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quarta-feira, março 11, 2026

Um Romance Muito Perigoso

 

A vez do marido



Wilson Cunha
10/10/85 - Jornal do Brasil

O casamento continua sendo um assunto perigoso para o cinema americano. Doméstico ou extraconjugal, ele sempre acaba em crises, tiros ou lágrimas. O tema parece inesgotável — e rende comédias (A Primeira Noite de um Homem, Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos) ou tragédias (Kramer vs. Kramer, Cenas de um Casamento). Desta vez, é a vez do marido.

Jeff Goldblum é quem encarna o homem envolvido em situações rigorosamente domésticas em Um Romance Muito Perigoso, que estreia hoje em vários cinemas. Ele é Ed Okin, funcionário de uma companhia de seguros, casado com Diana (Michelle Pfeiffer).

Ed vive entediado com o trabalho e o casamento. Dorme mal, chega atrasado ao serviço e já não demonstra qualquer interesse pela mulher. À noite, vagueia sem rumo pela cidade, tentando vencer a insônia.

É durante uma dessas noites que ele encontra a bela Diana (Pfeiffer), uma mulher envolvida com contrabandistas de joias e perseguida por criminosos iranianos. Ed a salva de ser assassinada num estacionamento e acaba mergulhando numa aventura improvável, que o transforma de um homem apático em herói acidental.

O filme, dirigido por John Landis (de Um Lobisomem Americano em Londres e Os Irmãos Cara-de-Pau), mistura comédia, suspense e ação, com ritmo ágil e humor negro. Landis mantém o mesmo tom de paródia do gênero policial e dá ao personagem de Goldblum uma dimensão cômica e humana, bem distante dos machões hollywoodianos habituais.

A química entre Goldblum e Pfeiffer é um dos pontos fortes do filme, que combina perseguições pelas ruas de Los Angeles, tiroteios, carros capotando e boas doses de sarcasmo.

É curioso notar como o diretor Landis, mais conhecido por sua colaboração com John Belushi e Dan Aykroyd, encontra em Um Romance Muito Perigoso uma forma de amadurecer seu humor — menos escrachado, mais sofisticado.

O roteiro de Ron Koslow evita as fórmulas convencionais de Hollywood, brincando com os clichês do gênero. Há ecos de Depois de Horas, de Scorsese, mas a abordagem é mais leve e menos neurótica.

A trilha sonora, assinada por Ira Newborn, acentua o clima urbano e noturno, enquanto a fotografia de Robert Paynter reforça a ironia e o contraste entre o tédio cotidiano e o absurdo da aventura.

Jeff Goldblum, do tédio ao lar à boa aventura na rua, prova mais uma vez ser um ator capaz de unir humor e estranheza em doses perfeitas.

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