quarta-feira, setembro 07, 2016

Scorsese reconta o cinema americano


Data: 23/Mai/95
Autor: Amir Labaki
Editoria: Ilustrada


Do enviado especial a Cannes
A grande maratona de Cannes-95 chama-se "Uma Viagem Pessoal com Martin Scorsese Através dos Filmes Americanos". Co-assinada pelo montador Michael Henry Moore, a contribuição do diretor norte-americano é a mais longa da telessérie organizada pelo British Film Institute em homenagem ao centenário do cinema. São 226 minutos divididos em três episódios. Quem dera fosse dez vezes maior.
Scorsese não se amedrontou diante da magnitude de seu tema. Dezenas de boas séries já foram realizadas sobre o cinema americano, muitas com recortes específicos (a era muda, os grandes autores de Hollywood, o sistema dos estúdios etc.). Apostou na originalidade de sua visão e no seu poder de contador de histórias.
"Uma Viagem Pessoal" é um delicioso passeio tendo por guia um diretor monstruosamente cinéfilo. "Me interessava propor uma outra história do cinema americano: uma espécie de história alternativa", afirma Scorsese ao último número da revista francesa "Cahiers du Cinéma". A partir de uma revisão da teoria dos autores desenvolvida sobretudo na França dos anos 50 e 60, Scorsese dedica sua série principalmente à figura do diretor de cinema. A questão central são os desafios para que uma personalidade artística abra caminho por entre a selva industrial de Hollywood.
A grande sacada, porém, foi a opção de Scorsese pelo marginal, pelo obscuro, pelo desconhecido. Não são as obras clássicas de John Ford, Howard Hawks e Alfred Hitchcock que vão lhe servir de referência. Rompendo com o que chama de "culturalmente correto", Scorsese procura resgatar o cinema de diretores subestimados e esquecidos como o pioneiro Frank Borzage ('à grande revelação para mim nos últimos cinco anos"), o ainda ativo Samuel Fuller ou o surpreendente Byron Haskin ("I Walk Alone", 1947).
Mais: Scorsese apresenta pessoalmente a série, definindo-a como um "tour" pelo seu próprio "museu imaginário". A subjetividade da releitura é que lhe empresta muito do charme e do impacto.
A estrutura é cristalina. Cada episódio é dividido em capítulos sempre relacionados à figura do diretor. Scorsese depõe diretamente para a câmera e comenta longamente em voz "off" os trechos escolhidos a dedo. Aqui e acolá entram curtas entrevistas com outras personalidades do cinema americano, feitas para a série ou selecionadas de outras produções.
O primeiro capítulo divide-se em duas partes: "O Dilema do Diretor" e "O Diretor Como Contador de Histórias". Scorsese começa lembrando seu "contágio" pelo vírus da cinefilia aos quatro anos, quando sua mãe levou-o para assistir o western "Duelo Ao Sol" (1946). O papel dominante neste filme do produtor David O. Selznick, em contraste com o poder do diretor contratado King Vidor, ilustra a tese scorsesiana do cineasta como ser essencialmente modesto e integrado num grupo. O sistema hollywoodiano visto por dentro encontra sua melhor dramatização, segundo ele, em "The Bad and The Beautiful" (1952), de Vincent Minnelli.
É a eficiência do cineasta como contador de histórias e seu talento para alterar por dentro os fundamentos de cada gênero que define o grande diretor. Brevemente, Scorsese historia três deles: o western, o filme de gângster e o musical. Quanto ao faroeste, sintetiza com três dos filmes de John Ford estrelados por John Wayne ("No Tempo das Diligências", de 39, "Legião Invencível", de 49, e "Rastros de Ódio", de 56) a progressiva complexidade do gênero.
A evolução do cinema de gângster tanto dramática como cinematográfica parte de "Scarface" (1932) para chegar a "O Poderoso Chefão" (1972).
Scorsese permite-se duas pequenas confissões. Reconhece a grande influência de dois filmes esquecidos sobre suas próprias obras. "Goodfellas" (1989) bebeu em "I Walk Alone", assim como "New York, New York" (1977) inspirou-se tremendamente no enredo e na cenografia de "My Dream Is Yours" (1949).

"O Diretor Como Ilusionista" abre o segundo episódio. É a vez de mostrar como a gramática cinematográfica andou de mãos dadas com a técnica. D. W. Griffith ("O Nascimento de Uma Nação", 1915) surge como o pai de todos. Scorsese rende sua maior homenagem a Stanley Kubrick, definindo-o como o herdeiro vivo do patriarca, ao realizar "o perfeito casamento entre arte e tecnologia em nome da ilusão".
Segue-se "O Diretor Como Contrabandista", o mais longo segmento, ligando o segundo e o último capítulos. Scorsese chama de "contrabandistas" aqueles diretores que trabalhavam com as regras institucionais dos grandes estúdios, mas subvertiam a ortodoxia esperada. Jacques Tourner ("Cat People", 1942) merece as maiores atenções, mas Max Ophuls, Fritz Lang, André de Toth e Douglas Sirk, não por coincidência todos cineastas emigrados, pertencem ao clube.
Por fim Scorsese apresenta sua lista de "O Diretor Como Iconoclasta", homenageando aqueles que ousaram enfrentar o sistema. Seus eleitos são, entre outros, o Griffith de "Broken Blossoms" (1919), Eric von Stroheim, Joseph von Sternberg, claro, Orson Welles, o Chaplin de "O Grande Ditador" (1940), Elia Kazan, Otto Preminger, Billy Wilder, mais uma vez Kubrick e John Cassavetes.
As explicações aqui se encurtam, como se o tempo obrigasse a uma síntese imprevista. Reforça-se a impressão quando, para encerrar, Scorsese elenca todos aqueles diretores por ele adorados e até aqui excluídos, de Lubistch a Renoir, de Mankiewicz a Huston.
"Uma Viagem Pessoal" pára no início dos anos 70. "Barry Lindon" (1975) de Stanley Kubrick, louvado por Scorsese como um de seus filmes prediletos, é o mais recente filme citado. "Não tenho distanciamento para falar de minha geração", reconhece o cineasta. A grande força de seu filme é sua radical antinostalgia.
(Amir Labaki)


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