Trata-se de um objeto editorial bastante revelador do momento em que o cinema underground começa a ser sistematizado como campo de estudo, sobretudo no Brasil.
A capa de Underground – uma introdução ao cinema underground, de Sheldon Renan, aposta numa estética claramente alinhada ao espírito que o livro descreve:
Imagem fragmentada de um rosto feminino, em alto contraste, quase “rasgada”, remetendo à colagem, ao experimentalismo e à recusa da imagem clássica e íntegra do cinema industrial.
O uso do roxo/magenta no título reforça a associação com contracultura, psicodelia e artes marginais dos anos 1960 e 1970.
A tipografia irregular de “UNDERGROUND” sugere ruptura, informalidade e um certo gesto de afronta gráfica ao design editorial tradicional.
Há um diálogo visual direto com o cinema de vanguarda americano, o cinema experimental, o Warhol dos Screen Tests, o Jonas Mekas diarístico, e até com a iconografia da imprensa alternativa.
A capa, portanto, não é apenas ilustrativa: ela performativiza o conceito de underground.
O texto da contracapa é especialmente significativo porque revela a recepção histórica do tema no Brasil:
O livro é apresentado como o “primeiro estudo fluente” sobre o filme underground americano, o que indica um esforço de legitimação acadêmica e crítica.
O discurso equilibra entusiasmo (“excitante campo novo da expressão artística”) e cautela institucional (“sujeita a controvérsias”), típico de quando práticas marginais começam a entrar no circuito editorial.
Renan é descrito como alguém que:
Analisa subjetividade, técnica, estilo e processos de produção;
Constrói uma história geral do avant-garde americano;
Cataloga carreiras, créditos e filmografias de 26 realizadores centrais, o que dá ao livro um valor documental enorme;
Discute a tensão entre underground e “establishment”, tema crucial para entender a absorção do experimental pelo mercado e pelos museus.
A menção ao futuro do cinema e aos “filmes cibernéticos” denuncia o otimismo tecnológico típico do período, antecipando debates que hoje associamos à videoarte, cinema expandido e mídias digitais.
Este livro ocupa um lugar-chave porque:
Funciona como ponte entre contracultura e crítica formal.
Ajuda a explicar como o cinema underground deixou de ser apenas prática marginal para se tornar objeto de arquivo, teoria e canonização.
Para quem estuda cinema de gênero, experimental ou mesmo o diálogo entre horror, vanguarda e transgressão, Renan é fundamental, especialmente na leitura de cineastas como:
Andy Warhol
Em síntese
É um livro que:
Não apenas explica o cinema underground,
Mas encena editorialmente seus valores,
E marca um momento em que o marginal começa a ser historicizado sem perder totalmente seu caráter subversivo.
Para pesquisa, crítica ou reflexão histórica, trata-se de um volume canônico e ainda muito atual, especialmente quando relido à luz da institucionalização contemporânea do experimental e do “cinema de borda”.


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