de conflito com o sistema de estúdios. A história mostrou que Spielberg, diferentemente de Welles, conseguiu dominar o sistema e usá-lo a seu favor, tornando-se um dos diretores mais bem-sucedidos comercial e criticamente de todos os tempos.

4. O Ponto de Virada: Sugarland Express:
A menção a Sugarland Express é crucial. Este foi, de fato, o primeiro filme de Spielberg para os cinemas com um grande estúdio (Universal). Embora não tenha sido um sucesso de bilheteria estrondoso, foi extremamente bem-recebido pela crítica, que elogiou sua maturidade e técnica. Foi o trampolim que provou seu talento e lhe deu a confiança da indústria para dirigir o seguinte, um pequeno projeto chamado Tubarão (1975), que mudaria para sempre a indústria cinematográfica e catapultaria Spielberg para a estratosfera.

5. Análise em Perspectiva:
Ler essa reportagem hoje é um exercício de ironia histórica. O "nome que talvez não reconheçam" se tornou um dos mais famosos da história do cinema. A "incógnita" sobre Hollywood aguentar o gênio foi respondida com um sonoro "sim", e Spielberg não apenas foi "aguentado" como ajudou a redesenhar o conceito de blockbuster e cinema de autor dentro do sistema. A análise captura perfeitamente aquele breve momento em que um talento está prestes a explodir, quando o potencial é reconhecido, mas o resultado final ainda é uma promessa.


Mais do que uma simples notícia, este recorte de jornal é um registro histórico valioso. Ele congela no tempo a percepção sobre um artista em sua fase de ascensão, permitindo-nos observar com clareza o abismo entre a promessa e a consagração absoluta. A análise, embora entusiasmada, acerta em cheio ao identificar a genialidade precoce de Spielberg, mesmo subestimando, como era impossível não fazer, a escala monumental do impacto que ele teria.

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