Caso não vingue o cinema, artistas plantarão café.
O Júri de Cinema que distribuiu o “Prêmio Café”, acompanhou, de uma maneira geral, o julgamento da opinião popular e mediu o valor de cada filme pela reação da plateia cada noite. Nestas, sempre as decisões foram unânimes, revelando-se, em geral, dois nomes que discordavam da maioria (cinco). Assim foi o caso de “Rebelião em Vila Rica”, filmado em Cinemascope e Afiacolor. Ali, por tais atributos sempre do agrado popular incondicional, impressionou também cinco dos membros, que venceram sempre na proporção de 5 x 2 em três decisões sobre os prêmios dados a “Rebelião em Vila Rica”. À exceção de coadjuvante masculino e coadjuvante feminino, também levantados pela mesma produção sob a decisão unânime do júri, os prêmios de “Melhor Filme”, “Melhor Direção” (até repartido entre o binômio Santos Pereira e Roberto Santos, de “O Grande Momento”), não tiveram decisão unânime.
Foram considerados melhores atores Anselmo Duarte e Alberto Ruschel, que dividiam o prêmio de 80 mil cruzeiros pelas suas interpretações em “O Candango e o Milionário” e “Cara de Fogo”. O prêmio correspondente ao melhor coadjuvante foi concedido a Xando Ribeiro (“Rebelião em Vila Rica”) e a melhor coadjuvante feminina foi Beyla Genauer (também pelo mesmo filme). Hugo Lombardi e Rudolf Ilego dividiram o prêmio destinado à melhor fotografia, respectivamente pelos seus trabalhos em “Rebelião em Vila Rica” e “Cara de Fogo”. A Paulo Araújo, também ator principal em “Rebelião em Vila Rica”, foi concedido o prêmio de “Melhor Revelação”. E o prêmio de “Melhor Argumento” coube a Roberto Santos, que já havia dividido a direção com o par Santos Pereira. Diversas menções honrosas foram concedidas.
A grande festa, entretanto, foi o encontro dos artistas com uma cidade inteiramente diferente das cidades comuns do interior do país. Desde o Grande Hotel de Maringá, que só pode encontrar como ou seis outros estabelecimentos semelhantes, até o Clube Hípico, que é igual ao melhor do Rio ou São Paulo. No Clube de Maringá, os artistas dividiram o seu pouco tempo disponível em freqüentar esses grêmios, onde foram homenageados com esplêndidas recepções pela sociedade local. Ao visitarem os cafezais que cercam a cidade por todos os lados, chegaram à conclusão de que, se os novos valores deixarem de conseguir apoio idêntico ao dado como exemplo pela jovem Maringá, o melhor é adotarem todos a profissão de cafeicultores.
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Análise Crítica da Matéria da Revista Manchete (1958)
Esta matéria da revista Manchete, publicada em 1958, é um documento fascinante que captura um momento específico e crucial da cultura brasileira, situado na intersecção entre o cinema nacional e o desenvolvimento econômico e social do interior do país.
1. Contexto Histórico e o "Prêmio Café":
O evento central da reportagem é a distribuição do "Prêmio Café", um troféu cinematográfico claramente patrocinado pela indústria cafeeira, então a base da economia brasileira. O título sensacionalista—"Caso não vingue o cinema, artistas plantarão café"—é mais do que uma piada; é uma metáfora do frágil equilíbrio entre a incipiente indústria cultural brasileira e a poderosa e tradicional agroindústria. A reportagem reflete um período de otimismo e investimento no cinema nacional, mas também a dependência desse setor de patrocínios externos e de um sucesso comercial que nem sempre se concretizava.
2. O Cinema Brasileiro em Foco:
A matéria funciona como um instantâneo do cinema brasileiro da época. Ela menciona filmes e profissionais-chave:
Filmes: "Rebelião em Vila Rica" (um faroeste histórico), "O Grande Momento" (de Roberto Santos), "O Candango e o Milionário" e "Cara de Fogo". A menção a tecnologias como "Cinemascope" e "Afiacolor" (provável erro de digitação para "Eastmancolor") mostra uma indústria tentando se modernizar e competir com a produção internacional.
Artistas: A premiação de nomes como Anselmo Duarte (que, poucos anos depois, venceria a Palma de Ouro em Cannes com "O Pagador de Promessas"), Alberto Ruschel, Roberto Santos e outros, mostra a consolidação de uma geração de talentos que definiria o Cinema Novo e a pornochanchada nas décadas seguintes.
3. A Discreta Crítica e a Política do Prêmio:
O texto revela, talvez sem intenção, as dinâmicas políticas de um júri. A menção a decisões que não foram unânimes (5x2) e a hegemonia de "Rebelião em Vila Rica" na premiação sugere disputas de gosto e perhaps a influência de fatores extra-cinematográficos, como o apelo popular e o investimento em produções grandiosas. A reportagem tenta equilibrar o relato factual com uma leve sugestão de que o julgamento técnico (o júri) estava, em parte, alinhado com o gosto popular.
4. Maringá como Personagem:
Um dos aspectos mais interessantes da reportagem é a descrição de Maringá, no Paraná, como uma cidade moderna e desenvolvida, "diferente das cidades comuns do interior". Ela é retratada como um símbolo do progresso brasileiro, com um Grande Hotel comparável aos melhores, um Clube Hípico de padrão metropolitano e uma sociedade local organizada e acolhedora. A reportagem é, também, um espécime de ufanismo desenvolvimentista da era JK (Juscelino Kubitschek), que via a interiorização do desenvolvimento como um ideal nacional.
5. A Metáfora Final:
A conclusão do artigo é carregada de significado. A visita aos cafezais e a piada final sobre os artistas se tornarem cafeicultores sintetizam o paradoxo central. Por um lado, é um elogio irônico à riqueza e estabilidade da cafeicultura. Por outro, é um alerta melancólico: sem um apoio institucional e financeiro tão sólido e organizado quanto o dado pela "jovem Maringá" ao evento, o destino do cinema brasileiro seria incerto, obrigando seus artistas a abandonarem sua arte por uma profissão mais "útil" e rentável.
Conclusão:
Mais do que uma simples cobertura de premiação, esta matéria da Manchete é um documento histórico multifacetado. Ela ilustra:
O estado de florescimento e vulnerabilidade do cinema brasileiro nos anos 1950.
A influência de setores econômicos tradicionais (café) na cultura.
O imaginário de progresso e modernidade que caracterizava certas regiões do interior do Brasil.
As tensões entre arte popular, crítica especializada e sucesso comercial.
A análise revela que, por trás de um título aparentemente humorístico, escondia-se uma reflexão profunda e involuntária sobre os desafios de se construir uma indústria cultural num país em desenvolvimento
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