Marcelo Bulgarelli
Equipe
O DIÁRIO
(Publicado originalmente em O Diário do Norte do Paraná em 26 de setembro de 2004)
Imagine uma balança sempre em desequilíbrio, tendendo para um
lado ou para o outro. Assim é o transtorno bipolar, uma doença que provoca
oscilações de humor. Numa fase a pessoa está maníaca, eufórica. Em outra, passa
por momentos depressivos, podendo chegar ao suicídio. Em uma terceira fase, o
doente fica explosivo, impulsivo e irritado. “Os sintomas começam na infância e
muitas vezes podem ser confundidos com o transtorno hiperativo do déficit de
atenção”, esclarece o psiquiatra Mauro Porcu.
A doença é hereditária e oscila durante a vida da pessoa, passando pela
adolescência. Como os pais acreditam que o problema é da idade, acabam não
valorizando os sintomas, cada vez mais intensos. A pessoa pode ficar no quadro
depressivo, melhorar durante seis meses e entrar no quadro maníaco (euforia
excessiva).
Numa fase podem aparecer os sintomas como delírios de grandeza, acredita que é
descendente de pessoas importantes, que é milionária. “Pessoas assim são boas
de conversa. Vão numa loja, compram tudo, se endividam, gastam mais do que
ganham. As vezes usam demais roupas coloridas, maquiagem excessiva e se
envolvem em brigas sem fundamento.
DIAGNÓSTICO
Na fase psicótica da doença, a pessoa pode ouvir vozes. “Tem vários tipos.
Temos a fase do transtorno bipolar somente com hipomania, é só alegria,
simpatia. Boa parte da população tem isso. Na fase maníaca, é mais eufórica,
mais briguenta, impulsiva”, revela. Por isso as pessoas bipolares podem ter o
transtorno de atenção associado com essa doença. E tem ainda a fase depressiva,
oscilando com momentos de humor.
O tardio diagnóstico se deve a demora da pessoa em procurar um psiquiatra.
Muitas vezes uma situação externa - a morte de uma pessoa querida, por exemplo
- pode favorecer o aparecimento dos sintomas, mas jamais será motivo da doença.
O fator ambiental é outra questão importante. “O bipolar fica remoendo
pensamentos e, de tanto pensar acaba distorcendo a realidade”.
A pessoa não reconhece o problema, pois sempre acredita estar certa. A família,
por sua vez, ao detectar o problema, procura alguma desculpa para o estranho
comportamento. Somente se preocupa quando o doente torna-se agressivo ou
dificulta a convivência interpessoal. Ao relatar os sintomas para o psiquiatra
é que percebem a doença já existia há muito tempo.
TRATAMENTO
Se tratada no início, é possível estabilizar a doença. O paciente vai aprender
achar os sintomas que o expõe e reeducado a saber quando a doença reaparece,
voltando a tomar o medicamento. Quanto mais tempo com o remédio, menor é a
chance de recaída. Caso não siga as orientações médicas, a doença pode
tornar-se crônica, sem possibilidade de cura.
Perde a vida útil, tem baixo rendimento profissional. Chega a
sonhar com grandes empreendimentos pensando em ganhar milhões de reais, faz
dívidas, vai à falência. Pouco tempo depois, elabora mais uma idéia
mirabolante. Muitas vezes, a família acaba bancando os custos (e prejuízos)
desse sonho. As idéias podem até ser boas, mas os planejamentos são mal feitos.
O bipolar tem tendência a dependência química. As drogas potencializam o efeito
da doença, dificultando ainda mais o tratamento. A doença também causa
separações de casais. O doente tende a se isolar. Às vezes, tem vida promiscua.
O bipolar quer morar sozinho por se achar independente.
O lítio é um medicamento que geralmente pode funcionar no bipolar. Dependendo
do caso também são receitadas medicações anti-psicóticas ou anti-convulsivantes
que estabilizam o humor. “Quando a pessoa está na fase moderada para crônica,
torna-se difícil em aceitar o tratamento”, adianta Porcu.
Talita W., a história de uma bipolar
Talita W., publicitária, 30 anos de idade e cinco de casamento.
A vida seguia o curso aparentemente normal quando uma seqüência de episódios
traumáticos mudaria a vida dela e de toda família. A gota d´água foi a morte da
mãe, há seis meses, que acabou precipitando o aparecimento de uma doença
hereditária que alterna estados de profunda depressão com momentos de euforia
exagerada.
Somente um psiquiatra para identificar o diagnóstico: transtorno bipolar,
doença que atinge 1% da população e até pouco tempo conhecida como psicose
maníaco depressiva. A primeira crise de Talita aconteceu dois meses após a
morte da mãe, pessoa com quem ela mantinha vínculos estreitíssimos.
Talita perdeu a noção social. “Vivia com mais vontades do que sentimentos”,
explica o marido Paulo, 40, comerciante. Na prática, se ela tivesse vontade de
comprar um carro, acreditava que bastava aparecer na concessionária e sair com
o veículo novo pelas ruas. Faz o cadastro e não paga. Tenta preencher o ‘vazio’
com bens materiais. Neste caso, Talita queria comprar um carro de R$ 30 mil.
Certo dia, ao limpar o armário, o marido encheu diversas sacolas de roupas
novas, ainda com as etiquetas, além de diversas botas de cores diferentes, mas
de modelos iguais. “As vendedoras ficavam felizes. O que elas me ofereciam, eu
levava”, lembra. “Eu não sei dizer não”. Nessa época da crise, ela chegou a
gastar R$ 56 em locação de DVDs para assistir os filmes numa única noite.
Talita havia perdido o vínculo com o marido, com os amigos, filhos. Só ela
existia. E alterava momento de profunda depressão com momento de exagerada
euforia. Paulo percebeu que Talita estava sacando muito dinheiro em apenas um
mês. Foram R$2,8 mil fora do orçamento familiar. Ela pediu desculpas e falou
que iria se controlar. No mês seguinte, foram R$ 6 mil. “Quando eu ia comprar
uma coisa, às vezes sabia que não tinha dinheiro, mas eu pensava: depois eu dou
um jeito”.
No terceiro mês, mesmo sendo controlada e vigiada pelo marido, conseguiu gastar
mais R$ 4 mil das economias familiares. No pico da crise, Talita saiu dirigindo
sem destino e foi encontrada em Campo Mourão. “Achei que precisava pensar na
vida e saí com o carro”, explica, “e parei na Viapar por que passei mal. Mas
eles não me deixaram prosseguir viagem. Me mandaram para o hospital. Estava com
hipoglicemia, não me alimentava há dois dias”.
Apoio
O apoio e a compreensão da família é fundamental. A pessoa bipolar não sabe que
está doente e sequer tem noção de suas atitudes. Cabe a família observar o
comportamento antissocial. É a tendência de compras exageradas, vontade de
chamar a atenção do grupo e uma série de situações constrangedoras. Perde até a
noção de perigo. Até o imaginário passa para o campo do real a ponto de Talita
afirmar que iria pra China em dezembro deste ano junto com uma amiga.
Há também momentos agressivos. Numa crise, Talita pegou uma cartela do calmante
Somalium e ameaçou tomar todos os comprimidos de uma vez só. Pedro chegou a
desafiá-la. Naquele momento ele desconhecia a doença e acreditava que a esposa
jamais teria coragem de colocar a vida em risco. “Mas foi só eu virar as costas
para o irmão dela gritar do banheiro que ela estava com os comprimidos na
boca”, conta Pedro. “Mas na minha cabeça, eu não ia morrer”, completa Talita,
“achava que dormiria uns três ou quatro dias e que ao acordar tudo estaria
bem”.
Como Talita havia atingido a “área de risco” da doença, acabou internada em
Londrina. Foram 15 dias na clínica. Hoje, com a medicação (são R$ 300 mensais),
a publicitária sabe da doença e tenta se manter equilibrada graças ao lítio,
medicamento comumente receitado nesses casos, sempre acompanhada de dois
profissionais especializados. “O psiquiatra me mantém viva e quem vai me curar
é a psicóloga. Agora tenho noção das coisas”. Mesmo assim, ainda sofre com
picos de ansiedade que ocorrem diariamente das 18 às 21 horas.
(Marcelo Bulgarelli)