NOS ACOMPANHE TAMBÉM :

quarta-feira, abril 22, 2026

Halloween como sempre na Casa de Amityville



NEWSDAY, QUINTA-FEIRA, 1º DE NOVEMBRO DE 1979



Halloween como sempre na Casa de Amityville

Por Bill Mason e Stephen Williams

Amityville — Foi apenas mais um Halloween na “Casa do Horror de Amityville”: curiosos e criaturas fantasiadas, seguranças particulares e crianças pedindo doces, gritos de quem passava e bebidas para os convidados da festa lá dentro.

Apesar da enorme publicidade do ano passado, James e Barbara Cromarty decidiram realizar sua terceira festa anual de Halloween na noite passada, na casa da Ocean Avenue.

Graças à cerca de arame e aos seguranças, os convidados sem convite foram mantidos a uma distância razoável. Ainda assim, houve algumas cenas ocasionais na rua: um homem saiu correndo da casa gritando, depois voltou, entrou novamente e foi embora de carro.

Lá dentro, o clima era festivo. Não havia nenhuma abóbora esculpida ou bruxa de papelão à vista, mas havia muitas bebidas, comidas frias e curiosos entre os 100 ou mais convidados.

A maioria dos convidados conhecia a história da casa de três andares: que Ronald DeFeo assassinou seus pais, dois irmãos e duas irmãs ali em 1974; que, depois, George e Kathleen Lutz compraram a casa em 1975, dizendo ter encontrado espíritos malignos.

O resultado foi um livro best-seller, um filme de grande sucesso e, para a casa, uma reputação que os atuais proprietários consideram mais um passivo do que um ativo.

Embora os Cromarty não morem na casa — ela é confiada ao zelador Frank Burch —, eles voltaram na noite passada para manter uma tradição iniciada três anos atrás “para tirar a mente das pessoas do que estava acontecendo lá fora”, disse Barbara Cromarty.

O que acontecia do lado de fora era uma loucura ocasional: bêbados gritando por Ronald DeFeo, outros estacionando e encarando, algumas invasões e vandalismo. Mas os convidados da noite passada pareciam mais fascinados do que assustados.

“Eu sempre ouvi que, se eu entrasse, sentiria algo estranho”, disse Bill Peters, que estava acompanhando a celebridade local Suzy Chafee, do comercial “Suzy Chapstick”. “Mas não é nada disso… todo mundo é tão simpático e as fantasias são tão criativas.”

Os anfitriões se fantasiaram tanto de dia quanto de noite (a Sra. Cromarty à noite). O tio de Cromarty, o juiz Arthur Cromarty, da Suprema Corte do Estado, se vestiu de juiz. Ele se recusou a comentar o aspecto de horror da casa, mas elogiou as “fantasias maravilhosas”.

Laura Baach, 20 anos, de Massapequa, vestida como Peter Pan, disse: “Nunca foi tão divertido”. Mas como saber se alguém recebeu um convite para a festa do Horror de Amityville e não foi? Ainda assim, admitiu: “É só como qualquer outra festa.”

Do lado de fora, porém, não. A maioria dos jovens ficou longe da cerca, dos seguranças e do famoso porco de olhos vermelhos que supostamente habitava a casa. Antes do pôr do sol, no entanto, duas jovens pedindo doces se aproximaram da casa e receberam M&M’s dos Cromarty.

“Todo mundo por aqui acha que é uma piada”, disse a corajosa Wendy Moore, 14 anos, da 305 Richmond Ave. “Nós não temos medo de entrar lá.”


1. Contexto histórico imediato (1979)

A matéria foi publicada em 1º de novembro de 1979, momento em que o caso Amityville já havia ultrapassado o âmbito policial e se consolidado como fenômeno midiático internacional. O livro The Amityville Horror (1977), de Jay Anson, e o filme homônimo de 1979, dirigido por Stuart Rosenberg, haviam transformado a casa em símbolo do horror pop, misturando crime real, alegações sobrenaturais e exploração comercial.

O texto surge, portanto, no olho do furacão cultural, quando a residência já não é apenas um local físico, mas um espaço mitológico.


2. A estratégia narrativa do jornal

O tom adotado por Newsday é deliberadamente banalizante. Logo na abertura, o Halloween é descrito como “apenas mais um”, estratégia que:

  • reduz o peso do horror,

  • normaliza o espaço,

  • e desloca o foco do sobrenatural para o comportamento humano ao redor da casa.

Essa escolha é típica do jornalismo local norte-americano da época, que buscava reapropriar-se da narrativa após a espetacularização promovida pelo cinema e pela literatura sensacionalista.


3. A casa como passivo simbólico

Um dos trechos mais reveladores é a afirmação de que a fama da casa passou a ser vista pelos proprietários como “um passivo, não um ativo”. Isso indica:

  • desgaste social;

  • invasões frequentes;

  • vandalismo;

  • presença constante de curiosos, bêbados e fanáticos.

A casa deixa de ser um “lugar maldito” e passa a funcionar como polo de atração patológica, algo que antecipa discussões contemporâneas sobre turismo do horror (dark tourism).


4. Deslocamento do medo: do sobrenatural para o social

O texto faz algo muito interessante: o perigo não está dentro da casa, mas fora dela.

  • bêbados gritando o nome de Ronald DeFeo,

  • invasões,

  • pessoas estacionando apenas para “olhar”.

O medo, aqui, é urbano e social, não paranormal. O sobrenatural é tratado quase como um ruído cultural que perdeu potência diante da repetição midiática.


5. O Halloween como ritual de dessacralização

A festa de Halloween organizada pelos Cromarty funciona simbolicamente como:

  • um ritual de dessacralização do espaço;

  • uma tentativa de reapropriação doméstica;

  • e uma forma de afirmar normalidade frente ao mito.

Ao transformar a casa em cenário de festa, bebida e fantasias, os anfitriões retiram o controle simbólico da narrativa do horror.

É uma inversão poderosa: o local do medo vira local de sociabilidade.


6. Celebridades locais e cultura pop

A presença de Suzy Chafee, garota-propaganda do ChapStick, reforça a fusão entre:

  • horror,

  • consumo,

  • publicidade,

  • e espetáculo.

Amityville já não pertence ao oculto, mas ao entretenimento. O comentário “todo mundo é tão simpático” soa quase como uma negação performática do mito.


7. O porco de olhos vermelhos: o mito residual

O texto menciona o famoso “porco de olhos vermelhos”Jodie — apenas de passagem, quase com ironia. Ele aparece:

  • como lenda persistente,

  • mas já esvaziada de terror real,

  • restrita à imaginação de quem observa de fora da cerca.

Isso revela como o mito começa a perder centralidade, sobrevivendo apenas como curiosidade folclórica.


8. As crianças e a quebra final do medo

A cena final, com duas meninas pedindo doces e recebendo M&M’s, é crucial:

  • encerra a matéria com um gesto de normalidade absoluta;

  • desmonta o discurso do horror;

  • transforma a casa em mais um ponto do circuito do Halloween.

A fala da adolescente Wendy Moore — “não temos medo de entrar lá” — sela o texto com uma declaração geracional: o mito já não assusta quem cresceu com ele.


9. Leitura crítica geral

A matéria não tenta provar nem refutar o sobrenatural. Seu verdadeiro tema é outro:

o esgotamento do medo quando o horror vira produto cultural.

Amityville, em 1979, já é menos um mistério e mais um objeto de consumo simbólico, algo que ecoa diretamente em discussões atuais sobre true crime, franquias de terror “baseadas em fatos reais” e a diluição do impacto emocional pelo excesso de exposição.


Nenhum comentário :