domingo, outubro 23, 2016

King mostra três facetas de seu horror


Publicado em Folha de São Paulo em  16/Mai/98
Rodolfo Lucena

A morte é sempre desagradável, diz o poeta. Ela amedronta, assusta, terrifica. Apavora porque é final, definitiva. Depois dela, o nada, o mal total ou o bem infinito, conforme a crença.
Esses pavores e as crendices (ou a fé) que os acompanham são a matéria-prima dos livros de suspense e horror de Stephen King, um dos mais produtivos autores do gênero, que espalha suas criações não só nos livros, mas por séries e filmes para TV, cinema e programas para computador. Atua em filmes baseados em suas obras e encontra tempo para tocar guitarra em uma banda de rock.
King tem legiões de fãs no mundo, que acompanham seu trabalho e não se pejam de expor sua admiração em público -a Internet, por exemplo, é palco dessas cenas de adoração explícita.
Os fãs de carteirinha e curiosos em geral têm agora uma ótima oportunidade para revisitar ou conhecer uma significativa mostra do trabalho de King, com suas qualidades e defeitos, com seus achados aterrorizantes e repetições muitas vezes irritantes.
Voltam às livrarias, pela mão da editora Objetiva, três bons títulos de King que estavam esgotados no país. Cada um tem seu valor, mostra uma faceta da construção de personagens, cenários e sequências de ação que fazem dos livros de Stephen King uma espécie de pré-roteiro para cinema -você lê e vai "vendo" a ação acontecer.
"O Cemitério" é o livro mais emblemático desse grupo. Traz os tiques literários de King -inclusive as citações de si mesmo- e, especialmente, sua capacidade de criar um clima de terror.
"Christine" entra em outra categoria. Ação e suspense, sim, mas leve, mais história de terror dos tempos antigos, de assombrações.
"A Maldição do Cigano" também circula em faixa própria. Escrito originalmente sob o pseudônimo Richard Bachman, é reeditado no Brasil com a autoria creditada diretamente a Stephen King.
Mas é de Bachman, "persona" que King criou, matou e fez renascer -literariamente falando- recentemente, com "Os Justiceiros". Os livros de Bachman são mais de ação do que de terror ou suspense. Mas não deixam de se encontrar com o sobrenatural. E também não deixam de ter a marca de algumas manias chatas de King, como a de martelar a mesma idéia vezes e vezes sem conta.
Essas reedições são a primeira fornada de um projeto da Objetiva em torno da obra de King. Elas chegam a um preço mais baixo que os dos títulos novos -"A Maldição do Cigano", por exemplo, custa R$ 13,80, contra os R$ 38 de "Desespero", que saiu no ano passado. Também vêm em um formato próprio, mais compacto, dando idéia de coleção.
Aparentemente, uma contrapartida é o tamanho das letras, muito pequenas e apertadas. Para tornar a leitura agradável, elas deveriam ser maiores -afinal, lê-se King na academia, na piscina, no ônibus, enfim, locais onde nem sempre as condições de leitura são ideais.
A editora bem que poderia trabalhar nisso, já que promete continuar com o projeto de reedição dos clássicos de Stephen King. Até julho, devem chegar "O Corredor da Morte" e "O Iluminado".
"O Corredor...", para quem não lembra, saiu no Brasil no formato de folhetim, em seis volumes, tal como surgiu nos EUA. E "O Iluminado" é o livro de King com melhor versão para as telas, dirigida por Stanley Kubrick.
A Objetiva investe em títulos novos de King. Pretende comprar os direitos de "A Bag of Bones" (Saco de Ossos), que deve ser lançado no segundo semestre, nos EUA.


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