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domingo, setembro 13, 2026

O MÉDICO E O MONSTRO

 Galeria do Horror /

O MÉDICO E O MONSTRO 

OS CLÁSSICOS DO TERROR E SUSPENSE REVISITADOS

Sylvio Gonçalves



QUAL é a verdadeira natureza do ser humano — o bem ou o mal? Publicada originalmente em 1886, a novela de Robert Louis Stevenson, The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, conhecida no Brasil como O Médico e o Monstro, explora esta fascinante questão, que a tornou uma das obras de ficção mais famosas de todos os tempos, constantemente revisitada através de adaptações teatrais, quadrinísticas, cinematográficas e televisivas. Só no Cinema já foram rodadas cerca de 15 versões, sendo as mais importantes, a de 1920, de John S. Robertson, a de 1932, de Robert Mamoulian, e a de 1941, de Victor Flemming.

A trama básica do livro de Stevenson é muito conhecida: um médico vitoriano tenta, através de uma solução química composta por ele mesmo, separar o lado bom do lado mau do ser humano. O experimento é bem-sucedido, fazendo emergir o lado mau de Jekyll, que se autodenomina Hyde (que soa igual ao verbo inglês to hide, 'esconder', 'ocultar'). O lado negro do médico torna-se cada vez mais difícil de controlar, e finalmente sobrepuja a personalidade de Jekyll.

A versão de 1932, de Robert Mamoulian (diretor de Rainha Cristina e A Marca do Zorro), feita antes do infame Código Hays, de autocensura, ser imposto em 1934, é a mais explícita e normalmente considerada a melhor adaptação da novela. O filme é o que melhor trata a personalidade de Hyde como uma extensão da personalidade de Jekyll, e sugere que o mal está ligado ao lado primitivo do ser humano. O ator Fredrich March, que dividiu com Wallace Beery (este, por O Campeão) o Oscar de Melhor Ator de 1932, utiliza uma maquilagem pesada, inspirada na aparência do homem de Neandertal. Quando Jekyll toma a poção, Hyde emerge como um homem-macaco ansioso por experiências sensoriais: comer, beber, fazer sexo. As cenas de transformação são as mais impressionantes de todas as versões, usando um recurso visual bastante simples, mas extremamente eficiente: a maquilagem de Hyde foi feita com tinta vermelha, que, filmada sob luz vermelha, torna-se invisível em preto-e-branco. Durante a transformação, a luz é trocada aos poucos por luz azul, que faz revelar a maquilagem.

A versão de 1920, de Robert S. Robertson, é a melhor das sete versões silenciosas americanas (há outra no mesmo ano), e apresenta John Barrymore no papel duplo, numa interpretação, que embora muito exagerada, tornou-se o padrão, com a qual todas as caracterizações posteriores foram julgadas. Seu esforço em interpretar a transformação sem usar efeitos especiais fez com que muitos críticos o considerassem então o melhor ator cinematográfico que já aparecera. O roteiro combina a novela de 1897, de Richard Mansfield, e toma emprestado o personagem de Lord Henry, de O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, transformando-o em Sir George Carew, o cínico que incentiva Jekyll a continuar os experimentos bioquímicos. O filme, como faria a maior parte das adaptações posteriores, segue a tendência da ficção vitoriana de igualar o "mal" ao "desejo sexual despudorados" das camadas mais inferiores da sociedade.

É difícil acreditar que O Mágico de Oz, ...E o Vento Levou e a versão de 1941 de O Médico e o Monstro tenham sido dirigidas pela mesma pessoa. A versão de Victor Flemming é a mais naturalista e psicológica, e, certamente, a mais elegante de todas. A MGM deu à produção um tratamento de orçamento alto e grandes estrelas. Spencer Tracy, escalado para o papel contra sua vontade, dispensou, a exemplo de John Barrymore, maquilagem excessiva. A atuação de Tracy é memorável, como também, a de Ingrid Bergman, no papel da garçonete cuja vida Hyde inferniza. Ingrid Bergman estava escalada para o papel da noiva, e Lana Turner para o da garçonete; mas Flemming trocou os papéis, a pedido de Bergman, produzindo interessante inversão de tipos.

As pretensões freudianas do filme evidenciam-se nas cenas de transformação, nas quais vemos os curiosos delírios sexuais de Jekyll, como aquele em que Hyde dirige uma carruagem puxada por Bergman e Turner, ambas chicoteadas com evidente prazer. Menos do que um filme de horror, a versão de Flemming é uma perversa história de amor.

A história original de Stevenson gerou versões bastante curiosas. Em 1971, a Hammer lançou uma interessante variação, O Médico e a Irmã Monstro (Dr. Jekyll and Sister Hyde), de Roy Ward Baker, no qual o Dr. Jekyll transforma-se em uma versão feminina de Hyde.

Em 1980, surgiu uma paródia razoavelmente engraçada, Dr. Heckyll and Mr. Hype, de Charles Griffith, lançada pela Cannon.

No campo das comédias, porém, a melhor adaptação ainda é O Professor Aloprado (The Nutty Professor / 1963), de Jerry Lewis.

Mas a mais famosa recriação de O Médico e o Monstro surgiu nos quadrinhos: O Incrível Hulk, criado por Stan Lee e Jack Kirby, que, na década de 70, tornou-se popular seriado de tevê, que se aproximava ainda mais do original de Stevenson.

(publicado em  CINEMIN 65 / pág. 23)

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