sexta-feira, maio 27, 2016

Drácula chega ao centenário exposto à luz (1897 - 1997)

Título original: Drácula chega ao centenário exposto à luz
Data: 11/Ago/97
Autor: Federico Mengozzi
Folha de São Paulo

"Muito sangue, algum suor e nada de lágrimas", reza a política do prazer de Drácula, cavalheiro da triste figura que deixou a Transilvânia para assustar o mundo.
Há cem anos, o irlandês Bram Stoker (1847-1912) publicou "Drácula", uma história que caiu nas graças do público, assinalou a transição do romance gótico para o romance de horror e foi incorporada ao imaginário coletivo.
A partir do livro, o conde Drácula foi assombrar no teatro, no cinema e na televisão, virou personagem de quadrinhos, atração em parques de diversões, fantasia de Carnaval e tudo o que a indústria cultural permite. Até turismo.
Há roteiros que levam ao império das trevas na Transilvânia, Romênia, terra natal de Drácula, e na Inglaterra, para onde se transferiu. Ele aportou em Whitby, ao norte de Londres, depois de matar a tripulação do navio Demetriu.
E há roteiros pelos lugares onde viveu o príncipe Vlad, o Empalador (1431-1476), personagem real no qual Stoker se inspirou para criar Drácula. Ele exerceu um reinado de terror na Transilvânia e Valáquia, na Romênia, onde estão a casa natal, o palácio e o castelo.
Bram Stoker nasceu há 150 anos e tem roteiro próprio. O ponto inicial é o subúrbio de Clontarf, em Dublin, na Irlanda, onde nasceu.
Em Londres, o roteiro Stoker inclui o Lyceum Theatre, hoje um salão de danças, onde trabalhou para o ator Henry Irving, e as casas que habitou, todas em Chelsea.
Turismo e vampirismo -jugulares, tremei!- têm muito mais em comum do que sugere a vã rima.

Título: Criador morreu antes do sucesso da criatura
Data: 11/Ago/97
Autor: Federico Mengozzi

Era um dia gélido e chuvoso quando ele nasceu. De saúde delicada, não se esperava que sobrevivesse. Até os 8 anos, esteve confinado ao leito, vítima de desconhecida doença. A biografia de Drácula poderia começar assim, mas os dados se referem ao escritor Bram Stoker, autor de "Drácula".
Abraham Stoker nasceu em 1847, em Dublin, capital da Irlanda, cidade onde também nasceu Joseph Sheridan Le Fanu. Le Fanu escreveu "Carmila", sobre a jovem de mesmo nome que se envolve com Laura e, por fim, demonstra ser uma vampira. "Carmilla" estaria na base de "Drácula".
Quando entrou no Trinity College, em Dublin, a doença era uma referência remota -mas Stoker não caminhou até os 8 anos. Tornou-se atleta e se interessava mais pelo teatro que pelo serviço público -carreira à qual, como o pai, estava destinado.
Em 1875, publicou, na revista "The Shamrok", a primeira história de horror, "A Cadeia do Destino", com um estranho personagem e uma maldição no ar.
Eram tempos em que o romance gótico, na linha iniciada por "O Castelo de Otranto", de Horace Walpole, herdeiro direto de uma certa tradição medieval, já tinha mais de um século. Histórias sombrias, com personagens soturnos como o monstro de "Frankenstein", de Mary Shelley.
Como admirador e amigo, Stoker se aproximou de Henry Irving, ator e empresário teatral. Trabalhou como seu secretário por 27 anos. Uma amizade, diria, "tão íntima e duradoura como é possível existir entre dois homens".
Por esse tempo, casou-se com Florence Balcombe -ela recusara uma proposta de casamento de Oscar Wilde e ficou com Stoker- e continuou a investigar o vampirismo, assunto ao qual se dedicava desde que começou a escrever.

O personagem Rei da Morte, de seu livro de horror para crianças (!) "Under the Sunset" (Sob o Crepúsculo), de 1881, era um esboço de Drácula. Mas só em 1890, após "The Snake's Pass" (O Passo da Serpente), primeiro romance longo, iniciou os trabalhos de seu livro mais importante -o único que restou de sua obra.
Não faltavam sugestões. Stoker deve ter visitado uma exposição do Museu Britânico sobre a Europa Oriental, na qual se descrevia o verdadeiro Drácula, o príncipe Vlad. E disse que, ao conhecer Richard Burton, tradutor de histórias indianas e de vampiros, impressionou-se com seus caninos.
Bram Stoker empregou sete anos nas pesquisas para o romance -ainda há 78 páginas de notas, esboços, perfis de personagens, capítulos não-publicados e diagramas, mais listas dos livros que usou em seu trabalho. Fez ficção a partir de um personagem real e usando o maior realismo possível.
Antes da publicação de "Drácula", a história chegara ao palco. Ele mesmo escreveu "Dracula, or the Un-Dead" (Drácula, o Vampiro), que estreou dias antes do lançamento do livro, no Lyceum Theatre, de Londres.
O livro saiu em maio de 1897 e, segundo a crítica, marcou a transição do romance gótico para o romance de horror. Seu sucesso foi gradativo, em parte alavancado pela carreira da história no teatro e, mais tarde, no cinema.
Stoker escreveu mais uma dezena de livros e não chegou a ver o sucesso de sua principal obra.
"Drácula", o livro, é uma colagem de cartas, diários, recortes, telegramas e testemunhos fonográficos. Tudo começa quando conde Drácula propõe comprar uma propriedade na Inglaterra. O solicitador Jonathan Harker viaja à Transilvânia e se hospeda no castelo do conde... É só ler o resto.
Stoker morreu em 1912.

Título: Centenário de vampiro será comemorado em todo o mundo
Data: 13/Mar/97
Autor: Raul Moreira

Este é o ano do centenário do conde Drácula. Criado pelo escritor Bram Stoker, o "príncipe das trevas" chega aos 100 anos mais vivo e revigorado do que nunca. Para comemorar seu aniversário, estão programados para este ano, nos EUA e na Europa, dezenas de "festas horripilantes", mostras, operetas teatrais, estudos, debates, filmes e o lançamento de livros sobre a saga do vampiro.
Nos Estados Unidos seu centenário fez crescer a febre do vampirismo, um mercado que movimenta anualmente dezenas de milhões de dólares. Nos últimos meses aumentaram consideravelmente as consultas e adesões a clubes e associações ligados ao vampirismo e o número de livros publicados que tratam do assunto.
Um lançamento que vem despertando curiosidade nos EUA é "Ano Drácula", de Kim Newman, história em que o "príncipe das trevas", depois de eliminar seu caçador Van Helsing, casa com a rainha Vitória, da Inglaterra.
Um dos principais eventos programados nos EUA é o "Centennial Celebration", que acontecerá no hotel Doubletree, no aeroporto de Los Angeles, em agosto, com a participação dos principais "vampiristas" do mundo. Estão programados mostras de cinema, exposições literárias, bailes à fantasia e o show "Drácula, the Musical".
No museu-biblioteca Rosenbach, na Philadelphia, onde se encontram os originais do livro de Stoker, começa no início de abril uma mostra comemorativa do centenário, que se estenderá até novembro. O museu apresenta também em exposição um papiro do século 15 que pertenceu ao conde Vlad Tepes, nobre romeno em que o escritor irlandês se inspirou para criar o personagem.
Em Bruxelas (Bélgica), no museu Real de História e Arte, começa neste mês uma mostra de vários documentos e obras de arte ligadas ao mito de Drácula. Na Romênia, a casa Transylvanian Society of Dracula apresenta no início de maio uma série de simpósios.


Apesar dos eventos europeus, é nos EUA onde a febre de Drácula ganha maior dimensão. Algumas polêmicas ganharam destaque, como a pesquisa sócio-antropológica de Steven Kaplan, já morto, que teria descoberto, com o aval de antropólogos, psicanalistas e historiadores, a existência de 600 vampiros em todo o mundo, grande parte vivendo na América.
Cresce também nos EUA o número de "vampiristas". Além do Centro de Estudos de Vampirismo, fundado em 72, existem o Vampire Information Exchange, no Brooklyn, o Manhattan il Vampire's Vault e o Count Dracula Fan Club, todos na área de Nova York.
No resto dos EUA, estão catalogados ainda Count Dracula Society, em Los Angeles, Temple of Vampire, em Virginia, e Vampire of America Association, em Seattle.
Tais associações têm sites na Internet, museus e bibliotecas e ajudam iniciantes interessados em desenvolverem projetos literários e cinematográficos ligados ao vampirismo.


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