sexta-feira, setembro 22, 2017

Dia sem Automóveis

Os ecologistas e outros irresponsáveis propõem que por um dia, no dia de hoje, os
automóveis desapareçam do mundo.
Um dia sem automóveis? E se o exemplo se contagia e esse dia passa a ser todos os dias?
Que Deus não permita, e o Diabo tampouco.
Os hospitais e os cemitérios perderiam sua clientela mais numerosa.
As ruas se encheriam de ciclistas ridículos e patéticos pedestres.
Os pulmões já não poderiam respirar o mais saboroso dos venenos.
As pernas, que tinham se esquecido de caminhar, tropeçariam em qualquer pedrinha.
O silêncio aturdiria os ouvidos.
As autopistas seriam desertos deprimentes.
As rádios, as televisões, as revistas e os jornais perderiam seus mais generosos
anunciantes.
Os países petroleiros ficariam condenados à miséria.
O milho e a cana-de-açúcar, agora transformados em comida de automóveis, regressariam
ao humilde prato humano.


Eduardo Galeano



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