domingo, agosto 21, 2016

O Rio de Janeiro de Alexandra Lucas Coelho

Alexandra Lucas Coelho - Jornalista portuguesa 

RIO - Vou deixar o Rio de Janeiro daqui a três semanas, ao fim de três anos e meio. É 2014, ano de Copa do Mundo, de nãovaitercopa, de eleição presidencial, do cinquentenário do golpe: o mundo de olhos no Rio e eu, que escrevo uma coluna semanal do Rio, e estou a tentar escrever um romance sobre o Rio, deixando a cidade voluntariamente. Não há nenhuma razão natural para deixar o Rio, só razões naturais para ficar, as que toda a gente conhece mais esta: é fortalecedor morar em cidades que contradizem a nossa natureza e esse é o meu caso com o Rio. Então, a única razão que há para partir é não-natural, a mesma que faz o mundo olhar para cá, o Rio ter sido tomado pela narrativa do triunfo.
Eu não tenho dinheiro para um apartamento no Rio agora, ou para ter esse dinheiro teria de passar todo o tempo a tentar arrumá-lo, e não quero morar numa cidade em que todo o tempo seja gasto tentando arrumar dinheiro para morar lá. Uma cidade, entretanto, na qual ser branco já é ser rico, ser negro já é ser pobre, e em que rico ou pobre é estimulado a parcelar tudo no cartão de crédito, até ao colapso do trânsito, da falha de energia, da falta de água: certamente a cidade mais bela do mundo capitalista. Como o Rio não vai perder os seus poetas? Como a floresta não vai virar um safári? Como o morro não venderá a vista?



Não está gostando?, perguntam-me os cariocas quando digo que vou deixar o Rio. Claro que estou gostando, não tem como estar vivo e não gostar do Rio: saio à rua e agradeço, dobro a esquina e é uma bênção. Meu Rio de Janeiro do céu vermelho-pitanga, do chão de mangas maduras do Cosme Velho onde morei 24 meses e perdi o medo de cães para sempre, por causa de duas cachorras, uma delas cega. Havia um ponto, entre duas árvores, de onde se via o Cristo, mas só quando comecei a subir ao morro, Cerro Corá-Guararapes, é que vi de quem o Cristo está realmente próximo. Ainda não havia carros da Polícia Militar no começo da minha ladeira, nem as instalações da UPP lá em cima, nem obrigação de usar capacete sempre que subíamos de mototáxi, mas o lixo era o mesmo que agora, a mesma podridão empilhada na berma. Como é que era mesmo, UPP social? Da janela de casa, duas vezes por dia, ouvia a Ave-Maria de Schubert que vinha (ainda virá?) da Igreja de São Judas Tadeu, e aos sábados, aos domingos, por vezes igrejas evangélicas, de noite por vezes vezes funk, mais vezes samba, sobretudo os foguetes que faziam as cachorras derrubar portas e janelas para chegarem até mim, trémulas. O amor começa bem lá no fim do medo.
A bênção São Sebastião do Rio de Janeiro, nunca acabarei de agradecer o dom de ficar tão vivo apesar de toda a morte, toda a violência, todo o abandono, esse deus-dará que milhões de cariocas conhecem desde que nasceram, e é seu, meu, contemporâneo, eu que já sou daqui, porque aqui já sou eu. Então, arruma aí tuas contas, teus condomínios, tuas grades de ferro, tua trava no pescoço de um garoto de rua nu, e me chama que eu venho em visita. Virei sempre.

 
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