"O Estrangeiro"

Albert Camus and his cat, Cigarette v
(...)
"Era o mesmo sol do dia em que a minha mãe fora
enterrada e, como então, doía-me a testa, sobretudo a testa, e todas as suas
veias batiam ao mesmo tempo debaixo da pele. Por causa desta queimadura que já
não podia suportar mais, fiz um movimento para a frente. Sabia que era
estúpido, que não me iria desembaraçar do sol simplesmente por dar um passo em
frente. Mas dei um passo, um só passo em frente. E desta vez, sem se levantar,
o árabe tirou a navalha do bolso e mostrou-ma ao sol. A luz refletiu-se no aço
e era como uma longa lâmina faiscante que me atingisse a testa. No mesmo
momento, o suor amontoado nas sobrancelhas correu-me de súbito pelas pálpebras
abaixo e cobriu-as com um véu morno e espesso. Os meus olhos ficaram cegos, por
detrás desta cortina de lágrimas e de sal. Sentia apenas as pancadas do sol na
testa e, indistintamente, a espada de fogo brotou da navalha, sempre diante de
mim. Esta espada a arder corroía-me as pestanas e penetrava-me nos olhos
doridos. Foi então que tudo vacilou. O mar enviou-me um sopro espesso e
fervente. Pareceu-me que o céu se abria em toda a sua extensão, deixando tombar
uma chuva de fogo. Todo o meu ser se retesou e crispei a mão que segurava o
revólver. O gatilho cedeu, toquei na superfície lisa da coronha e foi aí, com
um barulho ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo principiou. Sacudi o
suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio
excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Voltei então a disparar mais
quatro vezes contra um corpo inerte, onde as balas se enterravam sem se dar por
isso. E era como se batesse quatro breves pancadas, à porta da desgraça."
(...)
Crédito: CAMUS, Albert. O Eostrangeir. São Paulo, Abril
Cultural, 1979, pág. 222
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