Luis Buñuel Portolés (Calanda, 22 de fevereiro de 1900 — Cidade do México, 29 de julho de 1983)
Texto punlicado na revista Machewte depoisd da morte do cineasta.
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O ÚLTIMO SUSPIRO DE LUIS BUÑUEL, UM DOS GRANDES DIRETORES
Era um anarquista, um marxista, um surrealista e um agnóstico genial
FOI-SE o último do cinema mudo. Ou o penúltimo, se quiserem, considerando que Billy Wilder ainda está em grande atividade. Na sexta-feira passada, Luis Buñuel teve a morte “lenta e esperada”, numa cama de hospital da Cidade do México. Não houve velório e o corpo foi imediatamente cremado no cemitério, conforme a vontade do cineasta. “Eu amo a zoom clandestina e a grau invisível!” costumava dizer El Magnífico, como seu ar de jardinheiro obstinado. O acabamento de seus filmes era desleixado — ou pelo menos circulava esse lugar-comum.
Em 83 anos de vida, Luis Buñuel deixou 30 ou 40 cinema, realizando 33 filmes como diretor e outros quatro como produtor. Seu livro autobiográfico Meu Último Suspiro é um sucesso. Hoje seu primeiro filme, Un Chien Andalou, em 1928, chocava por uma das imagens escabrosas como também pelo primitivismo surrealista. Em 1967, Belle de Jour — seu filme mais comercial — atraiu outras gerações de burgueses; já então como busca do escândalo, só é pouco pelo avesso. Pela falta de desleixo. O desleixo, evidentemente, era um preconceito do público ou dos críticos, que o tempo se incumbiu de dissolver.
O próprio cineasta comentou, em 1967, com Le Nouvel Observateur: “O British Film Institute de Londres, para me homenagear, exibe filmes incríveis como O Bruto, que poderia ter sido interessante, mas na verdade é de uma enorme vulgaridade; ou La Ilusión Viaja en Tranvía, que é uma idiotice; ou El Río y la Muerte, uma mediocridade.” Não pensava que esses filmes ainda existissem. Muito menos que ainda estivessem sendo exibidos em toda cinemateca. Certamente, assumo a responsabilidade por eles, porque os fiz. Mas não têm interesse.”
Enfim, mesmo sob as condições mais rígidas de um cinema comercial e vulgar, eu trabalharei sempre de acordo com a minha consciência. Nenhum dos meus filmes contém um detalhe qualquer que contrarie as minhas convicções morais ou políticas. Dentro desses limites, fiz o que me foi proposto fazer.” E muito mais. Seus filmes certamente hoje são um patrimônio do cinema. Buñuel amava o cinema. Na juventude, via às vezes três ou quatro filmes por dia. Adorava Buster Keaton, Ben Turpin, Jean Vigo. O Retrato de Jennie (de Selznick e Dieterle), Fellini (só vi um pedaço de 8 1/2 e quis sair no meio de A Doce Vida, mas, como a sala estava cheia e trancada, acabei vendo — e amando — o filme todo). Polanski, Deus e o Diabo na Terra do Sol.
Em compensação, detestava os neorrealistas (com algumas exceções), Marco Bellocchio, Alfred Hitchcock (que, entretanto, no momento da foto ao lado, se referia a Buñuel como “o melhor de todos nós”). Só uma Colúmbia, a produtora de seu único filme americano, A Adolescente, ele dizia: “Comprei a inteligência para melhorar ou duzi-la a zero.” Jamais perdoou Hollywood pelo meio lançamento desse filme. Por outro lado, jamais teria trabalhado na URSS. Era um velho anarquista e os russos sabiam. Não o convidariam e nem deixariam que ele filmasse lá.
Ainda assim, um dos projetos não realizados de Buñuel era filmar a revolução soviética e a traição do poder subsequente, dos dirigentes pós-Lenin. Outro projeto: filmar a vida do bruxo francês medieval Gilles de Rais. O barba Azul. E o último: um filme sobre o terrorismo nada mais atual, com anotações de Dostoiévski, discutir o papel histórico do niilismo e do totalitarismo (Os Possuídos) e 70 anos depois do Conrad publicar Under Western Eyes. Buñuel lia Marx e Engels, “antes de mais nada”.
Ele nasceu em Calandra (província de Teruel), numa rica família abastada da burguesia rural da época. A mãe era devota; o pai, católico por mera tradição, mas liberal e muito exigente. Ele lutou contra os americanos em Cuba, e foi um desastre, um senhorio industrial, acrescentando o tratamento Don a seu nome, o que, na Espanha, é símbolo de importância. A educação de Luis (o primogênito de sete irmãos) foi portanto rígida e austera. Aluno de colégio de padres, ele depois passou para os jesuítas de Saragoça. Basta ver seus filmes para perceber que ficou profundamente marcado por aqueles anos. Só os surrealistas lhe deixaram uma impressão mais funda — e isto bem depois de ele começar a estudar engenharia na Universidade de Madri e acabar formando-se em filosofia, em 1924.
Em seus filmes, Buñuel demolía a moralidade convencional. Sacudia os pilares da burguesia — ou de várias burguesias: a que, nos anos 20, se chocava por ver mulher nua no cinema e a que hoje não passa sem os palavrões nem as audácias envolvendo estátuas e partes íntimas do corpo humano. Mendigos descarregando-se da caridade recebida com uma bacanal sacramental sob asco de Haendel. A família burguesa fazendo reflexões na intimidade do banheiro e as necessidades no público, na sala de jantar. O diabo barbado com o corpo de Silvia Pinal. A freira pecadora ajudando a compor o ménage à trois.
Tristana com a perna amputada e mostrando o corpo ao moleque no cio. Archibaldo de la Cruz interrompendo constantemente as suas tentativas de assassinato. A burguesia de O Charme Discreto interrompida constantemente à mesa do jantar. Os nobres de O Anjo Exterminador querendo sair da mansão e jamais conseguindo, sem nenhuma razão aparente. O corpo atirado no lixo, em Os Esquecidos. Fernando Rey gritando “Viva os vivos!” num cemitério, em Tristana. Os teólogos esgrimindo, em La Voie Lactée. O quixotesco Padre Nazário à sua peregrinação em companhia de uma prostituta. Tudo isto é puro Buñuel.
Em O Alucinado (El), o velho cineasta mostrava melhor o que mais tem nas suas faculdades de psicanálise e terror psicológico. Buñuel, aliás, sempre fascinou pelo choque, a loucura, o psiquismo, o recalque, a inveja e a hipocrisia.
Ao contrário dos cineastas brasileiros — que, segundo Gustavo Dahl, ainda não têm muita coragem de filmar — Buñuel tinha um mestre e com ele dialogava em tandem. Colocava os símbolos místicos católicos em situações de escândalo. E usava métodos dos surrealistas franceses.
José Guilherme Correa — Manchete

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