sábado, novembro 05, 2016

Kubrick - A Biografia

Título: Kubrick
Data: 08/Jul/97
Autor: Amir Labaki
Folha de São Paulo

Biografia lançada nos EUA desvenda o mítico criador de '2001', 'O Iluminado' e 'Laranja Mecânica'

Ainda pode haver quem discuta se Stanley Kubrick ("2001") é o maior cineasta em atividade.
Há consenso quanto ao fato de girar em torno dele uma aura mítica que, neste século do cinema, encontra paralelos na atriz Greta Garbo, no milionário Howard Hugues e no escritor J. D. Salinger.
Vincent Lobrutto reitera a comparação logo na abertura de seu recém-lançado "Stanley Kubrick - A Biography", como que frisando o caráter hercúleo da tarefa a que se propôs: escrever o primeiro volume biográfico sobre um dos artistas mais reservados que já se dedicou à arte do filme.
Professor da School of Visual Arts de Nova York e especialista em história oral do cinema, Lobrutto não se deixa impressionar pelo mistério em torno de seu personagem. Ao meticulosamente recompor a trajetória do homem por trás do cineasta, nada menos que decifra o enigma Kubrick.
Não poucos mitos caem por terra graças ao livro. O principal é aquele que pinta Kubrick como um ogro misantropo, cheio de esquisitices, incapaz de qualquer convívio social e despótico com todos que o cercam.
É um outro Kubrick que emerge das páginas de Lobrutto. Como cineasta, é mesmo um obcecado pela perfeição e pelo lado sombrio da alma humana, mas trata com rara cordialidade atores e técnicos e valoriza sobremaneira as contribuições individuais para o filme em desenvolvimento.
Fora dos sets, Kubrick é um atencioso pai de três filhas (uma delas, Vivian, colaboradora constante), estável no terceiro casamento. Pouco liga para roupas e fuma o tempo todo. Notívago e hiperativo, trocou os EUA pela Inglaterra e passou a evitar as viagens de avião por razões bem palpáveis -custos de produção mais baixos e maior conforto familiar.
Mesmo a preocupação quase paranóica com o sigilo dos projetos pode lá ser algo exagerada, mas está longe de inexplicável no faroeste do mercado cinematográfico.
O biógrafo não contou com nenhuma ajuda do biografado, que ainda assim ganha agradecimento final simplesmente por não ter atrapalhado. Uma legítima vocação detetivesca é revelada por Lobrutto, sobretudo nas cem primeiras páginas, dedicadas à infância e juventude de Stanley Kubrick, o primogênito do casal judeu nova-iorquino, Jacques (médico) e Gertrude (dona de casa), nascido em 26 de julho de 1928.
Stanley surge como um aluno ausente, de regular a fraco, sempre de difícil sociabilidade mas de inequívoco talento artístico.~
Stanley Kubrick  e Sue Lyon no set de "Lolita"

O proverbial interesse pelo cinema é precoce. O amor pela fotografia foi herdado do pai. A paixão pela música, demonstrada pela revolução que operou nas trilhas para cinema, desenvolveu-se com uma pouquíssimo conhecida passagem pela Taft Swing Band, a banda de jazz de sua escola.
Desde cedo a fornida biblioteca familiar alimentou a insaciável curiosidade de Kubrick. Também data de jovem a fixação pelo jogo de xadrez, que acabou por se tornar o mais corrente símbolo da hiper-racionalidade do cineasta.
Esse ultracerebralismo ganha novos matizes pela revelação de seu forte e duradouro interesse beisebol e futebol americano.
A decisiva experiência de Kubrick entre 17 e 21 anos como fotógrafo da "Look" merece detalhada reconstituição. O talento narrativo das fotos em série confirmava o cineasta em botão.
A partir do momento em que registra que uma das séries, dedicada ao pugilista Walter Cartier, inspirou o documentário curto de estréia ("Day of Fight", 1951), a biografia assume a tradicional estrutura cronológica de dedicar um capítulo a cada projeto kubrickiano. A exaustiva pesquisa de Lobrutto sobrepõe-se então às entrevistas, ainda que ele sempre encontre algum colaborador, mesmo secundário, para dar seu testemunho.
O resultado é um compêndio de tudo que você queria saber o processo de realização de cada filme do cineasta. São, por exemplo, 55 páginas para "2001", 46 para "O Iluminado", 43 para "Laranja Mecânica". A análise técnica supera a estética, embora Lobrutto mostre como em Kubrick as duas esferas são inextricáveis.
O livro tem jóias a nos oferecer. Um tipo especial de lentes desenvolvido pela NASA foi adaptado para as filmagens à luz de velas de "Barry Lindon". Um didático prólogo com especialistas quase abriu "2001". "Nascido para Matar" foi rodado com três e não duas partes. Os exteriores futuristas de "Laranja Mecânica" foram rodados em locações reais na Inglaterra. Os exemplos encheriam esta página. O culto a Kubrick já tem sua nova Bíblia.
Livro: Stanley Kubrick - A Biography
Vincent Lobrutto
Lançamento: Donald I. Fine Books (580 págs.)


Kubrick compara Griffith a Ícaro em discurso

No dia 8 de março deste ano, Stanley Kubrick fez um raro discurso para agradecer a concessão do D.W. Griffith Award for Lifetime Achievement (Prêmio D.W. Griffith pelo Conjunto da Obra), do Directors Guild of America, a associação dos diretores de cinema dos EUA.
O cineasta não pôde comparecer ao Century Plaza Hotel de Los Angeles devido a rodagem de seu novo filme e sua imagem discursando foi projetada.
Historicamente um gênio marginal dentro da produção americana, Kubrick aproveitou a oportunidade para celebrar a ousadia incessante de Griffith ("O Nascimento de Uma Nação", "Intolerância"), comparando a ascensão e queda do pioneiro com o mito de Ícaro. Leia abaixo a íntegra de sua fala.
*
"Boa noite. Sinto não ter sido capaz de estar com vocês nesta noite para receber a grande honra que é o prêmio D.W. Griffith, mas estou em Londres fazendo 'Eyes Wide Shut' com Tom Cruise e Nicole Kidman. Agora devo estar no carro a caminho do estúdio, o que me lembra de uma conversa que tive com Steven Spielberg sobre a coisa mais difícil e desafiadora de dirigir um filme.
"E acho que Steven sintetizou-o da forma mais profunda possível. Ele achava que o mais difícil e desafiador na direção de um filme era sair do carro. Estou certo que vocês todos conhecem a sensação.
"Mas ao mesmo tempo, todo aquele que já teve o privilégio de dirigir um filme também sabe que, mesmo que possa ser como tentar escrever 'Guerra e Paz' num carro de batidas de um parque de diversões, quando você finalmente consegue fazê-lo direito não há muitas felicidades na vida que possam equivaler à sensação.
"Acho que há uma ironia intrigante ao batizar 'D. W. Griffith' este prêmio pela obra, pois a carreira dele foi uma lenda tão inspiradora quanto acauteladora. Os melhores filmes dele sempre estarão no ranking dos mais importantes já feitos e muitos deles deram a ele bastante dinheiro.
"Ele foi fundamental em transformar os filmes de uma novidade barata numa forma de arte e ele deu origem e forma a muito da sintaxe cinematográfica agora tida como natural. Ele se tornou uma celebridade internacional e seus protetores incluíram muitos dos principais artistas e estadistas de sua era.
"Mas Griffith esteve sempre pronto a se arriscar tremendamente em seus filmes e em seus negócios. Ele estava sempre pronto para voar mais alto. Ao fim, as asas do destino provaram ser, para ele, como aquelas de Ícaro, sendo feitas de nada mais sólido do que cera e penas.
"E, como Ícaro, as asas derreteram quando ele voou perto demais do sol e o homem cuja fama excedia a do mais ilustre cineasta de hoje passou os últimos 17 anos de sua vida posto de lado pela indústria cinematográfica que ele havia criado.
"Comparei a carreira de Griffith ao mito de Ícaro mas ao mesmo tempo eu nunca tive certeza se a moral da história de Ícaro deveria ser apenas, como em geral é aceito, 'não tente voar alto demais', ou se poderíamos pensar também 'esqueça a cera e as penas e faça um melhor trabalho nas asas'.
Uma coisa porém é certa: D. W. Griffith nos deixou um legado intrigante e inspirador e o prêmio em seu nome é uma das grandes honras que um diretor de cinema pode receber. É algo pelo qual eu humildemente agradeço muito a todos vocês".




Luis Buñuel, cineasta - "'Laranja Mecânica' é meu filme favorito. Estive muito predisposto contra ele. Depois, descobri que é o único filme sobre o que o mundo moderno significa".
Kirk Douglas, produtor e ator de "Spartacus" - "Você não precisa ser uma pessoa legal para ser extremamente talentoso. Você pode ser um merda e ter talento e, por outro lado, você pode ser o cara mais legal do mundo e não ter talento algum. Stanley Kubrick é um merda talentoso".
Federico Fellini, cineasta - "Kubrick é um visionário. O que admiro nele é a capacidade de fazer filmes em qualquer período".
Sidney Lumet, cineasta - "Cada mês que Kubrick não está filmando é uma perda para todo mundo".
Matthew Modine, ator de "Nascido para Matar" - "A impressão que eu tinha era que ele era um louco lunático que tinha medo de germes e moscas. Simplesmente não é verdade".
George C. Scott, ator de "Dr. Fantástico" - "Ele é um homem sério, incrível e depressivo, com um grande senso de humor. Mas (é) paranóico. É tão sutil e apologético que é impossível se ofender com ele".
Orson Welles, cineasta - "Kubrick me acerta como um gigante".


 FILMOGRAFIA


. "Day of the Fight", documentário curto, 1951
. "Flying Padre", documentário curto, 1951
. "The Seafarers", curta institucional, 1953
. "Fear and Desire", 1953
. "A Morte Passou Por Perto" ("Killer's Kiss"), 1955
. "O Grande Golpe" ("The Killing"), 1956
. "Glória Feita de Sangue" ("Paths of Glory"), 1957
. "Spartacus", 1960
. "Lolita", 1962
. "Doutor Fantástico" ("Dr. Strangelove or How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb"), 1962
. "2001: Uma Odisséia no Espaço" ("2001: A Space Odissey"), 1968
. "Laranja Mecânica" ("A Clockwork Orange"), 1971
. "Barry Lyndon", 1975
. "O Iluminado" ("The Shining"), 1980
. "Nascido Para Matar" ("Full Metal Jacket"), 1987
. "Eyes Wide Shut" (em filmagem), 1998


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