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sexta-feira, março 06, 2026

Os Meninos do Brasil

Critica publicada  no Jornal do Brasil (1979)



APESAR da escolha do Brasil como uma das sementeiras de líderes para o projeto de um Quarto Reich nazista e do título pouco lisonjeiro à nossa imagem, fomos ver com bom ânimo a versão do livro de Ira Levin, The Boys from Brazil. Em primeiro lugar, mesmo para quem não leu Os Meninos do Brasil (o caso desse crítico), o nome de Levin está bem situado na memória pela imaginação e profissionalismo narrativo de A Semente do Diabo, de cujas páginas Roman Polanski extraiu o singular O Bebê de Rosemary, 1968. Depois, ninguém espera um mau trabalho com a assinatura de Franklin J. Schaffner (diretor de Patton e do excelente filme que deu origem a decepcionante série O Planeta dos Macacos), realizado com forte apoio de produção e bom elenco, tendo à frente Gregory Peck e Laurence Olivier. No entanto, provavelmente por força da diminuição da autoridade do diretor — que ocorre com frequência em produções muito caras e baseadas em best seller — o filme fica muito aquém da expectativa. Há algumas seqüências de muito boa qualidade: mas, no conjunto, apenas um espetáculo intermitentemente interessante.

Sobretudo em favor de Ira Levin, manda a justiça que se diga liminarmente: gostando ou não, ninguém sairá da sala depois da apresentação de seu anjo exterminador. Este é, nada mais, nada menos que Josef Mengele — doutor de um dos mais terríveis campos de extermínio do terceiro Reich, Auschwitz, que, após o holocausto hitlerista, desapareceu do mapa, tornando-se um dos principais desafios aos caçadores de nazistas. Como sabe quem leu e ou viu a história da gênese do Anti-Cristo no lar de Rosemary, Levin é um demonólogo hábil. E a figura de Mengele não pedia grande esforço para criação (no caso, recriação) de personagem diabólico. Em Auschwitz, este se calculou em experimentos científicos com seres humanos, levando a extremo o sacrilégio contra a espécie.

O roteiro, como costuma acontecer em adaptações de best sellers, passou por várias mãos. Com o aval dos letreiros oficiais, vamos atribuir a responsabilidade de sua elaboração final a Heywood Gould — sem poder ocultar a suspeita de estarmos ante um nome apócrifo ou (quem sabe?) um bode expiatório. Não é um roteiro à altura de um cineasta como Schaffner. Este, com certeza, aceitou o projeto com plena consciência de que os produtores não correriam riscos de bilheteria. Franco empreendimento comercial. The Boys from Brazil teria como estrela o escritor Ira Levin: o maniqueísmo da história e seus excessos de imaginação seriam irredutíveis. A julgar por informes dos que conhecem o original, a adaptação tomou poucas liberdades com a construção da história, mas, incompreensivelmente, eliminou quase todos os toques de humor.

Em algum lugar do Paraguai, falando a seguidores de uma organização nazista, Josef Mengele anuncia como etapa decisiva de um plano para implantação do Quarto Reich o assassínio, nos próximos dois anos e meio, de 84 pessoas. Estranhamente, essas vítimas, residentes na Europa e Estados Unidos, não são personalidades políticas, nem possuem a menor influência nos rumos das sociedades em que vivem: são funcionários públicos sem posição invejável, e todos têm 60 ou 60 e pouco anos de idade. O plano entra em execução. Apesar de suas preocupações, os participantes da Organização dos Jovens Defensores dos Judeus, que têm informações sobre o plano, nada podem fazer. Não há motivo conhecido para os crimes, nem a menor vinculação entre os homens marcados, que, um a um, vão encontrando morte inexplicável.

Um elemento da organização pró-judeus põe Ezra Liebermann a par do novo esquema de Mengele. Liebermann (personagem calcada em Wiesenthal, célebre nazy hunter, responsável pela captura de Eichmann) vive em Viena, afastado da ação punitiva que o tornou famoso. A princípio relutante, investiga alguns dos casos de viúvez recém-promovidos por Mengele. Sua militância antinazista ganha novo impulso ao fazer uma assombrosa descoberta: alguns jovens, filhos adotivos de famílias sem nenhuma afinidade, são absolutamente iguais. Fisicamente mais semelhantes que a maioria dos casos de irmãos gêmeos — verdadeiras cópias. De olhos azuis, cabelos escuros, eles foram encaminhados por uma agência de adoções onde, por outra coincidência, trabalhava Frieda Maloney, nazista, depois presa por crimes de guerra. Enfim, Liebermann segue pistas que o levarão à América do Sul, onde Mengele trabalha em experiência genéticas. Os produtos de tais experimentos deverão ser novos Hitler, novos líderes que promoverão a retomada dos preceitos do Mein Kampf em 1980, em 1990...

Poucas vezes The Boys from Brazil se situa a altura da curiosidade despertada pelo início e pela sequência em que se insinua a citada experiência genética. O roteiro, com suas idas e vindas em rotas da Europa e da América, provoca uma dispersão de ação que aproxima o filme de intrigas internacionais desinteressantes. Nessa dispersão a linha central da trama perde força, e o ritmo, até certo ponto, se dilui. O confronto pessoal entre Liebermann e Mengele proporciona uma sequência de excelente direção. Em seguida, chegamos a um final morno, moralista, que deixa no ar os destinos da nova solução nazista. Típico final que parece insinuar uma continuação, um Boys from Brazil-Parte 2. Mas que não satisfaz.

Gregory Peck (Mengele), que não pode ser culpado pelos exageros do papel, tem a melhor atuação possível dentro das contingências, e sua caracterização física é excelente. Laurence Olivier dispensa elogios: ator histórico, sempre desce do pedestal para encontrar novas crianças humanas, valorizando papéis sem maiores problemas, como este Liebermann. James Mason (outro líder nazista) está amarrado a uma linha comum de vilão. Apesar da presença de bons coadjuvantes, Peck e Olivier concentram as atenções no âmbito do elenco.

As filmagens foram realizadas em Portugal, Áustria e Estados Unidos. O Brasil não tem nada a ver com esse meninos. No livro, a trama pró Quarto Reich é claramente articulada em cenário brasileiros. No filme, deu-se preferência ao Paraguai.

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