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terça-feira, março 03, 2026

O Olhar sem mistério sobre Hitch




Biografia do mestre do suspense é lançada, mas não traz nenhuma revelação

ANGELA REGINA CUNHA 21/9/92  - JORNAL DO BRASIL 

DOZE anos depois de morto, Alfred Hitchcock continua dando sustos com seus filmes. Quem tem se deliciado assistindo à retrospectiva da fase inglesa do diretor aos sábados, na TVE, agora pode conhecer um pouco a história dessas obras lendo Alfred Hitchcock e seus filmes, do alemão Bodo Fründt, recém-lançado pela Ediouro. Primeira de uma série de biografias de grandes nomes do cinema — a próxima a merecer tal atenção será Meryl Streep —, a obra de Fründt não é uma tese de mestrado sobre o mestre do suspense, talvez a mais completa diretriz da história do cinema. Ao contrário, o livro não pretende — e nem conseguiria — fazer nenhuma revelação bombástica sobre a vida e a obra do diretor inglês morto em 3 de maio de 1980. Mas aguça a curiosidade do menos entusiasta dos cinéfilos.

Esse beabá de Hitchcock, ilustrado por mais de 100 fotos de filmes e álbum de família, com revisão dos títulos feita por Susana Schild, crítico de cinema do JORNAL DO BRASIL, e fichas técnicas de todos os filmes, inclusive os para TV, procura explicar o sucesso de Hitchcock — se é que isso ainda é necessário. Em meio ao resumo dos filmes, o autor recorda algumas informações preciosas — como a de que o primeiro filme de Hitchcock com o superprodutor americano David O. Selznick seria sobre o naufrágio do Titanic. Em boa hora Selznick comprou os direitos de Rebecca, o braço do Diabo, de Thurber, que acabou se tornando o filme de estréia de Hitchcock em Hollywood. Aliás, se dependesse de Selznick, Rebecca, a mulher inesquecível seria um melodrama de amor. Mas o diretor inglês, que naquele ano, 1939, se mudara com a família para os Estados Unidos, habilmente envolveu o produtor e fez de Rebecca um autêntico Hitchcock.

O próprio Fründt admite ser arbitrária a divisão em capítulos da obra de Hitchcock — "um conjunto que cresceu como um todo". Mas ele faz essa divisão colocando em um bloco que vai de 1922 a 1929, os mudos Number thirteen (não concluído) e O ilhéu. Em outro capítulo, intitulado "thriller com som, cotidiano e aventura", reúne de Chantagem e confissão (1929) a Estalagem maldita (1938). "Preto e branco em Hollywood — culpa e amor" é a sequência de filmes que vai de Rebecca (1939) a Agonia de amor (1947) e "o mestre da corda bamba da cor e da dança", fala de filmes inesquecíveis que vão de Festin diabólico (1948) a Intriga internacional (1957). O capítulo seguinte começa com o que Fründt considera "marco decisivo na evolução de Hitchcock", Psicose (1960), e vai até Trama macabra (1975), seu último filme.

Fründt atribui à "curiosa engrenagem de sua vida" — estudou na Inglaterra, filmou na Alemanha e amadureceu nos Estados Unidos —, o engenho de seus filmes e relembra seus temas recorrentes como o inocente acusado, seu humor grotesco, suas louras inesquecíveis e sua paixão pela boa mesa.

Ao dissecar filme por filme de Hitchcock e descrever seu método de trabalho, Fründt consegue não deslizar para a tietagem. Mas é evidente sua admiração pelo diretor: "Como um artesão ou um engenheiro, Hitchcock não colocava qualquer elemento casual ou inútil numa obra. Ele parecia ter tudo planejado na cabeça antes de iniciar um trabalho". E escreve Fründt e cita o próprio Hitchcock para quem "o diálogo não é o mais importante em meus filmes mas sim a observação sobre quem fala".

Sem ser nem de longe genial como o diretor que descreve, Alfred Hitchcock e seus filmes consegue aumentar a admiração por Hitch. Dá vontade de sair correndo para o vídeo mais próximo e alugar todos os filmes dele. Pena que Fründt conte o final dos filmes — pecado que só o mais antipático dos críticos seria capaz de cometer.

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