Este é um verdadeiro "dream team" do horror autoral, uma viagem alucinógena pelo trabalho de alguns dos maiores visionários do cinema fantástico. Temos aqui os pilares do terror italiano (Bava, Argento, Fulci, Soavi) ao lado de uma das obras mais pessoais e subversivas de um mestre americano (Romero). Cada filme nesta caixa é uma declaração de estilo, uma obra que prioriza a atmosfera, o surrealismo e a visão do diretor acima de tudo.
Vamos à análise crítica deste banquete macabro.
DISCO 1: Mario Bava, o Poeta do Macabro
Este disco é uma ode ao pai do horror gótico italiano, um pintor que usava a câmera em vez de pincéis. As duas obras escolhidas representam facetas distintas, mas complementares, de sua genialidade: a fábula gótica perfeita e o pesadelo surrealista pessoal.
O CICLO DO PAVOR (Operazione Paura, 1966)
Muitas vezes citado como o ápice da carreira de Bava e uma das obras mais influentes do horror gótico. Este não é apenas um filme de fantasmas; é uma pintura em movimento, um pesadelo febril onde a lógica dá lugar a uma atmosfera de pavor inescapável.
Análise Crítica: O Ciclo do Pavor é a definição de "terror atmosférico". Bava transforma o vilarejo da trama em um purgatório visual, usando cores primárias saturadas (vermelhos, azuis, verdes) e uma névoa onipresente para criar um mundo que parece existir fora do tempo. A imagem da menina fantasma com sua bola branca é uma das mais icônicas e arrepiantes da história do cinema, uma precursora de inúmeros espectros infantis que viriam depois. A genialidade de Bava está em sua capacidade de criar medo através da composição visual e do som, como na lendária cena da escada em espiral, que cria uma sensação de vertigem e repetição infernal. É uma obra de beleza assustadora que prova que a estética e o medo podem andar de mãos dadas, influenciando de Fellini a Martin Scorsese e Tim Burton.
LISA E O DIABO (Lisa e il Diavolo, 1973)
Se O Ciclo do Pavor é a obra-prima gótica de Bava, Lisa e o Diabo é seu poema surrealista, seu filme mais pessoal, enigmático e artisticamente livre. É menos uma narrativa de terror e mais um mergulho em um limbo povoado por manequins, memórias e um diabo charmoso com um pirulito.
Análise Crítica: Este filme é um quebra-cabeça onírico. A trama, sobre uma turista que se perde e acaba em uma mansão onde o tempo e a identidade são fluidos, é apenas uma desculpa para Bava explorar seus temas favoritos: necrofilia, desejo, amor perdido e a natureza cíclica do destino. Telly Savalas entrega uma performance inesquecível como o mordomo Leandro, uma figura que é ao mesmo tempo o Diabo, um contador de histórias e o mestre de marionetes deste purgatório. Visualmente, é um dos filmes mais bonitos já feitos, com cada cena parecendo uma pintura renascentista decadente. Lisa e o Diabo é uma obra que exige ser sentida em vez de compreendida, uma experiência hipnótica e melancólica que recompensa o espectador que se entrega ao seu mistério.
DISCO 2: Os Autores e Suas Mitologias
Este disco coloca lado a lado dois autores com visões de mundo radicalmente diferentes: a mitologia arcana e operística de Argento e a desconstrução realista e melancólica de Romero.
A MANSÃO DO INFERNO (Inferno, 1980)
A sequência do marco Suspiria, Inferno é frequentemente considerado o filme mais bizarro e surreal de Dario Argento. Ele abandona quase que completamente a lógica narrativa em favor de uma série de vinhetas de pesadelo, conectadas pela mitologia das "Três Mães".
Análise Crítica: Inferno é puro cinema sensorial. A trama sobre a busca pela segunda mãe (Mater Tenebrarum, a Mãe das Trevas) é um fio condutor tênue para algumas das sequências mais visualmente deslumbrantes e aterrorizantes da carreira de Argento. A cena da inundação do salão de baile submerso é um momento de beleza e pavor de tirar o fôlego, uma das imagens mais icônicas do horror italiano. O filme opera na lógica de um sonho, onde personagens entram e saem, e a arquitetura dos prédios parece viva e malévola. A trilha sonora de Keith Emerson e a paleta de cores rica (embora diferente da de Suspiria) criam uma atmosfera de conto de fadas arcano e violento. É uma obra que pode frustrar quem busca uma história linear, mas que recompensa imensamente quem se deixa levar por sua torrente de imagens poderosas.
MARTIN (Idem, 1976)
O filme mais pessoal e, segundo o próprio diretor, o seu favorito. Martin é a desconstrução completa e brilhante do mito do vampiro, feita por George A. Romero. É uma obra-prima do terror psicológico, um estudo de personagem triste e um retrato desolador da decadência urbana na América.
Análise Crítica: Romero nos pergunta: Martin é realmente um vampiro de 84 anos ou apenas um jovem profundamente perturbado e solitário? O filme nunca dá uma resposta definitiva, e essa ambiguidade é sua maior força. Filmado com um estilo quase documental nas ruas enferrujadas de Braddock, Pensilvânia, Martin troca os castelos góticos por casas em ruínas e a aristocracia dos vampiros pela alienação da classe trabalhadora. As cenas de ataque são desajeitadas, patéticas e brutalmente realistas, desprovidas de qualquer glamour. John Amplas entrega uma performance assombrosamente vulnerável como o protagonista. Martin é um filme profundamente melancólico sobre crença, solidão e como os "monstros" são muitas vezes criados pelo mundo ao seu redor. Uma obra-prima do horror independente americano.
DISCO 3: O Esplendor do Apocalipse Italiano
O disco final é uma celebração do horror italiano pós-Bava e Argento, mostrando dois diretores que levaram o gênero a novos patamares de estilo e visceralidade.
PELO AMOR E PELA MORTE (Dellamorte Dellamore, 1993)
Dirigido por Michele Soavi, o talentoso pupilo de Argento, este filme é uma obra única, que desafia qualquer categorização. É uma mistura brilhante de horror de zumbi, comédia de humor negro, romance gótico e drama existencial, baseado nos quadrinhos de Dylan Dog.
Análise Crítica: Dellamorte Dellamore (conhecido em inglês como Cemetery Man) é um filme incrivelmente estiloso e inteligente. Rupert Everett nasceu para o papel de Francesco Dellamorte, o coveiro filósofo que precisa matar os mortos uma segunda vez, pois eles insistem em voltar à vida. O que começa como uma premissa de comédia de horror logo se aprofunda em questões sobre o significado do amor, da vida e da morte. A direção de Soavi é deslumbrante, cheia de composições visuais poéticas e uma atmosfera que é ao mesmo tempo bela e grotesca. O filme é engraçado, sexy, triste e, em seu terço final, mergulha em um surrealismo existencial que questiona a própria natureza da realidade. Um clássico cult que é tão profundo quanto divertido.
TERROR NAS TREVAS (…E tu vivrai nel terrore! L’aldilà, 1981)
Se Bava era o poeta e Argento o operista, Lucio Fulci era o pintor do inferno, o mestre do gore visceral e do pesadelo apocalíptico. Terror nas Trevas (ou The Beyond) é amplamente considerado sua obra-prima, um filme que abandona a lógica em favor de um ataque total aos sentidos.
Análise Crítica: Não tente entender a trama de Terror nas Trevas. A história de um hotel na Louisiana construído sobre um dos sete portões do inferno é apenas o pretexto para Fulci criar uma série de sequências de horror inesquecíveis e graficamente extremas. Este é o "cinema da crueldade" em sua forma mais pura. Temos aranhas carnívoras, chuvas de ácido, cães-guia assassinos e, claro, o famoso "eye gouging" (ferimento no olho), a marca registrada do diretor. O que torna o filme uma obra de arte do surrealismo, no entanto, é sua atmosfera de desgraça iminente e seu final absolutamente aniquilador. A imagem final, com os protagonistas presos em uma paisagem infernal pintada por um artista amaldiçoado, é uma das conclusões mais pessimistas e aterrorizantes da história do cinema. Uma obra-prima do horror puro e irracional.

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