MEMÓRIA
Refúgio para os heróis
Museu em São Cristóvão guarda história do gibi
Revista Domingo - Jornal do Brasil
Por Carla Andrade
Uma avalanche de sete milhões de exemplares de gibis chega mensalmente às bancas de todo o Brasil e sempre com endereço certo: o público jovem. São as histórias em quadrinhos, que desde seu surgimento em 1895, já passaram por um estágio de "emburrecimento" e hoje se encontram numa fase otimista, com o renascimento de seus super-heróis de outras galáxias. Tanto avanço não foi capaz de derrubar veteranos como Batman ou Flash Gordon, que fora das páginas dos gibis costumam se refugiar no Rio num paraíso para os amantes dos quadrinhos poderem se deliciar com 150 mil raridades do gênero. É o Museu de Histórias em Quadrinhos, localizado em São Cristóvão (Rua Gotemburgo, 58/sobrado - fone: (021) 585-0303), e que faz parte da Editora Ebal, a pioneira do estilo no país. Há 14 anos, o museu vem conservando a feição e a nostalgia dos aficionados.
O nome do acervo do museu foi de Adolfo Aizen, presidente da Ebal e o responsável pela publicação da primeira história em quadrinhos no Brasil, o Suplemento Juvenil, em 1934, "provocando" os concorrentes que a editora existia de 28 países, ele resolveu abrir um espaço onde as pessoas pudessem visitar e consultar todo o acervo que acumulou. "É uma viagem no tempo", diz Aizen. Um tempo que exige cuidados indispensáveis a qualquer preciosidade. Os exemplares mais antigos são protegidos com sacos plásticos, guardados em caixas para não haver deterioração e todo o mês eles revisam, levando uma borrifada com um spray especial antimofo. "Tudo é conversado com muito cuidado", frisa Ana Lúcia Siqueira, coordenadora de educação da editora, ela já foi obrigada por desocupar uma sala funcional e que planejava reunir-se depois as vendas numa feira em Cartum a colocar as obras coubessem mais valiosos numa sala especial e a única sessão fechada dentre as culturas de que os gibis eram tão especiais têm acesso. "Essa chave dorme no meu bolso".
PATRIMÔNIO PESSOAL Toda essa preocupação se justifica. Afinal, no museu podem ser encontrados os primeiros números da Action comics (a primeira versão do Batman), Tico Tico (considerado o mais antigo quadrinho brasileiro), Tarzan, Lone Ranger (Zorro), Flash Gordon, entre outros. "É um patrimônio pessoal do Aizen, por isso cuidamos com tanto zelo", explica Ana. Só para ter uma ideia do valor desses gibis, o primeiro número da Capitão Marvel está avaliado em US$ 15 mil, o da Action Comics em US$ 24 mil e o primeiro número do gibi Tio Patinhas, está mais de quanto valem todos os nossos gibis, mas pra nós, o seu grande valor é o sentimental. Tudo isso foi conseguido com base num pequeno apoio oficial", comenta a coordenadora. Por todo esse chamego com as revistas, são raras as concessões que o museu faz quando algum colecionador se interessa em comprar um exemplar que falta em sua coleção. "Não é comum vender revistas, só fazemos para um pessoa que já nos conheçam bem. Mesmo assim, pensamos muito no caso."
Visitantes não têm faltado ao museu. A procura é tão intensa que Leni Siqueira adotou uma agenda onde os horários são marcados por telefone. "É uma loucura, o telefone não para de tocar. Tem muita gente que marca hoje e tem que esperar dois, três meses para poder vir até aqui". De segunda a sexta, de 8 às 16h, o museu recebe duas escolas que levam turmas de 60 crianças para conhecer o lugar, fora outros interessados, de todas as idades, que por seu fascínio com os quadrinhos esperam o tempo necessário para conseguir um horário. "Nossa agenda está lotada até 1990. Não podemos colocar muitas pessoas dentro do museu para não haver tumulto". Visitantes ilustres, como Cecília Meirelles, Ana Maria Machado, Daniel Azulay e Alex Raymond — o criador do Flash Gordon — já passaram pelo salão do museu. Até Walt Disney tinha interesse pela coleção, mesmo sem jamais ter ido lá.
Hoje muito badalados, os quadrinhos venceram o tempo de difíceis leis que surgiram. Na época, os gibis foram encarados como antiquados, e era comum os fãs do estilo terem que driblar seus pais para se deliciar com as aventuras. "Minha mãe, que era professora, achava que atrapalhava minha educação", relembra o jornalista e fã Ziraldo. "Antes havia uma opressão forte, mas hoje eles são encarados como arte", diz o artista plástico Luiz Stein. Uma história do próprio museu confirma. Um dia desses, um senhor de 70 anos apareceu por lá para ler um exemplar do Flash Gordon que ele comprou aos 10 anos e seu pai, por não simpatizar com o estilo, "rasgou. Foram 60 anos de frustração", relembra Naumim Aizen, diretor editorial da Ebal.
Mas agora muita coisa mudou. As crianças estão tão íntimas com o mundo dos quadrinhos que telefonam para a editora à procura do Batman, Pernalonga e do Super-homem. "Digo sempre que eles estão em ação, resolvendo um caso e não podem atender. Tudo para não desapontá-las", conta Naumim. Histórias mais hilárias acontecem e são guardadas na memória de Leni. "Teve um colecionador de Minas Gerais que, ao vir passar três dias de sua lua-de-mel no Rio, acabou parando aqui enquanto sua mulher estava na praia." Gosto não se discute, se comenta.
CARLA ANDRADE
O ídolo de cada um
Rogéria (atriz) — "Você não acha que eu sou inspirada na Princesa Narda, a namorada do Mandrake?"
Nelson Piquet (empresário) — "Tarzan e Valentina, entre os clássicos, e Garfield, porque é um gato de personalidade independente."
Telmo Zanini (compositor) — "Asterix e Tim-Tim."
Aldir Blanc (compositor) — "Zé do Boné, 'Curto Circuito' e todos os de super-heróis e heroínas."
Jorge Guinle (playboy) — "Dick Tracy."
Sérgio Cabral (jornalista) — "Capitão Marvel e Charlie Brown."
Isabel (jogadora de vôlei) — "Mônica e Zé Carioca."
Ziraldo (jornalista) — "Dick Tracy. 'Ele é uma caricatura, está próximo de um ser humano normal'."
Luiz Jasmin (artista plástico) — "Batman e Spirit."
Oswaldo Lopes Jr. (estudante) — "Batman."
Dulce Quental (cantora) — "Surfista Prateado."
Domingo 24

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