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quarta-feira, abril 01, 2026

The New York Ripper (1982)


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The New York Ripper (“O Estrangulador de Nova York”, 1982) é um dos filmes mais polêmicos e controversos do ciclo giallo tardio, dirigido por Lucio Fulci, que aqui leva o gênero ao limite da brutalidade e da degradação urbana.



Lançado num momento em que o giallo já começava a perder força, The New York Ripper surge como uma resposta desesperada — e ultraviolenta — de Fulci ao declínio do gênero e à ascensão do slasher americano.
O filme se apropria da atmosfera dos thrillers policiais dos anos 70 (como O Exorcista Urbano e Maniac) e a funde com o sadismo estilizado típico do giallo.
O resultado é um híbrido doentio entre o horror erótico italiano e o neo-noir nova-iorquino, filmado em locações decadentes da cidade real — metrôs sujos, motéis fétidos, luzes de neon sobre corpos despedaçados.



A trama acompanha um detetive que investiga uma série de assassinatos brutais cometidos por um serial killer que imita o som de um pato ao telefone — um detalhe tão absurdo quanto perturbador.
As vítimas são quase sempre mulheres associadas ao desejo e à sexualidade, o que faz o filme dialogar (de modo ambíguo e provocador) com o discurso moralista da época.

Por trás da fachada de um whodunit, Fulci constrói um retrato mórbido do desejo masculino e da violência como espetáculo, refletindo o estado de decomposição moral da metrópole.



Fulci, conhecido por seu domínio do gore e pela atmosfera febril, aqui abandona o onírico e o metafísico (de O Além, Pavor na Cidade dos Mortos-Vivos) para criar um realismo sujo, quase pornográfico.
A câmera se demora em detalhes do corpo — cortes, lâminas, feridas — de modo quase clínico.
A fotografia granulada e o uso agressivo de zooms e travellings criam uma sensação de voyeurismo constante.

A violência é não apenas explícita, mas eroticamente coreografada, o que faz o filme ser lido tanto como misoginia extrema quanto como crítica da própria cultura do olhar masculino, algo que antecipa debates que o cinema de terror só retomaria décadas depois.



O assassino que imita um pato é uma metáfora grotesca do homem infantilizado e reprimido sexualmente, uma figura patética que destrói o que deseja.
A Nova York filmada por Fulci é um corpo apodrecido, espelho da psique doentia de seus habitantes — o sexo, aqui, é sempre uma promessa de morte.

Em nível simbólico, o filme fala sobre a fragmentação do corpo feminino e a desumanização do erotismo na sociedade de consumo.
A câmera de Fulci, ao mesmo tempo cúmplice e acusatória, parece dizer: o horror está no espectador, não apenas na tela.



The New York Ripper foi banido ou censurado em vários países, inclusive no Reino Unido, acusado de ser “pura pornografia de violência”.
Mas hoje, é reconhecido como um marco transgressor, antecipando a crueza do torture porn e a crítica implícita à espetacularização do horror.

Fulci transforma o giallo em algo próximo de Peeping Tom (Michael Powell, 1960) — um espelho obsceno da própria pulsão voyeurística do público.



The New York Ripper é um filme doente sobre uma sociedade doente.
Não há redenção, nem beleza estilizada, apenas o reflexo de uma era em decomposição moral e estética.
É um filme que repudia e celebra o horror ao mesmo tempo, desconfortável e impossível de ignorar — um verdadeiro testamento do cinismo e da desesperança de Fulci diante do fim do giallo.

“O horror aqui não é sobrenatural — é humano, urbano e pornográfico. É o rosto real do inferno dos anos 80.”

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