Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), obra-prima de Machado de Assis que revolucionou a literatura brasileira
Trecho (O Defunto Autor):
"Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas."
(Dedicatória inicial)
Esta abertura irreverente, onde um morto dedica seu livro a um verme, já estabelece o tom cáustico e anti-romântico da obra. Brás Cubas narra sua vida post mortem, expondo sem pudor suas falhas e a hipocrisia da sociedade.
"Teoria do Humanitismo"
"Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. E não careço de imitar o Cristo, que amava tanto os homens que lhes deixou... piolhos."
(Capítulo CXXXIX — O último capítulo)
No fechamento do livro, Brás Cubas faz um balanço niilista de sua vida, celebrando não ter perpetuado o "legado da miséria" humana. A comparação sacrílega com Cristo resume o humor ácido machadiano.
Ironia Ferina: Crítica disfarçada de humor ("A alma é uma doença" / "A morte é uma negativa sem retórica").
Narrador Não-Confiável: Brás Cubas mente, omite e justifica seus atos mesquinhos.
Experimentalismo: Digressões, diálogos com o leitor e capítulos curtíssimos (como o famoso "O Delírio", de 3 linhas).
"Pai Contra Mãe"
"O menino morreu. Não chegou a conhecer este mundo, onde seria talvez um ridículo, como o pai, ou uma infeliz, como a mãe."
(Capítulo sobre o filho que não sobreviveu)
Impacto:
Machado condensa em poucas linhas toda a crueldade do destino e a futilidade da existência, temas centrais do livro.
Foi o primeiro romance realista brasileiro, publicado no mesmo ano que "O Primo Basílio" de Eça.
O personagem Quincas Borba (que aparece aqui) ganharia depois seu próprio romance.
A frase "Não consegui ser ministro, não consegui ser casado, não consegui ser poeta" sintetiza o fracasso como projeto existencial.

Nenhum comentário :
Postar um comentário