terça-feira, março 25, 2014

George Orwell.



Trecho de A Caminho de Wigan (1937) de George Orwell. (página 18).



Ele acaba de sair de uma casa-pensão, onde morou por dias, comendo mal, dormindo mal e convivendo pessimamente com o donos do local. Fez isso pra escrever esse genial livro.

" O trem me levou para longe, através da paisagem monstruosa de montes de escória, chaminés, pilhas de sucata, canais imundos e trilhas lamacentas cheias de marcas de tamanco.
Era março, mas havia um frio terrível, e havia montes de neve preta por toda a parte (...)
[no subúrbio de Londres] .
Atrás de uma das casas, uma moça estava ajoelhada sobre as pedras, cutucando com uma vareta o pesado cano que saía da pia do lado de dentro e, imagino, estava entupido.
Tive tempo de observá-la.... Seu avental de tecido ordinário, seus tamancos desajeitados, seus braços avermelhados pelo frio.
Ela levantou os olhos enquanto o trem passava, e eu estava perto quase o suficiente para atrair sua atenção. Tinha um rosto pálido e redondo, o rosto exausto, típico da moça de favela, que tem 25 anos mas parece ter 40 graças aos abortos e ao trabalho pesado.
E durante o segundo em que a olhei, pude perceber que seu rosto exibia a expressão mais desolada e deseperada que já vi em toda a minha vida. Ocorreu-me, então que estamos enganados quando dizemos que " não é a mesma coisa para eles que seria para nós", e que as pessoas que nascem favelas não podem imaginar outra coisa que não ser favelas.
Pois o que vi no rosto dela não era o sofrimento ignorante de um animal. Ela sabia muito bem o que lhe estava acontecendo.... entendia, assim como eu, que destino terrível era aquele de estar ajoelhada ali, naquele frio cruel, sobre as pedras lodosas do quintal de uma favela, cutucando com uma vara um cano entupido".

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