sexta-feira, maio 27, 2016

'Máscara' tem poesia de Poe

Título: 'Máscara' tem poesia de Poe
Data: 11/Jul/95
Autor: Inácio Araujo
Editoria: Ilustrada

"A Máscara Mortal"  é a melhor, mais poética, das adaptações de Edgar Poe feita por Roger Corman. Nos cinemas chamou-se, mais apropriadamente, "A Orgia da Morte".
Esse detalhe não muda as coisas, na história em que Vincent Price é Prospero, príncipe italiano do século 12. Enquanto rola a peste, do lado de fora das muralhas de seu castelo, Prospero entende que, ali, ele e seus convidados estarão a salvo.


De certo modo, esta fábula de horror não poderia ser mais contemporânea. A idéia de que paredões ou enormes portões de ferro nos imunizam do mundo exterior e de suas chagas é tão corrente no território da construção civil quanto a mania de dar aos edifícios nomes que evocam castelos, praças, localidades européias.
O filme tem a vantagem de oferecer um rigor visual raras vezes visto nos filmes de Corman. Ele dispôs, para começar, de várias semanas de filmagem (quando, não raras vezes, fez filmes inteiros em quatro ou cinco dias).
O trabalho na Inglaterra, com fotografia de Nicolas Roeg, também parecem ter sido favoráveis ao resultado geral do trabalho.
O total tem uma ritmação terrível, um sentido de atmosfera rigoroso e, aparentemente, construído com calma.
É uma pena não poder se deter um pouco mais sobre a história -sob pena de estragar o prazer de quem ainda não a conhece. Digamos, para resumir, que tudo de mais terrível que se pode esperar de um ser humano está ali. E que as mais terríveis respostas à ilusão humana de segurança também estão ali, na figura assombrosa da Morte Vermelha.
(IA)

Corman organiza sua temporada no inferno
Data: 14/Set/94
Autor: Inácio Araujo
Editoria: Ilustrada

"Orgia da Morte" é o melhor filme da série de adaptações feitas por Roger Corman sobre textos de Edgar Allan Poe. Em si, isso não significa grande coisa. Aliás, mais vale esquecer dos originais, quando se vê esta série.
O que conta, aqui, é a operação cinematográfica de Corman. Já no "travelling" de abertura, que termina com o encontro entre uma velhinha e a morte vermelha, o clima está dado: é o fantástico em pleno andamento, no sentido de uma arte que desperta os nossos mais caros, dolorosos e ocultos fantasmas.
O que virá a seguir confirma essa opção. Do rosto depravado do príncipe Prospero (Vincent Price), à cor vermelha que domina seus salões, Corman nos convida a uma temporada no inferno.
E cada um escolhe seu inferno. O de Prospero é constituído de um misto de temor e admiração pela morte. Isso o leva a se julgar a salvo da Peste Negra, no interior do castelo. Isso o leva também a fazer da perversão uma espécie de esporte.
Prospero tanto pode transformar seus aldeões em gladiadores (e jogá-los em lutas mortais) como aviltar seus amigos (os que pretendem se safar da peste escondendo-se no castelo).
O importante, no caso, é que cada um dos momentos é levado com uma energia criativa admirável: cena a cena, o filme inventa uma situação nova, de modo a se colocar no limite entre o fantástico e o horror.
Com isso, "Orgia da Morte" tira as defesas do espectador. Ao mesmo tempo, mostra e sugere, expõe os fatos e nos faz tirar deles uma decorrência. Coloca o espectador em dois registros simultâneos, que no entanto se deixam distinguir como num trabalho cirúrgico: o das idéias e o das sensações.
Estamos, aqui, no registro do melhor Corman. Como em "Eu Te Odeio", em que trata de um príncipe Prospero moderno (isto é, um homem que levanta os brancos de uma cidadezinha do Sul contra a integração racial nas escolas), o homem é um ser sujeito à perversão, que constrói o inferno dos outros e o seu próprio.

: Orgia da Morte : EUA, 1964, 86 min. Direção: Roger Corman Elenco: Vincent Price, Hazel Court
Corman une Poe e hamburger
Data: 25/Abr/95
Autor: Inácio Araujo
Editoria: Ilustrada

Roger Corman, tenhamos isso claro, é um comerciante de imagens. Faz cinema para ganhar dinheiro. E tem pavor de perder dinheiro. Ganhou muito com a série dedicada a Edgar Allan Poe, da qual faz parte este "Muralhas do Pavor" .
A inteligência de Corman consiste em ter desenvolvido uma arte do possível. Se desse, fazia o melhor. O melhor, no caso de suas adaptações de Poe, é, de longe, "A Orgia da Morte" (The Masque of the Red Death), de 1965.
Se não desse para tanto, chegava ao necessário para agradar ao público dos drive-ins (onde suas produções eram projetadas originalmente). "Muralhas do Pavor" está nesse caso: Poe com hamburger.
Não significa que seja um mau filme, mas que Poe e os três textos originais ("Morella", "O Gato Preto" e "The Facts in the Case of Mr. Valdemar") foram bem remanejados pelos roteiros de Richard Matheson.
É mais Corman do que Poe. É mais Vincent Price, também (o ator está nos três episódios). Isso não chega a ser um incômodo. É uma constatação permitida pelo filme, e que leva a outra.
A saber: com sua conhecida ganância, com sua falta de escrúpulo (no bom sentido, o de dúvida de consciência, o mesmo que tirou Rubens Ricupero de cena, há alguns meses) em transformar um texto clássico às necessidades de uma platéia popular, Corman toca uma das essências do cinema.
É possível não ver em "Muralhas do Pavor" uma obra-prima de todos os tempos. É necessário ver, no entanto, que ao vulgarizar três contos sublimes -sobretudo "Morella"- Corman encontra essa mistura entre arte e espetáculo de feira que caracteriza boa parte de seus filmes: o que tem de horror ingênuo, "Muralhas" também tem de inocência calculada. Seu encanto vem, em boa parte, desse paradoxo.
(IA) 

Corman dá receita de reciclagem
Data: 09/Set/94
Autor: Inácio Araújo
Editoria: Ilustrada

Na terça-feira, Roger Corman encontrou o cineasta brasileiro Carlos Reichenbach (autor de "Alma Corsária"). A Folha registrou a conversa realizada na Sala de Montagem (firma especializada em montagem e edição de filmes).
Carlos Reichenbach - É um prazer conhecê-lo, sr. Corman.
Roger Corman - Me chame de Roger. É aqui que você vive?
Reichenbach - Em São Paulo?
Corman - Não, nessa casa!
Reichenbach - Não, isso não é meu. Nós só alugamos a moviola. Mas vamos falar de filmes. Como você descobriu o mercado para seus filmes?
Corman - Eu notei que os filmes deveriam se dirigir a um público jovem. As produções dos grandes estúdios se dirigiam a um público que já estava com 30, 40 anos. Com o baixo orçamento de meus filmes eu não poderia competir. Mas, se fizesse filmes para os mais jovens, com seus 15 anos, achava que o mercado responderia. As pessoas gostam de ver pessoas como elas mesmas no cinema.
Reichenbach - A sua maior diferença em relação ao cenário americano foi a opção pelo cinema de gênero. Você criou gêneros que marcam uma determinada época, são quase históricos, como os da Turma da Praia.
Corman - Eu produzi vários desses filmes, eu os acho ótimos, mas não cheguei a dirigi-los. Eram comédias leves, e meu tipo de direção exige temas mais duros.
Reichenbach - E, na geração de diretores que faziam esses filmes da Turma da Praia, havia alguém com um talento especial?
Corman - Não, esse tipo de comédia tem um estilo mais próximo das comédias para a TV do que do cinema.
Reichenbach - Sabe, meu primeiro filme, "Corrida em Busca do Amor" (1972), era uma homenagem a essas produções da American International. Esse tipo de filme era feito em quanto tempo, com quanto negativo?
Corman - Levava três ou quatro semanas, às vezes um pouco mais. A quantidade de filme usado é um outro problema. Nesse tipo de produção eu geralmente utilizava 200, 250 mil metros de negativo. Na América do Sul sei que se gasta muito menos. Talvez porque aqui o negativo seja muito caro. As pessoas devem ser mais cuidadosas. Quanto você usa?
Reichenbach - Em uma produção média, 10.000 a 12 mil metros. Nos filmes que você produzia nessa época quem dava o corte final: você ou o diretor?
Corman - Eu nunca tive problemas com isso. Eu dava o corte final, mas sempre estive muito próximo de quem estava na direção. Na verdade, eu nunca usei a idéia de que eu comandava o filme. Acho que não seria psicologicamente produtivo. Sempre discutíamos tudo, eu e o diretor.
Reichenbach - O que o levou ao escritor Edgar Allan Poe? Corman - Eu gostava de Edgar Allan Poe desde o ginásio. Então, convenci a produtora a me dar um pouquinho mais de dinheiro para realizar "O Solar Maldito" ("House of Usher", de 1959). Eu não planejava dirigir uma série de filmes a partir de Poe, mas como o sucesso do primeiro foi grande eles sempre me pediam outro. Uma hora eu tive que dizer: "Chega. É hora de fazer outra coisa".
Reichenbach - Falando dos atores com quem você trabalhou, como Vincent Price, Boris Karloff e Debra Paget...
Corman - Maravilhosa!
Reichenbach - Você os tinha sob contrato?
Corman - Eram contratos feitos filme a filme.
Reichenbach - Você já disse que "O Massacre de Chicago" (1967) é seu melhor filme.
Corman - Eu gosto do filme. Não sei se é o meu preferido.
Reichenbach - Acho que você gastou mais no filme, há nele um requinte maior de produção.
Corman - Eu fiz o filme para a Fox. Era o menor orçamento deles naquele ano. Mas era o maior orçamento que eu já tivera. A mansão de Al Capone tinha sido a mansão de "A Noviça Rebelde". Eu redecorei e transformei em mansão de Al Capone. O bar do filme tinha sido um bar de Hong Kong de um filme com Steve Mcqueen e virou um bar de Chicago.
Reichenbach - O primeiro plano do filme é impressionante. Parece que você fez como Orson Welles em "A Marca da Maldade", gastou metade do orçamento no primeiro plano.
Corman - É, sim. (risos)
Reichenbach - Um outro filme que nós aqui achamos que é sua obra-prima é "O Homem dos Olhos de Raio-X".
Corman - Eu gosto. Eu só acho que era uma idéia muito boa, e nós não tínhamos dinheiro para os efeitos especiais. Mas várias pessoas pensam como você. Acho que valorizam a idéia e esquecem os efeitos especiais.
Reichenbach - É um filme que transforma a falta de condições em criatividade. O que você acha da nova geração que segue seu modo de produção?
Corman - Há gente de que eu gosto muito, como Wes Craven. John Carpenter também é ótimo.
Reichenbach - O que você acha quando seus filmes são chamados de "trash"?
Corman - Também chamam "pop films", ou independentes, ou de baixo orçamento. Enfim, chamem como quiser. Os filmes existem.
Reichenbach- Vamos encerrar? Você está cansadíssimo.
Corman- Sim. Foi muito bom te encontrar. Espero que quando você for a Los Angeles venha me encontrar.

Corman deve adaptar obra de James Joyce
Data: 02/Set/94
Autor: Sérgio Augusto
Editoria: Ilustrada

Alto, elegante e bonitão, Roger Corman, 68, já esteve no Brasil outras vezes, mas desta feita o motivo da viagem é mais gratificante: a Mostra Banco Nacional de Cinema deste ano o homenageia com uma pequena retrospectiva de sua obra. Bota pequena nisso. Em 40 anos de carreira, ele dirigiu e produziu quase 300 filmes, façanha que o transformou numa espécie de Georges Simenon do cinema.
Mundialmente cultuado desde o início dos anos 60 -sobretudo a partir de uma série de filmes inspirados em histórias de Edgar Allan Poe e estrelados por Vincent Price-, Corman já foi chamado de "Orson Welles do filme Z" e "Vincente Minnelli do horror". Mas o apelido que ele acha mais simpático lhe foi presenteado por um crítico francês: "papa do cinema pop".
Quantidade não é qualidade, e a verdade é que Corman produziu e dirigiu muita porcaria, de vários gêneros, sempre com baixo orçamento e em alta velocidade ("A Pequena Loja dos Horrores", seu recorde, foi rodado em apenas dois dias). De sua usina de filmes B saiu um punhado de revelações para o cinema A, como Francis Ford Coppola, Peter Bogdanovich, Dennis Hopper, Jack Nicholson, Peter Fonda, Irvin Kershner e Richard Rush. Formado em engenharia e literatura (por Oxford), Corman entrou no cinema meio por acaso. Começou por baixo (como garoto de recados na Fox) e se orgulha de ter aprendido a dirigir no tapa.
Folha - Como o sr. reagiu às primeiras manifestações favoráveis da crítica a seus filmes? Achou-as supreendentes e absurdas?
Roger Corman - Fiquei surpreso e, ao mesmo tempo, desvanecido. E é claro que procurei me manter à altura dos elogios e amadurecer. Nesse processo, acabei exagerando um pouco, mexendo além da conta em certos roteiros, na tentativa de torná-los mais refinados.
Folha - Dos cineastas que o sr. lançou na profissão, quais os que mais satisfação lhe deram?
Corman - Prefiro responder a esta pergunta de outra forma, destacando os mais promissores da nova geração, como Rodman Flender, Louis Mornau e Lucho Llosa, que é sobrinho do escritor Mario Vargas Llosa e trabalhou para mim no Peru. Todos eles começaram comigo.
Folha - Dos filmes da série Poe quais são os seus favoritos?
Corman - Talvez "A Orgia da Morte" (Masque of the Red Death) e "O Corvo", este por causa do humor.
Folha - Os cenários que Daniel Haller fez para a série Poe destoavam do nível de produção daqueles filmes. Eram elaborados, tinham uma certa sofisticação. Qual o segredo?
Corman - De fato eles eram elaborados e até mesmo suntuosos. Mas em filmes de produção barata, os cenários e os guarda-roupas são as coisas que menos dinheiro consomem. Dispondo de tempo e de um artista como Danny Haller, essa é a parte menos dispendiosa de uma filme.
Folha - Muito tempo atrás, o sr. manifestou interesse em adaptar ao cinema "Retrato do Artista Quando Jovem", de James Joyce. Por que nunca o fez?
Corman - Por uma porção de motivos ligados, basicamente, a questões de produção. Tenho uma adaptação muito boa, feita por Hugh Leonard, originalmente para o teatro inglês e para a TV. Creio que em breve será possível filmá-la no estúdio que estou montando na Irlanda.
Folha - Que ator o sr. imagina para o papel principal?
Corman - Nenhum em particular. Quando cogitei de filmar o "Retrato" pela primeira vez, pensei em Peter O'Toole.
Folha - Seu último filme como diretor, "Frankenstein - O Monstro das Trevas", foi produzido há quatro anos. Quando e qual será o próximo?
Corman - Talvez, quem saiba, o "Retrato". Só este projeto me demoveria da idéia de parar de dirigir. É preciso ter muita energia para dirigir um filme.
Acho que já passei da idade e pretendo me aposentar de vez. Produzo e distribuo uma média de 20 filmes por ano, e isso me consome muito tempo.

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