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domingo, março 08, 2026

DIMITRI TIOMKIN

 


DIMITRI TIOMKIN — O ROMANTISMO, O HUMOR E A ARTE DE UM MESTRE DA MÚSICA DO CINEMA

(Publicada em 1979  no Jornal do Brasil))


Dimitri Tiomkin foi o responsável pela maior gargalhada já registrada numa cerimônia de entrega do Oscar.
Ao receber sua estatueta de Um Fio de Esperança (The High and the Mighty), ele subiu ao palco e disse, em seu inglês ucraniano um tanto confuso, que dedicava o prêmio “aos meus colegas que habitualmente não ouvimos ver — os cliclistas que passam nos velocípedes”.

Agradeceu a Beethoven, Brahms, Wagner, Strauss, Rimsky-Korsakov, Bach, Verdi, Tchaikovsky... E, antes que pudesse prosseguir, a orquestra começou a tocar para apressar sua saída do palco.

Mas Tiomkin insistiu em agradecer a todos os mestres, e a orquestra foi obrigada a acompanhá-lo com o mesmo tema, tocado mais forte, até que ele terminasse de citar os clássicos.


Da Ucrânia a Hollywood

Nascido na Ucrânia, em 10 de maio de 1899, filho de um médico e de uma professora de música, Dimitri Tiomkin cresceu cercado de educação artística e sólida formação musical. Foi aluno de Alexander Siloti — discípulo de Liszt — e amigo de Rachmaninoff.

Estudou no Conservatório de São Petersburgo, onde se destacou como pianista e compositor. Com o advento da Revolução Russa, emigrou para Berlim, onde prosseguiu os estudos e se tornou acompanhante de ballet e de cantores.

Em Berlim, trabalhou com a bailarina Albertina Rasch, que seria mais tarde sua esposa e parceira profissional.


A chegada aos Estados Unidos

Em 1929, Tiomkin seguiu para Nova York, onde passou por tempos difíceis. Tocou em cinemas, acompanhando filmes mudos ao piano. Em 1931, foi para Los Angeles, atraído pelas possibilidades do cinema sonoro.

Começou compondo para pequenas produções e, logo, para os grandes estúdios. Seu primeiro sucesso foi a trilha de Resurrection, baseado no romance de Tolstói.

Mas o reconhecimento viria anos depois, com Horizonte Perdido (Lost Horizon, 1937), de Frank Capra.


A parceria com Frank Capra

Capra descobriu em Tiomkin um aliado perfeito para sua visão de cinema humanista e emocional. Trabalharam juntos em vários filmes, incluindo A Mulher Faz o Homem (Mr. Smith Goes to Washington, 1939) e A Felicidade Não Se Compra (It’s a Wonderful Life, 1946).

As músicas de Tiomkin acentuavam o tom épico e sentimental de Capra, oferecendo ao público uma emoção direta, sem ironia. Sua orquestração grandiosa, de influência russa, contrastava com o otimismo americano das narrativas de Capra — e o resultado era um equilíbrio raro entre emoção e técnica.


O estilo e a força

Tiomkin gostava de dizer que “o cinema é como uma sinfonia interrompida por imagens”. Sua música, de fato, tinha o poder de preencher os espaços vazios do drama.

Foi o primeiro a tratar o tema musical como personagem — não apenas como acompanhamento. Em Matar ou Morrer (High Noon, 1952), a canção Do Not Forsake Me, Oh My Darlin’, interpretada por Tex Ritter, não era apenas uma melodia, mas a própria alma do filme.

A música começa antes dos créditos e se repete como uma prece, crescendo até o duelo final.

A partitura valeu-lhe o Oscar de Melhor Trilha Sonora e se tornou um marco na história do western.


O mestre do western

Tiomkin redefiniu o som do faroeste americano. Em Duas Almas em Suplício (Duel in the Sun, 1946), Rio Vermelho (Red River, 1948), O Velho e o Mar (The Old Man and the Sea, 1958), e Os Brutos Também Amam (Shane, 1953), suas composições combinavam romantismo, majestade e um senso de solidão quase metafísico.

Ele dizia: “A música do western é a solidão da humanidade.”

Essa concepção lírica e grandiosa influenciou profundamente Elmer Bernstein, Jerry Goldsmith e, décadas depois, John Williams.


O humor e o temperamento

Apesar do temperamento explosivo, Tiomkin era conhecido pelo bom humor e pela teatralidade. Nos bastidores, alternava acessos de fúria e momentos de pura comédia.

Certa vez, durante a gravação de Assim Caminha a Humanidade (Giant, 1956), David O. Selznick lhe disse:
— “Dimitri, você põe emoção demais na música.”
E Tiomkin respondeu:
— “Ora, Selznick, mas é só o que sei fazer!”

Essa mistura de intensidade e ironia o tornava uma figura única em Hollywood.


Os últimos anos

Nos anos 1960, já afastado de Hollywood, Tiomkin regressou à Europa, estabelecendo-se em Londres. Continuou ativo em concertos e gravações, mas com menor intensidade.

Em 1970, lançou sua autobiografia, Please Don’t Hate Me, repleta de humor e memórias do cinema.

Faleceu em 11 de novembro de 1979, aos 80 anos, em Londres.


O legado

Tiomkin compôs para mais de 150 filmes, conquistando quatro Oscars e diversas indicações.

Foi um dos poucos compositores que souberam unir o rigor clássico europeu ao ritmo narrativo americano. Sua música continua viva — tanto no romantismo de Capra quanto no heroísmo de Matar ou Morrer.

Como disse um crítico da época:

“Tiomkin não escrevia apenas para o cinema — ele escrevia o próprio cinema.”


📰 Fonte: Matéria de jornal ilustrada com foto de Dimitri Tiomkin segurando o Oscar (datada de 1979).
Título: Dimitri Tiomkin — O romantismo, o humor e a arte de um mestre da música do cinema.

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