PEQUENA HISTÓRIA DE UM MENINO MAL-COMPORTADO
Nasceu no dia 19 de julho de 1944 na maternidade São Sebastião, perto do Largo do Machado. Era o quinto filho de Sérgio Buarque de Hollanda, historiador, e Dona Maria Amélia. Antes, viera Miúcha. Depois, Pii e Cristina. Chico, o caçula dos meninos homens.
Dois anos depois foram morar em São Paulo. Quando Chico estava com sete, Sérgio foi convidado para trabalhar em Roma. Na despedida, o menino deixou um bilhete para a avó: "Vó, vou pra Roma. Quando eu voltar você já deve tá morta. Mas não se preocupe comigo não, que eu vou ser cantor de rádio, e quando a senhora quiser me ouvir é só ligar o rádio lá do céu."
Em Roma, Vinícius era diplomata, visitava a família, tocava e cantava. Chico não ligava muito. Era mais Miúcha, que tinha até um violão chamado Vinícius.
De volta pra São Paulo, o menino aprontava tanto no colégio de padres que foi mandado interno para Cataguases (terra de Humberto Mauro). Mas só durou seis meses. Uma época de molecagem muito grande, de tascar balão no fundo do quintal, que dava para um terreno baldio da Rua Augusta.
Dezesseis anos, Chega de Saudade, o primeiro disco de João Gilberto. É a descoberta do som. Chico começa a tocar violão, a tirar toda a bossa-nova que ia surgindo. A casa sempre vivera cheia de música, mas só agora ele se liga, passa os dias descobrindo os acordes e a batida.
O vestibular foi para a FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo), não porque ele quisesse virar arquiteto, mas por ser o único que não tinha prova de química. Ele já tinha a mania (que conserva até hoje) de fazer plantas de cidades imaginárias. Debruçado na prancheta, semanas a fio, desenha minuciosamente cada quadra, rua, praça, praia, ponte e estrada. A última foi feita em Petrópolis, em fevereiro. Tem Praça do Povo, Ilha do Consolo, Praia dos Prazeres, Praça dos Ladrões. Nessa cidade não há polícia, qualquer um pode ser roubado a qualquer hora, em qualquer lugar. Mas é só ir na Praça dos Ladrões, na feira dos domingos, se quiser ter de volta o que afanaram. Se for um objeto de estimação, o vendedor fará um preço camarada.
Juca foi autuado em flagrante como meliante pois sambava bem diante da janela de Maria. (...) Em legítima defesa batucou assim na mesa: o delegado é bamba na delegacia mas nunca fez samba nunca viu Maria.
Juca é de 1966. O primeiro samba nem Chico lembra qual foi — na época dos festivalzinhos de colégio, só de farra. Ele começa mesmo em Tem Mais Samba, 1964:
Vem que passa teu sofrer Se todo mundo sambasse seria tão fácil viver.
Era a época do Sambafo. O pessoal saía da FAU e se reunia nessa quitanda que tinha batidas de legumes e frutas, pra batucar e cantar os velhos sambas. Havia terminado aquele preconceito de bossa-nova bossa-velha. Quando esteve em São Paulo, há alguns meses, para gravar um especial na TV Bandeirantes, Chico passou pela FAU com a filha Sílvia. "Foi aqui que você estudou, pai?" Chico respondeu: "É, mas eu pouco ia para a sala de aula. Meu caminho mais freqüente era por ali" — e aponta o DCE.
CHICO BUARQUE
Treze anos de carreira — começou em 1964 — perto de 100 músicas gravadas, 10 discos, três peças, uma novela — Fazenda Modelo — e alguns contos publicados, Chico Buarque de Hollanda é um caso raro de unanimidade de opiniões. Seu verdadeiro ofício: estar vivo, atento, atuante, lúcido, resistindo. Junto com a pesquisadora de música popular Lúcia Parreiras, Chico retraça aqui, desde o início, todo o seu trajeto até o 1.º de Maio, começo de parceria com Milton Nascimento.
Em 65, Chico já no segundo ano da faculdade, estréia no 1.º Festival de MPB na TV Excelsior de São Paulo com Sonho de um Carnaval, defendida por Geraldo Vandré:
Era uma canção, um só cordão, uma vontade de tomar a mano de cada irmão pela cidade.
Nesse festival Roberto Freire fazia parte do júri. Dirigindo o Tuca (Teatro da Universidade Católica), ele chama Chico para participar da criação coletiva de Morte e Vida Severina, poema de João Cabral de Mello Neto. A montagem lançou o nome de Chico, definitivamente. Até hoje, João Cabral diz que não consegue mais lembrar dos seus versos sem cantar a música de Chico.
Esta cova em que estás com palmos medida É a conta menor que tiraste em vida Não é cova grande é cova medida É a terra que querias ver dividida É de bom tamanho nem largo nem fundo É a parte que te cabe desse latifúndio.
Mas a primeira composição em que Chico diz ter encontrado um caminho, uma forma dele mesmo, foi Pedro Pedreiro. Curiosamente, ele acha que só passou no vestibular porque na prova de desenho caiu ferrovia. Chico desenhou uma estrada de ferro com vários x dos lados: famílias de retirantes esperando o trem.
Pedro não sabe mas talvez no fundo espere alguma coisa mais linda que o mundo Maior do que o mar... Mas pra que sonhar, se dá o desespero de sonhar demais?
Ainda em 66 ele leva o primeiro bote da Censura: proibição da música Tamandaré. Gozava a desvalorização do cruzeiro. Tamandaré era a nota de um cruzeiro antigo, mas igualmente o patrono da Marinha. Daí...
Também é o ano da profissionalização de Chico como músico, depois do estouro da Banda em todo o país. Vence o 2.º Festival de MPB, agora na TV Record. Mas Chico ameaça não receber o prêmio se Disparada de Geraldo Vandré e Téo não dividir o 1.º lugar. E consegue. É o começo da roda-viva. O Brasil inteiro parou "pra ver a banda passar cantando coisas de amor". Aos 22 anos, ele se transforma da noite pro dia em herói popular. É capa de todas as revistas, recebe título de Cidadão Paulistano, lança o boneco Mug e, precocemente, grava seu depoimento no Museu da Imagem e do Som.
E cada qual no seu canto, em cada canto uma dor Depois da banda passar cantando coisas de amor.
Hoje, Chico revê A Banda: — Naquela época, estava certa — coisa ingênua. Não quer dizer nada. Poderia ser um avião passando. Imagine uma banda passar e provocar tanta coisa. Hoje em dia pode passar o que quiser, que não acontece nada. — Naqueles três ou quatro anos que se seguiram à Banda eu sabia o tempo todo o que estava acontecendo. Não fui um inocente-útil. Aquela roda-viva de shows, o ritmo estabelecido pelo empresário... Eu tinha consciência mas não conseguia achar uma saída. A montagem da minha primeira peça, Roda-Viva, foi uma tentativa de parar aquela corrida.
"Não sou proletário. Mas isso não me tira o direito de estar ao lado deles."
Chico estivera ligado ao teatro desde o início. Tem Mais Samba foi composto para a peça Balanço de Orfeu, de Luis Vergueiro. Depois, Morte e Vida Severina e Os Inimigos, de Gorki (com direção de Zé Celso, no Teatro Oficina). Em 68, ele musicaria o Romanceiro da Inconfidência, poema de Cecília Meireles, montado por Flávio Rangel. Nessa época conheceu Augusto Boal, fizeram juntos um trabalho que não chegou a ser encenado.
A imagem de bom-moço veiculada pelo sistema, projetada pela TV, começa a ser minada pelo próprio Chico. Em Fica, por exemplo, ele já transforma a tradicional declaração de amor num grito de rebeldia:
Diz que eu não sou de respeito, diz que não dá jeito, de jeito nenhum, diz que eu sou subversivo, um elemento ativo, feroz e nocivo ao bem-estar comum. (...) Mas fica, mas fica meu amor quem sabe um dia Por descuido ou poesia, você goste de ficar.
Roda-Viva estréia no Rio. A crítica malha. Zuenir Ventura defende: "Chico Buarque se auto-imolou." Já em São Paulo, a peça foi atacada pelo CCC, Comando de Caça aos Comunistas. Eles haviam saído para punir outra peça, mas como já estava fora de cartaz aproveitaram a Roda-Viva. O teatro invadido, o cenário totalmente destruído, atores e público espancados. — Aí proibiram a peça de vez, em todo o território nacional.
Já conheço as pedras do caminho e sei também que ali sozinho eu vou ficar Tanto pior...
É o desabafo no Retrato em Branco e Preto, primeira parceria com Tom Jobim. Logo depois fazem a vencedora do III Festival da Canção, Sabiá, talvez uma previsão do exílio:
Vou voltar, sei que ainda vou voltar para o meu lugar. Foi lá, e ainda lá, que eu hei de ouvir cantar Uma sabiá.
— Então fui pra Itália. Os caras da minha gravadora (nessa época era a RGE) estavam me esperando lá. Eu ia ser um grande sucesso. Fui para a TV italiana e comecei a fazer os programas que me mandavam fazer. Pra divulgar os discos. A Banda havia feito sucesso, recentemente. Mas pra mim já tinha três anos, e eu não agüentava mais. O resultado é que eu não fiz sucesso coisa nenhuma, e o pessoal começou a maltratar. No começo era o Hilton Hotel, flores pra Marieta, uísque pra mim, almoços, jantares. Aí começou a esfriar tudo. O segundo disco já não foi gravado, os shows prometidos não pintaram. Minha filha Sílvia nasceu e eu tinha que arranjar shows para fazer de qualquer jeito. O Toquinho foi me dar uma mão. Fizemos uma temporada de 45 dias pela Itália, cantando no final da primeira parte do show de Josephine Baker. Foi uma loucura. A média de idade da platéia era de 75 anos.
Pede perdão, pela duração dessa temporada Mas não diga nada que me viu chorando e pros da pesada diz que eu vou levando (Samba de Orly, com Vinícius e Toquinho)
A temporada termina em 70. Uma época de vazio musical no Brasil. Edu Lobo, nos Estados Unidos. Geraldo Vandré, na França. Caetano e Gil, em Londres.
Não há mais quem cante nem há mais lugar (Olê Olá)
Chico muda de gravadora, lança aqui seu disco gravado na Itália.
Agora falando sério, eu queria não cantar a cantiga bonita que se acredita que o mal espanta... Dou um chute no lirismo um pega no cachorro um tiro no sabiá. Eu quero fazer um silêncio tão doente do vizinho reclamar e chamar polícia e médico e o síndico do meu tédio pedindo pra eu cantar. Falando sério...
— Antes eu tentava quebrar a roda-viva mas continuava nela. Na verdade eu não viajei por espontânea vontade, por decisão. Nesse ano e meio que fiquei na Itália sem poder voltar, pensei muito sobre isso tudo. Pensei de fora, vi tudo de fora. Não pensei de dentro, como no tempo da roda-viva. Quando eu voltou, me senti mais capaz de sair daquele negócio, daquele esquema. Agora não me sinto mais comprometido com isso. Consegui uma disponibilidade para planejar meu trabalho, para estabelecer meu próprio ritmo.
Pouco a pouco Chico começa a articular, "tijolo por tijolo num desenho mágico", uma nova construção. É o registro de um cotidiano trágico e belo. — Construção pode ter se tornado uma denúncia, ou protesto. Dentro de mim, entretanto, não era. Não passava de uma experiência formal. Não tinha nada a ver com o problema dos operários — evidente, aliás, sempre que se abre a janela... Na hora que componho não há intenção, só emoção. Em Construção a emoção estava no jogo de palavras, todas proparoxítonas. Agora, se você coloca um ser humano dentro de um jogo de palavras, como se fosse... um tijolo... acaba mexendo com a emoção das pessoas.
Amou daquela vez como se fosse a última Beijou sua mulher como se fosse a última E cada filho seu como se fosse o único E atravessou a rua com seu passo tímido Subiu a construção como se fosse mágica Ergueu no patamar quatro paredes sólidas Tijolo por tijolo num desenho mágico.
— Eu gostaria muito mais que Construção tivesse sido composta por um pedreiro. Porque eu não sou proletário nem operário. Agora, isso não me tira o direito de estar ao lado dessa gente. Não sei nem se os pedreiros pararam para ouvir Construção. Mas tenho um troféu que é uma pá de pedreiro que eu ganhei do Sindicato da Construção Civil de Belo Horizonte. É o troféu que eu gosto mais.
Uma nova experiência na bagagem de Chico, em 1972. Cacá Diegues dirige Quando o Carnaval Chegar. Além das canções, ele participa como ator, ao lado de Nara Leão e Maria Betânia.
Eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando e não posso falar, tô me guardando pra quando o carnaval chegar, eu tenho tanta alegria adiada, abafada quem dera gritar, tô me guardando pra quando o carnaval chegar.
Faz, ainda em 72, a trilha sonora do filme Vai Trabalhar Vagabundo, de Hugo Carvana. Mas a música só é liberada pela Censura para gravação em disco no final de 76; por isso está incluída no último LP de Chico, Meus Caros Amigos.
Vai trabalhar vagabundo, vai trabalhar criatura, Deus permite a todo mundo uma loucura. (...) Vai acabar moribundo, com um pouco de paciência No fim da fila do Fundo da Previdência.
Nessa época a Censura começa a podar sistematicamente a criação de Chico. Cálice, em parceria com Gilberto Gil, foi proibida. Outra música, Apesar de Você, depois de ter sido liberada, gravada, distribuída, comprada, tocada em todas as rádios, fazendo sucesso nacional, foi proibida e recolhida.
São Paulo (Sucursal) — Seis investigadores da Polícia Federal e um do DOPS detiveram Chico Buarque de Hollanda, no fim do seu show de quinta-feira no TUCA, porque o público começou a cantar a música proibida Apesar de Você. Ontem, Chico teve que prestar depoimento na Polícia Federal, que queria saber se ele puxou o coro da música quando disse ao se despedir da platéia: "Amanhã será outro dia." (Jornal do Brasil, 9/10/73)
As temporadas de Chico são canceladas porque, segundo os promotores, "ele está sem condição de fazer espetáculos, porque muitas das músicas que compunham o show não foram liberadas". — A Censura não pode servir de desculpa pra gente não estar fazendo nada, mas a tentação é essa. Porque a gente fica com pena da gente mesmo, uma autocomiseração: "pô, eu não posso fazer nada", e aí de repente se acomoda nessa e, se parar um pouquinho, tenho a impressão que não se faz mais nada. Se quebra o ritmo é fogo, daí essa minha ansiedade toda de estar sempre fazendo mil coisas ao mesmo tempo, pra não parar.
É nesse clima que ele começa a escrever sua segunda peça, Calabar, o Elogio da Traição, a quatro mãos com Ruy Guerra. Peça pronta, elenco formado e ensaiado, músicas arranjadas. A bilheteria se abre pra começar a venda de ingressos. Dia de ensaio geral. Chega uma notificação da Censura suspendendo tudo para que o texto fosse revisto. Nada feito. Inútil o tempo gasto, o esforço, o dinheiro investido. Chico era, além de autor e compositor, o produtor de Calabar. Um grande prejuízo. Não teve jeito, nem com mandado de segurança.
De Calabar só restaram as músicas, algumas sem letra, outras com letra truncada. A capa de Chico Canta Calabar também foi censurada. O nome Calabar não podia ser citado nem pela imprensa. Um trabalho de meses mutilado, violentado, impedido.
A minha tristeza não é feita de angústia, minha surpresa é feita de fatos, de sangue nos olhos e lama nos sapatos... (Fortaleza, de Calabar)
— O que será que as pessoas imaginam que há nas minhas composições censuradas? Muitas vezes não têm nada. Há canções de amor, há brincadeiras — coisas que os censores empacam por bobagem, que não têm nada a ver. — Às vezes esperam alguma coisa a mais nas minhas composições. Mas minhas composições são só isso. Não tenho condições de ver, de fora, a importância do meu trabalho. Mas, às vezes, me passa pela cabeça: se a música, mesmo a de forma mais revolucionária, teria condições de alterar em alguma coisa o processo político. Mas proíbem tanto que sou obrigado a acreditar que uma música, uma peça de teatro, um filme, importam de fato dentro de um contexto geral. Os impedimentos da Censura, em uma determinada época, foram tão radicais que cheguei a desanimar, quase desesperei. Mas fiquei imaginando que se estavam proibindo tudo o que eu fazia, isso devia ter alguma importância. Meu trabalho, então, parecia ser útil a alguém. Minha resistência também. Daí eu só podia resistir. E continuei.
Eu não, eu não vou desesperar, eu não vou renunciar, [fugir, Ninguém, ninguém vai me acorrentar, enquanto eu [puder cantar. (Cordão)
— Se uma música não passa, eu insisto com outra. E olha que eu tenho insistido muito. Mas eu sou de uma geração que se criou quase sem censura — e é chocante ter que mandar textos para um funcionário examinar e dizer se pode ser divulgado ou não. Mas há uma geração que nasceu dentro da censura e o certificado de liberação é tão normal e necessário quanto a carteira de identidade. Se nas primeiras tentativas desses garotos (e tem havido tantas; e muitas que a gente nem chega a saber) tudo já vem proibido, o resultado é uma monstruosidade de autocensura, fatal a qualquer tipo de atividade criadora.
E nada como um tempo após um contratempo pro meu coração. E não vale a pena ficar, apenas ficar chorando, resmungando... (Jorge Maravilha)
O show Tempo e Contratempo, com direção de Ruy Guerra, e cenário de Hélio Eichbauer (o primeiro cenário de show censurado no Brasil) não foi além da temporada no Teatro Casa Grande: — Eu queria que as pessoas parassem e refletissem, mas virou uma festa, então não quis continuar. O disco com as músicas do show foi inteiramente proibido, nem chegou a ser gravado.
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta e nada como um dia após o outro dia, pro meu coração. (Jorge Maravilha)
— Dizem que eu sou tímido. Mas eu não sou o suficientemente ator pra encarar o palco com tranqüilidade. Numa relação pessoal frente à frente não sou tímido. Mas acho que já aprendi um pouquinho. No show do Casa Grande consegui em algumas músicas, mas não todas. Ana de Amsterdã eu achava o máximo. Eu fazia, eu era Ana, e aí era uma beleza. Mas não consegui isso no show todo, só nas músicas de teatro, de personagens como Ana.
Um encontro com Caetano, uma intriga desfeita, resulta no show dos dois juntos, no Teatro Castro Alves de Salvador. Momento histórico da nossa música popular, registrado no disco Caetano e Chico Juntos e ao Vivo. Caetano cantando Morena dos Olhos d'Água, Chico cantando seu Cotidiano, ou os dois juntos cantando Bárbara. Momentos de muita emoção, muita troca. Pena que tão breves. Do alongamento desse encontro surge a primeira parceria, Vai Levando.
E Chico vai levando, dando seu recado, apesar de a censura devolver riscado de vermelho quase tudo que ele compõe. Na hora de fazer um novo disco não havia repertório suficiente. Mas ele sempre encontra uma saída: grava um disco com músicas de outros compositores e explica o motivo usando significativamente o nome de Sinal Fechado, uma das faixas que gravou, de autoria de Paulinho da Viola. Entre os compositores gravados, um tal de Julinho da Adelaide — personagem cercado de folclore e notícias fictícias nos jornais. O próprio Chico desvendou-se mais tarde:
Um nome desconhecido às vezes passa. Por isso resolvi usar pseudônimo.
— Um nome desconhecido às vezes passa. Há nomes que já são muito visados pela censura. Foi isso que me fez pensar em usar um pseudônimo, depois de tantos problemas. Posso lhe dizer 20 músicas, ou muito mais que isso, que em algum tempo ou lugar foram proibidas. Você pode cantar uma música em um show aqui, mas em Recife ou Porto Alegre não vai poder. Tem músicas liberadas para discos e proibidas em shows, e vice-versa. Tem as que passam em filmes e teatros, e não podem sair em disco. Há uma variedade enorme de censura. Eu não posso lhe dizer: tenho tantas músicas proibidas, não é assim. Há as que são liberadas com cortes, as que tive que substituir algumas palavras pra poder gravar. Quer dizer, tudo o que você quiser, tem..."
Chico tem feito música para filmes: Joana Francesa de Cacá Diegues, Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Bruno Barreto, A Noiva da Cidade, de Alex Vianny, e Se Segura Malandro, próximo filme de Hugo Carvana. — Existem épocas em que você está parado, sem idéias, já não tem a mesma disposição de quando começou, com mil idéias na gaveta. Aí assiste a um filme e faz o trabalho baseado na impressão que teve, absolutamente livre.
As atividades de Chico durante 10 meses de 1974 se concentravam na realização de seu primeiro livro, Fazenda Modelo. — Quando eu comecei a fazer o livro já tinha várias idéias, aproveitei várias coisas — contos, textos que eu vinha escrevendo. No dia que eu resolvi escrever a novela, realmente parei com tudo, porque aí é difícil. Escrever uma peça, compor uma música e até gravar um disco eu posso fazer ao mesmo tempo porque não existe um conflito muito grande. Mas já num trabalho de literatura preciso estar com a cabeça voltada só para aquilo. — O livro não tem boiadeiro. Só bois e vacas. Trabalhei nele oito, dez horas por dia durante meses. Foi um ótimo exercício, me fortaleceu. Nunca trabalhei tanto, nem minha cabeça funcionou assim. Não bebia, não saía de casa. Às vezes acordava no meio do sono, apavorado e pensava: será que isso vai dar certo? Mas o que me irritou foi o livro ter sido tratado como uma brincadeira, com pouco caso. Há sempre uma expectativa muito grande em cima de mim. Que eu diga algo, proteste, faça alguma coisa... — Eu tenho um lado muito literário em mim. Desde garoto escrevia coisas, contos, poemas. As pessoas dizem que meu lado mais forte é a letra — coisa que eu não entendo porque faço letra e música junto — mas enfim reconheço que meu lado letrado é mais aparente que o musicado. — Além do mais eu não sou um músico no sentido de que eu viva cercado de música, ouvindo, tocando, compondo, etc. Se você chega na casa do Gil, por exemplo, ele está sempre tocando, ensaiando, ouvindo. Eu não sou assim. Há dias e até semanas que não consigo nem pegar no violão. — O que me dá satisfação mais duradoura é um livro, uma peça. Uma coisa permanente. É verdade que a música tem aquela explosão, aquela euforia que baixa assim que você acabou de compor e sai correndo pra mostrar a um amigo e acorda no dia seguinte doido pra tocar. Mas é uma explosão efêmera.
E o trabalho com parceiros? — A composição é um ofício solitário. É uma coisa que sai de repente quando você está com você mesmo. Mas musicar a letra de outra pessoa não é bem uma parceria, que é fazer a letra junto. Trabalhei assim com Ruy Guerra, com Vinícius, com Boal, a quatro mãos. Em geral, o que faço é letra para a música de outro. Fiz assim com Tom, Toquinho, Francis Hime — com quem tenho feito várias coisas desde Atrás da Porta. — Estou gostando muito de fazer apenas as letras. Mas tem que haber um contato muito próximo com o músico; senão, não consigo encontrar o clima. Com o Francis, vou para a casa dele e ficamos repetindo mil vezes a melodia. Ele fica tocando e eu num canto, sozinho, escutando e escrevendo. Não gosto de mostrar nada antes de terminar. Quando me dou por satisfeito, sinto que as palavras só poderiam ser aquelas, aí quero mostrar pra todo mundo, mesmo que já passe das duas da manhã.
E quando você trabalha sozinho? — Trabalho muito lentamente. Jamais faço mais de uma música por mês. Muitas vezes nem isso. Quando faço letra e música, elas saem juntas, depois de muito convívio com o violão. As pessoas ficam dizendo que faço música no táxi, no banheiro, atravessando a rua para ir à praia. Isso não tem o menor fundamento. — Quando começo a trabalhar na letra é um processo exaustivo. Depois me espanto de ver a pilha enorme de papel que gastei — se mudo uma palavra bato tudo de novo. Se o resultado final dá a impressão de espontaneidade, como muita gente comenta, é legal. Mas pra ser sincero, não é assim não.
E Chico decididamente não gosta de fazer shows. Cada vez que termina uma de suas raras temporadas, corre a notícia de que foi sua despedida dos palcos. — Não tenho a menor vontade de fazer uma temporada em teatro ou coisa parecida. As pessoas dizem que eu poderia estar dando uma contribuição, mas estou convencido de que meu trabalho recolhido pode fazer pensar mais do que minha presença. As músicas tocam nos rádios, os discos estão nas lojas. Qual a diferença, no sentido dessa tão citada contribuição? Se tive condição de escrever um livro, fazer uma peça, traduzir outra, nem um tempo relativamente curto, foi porque estava afastado da tensão do palco. Quando trabalho à noite, passo o dia inteiro em função disso. Não posso tomar minhas cervejas, gastar minha voz. Estou cansado disso.
"Você já me viu tão feliz assim? Há quanto tempo eu não sentia tanta felicidade."
— E como foi o trabalho na Gota d'Água com Paulo Pontes? — O começo foi o Vianinha quem fez. Uma adaptação de Medéia para a televisão. O Paulo e eu começamos a adaptar a coisa para o teatro, a transformação de Medéia numa tragédia carioca. Saem os deuses da mitologia e entra o que há de fatal mesmo, que é a condição daquela gente dos conjuntos habitacionais. Paulo foi criando os diálogos e eu os transformava em versos certinhos, rimados. A gente, em princípio, pensou em fazer uma peça quase toda musical. Depois viu que não era isso, e a música passou a ocupar apenas alguns momentos. Depois havia a própria dificuldade de produção. Acho que a solução encontrada foi boa. Depois, a possibilidade de fazer uma temporada de seis meses na Zona Sul seguida de uma temporada na Praça Tiradentes, foi incrível. Gota d'Água não é uma peça populista, como alguns disseram, mas popular. A afluência muito grande de contingentes do povo ao Carlos Gomes demonstrou que as pessoas a quem o trabalho era dirigido entenderam. Mas não vou falsificar a minha própria linguagem, ou colocar na boca de uma pessoa de um conjunto habitacional palavras que, sei, ela não diria. Não é a linguagem de Mário Viana, mas a de João Saldanha, entende? Procurei um termo comum entre o habitante do conjunto habitacional e o intelectual. O ideal seria fazer teatro para o povo. Não tive essa intenção. Se eu quisesse fazer alguma coisa diretamente para o povo, estaria escrevendo novelas para a televisão.
Mais presente e lúcido do que nunca, Chico voltou a centralizar as atenções com o LP Meus Caros Amigos. A gravadora foi obrigada a uma nova tiragem muito antes do previsto. Pelo volume de vendas, mais de 150 mil em 10 dias, foi o presente de Natal preferido em 1976. Esse disco marca uma preocupação maior de Chico com os arranjos: — O que faço normalmente é dizer mais ou menos o clima da música e deixar que os arranjadores façam o resto. O que me interessa realmente é o momento da criação, da composição. Mas no último disco estive mais presente. Os arranjos são de Francis que, sendo meu amigo, conhece bem de perto minhas músicas, os climas as intenções. E a gente está sempre perto. Então o arranjo deixa transparecer mais minha presença.
Da viagem à Itália no final do ano passado, Chico trouxe uma peça musical infantil, Os Saltimbancos de Luiz Henriquez e Sergio Bardotti. Traduzida e adaptada por Chico, acaba de sair em disco. Em breve deverá ser montada no palco. Já se sabe que vai ser no Canecão, que a direção é de Antônio Pedro, e que três personagens já estão certos: Marieta será a Gata, Miúcha, a Galinha, e Grande Otelo, o Jumento. As filhas de Chico, Sílvia e Helena, fazem parte do coro.
Na ausência irreparável de Paulo Pontes, fica inacabada uma nova peça, comédia musical, quase revista, com o título provisório de No Dia que Frank Sinatra Veio ao Brasil. Paulo e Chico trabalharam nela a quatro mãos durante vários meses.
Mas o trabalho continua ao lado de outros parceiros de fé. A peça Lisa, de Augusto Boal, com música de Chico, foi tão cortada pela Censura que a produtora Rute Escobar preferiu transformá-la em musical com o nome Mulheres de Atenas. Mas Chico está constrangido em fazer essa mudança, que poderia comprometer o caráter da criação de Boal. Outro projeto, que começa a se esboçar, é um musical baseado em cantos de trabalho, idéia de Mílton Nascimento.
O encontro com Mílton vem da gravação do LP Meus Caros Amigos, nos estúdios da Phonogram. Chico ensaiava com Francis Hime o Que Será e Mílton, de passagem pelo estúdio, ouviu e ficou fascinado. Veio logo o convite de Chico para que ele participasse da gravação. O resultado foi incrível, as duas vozes num acorde de uma sonoridade surpreendente. Ficou claro que aquilo era apenas o princípio de uma emoção maior.
Num segundo encontro, Chico entrega a Mílton uma nova versão do Que Será, com uma letra mais sensual e o subtítulo de À Flor da Pele. Agora é Chico o convidado, participando da gravação de Geraes.
Os laços ficam mais fortes com a entrada de Chico no palco de Anhembi, em São Paulo, reunindo sua voz à de Mílton e fazendo o público levantar e unir-se numa imensa festa.
As gravações de Chico não têm o clima de alegria e participação que têm as de Mílton. Nesse sentido a ligação dos dois traz uma nova abertura para Chico. Isso explodiu agora quando, de um encontro na casa de Mílton, nasceu a primeira parceria, 1.º de Maio. Foi numa enorme euforia que os dois chegaram com a música pronta à casa de Francis Hime. Chico não parava de dizer: — Você já me viu tão feliz assim? Há quanto tempo eu não sentia tanta felicidade. É isso que eu sinto agora. Diz pras pessoas, bota aí na revista que a gente só tem uma saída agora: ficar um com o outro, ficar junto, se ver, poder curtir o trabalho do outro como se fosse o seu próprio trabalho.
O dia clareou, saímos pela rua cantando os versos que nasceram desse encontro:
Hoje a cidade está parada e ele apressa a caminhada pra acordar a namorada, logo ali. E vai sorrindo, vai aflito pra mostrar cheio de si que hoje ele é senhor das suas mãos e das ferramentas. Quando a sirene não apita ela acorda mais bonita sua pele é sua chita, seu fustão e bem ou mal o seu veludo e o tafetá que Deus lhe deu. E é bendito o fruto do suor do trabalho que é só seu. Hoje eles hão de consagrar o dia inteiro prase amar tanto. Ele o artesão faz dentro dela sua oficina, ela a tecelã vai fiar nas malhas do seu ventre o homem de amanhã.

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