sábado, junho 03, 2017

Louis Malle 21/Jan/96

Título: Memórias de uma geração
Data: 21/Jan/96
Autor: Amir Labaki
Editoria: Mais!
Página: 5-8
Edição: Nacional
Seção:
Assunto: LOUIS MALLE; ENTREVISTA


Em entrevista inédita, o diretor francês Louis Malle, morto há um mês, evoca suas relações com o Brasil
AMIR LABAKI
Da Equipe de Articulistas
Em setembro de 1993 o cineasta francês Louis Malle (1932-1995) visitou pela última vez o Brasil, a convite da Mostra Banco Nacional de Cinema. Na manhã do dia 6, no café ao lado da piscina do Copacabana Palace, o diretor de "Os Amantes" (1958) e "Adeus, Meninos" (1987) concedeu-me uma longa entrevista exclusiva, até hoje inédita.
Não se tratou de um encontro jornalístico. A pauta não era algum filme em lançamento ou novos projetos. Pedi a Malle um depoimento histórico sobre sua participação na Nouvelle Vague e sua relação com o cinema brasileiro, tendo em vista a mostra especial sobre a influência recíproca entre os "cinemas novos" dos anos 60 que preparava para a primeira edição do Eurocine. O objetivo era recontextualizar o Cinema Novo em seu 30º aniversário.
Em inglês pausado, bastante descontraído, Louis Malle definiu o Brasil como seu "segundo país" e lembrou a amizade com Vinicius de Moraes e a tumultuada relação com Glauber Rocha. Rememorou seus primeiros passos no cinema e destacou Jean-Luc Godard como o mais radical de seus contemporâneos, frisando Eric Rohmer como o mais influente sobre as novas gerações.
O Mais! publica hoje a íntegra desta entrevista, lembrando os dois meses da precoce morte de Louis Malle, em 23 de novembro último, aos 63 anos, vitimado por câncer.

*
Louis Malle - Vocês vão celebrar o 30º aniversário do Cinema Novo...
Folha - Sim, é isso.
Malle - Isso é bom. Digo a todo mundo: é uma vergonha que o cinema brasileiro esteja morto, por enquanto. Tenho certeza que vai voltar, mas é um período muito ruim. Precisamos de filmes brasileiros. No Festival de Cannes deste ano (1993) não havia nenhum. É uma pena.
Folha - Quero perguntar-lhe sobre a relação entre o senhor e os outros diretores da Nouvelle Vague com o Cinema Novo e movimentos similares dos anos 60. Que contato o senhor teve com a produção brasileira naquela época?
Malle - Tenho relações com brasileiros antes mesmo do cinema. Tenho vários amigos brasileiros em Paris. Começou com Vinicius (de Moraes). Ele estava em Paris não sei fazendo o quê na embaixada brasileira (risos). Era uma espécie de adido musical. Um dos meus irmãos é casado com uma brasileira. Ela foi minha conexão brasileira. Conheci Vinicius e vários outros brasileiros que não trabalhavam com cinema. No final dos anos 50 e início dos 60, quando eu era ainda muito jovem, havia esta conexão. Por causa disso, vim ao Rio pela primeira vez em 1960, acho. Voltei logo depois, pois fiquei muito interessado pelo país. Comecei então a ver os filmes: Glauber (Rocha), Nelson (Pereira dos Santos), Cacá (Diegues) e Ruy (Guerra). Ruy, que na verdade não é brasileiro, estudou comigo na escola de cinema (Idhec - Institut des Hautes Études Cinematographiques). Eu era um ano mais novo, mas nos conhecíamos. Assisti ao primeiro filme dele, "Os Fuzis" (de fato, o segundo).
Eu estava assim muito bem preparado para o Cinema Novo, quando começamos a ver, como na Nouvelle Vague, estes quatro, cinco diretores fazendo filmes muito interessantes. Eles foram a Paris, eu os conhecia, eram os dias do regime militar. Cacá estava em Paris, Glauber estava em todos os lugares e foi um grande amigo de meu irmão, que é produtor. Lembro deles discutindo um projeto por um longo tempo. O Brasil é algo como meu segundo país. Por causa disso, cheguei até a dominar um pouco o português, a ponto de me fazer entender, mas o perdi.
Folha - Ao assistir os primeiros filmes do Cinema Novo, o senhor notou alguma influência da Nouvelle Vague?
Malle - Bem, acho que a influência foi a de um grupo de jovens cineastas que amavam o cinema. Acho que a Nouvelle Vague influenciou uma geração de diretores do mundo inteiro. Me lembro de uma conversa com Milos Forman e ele dizia: "Louis, vi 'Ascensor Para o Cadafalso' (1957) muitas vezes".
Acho que a principal influência sobre o Cinema Novo foi Godard, porque era um gênio e o verdadeiro revolucionário entre nós. Eu não poderia jamais fazer algo como Godard, e tampouco gostaria disso. Éramos todos muito surpreendidos pela inventividade de Godard. Glauber foi muito influenciado por Godard. É também uma lição de liberdade, descobrir que filmar é uma linguagem. Muitos de nós na França, e penso aqui por exemplo em alguém como (Arnaldo) Jabor, que se tornou jornalista, poderíamos ter sido escritores. Muitos escrevemos nossos próprios roteiros. Para nós, cinema era a linguagem dos anos 60, de nossa geração.
A Nouvelle Vague foi o primeiro movimento do mundo inteiro a dizer: queremos ser diretores, só estamos interessados em cinema, nossas referências não são literatura ou outra coisa, mas sim filmes. Houve um famoso artigo de Truffaut chamado "Les Enfants de la Cinémathèque" (Os Filhos da Cinemateca). Éramos todos filhos da cinemateca. Todos tinham aquilo em comum.
Uma de minhas teorias sobre a Nouvelle Vague é que ela foi tornada possível por um novo tipo de filme branco e preto e veloz chamado 3 X. Quando eu rodava meu primeiro filme, "Ascensor Para o Cadafalso", as pessoas ficaram estupefatas vendo Jeanne Moreau descendo pelos Champs Elysées. Isso foi antes de Godard.
Tínhamos a câmera num pequeno carrinho. Era noite e ela foi iluminada apenas pelas luzes das vitrines. O filme 3 X existia há apenas dois ou três anos e ninguém até então tinha ousado fazer isso. Ele possibilitava rodar sob quaisquer circunstâncias. Deu-nos total liberdade. Nos liberava do peso da filmagem até aquele momento. Não estou dizendo que inventamos isso, mas era mesmo um novo estilo.
Louis Malle, Susan Sarandon  na  premiere de Pretty Baby

Folha - Algo similar houve com a chegada do gravador Nagra nos documentários...
Malle - Sim, exatamente.
Folha - A que tipo de cinema o senhor assistia antes de se tornar diretor?
Malle - Estudei numa escola de cinema em Paris (o Idhec) muito teórica. A boa coisa era que nosso professor de história de cinema era Georges Sadoul. Gostava muito dele. Os melhores momentos daqueles anos passamos na cinemateca. Muito nos impressionava então o cinema americano, como aquele que tinha um certo tipo de energia e poder. Sempre achei que os americanos foram cineastas espontâneos. Os franceses tiveram que superar seu pesado passado literário ou teatral, mas os americanos pareciam naturais. Por mais que eu hoje despreze a produção americana atual, naqueles anos, na década de 50, tinha uma grande admiração pelo cinema americano.
Influência, não sei, pois naqueles dias meu ídolo era (Robert) Bresson. Depois que parei de trabalhar com (Jacques) Cousteau, tentei encontrar Bresson e trabalhei com ele uma vez, fui seu assistente em "Um Condenado à Morte Escapou" ("Un Comdamné à Mort S'Est Échappé"), em 1956. Eram ele e Renoir.
Se tivesse que citar um filme-gatilho que me fez decidir tornar-me um cineasta, OK, é um pequeno filme, pouquíssimo conhecido, de um cineasta francês chamado Roger Leenhardt (1903-1985). Quando eu estava na escola de pilotagem, acho que em 1950, ou um pouco antes, ele fez um filme chamado "As Últimas Férias" (Les Dernières Vacances, 1948). Era sobre uma família burguesa e as pequenas intrigas entre as crianças. Eu o assisti sete vezes na época.
Não era revolucionário, mas me fez pensar: "É isso que eu gostaria de fazer". Na verdade, Leenhardt foi muito admirado pelos diretores da Nouvelle Vague e acho que "Le Monde" e "Cahiers du Cinéma" falaram dele. Infelizmente o filme foi um fracasso, ele dirigiu belos documentários, mas fez apenas mais um longa de ficção -e foi tudo. Tenho que reconhecer: "As Últimas Férias" foi o ponto de partida.
Folha - O senhor começou nos documentários, como muitos outros desta geração, com uma forte influência de Rossellini. Como o senhor a vê?
Malle - Rossellini, claro, era uma admiração daqueles dias. Depois da guerra, o neo-realismo italiano foi a primeira escola cinematográfica. "Roma, Cidade Aberta" e "Paisà" eram filmes que admirava tremendamente. Depois ele foi para Hollywood, voltou com Ingrid Bergman e fez aqueles filmes interessantíssimos como "Viagem à Itália", "Stromboli", "Alemanha Ano Zero".
Lembro-me dele vindo a Paris. Eu sempre tentava vê-lo, não era íntimo dele, mas Truffaut era, foi o mais próximo a Rossellini. Rossellini era um grande falador, brilhante. Lembro-me de passar noites com ele, encontrando-o para jantar e indo para a cama às cinco da manhã. Ele falava, falava, era fascinante.
Mais tarde ele disse não estar mais interessado em fazer filmes ficcionais e começou a fazer documentários. Ele foi à Índia antes que eu fosse. Claro que vi os filmes dele. Mas a sua visão de documentário era muito diferente da minha. Para ele, o documentário era didático, com o que eu não concordo, mas ele foi um gênio.
Folha - Como foi sua briga com Glauber no Festival de Veneza de 1981, quando o seu "Atlantic City" bateu o último filme dele, "A Idade da Terra"?
Malle - Eu te conto o que houve. Estávamos ambos hospedados no Hotel Excelsior. O filme de Glauber não foi bem recebido pelos críticos. As pessoas não entendiam que, de repente, o filme era uma espécie de homenagem ao regime militar. Não me lembro dos detalhes. Glauber era em geral amado pelos críticos do mundo inteiro. Ele teve uma entrevista coletiva em que ficou muito nervoso e começou a atacar cineastas como eu e John Cassavetes -e acabamos por dividir o Leão de Ouro. Glauber disse que eu tinha ido a Hollywood e tornara-me um verdadeiro capitalista. É claro que não fiquei contente com aquilo.
Soube depois na França que a imprensa brasileira fez um grande barulho sobre isso, mas no resto do mundo a imprensa levou em conta o contexto. Um dia depois, mais ou menos, eu estava voltando ao meu quarto, tarde da noite, e vi Glauber andando pelo corredor, embalando um bebê e cantando para ele. Olhei para Glauber e ele para mim e tivemos uma pequena conversa. Foi a última vez que o vi. Na manhã seguinte voltei a Paris e ele morreu pouco depois. Minha última imagem de Glauber foi bela.
Folha - Como o senhor vê o cinema hoje? Nota alguma influência da Nouvelle Vague?
Malle - Continuo assistindo a jovens cineastas franceses fazendo seus primeiros filmes, que parecem filmes da Nouvelle Vague. É estranho pois as pessoas esquecem, dizem que é muito interessante: movimentos de câmera, diálogo improvisado etc. Bem, claro, é como em Godard, Truffaut, Chabrol (risos). Não acho que estejam simplesmente imitando. Parece natural. Os primeiros filmes da Nouvelle Vague eram pessoais, baratos, tinham uma certa ingenuidade.
Há um filme de um jovem cineasta que foi muito aclamado na França, "Um Mundo Sem Piedade" (1989), de Éric Rochant, com Hippolyte Girardot. Esse filme parece algo especial para mim.
Acho que o diretor que teve maior influência sobre os mais interessantes jovens diretores foi (Eric) Rohmer. Rohmer faz também um cinema fácil, tecnicamente simples, com muito diálogo, algo que parece vir naturalmente dos franceses. Há ainda um grupo de cineastas franceses que tentam emular o cinema americano, como Luc Besson. Quando fiz meu primeiro filme, "Ascensor para o Cadafalso", minha ambição era combinar Bresson e Hitchcock, o que era rídiculo, mas admirava ambos igualmente.
Minha grande admiração por "O Piano" (de Jane Campion, 1993) é que é quase clássico. Exceto pelos efeitos especiais, não tem havido nada particularmente novo na linguagem cinematográfica nos últimos anos. Tudo tem se tornado mais e mais uma fórmula no cinema americano. Acho que sentimos falta dos grandes estilistas, como Visconti.
Fico sempre muito feliz de ver alguém com grande estilo. Recentemente, além de Jane Campion e dos chineses, a descoberta foi Kieslowski. É um grande diretor, um mestre. Não há muitos como ele. E há Mike Leigh. "Nu" (Naked) é um filme muito interessante.


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