segunda-feira, janeiro 20, 2014

Glauber Rocha e a "Idade da Terra" (1980)




"UM AVISO AOS INTELECTUAIS
'A Idade da Terra', que estreará no Rio e em São Paulo brevemente, entrará em choque com várias camadas de público, despertando seguramente contundentes polêmicas, dando curso ao escândalo do Festival de Veneza, quando enfrentei 1.600 telejornalistas mundiais e platéias corrompidas pelo cinema comercial de Hollywood, da Gaumont e de outras multinacionais do 'audyo vyzual'. Antes da 'batalha', quero solicitar, sobretudo aos yntelektuais que serão implacáveis, condições para que o combate se desenrole democraticamente, alimentando mesmo com vômitos e diarréias o fértil deserto de nossas 'aberturas fygueyrediztas'.

Condições:
1) Que o público e críticos, assim como os funcionários da Embrafylme, fiscalizem a projeção nos cinemas Caruso (Rio) e Top-Center. 'A Idade da Terra' possui ymagem e som de excepcional qualidade técnyka – já estados nos projetores de Veneza. Acontece que no Brazyl, forças 'ocultas' (?) sabotam freqüentemente projeções de filmes nacionais. Lentes dos projetores são desfocadas. O som é deformado para alto ou baixo. Bobinas são projetadas fora de ordem. Para que o públiko veja e ouça bem, é necessário que as projeções sejam perfeitas na medida do possível. Somente assim o públiko poderá curtir o extazextetyko (polytyko) de 'A Idade da Terra'. Espero que mesmo o eleytorado inimigo exerça esta patrulhagem junto a todos os cinemas do Brazyl, onde 'A Idade' e outros filmes brasileiros sejam exibidos: exigir qualidade na projeção da Ymagem e do som, procurando identificar as 'forças ocultas' interessadas em impedir o curso ascendente do cinema Nacyonal popular.

2) Espero que o filme seja criticado pelos intelectuais com o mínimo de preconceitos que existem em torno, sub e sobre 'Glauber Rocha'. São legendas alimentadas por Deus e pelo Diabo que proclamam aos 4 ventos minhas virtudes e males. Aos 41 anos me vejo mytyfykado – o que é tragipoetyko – porque o myto sofre do mal de ser odiado ou amado não pelo cerne vital (ou medula sexual) mas pelas várias e diferentes versões que a sociedade constrói e divulga a seu respeito. Lamento que apenas uma centena de yntelektuais brasileiros tenham consciência da importância revolucionária de minha obrakynematographyka.

A imprensa, via artigos de jornalistas teleguiados, procura me pintar como louko, marginal, fracassado, corrupto fascista e todos estes adjetivos tentam esconder a criatividade de meus filmes. A minoria de jornalistas que revela a realidade sobre Glauber Rocha é acusada de escrever sob pressão dos 'meus ferrões', expressão usada por meu dileto Alberto Dines em Pasquim, malhando a cobertura de Pedro Del Picchia nesta Folha e Albino Castro ('O Globo') que presenciaram a 'Batalha de Veneza' e elogiando a cobertura de Veja e outros jornais que não enviaram correspondentes. Com este gesto paranóico, porque travestido de 'honesto', o doce Alberto Dines, ataca o certo e defende o errado, estabelecendo condições subjetivas para condenar o réu.

E assim por diante: Pasquim, Movimento, Istoé e outros publicam calúnias a meu respeito – não hesitando em pedir minha cabeça no prato de Salomé. Para os redatores de Istoé – numa reportagem sobre os 'Idolos do Brazyl' – 'A Idade da Terra' é um ponto baixo na minha vida. Inédito no Brazyl, transforma-se no filme mais discutido do mundo, projetando-se como a superstar de Veneza, e os intelectuais de Mino Carta resolvem queimar 'A Idade da Terra' ainda no Berço. Além do mais, o gráfico desconhece a metade de minha obra, subverte declarações, tudo num estilo constrangedor para uma revista que se quer de primeira classe. A estes exemplos recentes poderia juntar outros passados e prever futuros 'golpes baixos' que pretendem me destruir.

Para ver e ouvir 'A Idade da Terra' são necessários 'olhos abertos e ouvidos purificados'.

Estabelecidas estas 2 condições – uma teknyka (a qualidade da projeção) e outra polytyka (despi-vos dos preconceitos) – adianto algumas informações sobre 'A Idade da Terra' e seu explosivo lançamento internacional em Veneza.

Este é o meu décimo-quinto filme e foi co-produzido por minha 'Glauber Rocha Comunicações Artísticas' e a Embrafilme. Custou 20 milhões de cruzeiros, mais ou menos 300 mil dólares, que é o preço de 'Bye Bye Brazyl', 'Gaijin' ou 'Pixote'. Assim, os patrulheiros não poderão dizer que gastei fortunas da Embrafilme. Trabalhei como qualquer proletário da Kynobraz, recebendo salário inferior ao de Lula que, espero, encontre tempo para ir ao Cine Top Center ver e ouvir 'A Idade da Terra'.

A superprodução que aparece nas telas foi tecida com unhas e dentes durante 2 anos e meio de obsessiva luta contra o subdesenvolvimento. Contei com a colaboração do diretor geral da Embrafilme, Celso Amorim, que participou da finalização do filme com o máximo de interesse criativo, desmentindo recentes declarações do meu querido Zé Celso Martinez, segundo as quais 'a Embrafilme tinha se convertido no substituto da censura'. Afirmo que nenhuma empresa do mundo, estadual ou privada, produziria um filme como 'A Idade da Terra', concedendo ao diretor absolutas liberdades autorais dentro dos limites financeiros e técnicos do atual estágio da indústria cinematográfica latinamerikana.

Também não fui motivado pela censura governamental, nem pela autocensura, e muito menos pela tendência 'populista-comercial' de 'atingir o público'. Isto são desculpas de artistas inseguros ou corrompidos. 'A Idade da Terra' é o resultado fílmico de Glauber Rocha aos 41 anos. Encerra o Ciclo do Jovem Glauber, expressão cara àqueles que curtem 'o jovem Marx'. Este ciclo começa com 'Pátio' (58) e se desenvolve revolucionariamente em 'Barravento' (62), 'Deus e o Diabo na Terra do Sol' (64), 'Amazonas, Amazonas' (65), 'Maranhã 66' (66), 'Terra em Transe' (67), 'Câncer' (68), 'O Leão de 7 Cabeças' (Áfrika, 70), 'Cabeças Cortadas' (Espanha, 70), 'História do Brazyl' (Cuba, 72, com Marcos Medeiros), 'Claro' (Itália, 75), 'Di Cavalcanti' (77) para, à maneira das cúpulas barrokas, concluir a kathedral com 'A Idade da Terra'.

Kathedral, monumento, paynel cineterceyromundista que, modesta e humildemente (como o Aleyjadinho) significam a luta de um brasyleyro de 41 anos pela criação de uma sociedade redimida da nossa tragédya kolonyal.

Para quem conhece minha trajetória ficcional, resumo que, em 'A Idade da Terra', 'o cangaceiro mata Antonyo das Mortes (o ymperialysmo polyvalente) e o povo triunfa na utopya'.

Intelectuais me acusam de 'alegórico' e 'metafórico'. Ignorantes do significado poétyko das 'alegorias' e das 'metáforas' – simbólicos signos gerados exclusivamente por grandes artistas como Maiakovzky, Meyerhold, Eisensteyn, Joyce, Pound, Proust, Jorge de Lima, Portinari, Di, Villa Lobos ou Jorge Amado – estes defensores do 'realismo comercial' contribuem com a censura e com o ymperyalyzmo cultural que castra as elites brasileiras as reduzindo ao estado de impotência que as impede de lutar pela libertação econômica do Brazyl e do Terceiro Mundo. O cinema teatral e romanesco é o que se vê em todas telas do mundo. Histórias mentirosas contadas segundo as regrinhas dramáticas das multinacionais. A recuperação estética dos anos 70, consagrou cine-astas restauradores e neo-acadêmicos como Bernardo Bertolucci, Nagisa Oshima, Louis Malle ou este telenoveleiro revisionista que é o polaco Zanussi, literatos investidos de um poder cinematográfico defendido por críticos submetidos ao processo de destruição do discurso poético revolucionário. A exceção de Godard, do argentino Fernando Solanas ('A Hora dos Fornos' e 'Os Filhos de Ferro'), de outro argentino Fernando Birri, do yank Robert Kramer ('Milestones', 'Guns'), dos alemães Werner Schroeter e H. Sylberberg ('Hitler'), do cinema novo Brazyleyro, do soviético Andrey Tarkovsky ('Solaris', 'Stalker'), do cubano Thomaz Gutierrez Alea ('Memórias Del Subdesarollo'), do espanhol Carlos Saura, do italiano Carmelo Bene e pouquíssimos outros cineastas – tudo que se produz hoje no cinema é lixo teatral romanesco.

Isto denunciei em Veneza. O escândalo repercutiu. A crítica revolucionária mundial consagrou 'A Idade da Terra'. A crítica conformista, desinformada e policial o atacou. Foi o mesmo com 'Terra em Transe', 1967, quando os mais famosos críticos deram bola-preta ao filme que os converteria anos depois.

Estou aberto ao debate mas venham preparados. Agradeço à equipe técnica e aos atores que me ajudaram a fazer 'A Idade da Terra'. FYM."

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