JORNAL DO BRASIL
O CRIMINOSO É O MORDOMO
O melhor modo de ver e compreender O Fã, Obsessão Cega, de Edward Bianchi, é começar pelo fim. O filme se revela logo de saída, e quando a gente percebe que sabe o desfecho de uma determinada história, a sensação é outra. Em cinema, e muito particularmente em cinema norte-americano, acostumamo-nos a esperar a surpresa final como um filme de suspense. A história é sempre contada a partir de uma informação fundamental que não se dá ao público. A surpresa é o telão se abrir e o assassino aparecer no último plano.
Já virou uma espécie de código: não há sentido em assistir a uma história de mistério se não houver um “truque final”. A regra é clara, e o melhor exemplo vem de Agatha Christie. Assim, quem sabe o fim de O Expresso do Oriente jamais o leria de novo. Sabe-se que o criminoso é o mordomo, ou seja, que há uma convenção de que o enredo policial se apoia no elemento surpresa — e esta, por sua vez, reside no desfecho.
Em aventuras policiais como esta, onde uma atriz é ameaçada de morte por um fã apaixonado, sem saber ao certo o que vai acontecer com o bandido e o que vai acontecer com a mocinha — mocinha em termos de idade mas ainda assim assim chamada, mesmo em Hollywood —, ninguém da plateia tem motivos de tédio. Ninguém vai trair o final, porque o prazer está todo concentrado na espera da surpresa, na expectativa do desfecho. O essencial está na surpresa da revelação final.
Por isso mesmo, com certa frequência, nos filmes onde o mistério é a trama, ele se revela não no último plano, mas no penúltimo. É o modo de dar tempo ao público para se emocionar, festejar ou se horrorizar com o que descobriu. A verdadeira surpresa final das narrativas policiais é, portanto, a de quem matou. Em O Fã, Edward Bianchi inverte essa regra: a surpresa final nem vem no penúltimo plano — ela está logo no primeiro. O espectador já sabe, desde o início, que o criminoso é o mordomo — ou, neste caso, o fã.
Mas com relação a O Fã, Obsessão Cega, mesmo conhecendo seu final, não é possível se deixar como desmanchar o prazer de assistir ao que se passa na tela. Paradoxal? Talvez. Com o filme, essa inversão parece ser o modo de investigar os avessos da convenção do suspense — o jogo entre o mistério e os elementos que preparam a surpresa final. É possível, inclusive, que esta inversão possa dar algum interesse ao que se passa na tela: o confronto final entre a atriz Sally Ross e seu fã, Douglas Breen, torna-se desinteressante se passa a um tanto mecânico e previsível. Bianchi, no entanto, parece inventivo e desordenado o suficiente para montar um outro começo.
Muitas histórias, nenhuma história
Uma narrativa pouco inventiva e um tanto desordenada. As diversas situações são independentes umas das outras, e a soma delas não forma uma linha coerente. Os personagens se passam sem transição de um gênero para outro. A mulher que é estrela de teatro — a atriz famosa, a diva — aparece como uma figura distante, em nada lembrando uma mulher real. Não tem caráter nem vida interior. Nenhum dos sentimentos parece verdadeiro. A relação entre ela e o fã é mal delineada — ele é apenas um maníaco que escreve cartas.
O espectador se sente um pouco deslocado diante de uma história que se desenrola sem motivação dramática. A ação se dá, mas sem força interna, como se tudo fosse apenas demonstração de uma mecânica de suspense.
Sally, a atriz (Lauren Bacall), está constantemente à beira do exagero e do tédio. Há uma sensação de que o filme não se decide entre o drama psicológico e o suspense policial.
O Fã é uma colagem de histórias que não se cruzam. Há Sally, a atriz solitária e egocêntrica; há Douglas, o fã obcecado e misógino; há um ex-marido que é ao mesmo tempo confidente e sombra; há uma secretária que serve de contraponto ao desespero da patroa.
Essas tramas correm em paralelo, sem força para se unirem num todo. O resultado é uma narrativa que não se completa, mas que deixa ver o que há de mais frágil no cinema americano dos últimos anos — uma mistura de realismo e artificialidade.
A montagem, de Alan Heim, acentua essa sensação de fragmentação. E a direção de Edward Bianchi parece indecisa: oscila entre o thriller e o melodrama.
Sally é o centro da ação, mas a câmera não a acompanha com interesse. Quando ela enfrenta o perseguidor, o filme parece desabar.
O público sente a ausência de uma tensão crescente. Há apenas episódios isolados — a carta, o camarim, o assassinato, a perseguição — que não se ligam entre si.
O filme termina como começou, sem revelação nova. O criminoso é o fã, mas a atriz continua sendo uma figura fria.
No final, Sally se confronta com Douglas, mas a cena é previsível. Ele não tem a cara suja, barbada, desaliñada — é um louco de outro tipo, evidentemente. Talvez por isso o confronto final seja menos tenso.
O cinema norte-americano, hoje, quer surpreender o espectador com vídeos bem-pensados e de bons modos. Mas o que se vê é o mesmo: a velha forma sem substância.
O Fã é um filme de bom acabamento e de nenhuma emoção. A surpresa não está no desfecho, mas na constatação de que o cinema americano, hoje, parece incapaz de lidar com o real.
Ficha técnica:
🗞 Fonte: Caderno B, sábado, 6 de fevereiro de 1982.
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