domingo, outubro 12, 2014

A morte prematura da infância

A morte prematura da infância
As crianças já não tem mais tempo para brincar enquanto professores tentam recuperar os antigos jogos e brincadeiras infantis 

Marcelo Bulgarelli 
Publicado originalmente em O DIÁRIO 
DO NORTE DO PARANÁ -   Maringá

 "Junto a minha rua havia um bosque Que um muro alto proibia Lá todo balão caía, toda maçã nascia E o dono do bosque nem via" O tal bosque existiu apenas na imaginação de Chico Buarque de Hollanda que aos 20 anos compôs essa preciosidade chamada "Até Pensei". Boa parte da infância de Chico foi em São Paulo sem direito a maçãs roubadas no pé, mas que eram degustadas pela imaginação. É possível que hoje as crianças não subam mais na árvore ou sonhem em ter uma casa entre os galhos. Não convidem meninos para brincar de rolimã ou meninas para ir ao céu na amarelinha. Desculpe, mas as crianças estão muito ocupadas ultimamente... “Estamos criando adultos em miniatura”. A preocupação parte da psicóloga maringaense Patrícia Freitas, 28. Além da agenda cheia, as crianças estão sendo obrigadas, cada vez mais cedo, a se comportarem como adultos. Plunct, plact, zuum. Não vai a lugar nenhum. É lógico que toda criança sempre tenta imitar os pais, mas ocorre que são os papais e mamães que andam incentivando a abreviação da infância. Freitas fica assustada com a moda infantil imitando as a indumentária adulta e a falta de socialização. O melhor amigo é o videogame, a televisão. “Estamos perdendo as crianças para a mídia eletrônica”. O desaparecimento da infância faz com que as crianças de hoje corram o risco de se tornarem adultos em busca da inocência e da criatividade perdida. A brincadeira deu lugar para o consumo de bens materiais. Um capítulo a mais para a história da patologia comportamental. Se hoje você quiser ver um menino soltando pipa ou andando brincado de rolimã, vai encontra-lo nos bairros periféricos da cidade. Talvez, sejam felizes apesar de viveram numa sociedade de consumo onde o “ter” tomou lugar do “ser” . Assim, qualquer brincadeira é um sinônimo de competição (quem sabe, exista um bom prêmio no final sem precisar atravessar o arco-íris).


 BRINCADEIRAS
 Crianças brincando pelas ruas não fazem mais parte da paisagem urbana das cidades. Não é à toa que hoje as escolas tentam recuperar o tempo perdido. Tanto nas particulares como as unidades públicas de Maringá, professores estão ensinando como é brincar de pião, cabra cega, fantoche ou até mesmo de boneca. Isso mesmo: aquela boneca de pano feita pela avó, não a adulta e consumista Barbie. Mas como foi dito no início da matéria, as crianças não tem tempo. Os pais querem dar para os filhos tudo aquilo que não tiveram na infância. Enchem a agenda com aulas de natação, inglês e informática. O filho não tem mais “corriolas” na rua (nesses tempos de hoje, até brincar na rua se tornou preocupante).
 NA TELEVISÃO
 A agenda cheia foi percebida pelos programas de tevê. A segunda versão de O Sitio do Pica Pau Amarelo tem apenas um quarto de hora. A primeira versão, produzida pela Globo (entre 1977/1981) durava até meia hora. “Hoje as crianças não ficam mais do que 15 minutos paradas”, argumentam os produtores. Vamos pegar carona nessa cauda de cometa: Os desenhos animados produzidos hoje são histéricos. A ação é constante. Zé Colméia e os Os Flinstones correm o risco a se tornarem “filme de arte” devido a “calma” do desenrolar das tramas. Os ídolos infantis também mudaram. Alguns educadores acusam a apresentadora Xuxa de ter iniciado a erotização da infância com seus requebros e brincadeiras sem qualquer orientação pedagógica. Enquanto o programa Vila Sésamo ensinou toda uma geração a ler e somar, Xuxa mostrou que é gritando que se consegue as coisas. O pior viria depois com o requebro de popozudas e afins. A industria cultural está tomando para si ( e com o consentimento dos pais) a formação instantânea do indivíduo, ignorando as etapas do crescimento promovidas pela família, livros e escolas. Teremos, em breve, adultos de resultados. Compra-se imaginação, bane-se a criatividade.

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