NOS ACOMPANHE TAMBÉM :

terça-feira, novembro 20, 2012

A memória de uma vila chamada Operária

“Memória dos Bairros”
A memória de uma vila chamada Operária

Marcelo Bulgarelli - Publicado originalmente em O Diário do Norte do Paraná - Maringá - 2002.

“O homem aguarda pacientemente o nascimento do filho na sala de espera de uma maternidade. É chegado o momento da grande notícia. Mas o que se ouve é um grande barulho denunciando que a janela do quarto onde estava a esposa havia sido destruída. “Nasce um monstro”. E este é o nome do filme que está em cartaz no Cine Horizonte. Grávidas não devem assisti-lo. Médicos estarão na porta do cinema para atender os mais sensíveis”.
Cine Horizonte ainda em madeira - Fonte: Maringá Histórica

Essa era a criativa chamada radiofônica de um filme exibido no Cine Horizonte no final da década de 70, o mesmo cinema que colocou um avião de verdade na entrada para promover uma película sobre um acidente aéreo nos Andes. A publicidade daquele cinema – muitas vezes feita de forma artesanal- marcou a vida dos ma-ringaenses, sobretudo dos que moraram a Vila Operária.

Hoje, a Vila é tema do primeiro livro do projeto Memória dos Bairros. A pesquisa foi realizada entre os anos de 1994 e 1995 pelo Patrimônio Histórico do município, mas somente agora, a publicação foi possível. O atraso serviu para mostrar mais uma vez como sempre foram rápidas as transformações no mais tradicional bairro de Maringá.

Mas está tudo (ou quase) ali. O historiador e secretário de Cultura, João Laércio Lopes, conta que a Vila Operária, também conhecida como Zona 3, foi criada dentro do plano urbanístico para ser um local para as residências dos trabalhadores da Companhia Melhoramentos. É uma concepção inglesa do século 19 em que operários deveriam morar perto do local de trabalho.

Boa parte dos primeiros moradores foi constituída por nordestinos, muitos furadores de poço. Mas a presença portuguesa pode ser notada na arquitetura de certos estabelecimentos comerciais e no sotaque dos comerciantes mais antigos. Hoje o bairro abriga pessoas de todas as classes sociais em construções modernas e edifícios altos.

Na década de 50, a Vila Operária estava na periferia do centro de Maringá. A cidade ainda era pequena. A avenida JK, a peri-metral, formava o anel viário de um município dividido em oito zonas. Hoje, porém, a Vila Operária está integrada à zona central.

O livro é um resgate não apenas para pioneiros, mas para todos aqueles que de uma forma ou de outra passaram pela Vila Operariam conheceram o Esporte Clube Operário, a Colônia do Brega, a Clínica de Repouso Santo Agostinho, Clube Pau-listano, Hotel Bonanza, Guarda Urbana e Hotel São Jorge. Em compensação, temos ainda a Casa estrela, Casa Paraná, Mercearia Mendes e outras.

A Vila Operária também já foi o maior colégio eleitoral de Maringá. Os votos dos moradores eram decisivos nas eleições municipais. Comícios recordistas de público eram realizados na praça Ermiliano Perneta, onde está a Igreja São José.

CINEMA

Na área do divertimento, o destaque era o Cine Horizonte, inicialmente localizado na avenida Brasil e mais tarde na Riachuelo, em um prédio de linhas arquitetô-nicas nitidamente da década de 50, projetado por um arquiteto alemão, Hans Denger. Até hoje pertence à família Del Grossi sendo agora ocupado por uma igreja evangélica. “Casinha Pequenina, Menino Perdido no Deserto, Paixão de Cristo, Marcelino Pão e Vinho marcaram época”, Lembra o fotógrafo Walter Fernandes de O DIÁRIO, nascido e criado na Vila.

Uma curiosidade: a família Del Grossi chegou a produzir um filme em 1950, cujas locações foram realizadas na Vila Operária, precisamente na avenida Monteiro Lobato. O tema era uma aventura de Tarzã na selva. Foi um sucesso.

LAVADEIRAS

Mas o saudosismo parece ficar restrito ao livro. Moradores antigos não têm muitas saudades do bairro quando as ruas eram de terra e as casas de madeira. “Era bom para se ganhar dinheiro. Hoje já não é mais, porém temos mais confortos”, compara o português naturalizado João da Silva, morador desde 1957 e proprietário da Casa Estrela, o mais antigo secos e molhados do bairro.

Uma figura característica da paisagem da Vila Operária até a década de 60 era a do bucheiro, uma pessoa que diariamente saía de casa em uma carroça adaptada com um compartimento em forma de caixa, levando no interior miúdos de boi. Sua presença era percebida quando acionava uma corneta.

Da Vila operária surgiram as “lavadeiras do Ingá”, mulheres trabalhadoras que lavavam as roupas quando o parque ainda não era urbanizado. Elas se utilizavam das minas d’água no interior do bosque para lavar as vestes de quem morava em outras áreas da cidade.

ESPORTE

Não se pode falar da história do esporte em Maringá, sem acrescentar o Brinco da Vila, criado por técnicos da Companhia Melhoramentos e já figurava no plano urbanístico de 1947. Nos anos 50 surgiu o Esporte Clube Operário (Eco) . “A origem do Grêmio foi o Eco”, afirma Cláudio Viola, editor de Esportes de O DIÁRIO.

Em 1976 foi construído o Centro Esportivo Dr. Luiz Moreira de Carvalho com aulas de natação, futebol de salão, handebol, basquete, vôlei e outras praticas esportivas. Houve muita polêmica sobre a localização desse centro, na praça Regente Feijó, mas hoje ele está amplamente integrado com a comunidade.

Também merece destaque o Clube Paulistano, principalmente pelos famosos bailes que oferecia. Infelizmente, o clube foi vítima do preconceito socioeconômico de alguns moradores que reclamavam do barulho. Foi o fim.

As festas populares se concentraram nas quermesses como a tradicional festa da Igreja São José. Sem esquecer o Clube do Vovô, exclusivamente paras o lazer dos idosos. Marcou época também a Sukiake House , misto de restaurante e pista de dança com muitos shows populares.

Há um capítulo dedicado a Mauá, avenida com 2 quilômetros de extensão com 13 quadras com o predomínio do comercio e da industria, onde está situado O DIÁRIO. Também são citadas a Santa Casa - uma referência na saúde de Maringá - e a clínica de repouso Santo Agostinho que abrigava os “loucos” do bairro.

EXCLUÍDOS

O livro aborda ainda a população de excluídos citando nomes de delinquentes como Nuguette, Spock, Coquinho, Baianinho, Tuta, Nego, Esquerdinha, Cocha além do famoso Saroê. Eles infernizavam a vida dos moradores de outros bairros, mas raramente importunavam os habitantes da Vila Operária.

Para as atividades meretrícias, o destaque foi o Hotel Bonanza e o “Pintor”, uma sequência de quartos para atrair a parcela mais popular.

Igreja São José - Foto: Google Earth
Em suma: o livro é delicioso mesmo para aqueles que nunca moraram no bairro. Hoje, conforme lembra o comerciante Eduardo Del Grossi, os mais novos moradores e comerciantes preferem chamar a Vila de Zona 3 porque a Operária lembra passado, um nome pejorativo. “Hoje", dizem eles, "moramos na Néo Martins, edifício tal, número tal, ou a minha loja está na avenida Brasil, próximo a Igreja São José, ou na Riachuelo próximo ao Cine Horizonte, a duas quadras da Santa Casa” .

 comentários:
Esileda disse...
Mudamos pra Maringá em meados de 79...tinha 6 anos à época! Ficmaos morando na Av. Mauá por 1 ano e depois meu pai adquiriu o Bar Ivaiporã que virou Bar do gaúcho na Av. Brasil com Henrique Dias! Vivemos por ali mais de dez anos! Na minha adolescêcia pude desfrutar do cine horizonte, das provocações às "mocinhas" do Bonanza, Casa estrela, Praça da Igreja São José e seus eventos, centro esportivo da Vila Operária, Colégio Theobaldo M. Neto, Supermercado Santo Agostinho, SukiaKi House, Yellow, Casa Siria, Salão do toninho, Qitanda do seu Marinho, Padaria Brasil entre tantos outros lugares que deixam saudades...!
6 de novembro de 2008 03:20

Musikantiga



Vol. 1 - Conjunto Musikantiga de São Paulo - 1967
1 - Greenleaves to ground
Anônimo séc. XVII
2 - Il lamento de tristano
Anônimo séc. XIV
3 - Sonata a três no. 5
P. Prowo
4 - Galharda
O. Gibbons
5 - Lachrimae antiquae
J. Dowland
6 - Recercada quinta
D. Ortiz
7 - Sonata para flauta e baixo contínuo
J. B. Loellet
8 - Il trotto
Anônimo XIII
9 - Aria
J. Adson
10 - Pavana e galharda
Willian Byrd
11 - Fantasia
A. Valderravano
12 - Motêto Alle psalite cum lula
Anônimo séc. XIII

Músicos
Dalton de Luca - Milton Kanji - Paulo Herculano - Ricardo Kanji

**********************
Devia ter meus 16 anos quando encontrei esse disco na loja A Musical, na Praça Dom Pedro, centro de Petrópolis. Convivendo com o rock, esse disco acabou ganhando um lugar especial na estante. A  música clássica e barroca, fazia link com  o rock progressivo da época (eu era fã do Renaisscence). Legal  é que essas musicas jã foram populares um dia. Imagino uma taberna lotada de homens bebendo vinho e casais dançando.

Encontrei esse disco na web  AQUI

Os Melhores Diretores



Em Agosto de 2007 a revista Total Film publicou sua lista dos 100 Melhores Diretores. De lá pra cá, talvez seria possivel incluir novos nomes.  Eis a lista:


001. Alfred HITCHCOCK (ING)

002. Martin SCORSESE (EUA)

003. Steven SPIELBERG (EUA)

004. Howard HAWKS (EUA)

005. Francis Ford COPPOLA (EUA)

006. Orson WELLES (EUA)

007. Ingmar BERGMAN (SUE)

008. Stanley KUBRICK (EUA)

009. Peter JACKSON (NZEL)

010. David FINCHER (EUA)

011. Akira KUROSAWA (JAP)
012. Quentin TARANTINO (EUA)
013. Billy WILDER (EUA)
014. John FORD (EUA)
015. Steven SODERBERGH (EUA)
016. Michael POWELL (ING)
017. David CRONENBERG (CAN)
018. Joel COEN e Ethan COEN (EUA)
019. Woody ALLEN (EUA)
020. Paul Thomas ANDERSON (ING)
021. Clint EASTWOOD (EUA)
022. David LYNCH (EUA)
023. Jean RENOIR (FRA)
024. Tim BURTON (EUA)
025. Hayao MIYAZAKI (JAP)
026. Robert ALTMAN (EUA)
027. Sam PECKINPAH (EUA)
028. Michael MANN (EUA)
029. Jean-Pierre MELVILLE (FRA)
030. Luis BUÑUEL (ESP)
031. Terrence MALICK (EUA)
032. Christopher NOLAN (ING)
033. Yasujiro OZU (JAP)
034. Carol REED (ING)
035. Rob REINER (EUA)
036. Roman POLANSKI (POL)
037. Sergio LEONE (ITA)
038. James CAMERON (CAN)
039. Ridley SCOTT (ING)
040. David LEAN (ING)
041. Ang LEE (TAIW)
042. Frank CAPRA (EUA)
043. Preston STURGES (EUA)
044. François TRUFFAUT (FRA)
045. Werner HERZOG (ALE)
046. Alexander PAYNER (EUA)
047. Krzysztof KIESLOWSKI (POL)
048. Fritz LANG (ALE-EUA)
049. Mike LEIGH (ING)
050. Samuel FULLER (EUA)
051. Robert WISE (EUA)
052. Michael HANEKE (AUS)
053. Don SIEGEL (EUA)
054. Brian DE PALMA (EUA)
055. John HUSTON (EUA)
056. Nicholas RAY (EUA)
057. Spike LEE (EUA)
058. Hal ASHBY (EUA)
059. Jean-Luc GODARD (FRA)
060. John CASSAVETES (EUA)
061. Sam RAIMI (EUA)
062. Robert BRESSON (FRA)
063. John CARPENTER (EUA)
064. Richard LINKLATER (EUA)
065. Bryan SINGER (EUA)
066. Ken LOACH (ING)
067. Federico FELLINI (ITA)
068. Pedro ALMODÓVAR (ESP)
069. Alexander MACKENDRICK (EUA)
070. Michael CURTIZ (HUNG / EUA)
071. John SAYLES (EUA)
072. Sergei M. EISENSTEIN (RUS)
073. Nicolas ROEG (ING)
074. Tony SCOTT (ING)
075. Milos FORMAN (TCHE / EUA)
076. Kenji MIZOGUCHI (JAP)
077. William FRIEDKIN (EUA)
078. Oliver STONE (EUA)
079. George ROMERO (EUA)
080. Satyajit RAY (IND)
081. Cameron CROWE (EUA)
082. James WHALE (BRI)
083. Wes ANDERSON (EUA)
084. Carl T. DREYER (DIN)
085. John WOO (CHI)
086. Lars VON TRIER (DIN)
087. Gus VAN SANT (EUA)
088. Buster KEATON (EUA)
089. Peter WEIR (AUST)
090. Curtis HANSON (EUA)
091. D. W. GRIFFITH (EUA)
092. Paul VERHOEVEN (HOL)
093. Alan J. PAKULA (EUA)
094. Kar-Wai WONG (CHI)
095. George LUCAS (EUA)
096. M. Night SHYAMALAN (EUA)
097. Baz LUHRMANN (AUS)
098. John STURGES (EUA)
099. Sofia COPPOLA (EUA)
100. Abel FERRARA (EUA)

Total Film é uma revista de cinema britânica publicada 13 vezes ao ano (a cada quatro semanas) pela Future Publishing. A revista foi lançada em 1997 e oferece notícias, comentários e características sobre filmes, DVD e Blu-ray. Entre os editores convidados estão Peter Jackson, Kevin Smith, Caco - o Sapo, Ricky Gervais e Stephen Merchant. É a segunda maior revista de cinema de venda na Grã-Bretanha, depois da Empire.(FONTE Wikipedia)

Humor no Bar do Bulga


Para rir um pouco neste final de semana Grandes humoristas do passado e do presente no Bar do Bulga. Cuidado: nem todas as piadas são recomendadas para menores. Divirta-se  AQUI

01 - Miele
02 chico anísio.
03 Fernando Caruso
04 - Noís na Fita- Trocadilhos
05 Jose de Vasconcelos.
06-Rafinha Bastos
07-Marcelo Mansfield
08-Oscar Filho
09 Costinha.
10 Dercy Gonçalves

sexta-feira, novembro 16, 2012

Maringá – A Cidade Que Nasceu De Uma Canção (1972)



Via Toque Musical
Olá amigos cultos e ocultos! Custei mais cheguei… cansado, esgotado e quase dormindo. Antes, porém, deixa eu fazer aqui a minha postagem diária para não sair do compasso.
Hoje eu trago para vocês um disco que há muito eu venho ensaiando postar. Aliás, era para ter sido postado logo nos primeiros dias do Toque Musical. Acabou ficando na ‘gaveta’. Vamos com este álbum lançado pelo selo Copacabana, em 1972. Um disco que canta e tem como título a cidade paranaense de Maringá. Nele vamos encontrar diferentes intérpretes e um único autor, o mineiro de Uberaba, Joubert de Carvalho. Como todos aqui devem saber, Joubert de Carvalho era médico e compositor. Autor de inúmeras pérolas, entre essa, “Maringá”, canção celebrada por muitos cantores ainda hoje. O disco foi lançado em comemoração ao Jubileu da cidade, como um presente, conforme está escrito no texto da contracapa. E pelo que eu pude entender, Joubert de Carvalho, foi até a cidade, a qual apadrinhou, para prestar essa homenagem. Vamos encontrar aqui, além desta canção, outras também famosas, nas vozes de cantores como Agnaldo Rayol, Ângela Maria, Cyro Monteiro, Ataíde Beck, Jairo Aguiar, Silvio Caldas e o Coral Sabiá. Um bom disco que por certo os amigos irão querer ouvir. Tá na ponta da agulha, é só dar o toque :)
maringá – ataíde beck
minha casa – silvio caldas
hora da despedida – ataíde beck
silêncio do cantor – ângela maria
pierrot – agnaldo rayol
flamboyant – ataíde beck
a cidade que nasceu de uma canção – ataíde beck
tahi – ângela maria e cyro monteiro
lembro-me ainda – ataíde beck
rosalinda – agnaldo rayol
de papo pro á – coral sabiá
zingara – jairo aguiar

sábado, novembro 10, 2012

O Naufrágio do Vestris


No dia 10 de novembro de 1928, o paquete britânico Vestris, zarpou de Nova Iorque com destino a Buenos Aires. A bordo se encontravam uma tripulação de 198 homens e 127 passageiros.Ao anoitecer do primeiro dia no mar, rajadas violentas ergueram vagas que rebentavam contra o casco do Vestris. O navio transportava um carregamento extra e por causa disso, começou a adernar lentamente para o lado de boreste. Não obstante a garantia, por parte da tripulação, de que a situação se corrigiria por si própria, na manhã seguinte o navio apresentava uma inclinação mais acentuada. Em breve tudo o que não estava preso começou a deslizar e, à medida que o dia passava, crescia progressivamente o alarme entre os ocupantes do navio inglês. Às 10 horas da manhã do dia seguinte, quando o Vestris se encontrava a cerca de 240 milhas de Norfolk, no estado da Virgínia, foi enviado um SOS. Em poucos minutos os navios que navegavam nas proximidades alteraram a sua rota para socorrerem o Vestris. Entretanto, nenhum alcançaria o navio em perigo em menos de doze horas. Por ironia do destino, o barco mais próximo não dispunha de rádio e continuou a sua rota, ignorando o desastre. Quando tentaram lançar ao mar os barcos salva-vidas, os ocupantes do Vestris constataram que muitos deles não podiam ser descidos devido à extrema inclinação. Então, às 2 horas e 30 minutos da tarde, o Vestris, afundou, perecendo com ele mais de 100 pessoas. (Fonte: Historia dos Grandes Nauifragios da História - Selecçoes de Reader´s Digest 1980)

sexta-feira, novembro 09, 2012

Clarice Lispector

Clarice Lispector, nascida Haia Pinkhasovna Lispector (Tchetchelnik, 10 de dezembro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977) foi uma escritora e jornalista brasileira, nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira. Além de escritora, Clarice foi colunista do Jornal do Brasil, do Correio da Manhã e Diário da Noite. As colunas, que foram publicadas entre as décadas de 60 e 70, eram destinadas ao público feminino, e abordavam assuntos como dicas de beleza, moda e comportamento. Em meados de 1970, Lispector começou a trabalhar no livro Um sopro de vida: pulsações, publicado postumamente. Este livro consiste de uma série de diálogos entre o "autor" e sua criação, Angela Pralini, personagem cujo nome foi emprestado de outro personagem de um conto publicado em Onde estivestes de noite. Esta abordagem fragmentada foi novamente utilizada no seu penúltimo e, talvez, mais famoso romance, A Hora da Estrela. No romance, Clarice conta a história de Macabéa, uma datilógrafa criada no Estado de Alagoas que migra para o Rio de Janeiro e vai morar em uma pensão, tendo sua rotina narrada por um escritor fictício chamado Rodrigo S.M. O livro descreve a pobreza e a marginalização no Brasil a partir de um ângulo único que, fugindo dos clichês de um sofrimento simplesmente causado pela pobreza, e do estereótipo das questões existenciais como burguesas, encontra sua principal personagem no lugar exato e singular de sua (in)existência. A história de Macabéa foi publicada poucos meses antes da morte de Clarice. Em artigo publicado no jornal The New York Times, no dia 11 de março de 2005, a escritora foi descrita como o equivalente de Kafka na literatura latino-americana. A afirmação foi feita por Gregory Rabassa, tradutor para o inglês de Jorge Amado, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e de Clarice
Clarice Lispector em seu apartamento na General Ribeiro da Costa, no Leme.

 Feliz Aniversário

Clarice Lispector


A família foi pouco a pouco chegando. Os que vieram de Olaria estavam muito bem vestidos porque a visita significava ao mesmo tempo um passeio a Copacabana. A nora de Olaria apareceu de azul-marinho, com enfeite de paetês e um drapeado disfarçando a barriga sem cinta. O marido não veio por razões óbvias: não queria ver os irmãos. Mas mandara sua mulher para que nem todos os laços fossem cortados — e esta vinha com o seu melhor vestido para mostrar que não precisava de nenhum deles, acompanhada dos três filhos: duas meninas já de peito nascendo, infantilizadas em babados cor-de-rosa e anáguas engomadas, e o menino acovardado pelo terno novo e pela gravata.

Tendo Zilda — a filha com quem a aniversariante morava — disposto cadeiras unidas ao longo das paredes, como numa festa em que se vai dançar, a nora de Olaria, depois de cumprimentar com cara fechada aos de casa, aboletou-se numa das cadeiras e emudeceu, a boca em bico, mantendo sua posição de ultrajada. "Vim para não deixar de vir", dissera ela a Zilda, e em seguida sentara-se ofendida. As duas mocinhas de cor-de-rosa e o menino, amarelos e de cabelo penteado, não sabiam bem que atitude tomar e ficaram de pé ao lado da mãe, impressionados com seu vestido azul-marinho e com os paetês.

Depois veio a nora de Ipanema com dois netos e a babá. O marido viria depois. E como Zilda — a única mulher entre os seis irmãos homens e a única que, estava decidido já havia anos, tinha espaço e tempo para alojar a aniversariante — e como Zilda estava na cozinha a ultimar com a empregada os croquetes e sanduíches, ficaram: a nora de Olaria empertigada com seus filhos de coração inquieto ao lado; a nora de Ipanema na fila oposta das cadeiras fingindo ocupar-se com o bebê para não encarar a concunhada de Olaria; a babá ociosa e uniformizada, com a boca aberta.

E à cabeceira da mesa grande a aniversariante que fazia hoje oitenta e nove anos.

Zilda, a dona da casa, arrumara a mesa cedo, enchera-a de guardanapos de papel colorido e copos de papelão alusivos à data, espalhara balões sungados pelo teto em alguns dos quais estava escrito "Happy Birthday!", em outros "Feliz Aniversário!" No centro havia disposto o enorme bolo açucarado. Para adiantar o expediente, enfeitara a mesa logo depois do almoço, encostara as cadeiras à parede, mandara os meninos brincar no vizinho para não desarrumar a mesa.

E, para adiantar o expediente, vestira a aniversariante logo depois do almoço. Pusera-lhe desde então a presilha em torno do pescoço e o broche, borrifara-lhe um pouco de água-de-colônia para disfarçar aquele seu cheiro de guardado — sentara-a à mesa. E desde as duas horas a aniversariante estava sentada à cabeceira da longa mesa vazia, tesa na sala silenciosa.

De vez em quando consciente dos guardanapos coloridos. Olhando curiosa um ou outro balão estremecer aos carros que passavam. E de vez em quando aquela angústia muda: quando acompanhava, fascinada e impotente, o vôo da mosca em torno do bolo.

Até que às quatro horas entrara a nora de Olaria e depois a de Ipanema.

Quando a nora de Ipanema pensou que não suportaria nem um segundo mais a situação de estar sentada defronte da concunhada de Olaria — que cheia das ofensas passadas não via um motivo para desfitar desafiadora a nora de Ipanema — entraram enfim José e a família. E mal eles se beijavam, a sala começou a ficar cheia de gente que ruidosa se cumprimentava como se todos tivessem esperado embaixo o momento de, em afobação de atraso, subir os três lances de escada, falando, arrastando crianças surpreendidas, enchendo a sala — e inaugurando a festa.

Os músculos do rosto da aniversariante não a interpretavam mais, de modo que ninguém podia saber se ela estava alegre. Estava era posta á cabeceira. Tratava-se de uma velha grande, magra, imponente e morena. Parecia oca.

— Oitenta e nove anos, sim senhor! disse José, filho mais velho agora que Jonga tinha morrido. — Oitenta e nove anos, sim senhora! disse esfregando as mãos em admiração pública e como sinal imperceptível para todos.

Todos se interromperam atentos e olharam a aniversariante de um modo mais oficial. Alguns abanaram a cabeça em admiração como a um recorde. Cada ano vencido pela aniversariante era uma vaga etapa da família toda. Sim senhor! disseram alguns sorrindo timidamente.

— Oitenta e nove anos!, ecoou Manoel que era sócio de José. É um brotinho!, disse espirituoso e nervoso, e todos riram, menos sua esposa.

A velha não se manifestava.

Alguns não lhe haviam trazido presente nenhum. Outros trouxeram saboneteira, uma combinação de jérsei, um broche de fantasia, um vasinho de cactos — nada, nada que a dona da casa pudesse aproveitar para si mesma ou para seus filhos, nada que a própria aniversariante pudesse realmente aproveitar constituindo assim uma economia: a dona da casa guardava os presentes, amarga, irônica.

— Oitenta e nove anos! repetiu Manoel aflito, olhando para a esposa.

A velha não se manifestava.

Então, como se todos tivessem tido a prova final de que não adiantava se esforçarem, com um levantar de ombros de quem estivesse junto de uma surda, continuaram a fazer a festa sozinhos, comendo os primeiros sanduíches de presunto mais como prova de animação que por apetite, brincando de que todos estavam morrendo de fome. O ponche foi servido, Zilda suava, nenhuma cunhada ajudou propriamente, a gordura quente dos croquetes dava um cheiro de piquenique; e de costas para a aniversariante, que não podia comer frituras, eles riam inquietos. E Cordélia? Cordélia, a nora mais moça, sentada, sorrindo.

— Não senhor! respondeu José com falsa severidade, hoje não se fala em negócios!

— Está certo, está certo! recuou Manoel depressa, olhando rapidamente para sua mulher que de longe estendia um ouvido atento.

— Nada de negócios, gritou José, hoje é o dia da mãe!

Na cabeceira da mesa já suja, os copos maculados, só o bolo inteiro — ela era a mãe. A aniversariante piscou os olhos.

E quando a mesa estava imunda, as mães enervadas com o barulho que os filhos faziam, enquanto as avós se recostavam complacentes nas cadeiras, então fecharam a inútil luz do corredor para acender a vela do bolo, uma vela grande com um papelzinho colado onde estava escrito "89". Mas ninguém elogiou a idéia de Zilda, e ela se perguntou angustiada se eles não estariam pensando que fora por economia de velas — ninguém se lembrando de que ninguém havia contribuído com uma caixa de fósforos sequer para a comida da festa que ela, Zilda, servia como uma escrava, os pés exaustos e o coração revoltado. Então acenderam a vela. E então José, o líder, cantou com muita força, entusiasmando com um olhar autoritário os mais hesitantes ou surpreendidos, "vamos! todos de uma vez!" — e todos de repente começaram a cantar alto como soldados. Despertada pelas vozes, Cordélia olhou esbaforida. Como não haviam combinado, uns cantaram em português e outros em inglês. Tentaram então corrigir: e os que haviam cantado em inglês passaram a português, e os que haviam cantado em português passaram a cantar bem baixo em inglês.

Enquanto cantavam, a aniversariante, à luz da vela acesa, meditava como junto de uma lareira.

Escolheram o bisneto menor que, debruçado no colo da mãe encorajadora, apagou a chama com um único sopro cheio de saliva! Por um instante bateram palmas à potência inesperada do menino que, espantado e exultante, olhava para todos encantado. A dona da casa esperava com o dedo pronto no comutador do corredor - e acendeu a lâmpada.

— Viva mamãe!

— Viva vovó!

— Viva D. Anita, disse a vizinha que tinha aparecido.

— Happy birthday! gritaram os netos, do Colégio Bennett.

Bateram ainda algumas palmas ralas.

A aniversariante olhava o bolo apagado, grande e seco.

— Parta o bolo, vovó! disse a mãe dos quatro filhos, é ela quem deve partir! assegurou incerta a todos, com ar íntimo e intrigante. E, como todos aprovassem satisfeitos e curiosos, ela se tornou de repente impetuosa: — parta o bolo, vovó!

E de súbito a velha pegou na faca. E sem hesitação , como se hesitando um momento ela toda caísse para a frente, deu a primeira talhada com punho de assassina.

— Que força, segredou a nora de Ipanema, e não se sabia se estava escandalizada ou agradavelmente surpreendida. Estava um pouco horrorizada.

— Há um ano atrás ela ainda era capaz de subir essas escadas com mais fôlego do que eu, disse Zilda amarga.

Dada a primeira talhada, como se a primeira pá de terra tivesse sido lançada, todos se aproximaram de prato na mão, insinuando-se em fingidas acotoveladas de animação, cada um para a sua pazinha.

Em breve as fatias eram distribuídas pelos pratinhos, num silêncio cheio de rebuliço. As crianças pequenas, com a boca escondida pela mesa e os olhos ao nível desta, acompanhavam a distribuição com muda intensidade. As passas rolavam do bolo entre farelos secos. As crianças angustiadas viam se desperdiçarem as passas, acompanhavam atentas a queda.

E quando foram ver, não é que a aniversariante já estava devorando o seu último bocado?

E por assim dizer a festa estava terminada. Cordélia olhava ausente para todos, sorria.

— Já lhe disse: hoje não se fala em negócios! respondeu José radiante.

— Está certo, está certo! recolheu-se Manoel conciliador sem olhar a esposa que não o desfitava. Está certo, tentou Manoel sorrir e uma contração passou-lhe rápido pelos músculos da cara.

— Hoje é dia da mãe! disse José.

Na cabeceira da mesa, a toalha manchada de coca-cola, o bolo desabado, ela era a mãe. A aniversariante piscou. Eles se mexiam agitados, rindo, a sua família. E ela era a mãe de todos. E se de repente não se ergueu, como um morto se levanta devagar e obriga mudez e terror aos vivos, a aniversariante ficou mais dura na cadeira, e mais alta. Ela era a mãe de todos. E como a presilha a sufocasse, ela era a mãe de todos e, impotente à cadeira, desprezava-os. E olhava-os piscando. Todos aqueles seus filhos e netos e bisnetos que não passavam de carne de seu joelho, pensou de repente como se cuspisse. Rodrigo, o neto de sete anos, era o único a ser a carne de seu coração, Rodrigo, com aquela carinha dura, viril e despenteada. Cadê Rodrigo? Rodrigo com olhar sonolento e intumescido naquela cabecinha ardente, confusa. Aquele seria um homem. Mas, piscando, ela olhava os outros, a aniversariante. Oh o desprezo pela vida que falhava. Como?! como tendo sido tão forte pudera dar á luz aqueles seres opacos, com braços moles e rostos ansiosos? Ela, a forte, que casara em hora e tempo devidos com um bom homem a quem, obediente e independente, ela respeitara; a quem respeitara e que lhe fizera filhos e lhe pagara os partos e lhe honrara os resguardos. O tronco fora bom. Mas dera aqueles azedos e infelizes frutos, sem capacidade sequer para uma boa alegria. Como pudera ela dar à luz aqueles seres risonhos, fracos, sem austeridade? O rancor roncava no seu peito vazio. Uns comunistas, era o que eram; uns comunistas. Olhou-os com sua cólera de velha. Pareciam ratos se acotovelando, a sua família. Incoercível, virou a cabeça e com força insuspeita cuspiu no chão.

— Mamãe! gritou mortificada a dona da casa. Que é isso, mamãe! gritou ela passada de vergonha, e não queria sequer olhar os outros, sabia que os desgraçados se entreolhavam vitoriosos como se coubesse a ela dar educação à velha, e não faltaria muito para dizerem que ela já não dava mais banho na mãe, jamais compreenderiam o sacrifício que ela fazia. — Mamãe, que é isso! — disse baixo, angustiada. — A senhora nunca fez isso! — acrescentou alto para que todos ouvissem, queria se agregar ao espanto dos outros, quando o galo cantar pela terceira vez renegarás tua mãe. Mas seu enorme vexame suavizou-se quando ela percebeu que eles abanavam a cabeça como se estivessem de acordo que a velha não passava agora de uma criança.

— Ultimamente ela deu pra cuspir, terminou então confessando contrita para todos.

Todos olharam a aniversariante, compungidos, respeitosos, em silêncio.

Pareciam ratos se acotovelando, a sua família. Os meninos, embora crescidos — provavelmente já além dos cinqüenta anos, que sei eu! — os meninos ainda conservavam os traços bonitinhos. Mas que mulheres haviam escolhido! E que mulheres os netos — ainda mais fracos e mais azedos — haviam escolhido. Todas vaidosas e de pernas finas, com aqueles colares falsificados de mulher que na hora não agüenta a mão, aquelas mulherezinhas que casavam mal os filhos, que não sabiam pôr uma criada em seu lugar, e todas elas com as orelhas cheias de brincos — nenhum, nenhum de ouro! A raiva a sufocava.

— Me dá um copo de vinho! disse.

O silêncio se fez de súbito, cada um com o copo imobilizado na mão.

— Vovozinha, não vai lhe fazer mal? insinuou cautelosa a neta roliça e baixinha.

— Que vovozinha que nada! explodiu amarga a aniversariante. — Que o diabo vos carregue, corja de maricas, cornos e vagabundas! me dá um copo de vinho, Dorothy! — ordenou.

Dorothy não sabia o que fazer, olhou para todos em pedido cômico de socorro. Mas, como máscaras isentas e inapeláveis, de súbito nenhum rosto se manifestava. A festa interrompida, os sanduíches mordidos na mão, algum pedaço que estava na boca a sobrar seco, inchando tão fora de hora a bochecha. Todos tinham ficado cegos, surdos e mudos, com croquetes na mão. E olhavam impassíveis.

Desamparada, divertida, Dorothy deu o vinho: astuciosamente apenas dois dedos no copo. Inexpressivos, preparados, todos esperaram pela tempestade.

Mas não só a aniversariante não explodiu com a miséria de vinho que Dorothy lhe dera como não mexeu no copo. Seu olhar estava fixo, silencioso. Como se nada tivesse acontecido.

Todos se entreolharam polidos, sorrindo cegamente, abstratos como se um cachorro tivesse feito pipi na sala. Com estoicismo, recomeçaram as vozes e risadas. A nora de Olaria, que tivera o seu primeiro momento uníssono com os outros quando a tragédia vitoriosamente parecia prestes a se desencadear, teve que retornar sozinha à sua severidade, sem ao menos o apoio dos três filhos que agora se misturavam traidoramente com os outros. De sua cadeira reclusa, ela analisava crítica aqueles vestidos sem nenhum modelo, sem um drapeado, a mania que tinham de usar vestido preto com colar de pérolas, o que não era moda coisa nenhuma, não passava era de economia. Examinando distante os sanduíches que quase não tinham levado manteiga. Ela não se servira de nada, de nada! Só comera uma coisa de cada, para experimentar.

E por assim dizer, de novo a festa estava terminada. As pessoas ficaram sentadas benevolentes. Algumas com a atenção voltada para dentro de si, à espera de alguma coisa a dizer. Outras vazias e expectantes, com um sorriso amável, o estômago cheio daquelas porcarias que não alimentavam mas tiravam a fome. As crianças, já incontroláveis, gritavam cheias de vigor. Umas já estavam de cara imunda; as outras, menores, já molhadas; a tarde cala rapidamente. E Cordélia, Cordélia olhava ausente, com um sorriso estonteado, suportando sozinha o seu segredo. Que é que ela tem? alguém perguntou com uma curiosidade negligente, indicando-a de longe com a cabeça, mas também não responderam. Acenderam o resto das luzes para precipitar a tranqüilidade da noite, as crianças começavam a brigar. Mas as luzes eram mais pálidas que a tensão pálida da tarde. E o crepúsculo de Copacabana, sem ceder, no entanto se alargava cada vez mais e penetrava pelas janelas como um peso.

— Tenho que ir, disse perturbada uma das noras levantando-se e sacudindo os farelos da saia. Vários se ergueram sorrindo.

A aniversariante recebeu um beijo cauteloso de cada um como se sua pele tão infamiliar fosse uma armadilha. E, impassível, piscando, recebeu aquelas palavras propositadamente atropeladas que lhe diziam tentando dar um final arranco de efusão ao que não era mais senão passado: a noite já viera quase totalmente. A luz da sala parecia então mais amarela e mais rica, as pessoas envelhecidas. As crianças já estavam histéricas.

— Será que ela pensa que o bolo substitui o jantar, indagava-se a velha nas suas profundezas.

Mas ninguém poderia adivinhar o que ela pensava. E para aqueles que junto da porta ainda a olharam uma vez, a aniversariante era apenas o que parecia ser: sentada à cabeceira da mesa imunda, com a mão fechada sobre a toalha como encerrando um cetro, e com aquela mudez que era a sua última palavra. Com um punho fechado sobre a mesa, nunca mais ela seria apenas o que ela pensasse. Sua aparência afinal a ultrapassara e, superando-a, se agigantava serena. Cordélia olhou-a espantada. O punho mudo e severo sobre a mesa dizia para a infeliz nora que sem remédio amava talvez pela última vez: É preciso que se saiba. É preciso que se saiba. Que a vida é curta. Que a vida é curta.

Porém nenhuma vez mais repetiu. Porque a verdade era um relance. Cordélia olhou-a estarrecida. E, para nunca mais, nenhuma vez repetiu — enquanto Rodrigo, o neto da aniversariante, puxava a mão daquela mãe culpada, perplexa e desesperada que mais uma vez olhou para trás implorando à velhice ainda um sinal de que uma mulher deve, num ímpeto dilacerante, enfim agarrar a sua derradeira chance e viver. Mais uma vez Cordélia quis olhar.

Mas a esse novo olhar — a aniversariante era uma velha à cabeceira da mesa.

Passara o relance. E arrastada pela mão paciente e insistente de Rodrigo a nora seguiu-o espantada.

— Nem todos têm o privilégio e o orgulho de se reunirem em torno da mãe, pigarreou José lembrando-se de que Jonga é quem fazia os discursos.

— Da mãe, vírgula! riu baixo a sobrinha, e a prima mais lenta riu sem achar graça.

— Nós temos, disse Manoel acabrunhado sem mais olhar para a esposa. Nós temos esse grande privilégio disse distraído enxugando a palma úmida das mãos.

Mas não era nada disso, apenas o mal-estar da despedida, nunca se sabendo ao certo o que dizer, José esperando de si mesmo com perseverança e confiança a próxima frase do discurso. Que não vinha. Que não vinha. Que não vinha. Os outros aguardavam. Como Jonga fazia falta nessas horas — José enxugou a testa com o, lenço — como Jonga fazia falta nessas horas! Também fora o único a quem a velha sempre aprovara e respeitara, e isso dera a Jonga tanta segurança. E quando ele morrera, a velha nunca mais falara nele, pondo um muro entre sua morte e os outros. Esquecera-o talvez. Mas não esquecera aquele mesmo olhar firme e direto com que desde sempre olhara os outros filhos, fazendo-os sempre desviar os olhos. Amor de mãe era duro de suportar: José enxugou a testa, heróico, risonho.

E de repente veio a frase:

— Até o ano que vem! disse José subitamente com malícia, encontrando, assim, sem mais nem menos, a frase certa: uma indireta feliz! Até o ano que vem, hein?, repetiu com receio de não ser compreendido.

Olhou-a, orgulhoso da artimanha da velha que espertamente sempre vivia mais um ano.

— No ano que vem nos veremos diante do bolo aceso! esclareceu melhor o filho Manoel, aperfeiçoando o espírito do sócio. Até o ano que vem, mamãe! e diante do bolo aceso! disse ele bem explicado, perto de seu ouvido, enquanto olhava obsequiador para José. E a velha de súbito cacarejou um riso frouxo, compreendendo a alusão.

Então ela abriu a boca e disse:

— Pois é.

Estimulado pela coisa ter dado tão inesperadamente certo, José gritou-lhe emocionado, grato, com os olhos úmidos:

— No ano que vem nos veremos, mamãe!

— Não sou surda! disse a aniversariante rude, acarinhada.

Os filhos se olharam rindo, vexados, felizes. A coisa tinha dado certo.

As crianças foram saindo alegres, com o apetite estragado. A nora de Olaria deu um cascudo de vingança no filho alegre demais e já sem gravata. As escadas eram difíceis, escuras, incrível insistir em morar num prediozinho que seria fatalmente demolido mais dia menos dia, e na ação de despejo Zilda ainda ia dar trabalho e querer empurrar a velha para as noras — pisado o último degrau, com alívio os convidados se encontraram na tranqüilidade fresca da rua. Era noite, sim. Com o seu primeiro arrepio.

Adeus, até outro dia, precisamos nos ver. Apareçam, disseram rapidamente. Alguns conseguiram olhar nos olhos dos outros com uma cordialidade sem receio. Alguns abotoavam os casacos das crianças, olhando o céu à procura de um sinal do tempo. Todos sentindo obscuramente que na despedida se poderia talvez, agora sem perigo de compromisso, ser bom e dizer aquela palavra a mais — que palavra? eles não sabiam propriamente, e olhavam-se sorrindo, mudos. Era um instante que pedia para ser vivo. Mas que era morto. Começaram a se separar, andando meio de costas, sem saber como se desligar dos parentes sem brusquidão.

— Até o ano que vem! repetiu José a indireta feliz, acenando a mão com vigor efusivo, os cabelos ralos e brancos esvoaçavam. Ele estava era gordo, pensaram, precisava tomar cuidado com o coração. Até o ano que vem! gritou José eloqüente e grande, e sua altura parecia desmoronável. Mas as pessoas já afastadas não sabiam se deviam rir alto para ele ouvir ou se bastaria sorrir mesmo no escuro. Além de alguns pensarem que felizmente havia mais do que uma brincadeira na indireta e que só no próximo ano seriam obrigados a se encontrar diante do bolo aceso; enquanto que outros, já mais no escuro da rua, pensavam se a velha resistiria mais um ano ao nervoso e à impaciência de Zilda, mas eles sinceramente nada podiam fazer a respeito: "Pelo menos noventa anos", pensou melancólica a nora de Ipanema. "Para completar uma data bonita", pensou sonhadora.

Enquanto isso, lá em cima, sobre escadas e contingências, estava a aniversariante sentada à cabeceira da mesa, erecta, definitiva, maior do que ela mesma. Será que hoje não vai ter jantar, meditava ela. A morte era o seu mistério.


Texto extraído do livro "Laços de Família", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1998, pág. 54.

segunda-feira, novembro 05, 2012

Edmundo Pacheco

Dança das Cadeiras: Edmundo Pacheco acaba de assumir a gerencia de jornalismo
da RIC Record Maringá.  Ele deixa a Band e O Diário. Vai ocupar a vaga deixada
por Leonardo Filho que por sua vez, é o novo contratado de O Diário.

domingo, novembro 04, 2012

Gelando Cerveja

!
Garrafas da cerveja Stella Artois
Essa idéia em reproduzo do  Lincoln Quinan que foi rebatida no excelente blog Papo de Bebado.
Anote os "ingredientes" :
Papel Toalha
Cervejas (Long Neck ou Latinhas)
Água (nem precisa ser limpa)

Procedimento

Garrafas da cerveja Stella Artois
Créditos: Lincoln Quinan
  1. Pegue uma folha de papel toalha, enrole a latinha ou a long neck, e depois coloque embaixo da torneira.
  2. Deixe o papel toalha absorver bem a água, e em seguida, leve as cervejas para o congelador.
  3. Nos testes que fizemos, compramos long necks da Stella Artois (são um pouco menores do que as long necks tradicionais).
  4. Deixamos as cervejas gelarem da temperatura ambiente até ficarem bem geladas, por aproximadamente 20 minutos.
  5. Em um dos testes, esqueceram as cervejas no congelador por 30 minutos e elas congelaram…


Retrô : Antiga fábrica da Trol

Via Medo B


A Trol foi uma grande fábrica de brinquedos, instalada às margens da Rodovia Anchieta, a qual criava em sua linha de produção o sonho de muitas crianças das décadas de 1960, 1970 e 1980.
Eram brinquedos talvez simples, se comparados aos que existem hoje na praça com tecnologia avançada utilizando até em alguns casos, microprocessadores.
Os brinquedos fabricados naquela época eram triciclos, carrinhos de plástico sendo miniaturas dos carros da época, como opalas, corceis, caminhões Ford, Scania, etc....
Também eram fabricados diversos jogos de tabuleiro de mesa, coisa que hoje em dia está lentamente caindo no esquecimento, pois a preferência da garotada são os videogames e jogos informatizados.
.

Pega Pega Trol: sonho de criança na década de 70

Saiba Mais: A Indústria de Brinquedos Trol foi uma importante fábrica de brinquedos do Brasil, responsável pela criação de vários itens, como a boneca Pierina, lançada no início dos anos 1960, e pela introdução no país de brinquedos como o Playmobil, desenvolvido na Alemanha por Hans Beck, em 1974. O Playmobil foi lançado no Brasil em 1976, tendo sido fabricado até o início dos anos 1990. Outro exemplo de brinquedo inovador foi o T C R. Fabricou caixas plásticas para rádios de pilha sob encomenda da Philips do Brasil. Dilson Funaro, Ministro da Economia do governo Sarney nos anos 1980 era seu proprietário. No início dos anos 1990, logo após o falecimento de Funaro, a empresa encerrou suas atividades.(Wikipédia)

sábado, novembro 03, 2012

Calvin


Graciliano Ramos





 Um dos principais nomes da geração modernista dos anos 30, autor
 de Vidas Secas. Graciliano Ramos (27/10/1892-20/3/1953), completaria 120 em 27 de novembro.  Natural de  Quebrângulo, foi o primogênito de quinze irmãos. Depois de concluir os estudos secundários, trabalha como jornalista e comerciante. Em 1928 é eleito prefeito de Palmeira dos Índios (AL), mas renuncia dois anos depois. Muda-se, então, para Maceió, onde exerce os cargos de diretor da Imprensa Oficial do Estado e da Instrução Pública de Alagoas. Em 1933 lança seu primeiro romance, Caetés, e mantém contato com escritores da vanguarda nordestina, como José Lins do Rego, Jorge Amado e Rachel de Queiroz. Em 1934 publica uma de suas obras-primas, São Bernardo. Acusado de subversão comunista em 1936, fica preso por 11 meses no Rio de Janeiro, cumprindo parte da pena no extinto presídio da Ilha Grande. Narra a experiência no livro Memórias do Cárcere (1955). Após ser libertado, continua a viver e a trabalhar no Rio como jornalista e inspetor de ensino. Na década de 40, já consagrado como um dos maiores romancistas brasileiros, filia-se ao Partido Comunista. Em 1952 viaja para a União Soviética e outros países socialistas do Leste Europeu, descrevendo suas impressões no livro Viagem, publicado postumamente. Com linguagem precisa e preocupação social, sua obra é um exemplo da abordagem da literatura como meio de conhecimento e mudança da realidade, típica da segunda geração modernista. Entre seus livros se destacam ainda Angústia (1936), lançado durante o período de prisão, e Vidas Secas (1938). Morre no Rio de Janeiro.


 (...) "Chegamos ao fim da escada, paramos a entrada de um porão, mas durante minutos não compreendi onde me achava. Espaço vago, de limites imprecisos, envolto em sombra leitosa. Lá fora anoitecera; ali duvidaríamos se era dia ou noite. Havia luzes toldadas por espesso nevoeiro; uma escuridão branca. Detive-me, piscando os olhos, tentando habituar a vista. Erguendo a cabeça, via-me no fundo de um poço, enxergava estrelas altas, rostos curiosos, um plano inclinado, próximo, onde se aglomeravam polícias e um negro continuava a dirigir-me a pistola. Era como se fossemos gado e nos empurrassem para dentro de um banheiro carrapaticida. Resvaláramos até ali, não podíamos recuar, obrigavam-nos ao mergulho. Simples rebanho, apenas, rebanho gafento, na opinião dos nossos proprietários, necessitando creolina. Os vaqueiros, armados e fardados, se impacientavam. Desviando-me deles, tentei sondar a bruma cheia de trevas luminosas. Idéia absurda, que ainda hoje persiste e me parece razoável: trevas luminosas. Havia muitas lâmpadas penduradas no teto baixo, ali ao alcance da mão, aparentemente, mas eram como luas de inverno, boiando na grossa neblina. Arrisquei alguns passos, maquinalmente, parei meio sufocado por um cheiro acre, forte, desagradável, começando a perceber em redor um indeciso fervilhar. Antes que isto se precisasse, confuso burburinho anunciou a multidão que ali se achava. Agora já não éramos pequeno rebanho a escorregar num declive; constituíamos boiada numerosa; à idéia do banheiro carrapaticida sucedeu a de um vasto curral. Certamente a perturbação visual durou um instante, mas ali de pé, sobraçando a valise, a abanar-me com o chapéu de palha, tentando reduzir o calor, afastar o cheiro horrível, mistura de suor e amoníaco, um pensamento me assaltou, fez-me perder a noção do tempo. Que homens eram aqueles que se arrumavam encaixados, tábuas em cima, embaixo, à frente, à retaguarda, à esquerda, à direita?" (...) RAMOS, Graciliano. Memórias do Cárcere. São Paulo, Livraria Martins Editora, 1975, 1º volume, pág. 121

Bom sábado com Audrey Hepburn

A Lei da TV por Assinatura


Começou a valer, neste mês de novembro, a segunda etapa da lei 12.485/2011, que regulamenta a TV por assinatura. Dessa forma, acabei de ser contemplado com novos canais. Aqui em casa assino a GVT. E apesar de muitos reclamarem, achei muito bom. Vejamos:
Tv Ra Tim Bum – ótima programação infantil da TV Cultura.
Woohoo – Canal de Esportes da Warner
Curta! - Muitas produção nacional independente
Arte 1 – Futuro canal totalmente dedicado às artes da Bandeirantes.
Fish TV – Esse é o que menos me interessa, mas não é ruim. É dedicado à pesca. Deve ter muitos seguidores.
Cine Brasil TV – Mais um canal para à cultura brasileira
Prime Box Brasil – Clips e vídeos nacionais.
Então, quem reclama da lei é aquele que odeia cultura, não conhece a produção do audiovisual nacional, e não sabe trocar de canal. Deveriam ler mais.

quinta-feira, novembro 01, 2012

O DIA EM QUE A TERRA PAROU 1951



THE DAY THE EARTH STOOD STILL - 1951
DRAMA - FICÇÃO CIENTIFICA
DIREÇÃO: Robert Wise
ROTEIRO: Edmund H. North




 Uma espaçonave aterrissa em Washington D.C. e dela surge um alienígena, escoltado por um ameaçador robô com poder de destruição além da imaginação. Assim se inicia o suspense de ficção científica, O Dia em Que a Terra Parou, um clássico "filme atômico" da década de 1950 que inspiraria filmes de invasões alienígenas nas décadas seguintes. Desapontado em seus esforços de encontrar-se com os líderes mundiais e alerta-los que a Terra está à beira de extinção, o alienígena, Klaatu (Michael Rennie), vai para as ruas. O pedido de paz de Klaatu recebe a solidariedade de uma jovem e bela mulher (Patrícia Neal) e de um eminente cientista (Sam Jaffe), mas o resto da humanidade reage com desconfiança, medo e violência. Com o tempo se esgotando, Klaatu é forçado a demonstrar seus fantásticos poderes em uma exibição espantosa, ensinando a todos os seres humanos uma lição duradoura.











# título nacional: O dia em que a terra parou
# país: EUA
# título original: The Day the Earth Stood Still
# gênero: Drama
# duração: 92 min
# ano: 1951
# estúdio/distribuidora: Fox Home
# direção: Robert Wise
# roteiro: Edmund H. North
# produção: Julian Blaustein
# música: Bernard Herrmann
# fotografia: Leo Tover
# direção de arte: Addison Hehr
# figurino: Travilla
# edição: William Reynolds
# efeitos especiais: Melbourne A. Arnold