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sábado, outubro 24, 2026

ALLEN encontra SCORSESE - Folha de São Paulo

foto criada por IA


Data: 30/Jan/98
Autor:
Editoria: Ilustrada
Página: 4-12
Edição: Nacional
Seção: Multimídia


Numa conversa em NY, os dois diretores norte-americanos discutem sobre atores, suas influências e Hollywood
do "El País Semanal"
Com novos filmes no mercado, -"Deconstructing Harry" e "Kundun", respectivamente-, Woody Allen e Martin Scorsese, dois dos diretores ao mesmo tempo clássicos e inconformistas do cinema norte-americano, falam frente a frente dos filmes que admiram e do sistema do qual tentam de fugir. Duas das personalidades mais carismáticas da sétima arte atual, travam aqui um debate.
Embora trabalhem para o sistema, nenhum dos dois diretores pertence a ele. Devem ser considerados como dois "proto-independentes" que seguem a pauta marcada pelos criadores europeus dos anos 60, mesmo não desprezando o dinheiro de Hollywood.
O novo filme de Scorsese, "Kundun", que fala da juventude do Dalai Lama, e o de Allen, "Deconstructing Harry", escrito, dirigido e protagonizado por ele, são exemplos do cinema americano mais audacioso.
"Deconstructing Harry" deve estrear no Brasil em março, enquanto "Kundum" não tem data prevista para entrar em cartaz.
Em uma tarde de sábado de outubro passado, os dois diretores se encontraram no elegante escritório de Scorsese em Park Avenue, em Manhattan.
Apesar de serem nova-iorquinos e da mesma geração, praticamente não se conheciam. Allen passou a maior parte do tempo encolhido em um sofá, enquanto Scorsese, vestido de preto dos pés à cabeça, e sentado bem reto em uma cadeira, dirigia a conversa.
*
Martin Scorsese - Encontramo-nos algumas vezes por casualidade.
Allen - Lembro-me de ter visto você, já faz alguns anos, em uma loja de vídeo da Broadway.
Scorsese - Foi muito divertido. Eu estava procurando "Itïs in the Bag", de Jack Benny e Fred Allen.
Allen - É mesmo, agora lembrei! Por que estava tão interessado nesse filme?
Scorsese - Gosto muito dele. Gosto demais de Fred Allen e também de Jack Benny.
Allen - Mas, pelo que eu me lembro, esse filme não teve muito sucesso...
Scorsese - Não, não teve mesmo.
Allen - Mas os dois trabalhando juntos é demais.
Scorsese - Lembro que você estava procurando um filme de Buñuel, "Os Esquecidos", acho...
Allen - É mesmo, isso.
OUTROS DIRETORES
Scorsese - Tenho algumas fases em que só assisto a filmes antigos, principalmente quando estou rodando ou editando algum filme.
Allen - Não fica deprimido quando assiste a um filme muito bom enquanto está fazendo um filme?
Scorsese - Não, não fico deprimido, mas isso me obriga a rever o que estou fazendo. Às vezes, torna-se difícil, principalmente se é na fase da filmagem. Se for a obra de um diretor jovem e novo, o que a gente pensa é: "Vou me sair bem na comparação?"
Allen - Ingmar Bergman também dizia isso. Afirmava que não podia assistir a nenhum filme -nenhum filme bom- enquanto estava filmando porque perdia toda a confiança nele mesmo. Eu o compreendo perfeitamente, é tão difícil manter a autoconfiança durante os dez meses ou um ano que se leva para fazer um filme...
Scorsese - É. Algumas vezes também acontece isso quando se trata dos grandes clássicos. No último final de semana, decidi assistir novamente a minha antiga cópia em tecnicolor de "Um Corpo que Cai". É verdadeiramente genial!
Allen - Assistir a uma obra de arte filmada por outra pessoa acaba com a autoconfiança. São trabalhos prontos: já foram montados, editados, sua cor foi corrigida. Enquanto isso, você está aí, rodeado de um monte de copiões pouco promissores (risada). Fica difícil continuar trabalhando.
Scorsese - Uma vez, quando estava no meio da filmagem de "Os Bons Companheiros", eu estava cansado e comprei uma cópia de "Man with a Movie Camera", de Dziga Vertov, um diretor russo. Nunca tinha visto nada igual, mal podia esperar que fosse segunda-feira para voltar a trabalhar.
Allen - Isso é inspiração.
HOLLYWOOD
Scorsese - Fui a Hollywood para montar "Woodstock". Eu não era um hippie. Quando estive em Woodstock, usava camisas e abotoaduras francesas -por sinal perdi uma delas no festival. Depois fui para Los Angeles, onde me transformei num típico habitante local. Consegui abrir caminho e fiz o primeiro filme com Roger Corman. Depois fiz "Taxi Driver - Motorista de Táxi". Achei que devia ir embora, mas gostei de tudo aquilo.
Allen - Você ficou bastante tempo lá.
Scorsese - Sim, mas todos continuavam me considerando um forasteiro.
Allen - Mas você se saiu muito bem. Foi capaz de conseguir dinheiro para fazer seus filmes e os fez do jeito que queria. Acho isso uma conquista.
Scorsese - Tive muita sorte. O sucesso nos anos 70 se deveu grande parte a Robert De Niro. Os estúdios estavam encantados com ele, e, depois de "Taxi Driver", sempre estavam dispostos a oferecer seu apoio, obviamente sempre que houvesse um papel para De Niro.
Ele estava interessado em fazer "Touro Indomável". Antes de começar a rodar, fiquei quatro anos preparando o filme. Assim, entrei nos anos 80 e praticamente precisei começar tudo de novo.
Allen - Eu tive muita sorte, a sorte dos novatos. Quando fiz meu primeiro filme, ninguém esperava nada de mim. A única coisa que os estúdios fizeram foi me apoiar.
Scorsese - Nos estúdios, é necessário passar por todo um processo no que se refere aos roteiros, é necessário levar em consideração as observações que eles fazem.
Mas eu tento filtrar as observações, porque eles, embora estejam muito bem-intencionados, têm que fazer filmes para o mercado.
Mas para mim as coisas não são assim. Preciso fazer o que eu gosto e depois espero que exista alguém interessado em assisti-lo. Lembro-me de "Os Bons Companheiros": respeitei os prazos e fiz tudo o que podia. Quando os executivos do estúdio assistiram ao filme, gostaram, mas exigiram que fizéssemos algumas pré-estréias, e por causa disso surgiram problemas.
Allen - As pessoas saíam da sala?
Scorsese - Sim, foi um horror! Depois da primeira cena das facadas, houve um pequeno êxodo. As pessoas deveriam saber qual é o tipo de filme que vão ver.
SEUS FILMES
Allen - Fiz meus primeiros filmes no fim dos anos 60, mas nunca mais os vi.
Scorsese - Nem eu.
Allen - Você não assistiu a "Touro Indomável"?
Scorsese - Está brincando? Nem morto.
Allen - Se você assistisse a esse filme agora, não pensaria: "Gostaria de mudar isto" ou "não poderia ter feito tudo isto melhor"?
Scorsese - Esse filme me traz muitas lembranças.
Allen - Mas você sente isso em relação a todos seus filmes, não é?
Scorsese - Sim, por isso tenho tantos problemas em assisti-los.
Allen - O que eu não suporto quando assisto a um filme meu é a crueldade de perceber que se pudesse começar de novo poderia fazê-lo muito melhor.
Scorsese - De vez em quando, assisto a algum dos meus filmes na TV. Mas com o som desligado.
SUAS POSIÇÕES
Allen - Espero que você tenha percebido o grande impacto causado pelo seu trabalho sobre todos estes cineastas jovens. Não pode deixar isso passar batido. É seu estilo de filmar, o conteúdo de seus filmes e a forma como os dirige. Eu não acredito ter influenciado ninguém. Não é falsa modéstia.
Scorsese - Isso não é verdade. Sem dúvida seus filmes abriram caminho para um determinado estilo de comédia. Não existe nada igual a eles.
Allen - Eu não percebo essa influência, mas acho que é uma sorte ter podido trabalhar com tanta liberdade. Sempre lidei com orçamentos relativamente baixos, não até o extremo daqueles garotos negros da Califórnia que fazem filmes maravilhosos.
Scorsese - Sei, os irmãos (Albert e Allen) Hughes, não é? "Perigo para a Sociedade" é excelente.
Allen - Você também acha? É surpreendente como esses caras conseguem, quase sem dinheiro, fazer filmes excelentes. Eu trabalhei com orçamentos relativamente baixos, mas que não podem nem se comparar aos deles.
Scorsese - Nem sequer me passou pela cabeça pensar quanto custou "Perigo para a Sociedade", porque o filme funciona.
Por isso reaprendi tudo para fazer "Depois de Horas" com um orçamento mais baixo. Precisei abaixar meu nível de vida. Quando estava filmando, um amigo me disse: "Não quer voltar para Los Angeles e fazer um filme de verdade?" Mas depois disso fui capaz de fazer um filme de estúdio, "A Cor do Dinheiro", e ter dois grandes astros (Paul Newman e Tom Cruise) como protagonistas.
Allen - Conseguiu controlar a situação?
Scorsese - Consegui controlar a situação e não estourar o orçamento. Depois disso filmei "A Última Tentação de Cristo" com um orçamento de apenas US$ 7 milhões. De certa forma, estava outra vez no caminho, fazendo o tipo de filme que eu gosto de fazer.
Allen - Eu preferiria que meus filmes fossem mais populares. Mas nunca farei nada para isso. Os custos com a publicidade superariam os rendimentos da bilheteria. Além disso, quando as críticas são boas, nem sempre são úteis.
Scorsese - "O Rei da Comédia" obteve boas críticas, mas foi um desastre de bilheteria. Mas a minha carreira sempre teve o apoio da crítica. De certa forma dependo da crítica. Ela torna possível que estúdios dêem dinheiro para fazer o próximo filme. Nunca se sabe qual é o estúdio que vai querer produzir seu filme.
"Kundun" foi da Universal à Disney, passando pela Warner Brothers. Para mim leva anos conseguir fazer um filme a partir de um roteiro determinado. Fizemos esse último com um orçamento de US$ 28 milhões, o que é aceitável.
Allen - A minha carreira é menos agitada. Devido à minha forma de trabalhar, sempre cuidei para que os meus filmes não fossem um acontecimento. Por isso que gosto de fazer o filme e não ler as críticas sobre ele nem me preocupar com a bilheteria. Quero esquecê-lo e pensar no próximo trabalho.
O ELENCO
Scorsese - O elenco de um filme é uma das coisas mais terríveis do nosso trabalho -e também é horrível para os atores. As pessoas vêm te ver, querem o papel e tudo isso. É muito triste. É terrível.
Allen - Mas é uma questão de sobrevivência. Você tem um roteiro e faz uma idéia da pessoa que quer para um determinado papel.
Scorsese - É um pouco mais complicado se for fazer um filme em que é preciso ter um ator que seja um sucesso de bilheteria. É necessário combinar a estrela de cinema com a personagem.
Allen - Algumas idéias somem com muita facilidade. A única que tive em toda a minha vida foi Julia Child (risada). Mas nunca tive a sorte de poder usá-la. No entanto, acho que se eu tivesse uma comédia faria o papel de mãe.
Scorsese - Exato.
Allen - Foi a única inspiração que tive. O resto foi uma espécie de escolha feita com bom senso. Há atores excelentes! Certamente gosto dos mesmos atores que você! Nunca trabalhei com Dustin Hoffman, mas ele é maravilhoso.
Scorsese - É excelente. Eu nunca trabalhei com Al Pacino.
Allen - Pacino também é incrível. Igual a De Niro. Os que todos acham que são bons, certamente são. Mas, considerando os orçamentos que eu tenho, as estrelas devem fazer um abatimento para trabalhar comigo, do contrário não posso me dar esse luxo.
Scorsese - No meu caso, depende do projeto. Em "A Época da Inocência", Daniel Day-Lewis e Michelle Pfeiffer reduziram o cachê, e o mesmo aconteceu com Sharon Stone em "Cassino".
Allen - A gente depende da sua bondade, da sua consciência e da sua disponibilidade. Embora estejam dispostos a fazer seu filme, tudo pode mudar se alguém lhes oferece o que eles ganham normalmente. Se no momento não estão com nenhum projeto, é possível contratá-los por um valor bem menor. Mas, se alguém os contrata para algo interessante, é melhor esquecer.
Allen - Eu já passei pela situação de atores que me falaram: "Não posso fazer isso, estão me oferecendo mais dinheiro para outros filmes" ou "o papel não é muito importante, quando trabalho com você quero fazer um papel melhor".
Allen - O meu último filme, "Deconstructing Harry", foi escrito por mim e teria gostado que o protagonista fosse outra pessoa. Não gosto de ter que ser sempre o protagonista. É mais divertido dirigir de vez em quando e não precisar fazer a barba todos os dias. Mas não consegui ninguém. Eu fui a minha última alternativa.
A TECNOLOGIA
Scorsese - Há pouco tempo um amigo me disse: "Você se lembra dos filmes em que sabia o que ia acontecer, mas aconteciam muitas coisas até chegar o momento culminante? Tudo isso acabou. Agora tudo se reduz a um clímax contínuo. É como uma surra. Agora a questão não é por que morre o bandido, é como morre".
Allen - Mas isso é para garotos. Esse tipo de coisas não interessa às pessoas sérias, não acha? O problema de todos esses avanços tecnológicos no cinema é que muitos diretores não os consideram apenas uma ferramenta.
Scorsese - É você quem deve controlar a técnica, não é a técnica que deve controlar você. Seis anos atrás, deixei de assistir a filmes de ação. Tentei assistir alguns depois disso, mas tudo era pura técnica. Esses filmes logo se voltam contra o diretor. É barulho demais. E depois vem o sexo.
Na década de 70, o sexo era mais duro, mais forte. Havia coisas muito fortes. Agora, até certo ponto -com exceção de "Crash", que considero um filme extraordinário-, há um tipo de filtro que depura o sensual e o elimina. Vemos imagens falsas e corpos falsos. Como você filmaria uma cena de sexo? Não tenho resposta.
Allen - É verdade. Se não há limite, tudo é muito mais difícil, porque as opções são muitas. Alguns anos atrás, essas opções não existiam, por isso era necessário trabalhar com algumas poucas formas sofisticadas de mostrar o sexo.
Agora, com a tecnologia virtual, é possível fazer qualquer coisa, e a decisão é uma questão estética.
Scorsese - Sem dúvida é mais difícil.
Allen - Porque você não pode usar a censura como desculpa. Tem que fazer algo criativo ou esteticamente agradável.
Scorsese - É aquela velha história de que Lubitsch conseguia fazer muito mais com uma porta fechada que qualquer outro diretor com uma braguilha aberta.
Allen - É isso mesmo.
Tradução Maria Carbajal


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