quarta-feira, julho 05, 2017

O drama da camisa 7

por UGO GIORGETTI

Depois de cinco contusões sucessivas, Montillo decidiu encerrar a carreira.


Se há um clube cuja biografia parece ser obra de algum talentoso libretista de ópera, esse clube não é o Palmeiras, mas o Botafogo de Futebol e Regatas. Relatos incríveis cercam a vida do Botafogo e há até uma frase repetida mil vezes que, para definir casos inexplicáveis, misteriosos, muitos ligeiramente cômicos, todos improváveis, se utiliza da expressão “coisas que só acontecem no Botafogo”.

Clube indeciso entre a aristocracia da qual se origina e crendices populares que, contraditoriamente, abraça com prazer, o Botafogo não cessa de surpreender. Nunca faz o que se espera, como se insistisse em contrariar seu belo distintivo de uma única estrela, altiva, impassível e enigmática como as classes superiores, aparentemente incompatível com a entrada em campo de um mascote na figura de um cachorro da sorte e de um alto dirigente que não trocava de terno durante todo um campeonato como aconteceu em 1948, acho.

Como se vê, a coisa vem de longe. De quebra o Botafogo oferece uma galeria imensa de personagens excêntricos ligados ao clube como Nenén Prancha ou mesmo – por que não? – o famoso João Saldanha. Isso sem falar que talvez não haja clube no Brasil cujas diretorias tenham, ao longo dos anos, produzido tão estranhas, pitorescas e mesmo trágicas providências no trato dos negócios da equipe.

Basta dizer que, em dado momento de sua tumultuada vida, o Botafogo, nascido no bairro do Machado, no coração do Rio, foi parar no subúrbio de Marechal Hermes, que um antigo e elitista dirigente, ao ser informado da mudança, confessou estupefato que não tinha a menor ideia de onde ficava.

Essa equipe diferente imortalizou a camisa 7, a camisa de Garrincha, seu artista mais carismático, glorioso e também incompreensível. Ao contrário dos times de basquete americano da NBA que aposentam a camisa de algum jogador imortal, e a colocam pendurada nas vergas das arenas exibindo uma majestosa, vazia e venerável ausência, o Botafogo faz o contrário, e dá a seu jogador mais famoso do momento, ao que considera especial, alguém digno de lembrar Garrincha, sua camisa mais querida.


É uma bela afirmação de vida, de presença, e não de ausência. Às vezes, acerta; outras, erra. Ultimamente acertou em cheio. Não tanto pelos resultados no campo. Mas, e nesse ponto a semelhança com Garrincha é inegável, pelo que produziu de dramático e inesperado fora do campo. A camisa 7 estava com Montillo, craque argentino que brilhou no Cruzeiro, no Santos e que, voltando da China, era uma das esperanças do Botafogo, sua mais cara contratação. Depois de cinco meses de contusões sucessivas, Montillo convocou uma coletiva na qual, de forma mais operística, narrou seu drama e a decisão de encerrar a carreira.

A exacerbação de sentimentalismo e emoção das óperas muitas vezes chega ao ridículo. Mas nas mãos de grandes autores ultrapassa o ridículo e chega ao sublime. Levam o ridículo ao limite e atingem a região do incomparavelmente belo. É isso que aconteceu na cerimônia de adeus de Montillo.

Não estou descrevendo o evento porque todos estão falando dele e pode ser encontrado nas suas formas mais variadas na internet. E muito ainda vai se falar desse momento. Por isso descrevê-lo seria redundância.


Para acrescentar uma nota de grandeza adicional ao tema, deve-se ressaltar a atitude do Botafogo. Informado pelo próprio Montillo de sua intenção de ressarcir o clube com o dinheiro gasto na sua contratação e salários, o Botafogo recusou de maneira generosa. As dificuldades econômicas do clube são do conhecimento de todos, o que dá à atitude um caráter de inegável grandeza. A lembrar de que se trata do clube da aristocrática estrela solitária.

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