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terça-feira, abril 14, 2026

Correio de S.Paulo 24 de Junho de 1936



Anno V — S. Paulo — Quarta-feira, 24 de Junho de 1936 — Num. 1.234

GRITOS E GEMIDOS LÚGUBRES no mystério da noite

De há dias para cá, os moradores das Pérdizes vivem aterrados pelos gritos vindos do Villa Sophia.
Vários homens da ronda noturna foram feridos pelos phantasmas.
A imaginação popular é unânime: apparecem almas penadas vestidas de branco, soltando alaridos e cometendo agressões inexplicáveis.

As autoridades, alertadas pelos moradores, enviaram guardas para o local. A ronda nocturna, entretanto, tem sido infrutífera, visto que os vultos brancos surgem e desaparecem rapidamente, deixando apenas um cheiro estranho e um rastro de pânico.


DOIS TIROS CONTRA O PHANTASMA

Ontem, o chofer Cipriano de tal (nome ilegível), ao passar pela rua (ilegível) em direção ao Villa Sophia, viu diante de si uma figura branca. Pensando tratar-se de um ladrão mascarado, sacou do revólver e desfechou dois tiros.
O vulto, porém, não caiu — limitou-se a erguer os braços e soltou um gemido horrível, esvaindo-se logo em seguida na escuridão.

O caso, confirmado por vários moradores, augmentou a consternação no bairro.


A matéria segue o estilo clássico do sensacionalismo jornalístico dos anos 1930, quando muitos periódicos brasileiros exploravam o sobrenatural como forma de entretenimento, misturando notícias policiais com fantasia popular.

1. Linguagem típica do período

O texto emprega grafia da ortografia anterior a 1943 (“ph”, “apparecem”, “augmentou”, “mystério”, “nocturna”), o que reforça o caráter histórico e o clima gótico-folhetinesco.

2. Estrutura narrativa de folhetim

A notícia é construída como uma história de terror seriada, com:

  • ambientação noturna

  • vultos brancos

  • gritos lúgubres

  • moradores aterrados

  • guardas atacados

É quase um conto fantástico, mas apresentado como fato jornalístico. Típico de jornais que queriam vender mais ao alimentar boatos locais.

3. O “phantasma” invulnerável

O episódio do motorista que atira duas vezes no suposto fantasma — e o ser permanece de pé, apenas soltando gemidos — reforça a sensação de impossibilidade física e, ao mesmo tempo, a teatralidade da narrativa.
Esse tipo de relato circulava muito antes da consolidação do jornalismo profissionalizado.

4. Localização emblemática: Vila (ou Villa) Sophia, Perdizes

Perdizes nos anos 1930 ainda era uma área com muitas chácaras, terrenos vazios e construções isoladas — terreno fértil para lendas urbanas.
A presença do Casino de Villa Sophia, citada no rodapé, sugere que o local tinha reputação conhecida, talvez associada a festas e histórias misteriosas.

5. Função social da matéria

Notícias desse tipo tinham três funções:

  1. Entreter — funcionavam quase como literatura popular.

  2. Propagar boatos — reforçando imaginários coletivos sobre assombrações.

  3. Vender jornal — manchetes sobre “gritos”, “gemidos”, “phantasmas” eram campeãs de venda.

6. Notável diálogo com o cinema de horror da época

Em 1936, o Brasil vivia o impacto cultural dos grandes filmes da Universal (Drácula, Frankenstein, Múmia, Lobisomem).
Este tipo de matéria espelhava o sucesso do horror importado, traduzindo o imaginário sobrenatural para o espaço urbano paulistano.



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